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Empoderar ou Empomberar

Certa vez, Aracy Amaral, 88, numa entrevista ao Jornal Folha de SP foi abordada com a seguinte pergunta: “Como se sente sendo uma mulher num ambiente dominado por homens?” Ela observa que sempre é feita tal pergunta, talvez pelo efeito do feminismo e ao empoderamento das mulheres atualmente e acrescenta “O fato de ser mulher também ajuda a conseguir confidencias e depoimentos com mais facilidade.” Aracy é historiadora, crítica, curadora de arte e foi professora-titular de História da Arte na FAU/USP. Foi a única curadora brasileira a ganhar uma mostra individual numa instituição de arte sobre sua trajetória. Não se trata de uma linda mulher, mas uma mulher de bela inteligência, empoderada e independente. Não lhe é possível atribuir nenhum adjetivo estético vulgar ou ambíguo em relação à sua conduta profissional. Uma mulher de autonomia contagiante e pensamentos positivistas.

Virginie Despentes, escritora francesa que faz apologia à força feminina inventou a Teoria de King Kong, do estilo “mulher-macho, sim senhor”, que se preocupa mais em ser independente (do que bonita). A escritora anuncia a decadência dos padrões estéticos pré-concebidos e a ascensão da autonomia, do autoconhecimento do corpo, do prazer e do intelecto. Outro exemplo de autonomia feminina é a performance sérvia, Marina Abravomic, 71, que pós-menopausa ainda se empodera posando para grifes de marcas reconhecidas internacionalmente e saindo em capa de revista com respaldo no circuito fashion.

marina elleMarina Abravomic via @jetmour e na capa da Revista ELLE Sérvia, em 2013.

No Brasil, a arte performática se rendeu ao empoderamento da paraense Berna Reale, 52, que se dedica à sólida e consistente pesquisa sobre o corpo feminino, a sociedade, sua sujeira e poluição e uma relevante crítica ao sistema econômico. Berna não é linda, nem maravilhosa, nem rebola com o bumbum arrebitado, nem ao menos é sexy quando está nua, mas ainda sim é empoderada, livre pensadora e independente. Outra grande brasileira que vem ganhando destaque é a filósofa paulista Djamila Ribeiro, 37, que se empodera cada vez mais defendendo a liberdade e a independência feminina com direitos igualitários.

berna realeBerna Reale, “Limite Zero”, créditos Galeria Nara Roesler

Não há como negar ou não citar a bunda com celulites de Anitta, 24, que está entre as 10 mulheres mais influentes do ano. É evidente que a mídia confunde “empoderar”, neologismo do educador Paulo Freire, com “empomberar”, neologismo derivado da entidade “Pomba-Gira”.  No entanto, a mídia, a sociedade, o sistema e todos nós insistimos em dar atenção ao mais fácil e superficial, porque a dura, inventiva, curiosa e depravante realidade brasileira é tentadora demais. Felizmente o MBL não censurou o clip “Vai, Malandra”, pois nele diagnosticamos todas ou a maioria dos males que acometem o nosso querido país varonil. Não só pela falta de estrutura urbana, educação, conteúdo moral e valores éticos, mas pelo excesso de vulgaridade, a pobreza da composição musical e a apologia ao erotismo. Isso tudo é muito inclusivo, afinal quem não gosta de uma boa putaria sem ressentimentos. Volto à sabedoria dos velhos Titãs “A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor”.mulheres

Djamila Ribeiro para o Jornal “El País”e Anitta, para o videoclipe “Vai, Malandra”

Assisti recentemente um curto vídeo da PlayGround com um breve histórico de Maria Madalena (anexo em link abaixo). Erroneamente confundida com uma prostituta, a escolhida de Jesus Cristo para divulgar sua ressurreição foi uma mulher de opinião, independente e empoderada. Defendeu fielmente sua ideologia ficando ao lado de Jesus na cruz e sendo, posteriormente, sua porta voz para os discípulos cristãos.

A natureza humana, eu e você temos o péssimo hábito de confundir e inverter valores porque, de certa forma por sermos um tanto instintivos ou por um retrocesso evolutivo, a putaria ainda está mais empoderada e imediatista (ou midiática) do que a Ordem e o Progresso!

Feliz Natal, Brasileiras e Brasileiros! Feliz Aniversário, Jesus Cristo!

Video PlayGround

tinttoretoTINTORETTO – Magdalena Penitente (Musei Capitolini,Roma,1598-1602)

Bem vindos à realidade

O destaque da jornalista mais “nonsense” da nossa região vai para aquela, cuja descrição no perfil do Instagram é “A mais linda e maravilhosa”…Ops! Peraí!? Mas não era pra ser jornalista?

Acredito que pelos valores um tanto invertidos e conturbados da sociedade, a jornalista tem que ser linda e não inteligente. É certo que nem toda colunista social tem muito discernimento crítico, mas isso não as impedem de ter coerência. Uma de suas gafes no último mês do ano ou talvez de sua carreira fosse omitir que minha mãe, Marina Potrich é e sempre será um ícone na história cultural da nossa querida sociedade goiana.

Claro que o legado de contar essa trajetória é da família, da instituição, da empresa Potrich, viva e atuante há 38 anos no mercado de arte nacional. O que poucas ou quase nenhuma instituição comercial de arte goiana fez, pelo menos com a qualidade e competência de minha mãe, que há uns 20 anos atrás, trouxe nomes do circuito artístico brasileiro com destaque internacional, para dentro do nosso reluzente salão de exposições. Para citar alguns estão entre eles a imortal Mira Schendel, Amélia Toledo, Leda Catunda, Beatriz Milhazes, Leonilson, Marcos Coelho Benjamim, Luiz Hermano, Adir Sodré, Amílcar de Castro, João Câmara, Antônio Henrique Amaral, Francisco Galeno, Cristina Canale, Orlando Brito, Rubem Valentim, Iberê Camargo, Fabio Miguez, Shirley Paes Leme, Luiz Zerbini, José Rufino, Gilvan Samico, Manfredo Souza Neto, Fernando Lucchesi, Farnese de Andrade, Marco Gianotti, Ivan Serpa, Emmanuel Nassar e Arcangelo Ianelli. Ufa…! Também por vias de leilões e mostras itinerantes ela trouxe para o contato do emergente agropecuário goianiense a arte refinada e “clássicos” de artistas do porte de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari, Carybé, Bruno Giorgi, Alfredo Ceschiatti, Vitor Vassarely, Manabu Mabe, Tomie Othake e Alfredo Volpi.

1998 2015Marina Potrich no vernissage “Anos 80”, em 1998, com destaque para obra de Beatriz Milhazes.  Em 2015, com Ferreira Gullar.

Há 12 anos, eu e minha irmã, Ludmila Potrich estamos à frente da maior e mais descolada Galeria de Arte Contemporânea do Centro-Oeste. Com a bagagem e experiência observadas e inspiradas na nossa grande matriarca mantemos o padrão e qualidade de excelência em nosso acervo e exposições. O mercado de arte que vem sofrendo significativas mudanças advindas do do it yourself, das redes sociais, das difamações e omissões culturais dificultam, mas não desiludem uma instituição idônea como a nossa. Acreditamos na arte como primeira e mais importante manifestação do ser humano e por isso, um item de necessidade de sobrevivência.

“A arte existe porque a vida não basta.” (Ferreira Gullar)

goiania geralVista panorâmica com intervenções dos artistas paulistas André”Pato”, Flávio Samelo, Felipe Yung”Flip”, Alexandre “Sesper”, Tinho e Hebert Baglione e Thaís Beltrame, em 2008.

Marina Potrich é uma lenda! Talvez por isso sempre tenha sido omitida dentre os ícones da nossa “linda e maravilhosa” colunista social. Bem, nos deparamos aqui num paradoxo estético do que é “lindo” atualmente ou está dentro do padrão de valores superficiais da nossa comunidade. Nem preciso dizer que a definição do belo na estética grega já existe há milênios, no entanto alguém deve ter matado essa aula de História da Arte. Mas que novidade! Quem está interessado em estudar História da Arte mesmo? Bem vindos à realidade já que a beleza atual está na conta bancária ou na imagem do que se demonstra ter, comer ou beber, nas redes sociais. Infelizmente, tenho percebido que o nosso jornalismo tem sido feito mais ou menos assim, mesmo porque as lendas e a História da Arte são para poucos!

panoraminaVista panorâmica atual da maior Galeria de Arte do Centro-Oeste.

Construir ou desconstruir eis a questão!

O último “mememe”, para finalizar o mês de novembro, entrar o último mês do ano e finalizar 2017 com chave de ouro, foi a corrente de solidariedade entre arquitetos, designers e afins a respeito de rumores da demolição do Jóquei Clube de Goiás. O compartilhamento em redes sociais e a divulgação de imagens do glamoroso clube projetado pelo icônico Paulo Mendes da Rocha mobilizou a classe num apelo virtual com direito a abaixo assinado no Avaaz, abraço coletivo em volta do local e exibição de documentário em sessão de cinema. Não fosse pela desconstrução trocada pela construção de uma grande mesquita ou templo, a polêmica não seria tão significativa.

Mas o que realmente ocorre não é a perda de um patrimônio histórico da Capital, que há muito tempo não se faz bom uso ou, ao menos se vê alguma vegetação relevante. Li na página do Facebook, de um famoso arquiteto goiano, um comentário bem pertinente. O cidadão imperava algo como: “entre trocar um tanto de cimento, por outro tanto de cimento, tanto faz.” Se fizermos uma análise coerente a respeito do local, do tamanho do empreendimento e das necessidades atuais da sociedade chegaremos à conclusão de que precisamos de mais árvores que piscinas vazias, mais arte, mais natureza e canto dos pássaros, que cimento, muros, sermões e cantos de louvor, mais escolas, mais teatros, mais introspecção e autorreflexão, do que aglomerados de gente em convulsão ativa. Em minha opinião, o comentário deste “senhor” foi irônico, mas ao mesmo tempo realista. Não há sentido manter um “mausoléu cimentado” por causa de quem ou quando foi feita a construção, ou menos sentido ainda erguer outro “mausoléu cimentado” para arrecadar dízimos para construir mais “mausoléus cimentados”.

joqueifoto: José Arthur D’Alo Frota

Meus amigos, botemos a mão na consciência e reflitamos, como diria a velha canção do Titãs: “Será que é disso que eu necessito?” Se pensarmos em termos econômicos, projetar parques ou praças, incentivar a cultura e o esporte, plantar árvores é algo que demanda muita verba, manutenção, gastos com funcionários, limpeza, podas e outros casos fortuitos, mas a sua adequação à grande metrópole é um oásis, um lugar de descanso, um investimento para os grandes males da atualidade como o stress, a depressão, a exclusão e a alienação.

A Revista DASartes fez uma reportagem, em 2015 sobre a obra do artista mineiro, Amílcar de Castro (1920-2002) e a sua relação com os espaços públicos. Segue o trecho:

“Por fim é importante frisar que Amílcar se preocupava muito com a arte pública. Em 1992, ele afirmou que a obra em ‘praça pública’ é de ‘absoluta importância’, capaz de ‘mostrar ao homem comum uma obra de arte dando-lhe a oportunidade do convívio até se acostumar, até que seja natural esse convívio’. Em alerta sempre atual, considerou também que, ‘comprovadamente’, o povo que conviver com um grande número de obras de arte tem melhores condições de decisão e ação, inclusive para a escolha de seus governos e governantes’. A obra de Amílcar de Castro lamentavelmente não se encontra representada nos museus do país como deveria, mas pode ser apreciada ao ar livre em diversas cidades brasileiras, bem como na Alemanha, Venezuela, Inglaterra e Japão.”

Meu abaixo assinado seria em favor da construção de um Parque, uma Praça ou um Jardim Botânico, com muitas esculturas, instalações, teatros de arena e paisagismo para todos os lados, no entanto o que acontece é que não damos conta nem do que já está projetado, construído, ou edificado e queremos construir e desconstruir mais, mais e mais. E assim segue a humanidade!

24899255_1688746704497847_1962207316_nfoto: Antonio Celso Moreira

O país do sol nascente

Minha admiração pela cultura japonesa se deu primeiro pela gastronomia, depois pelos rituais e liturgias e por fim pelas tradições culturais cuidadosamente preservadas.

Fui daquelas iniciantes, de quando inaugurou o mais antigo restaurante japonês na capital goiana (1997), que se recusou a usar aquelas “borrachinhas” para prender o hashi. Essa técnica milenar de comer com “pauzinhos” se aprimorou ao longo dos anos e adquiriu curiosas simbologias. O manuseio do hashi demonstra muito a respeito de quem come além da etiqueta à mesa e os costumes orientais.

Vi e entendi muito sobre essa cultura com a trilogia de “Karatê Kid” (1984). Também aprendi com o filme “Memórias de uma Gueixa” (2005), que se tornou um cult. A história conta a vida da protagonista “praticante das artes”,  traduzindo o termo, literalmente, sob seu ponto de vista. E quem nunca ouviu falar do célebre “Império dos Sentidos” (1976), que faz jus às shungas (arte erótica japonesa) adaptado para o cinema com insinuantes cenas que fariam o kama sutra parecer estar no jardim da infância.

O cinema japonês teve seu grande representante no notável Akira Kurosawa. Com uma significativa trajetória, Kurosawa ousou temas e cenas surpreendentes para o cinema oriental, como o filme “Dreams” (1990), que inspirou a artista carioca, Cristina Oldemburg na série de fotografias “Physis”, sobre a Mata Atlântica, que permeia entre a neblina e a penumbra.

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Quando adolescente também tive o contato com a prática do origami, cujo passatempo construtivo me acalmava a alma e magicamente transformava a bidimensão do papel em tridimensão. A primazia dos detalhes e cacoetes nipônicos é de uma delicadeza e disciplina impecáveis.

Dada abertura da migração japonesa para o Brasil, em 1908, muitas águas rolaram desde que os “olhinhos puxados” vieram para cá. A ditadura do Estado Novo implantado por Getúlio Vargas, em 1937 procurou ressaltar o nacionalismo brasileiro através da repressão à cultura de imigrantes que formavam comunidades fechadas como os japoneses e alemães (via Wikipedia). Com isso, esses grupos se reprimiram e se isolaram cada vez mais da nossa cultura. O maior exemplo disso é o Bairro da Liberdade em São Paulo, um pedacinho do Japão na metrópole da garoa. Nessa Capital, em 1936, se instalou a família da então adolescente, Tomie Nakakubo, que se casou com o engenheiro agrônomo Ushio Ohtake. A artista, Tomie Ohtake foi um importante expoente na cena cultural nipo-brasileira. Nascida em Quioto, no ano de 1913 e morta em 2015 na cidade de São Paulo, chegou ao nosso país como os demais imigrantes refugiados da Segunda Guerra Mundial. Ohtake se descobriu artista aos 40 anos de idade e teve uma vasta produção até seus 101 anos.

A também artista japonesa Yayoi Kusama desfrutando de seus 88 anos e vivendo nos EUA tem uma história muito louca sobre sua trajetória artística. Diagnosticada esquizofrênica ela visualiza pontos em todos os lugares e os transforma em larga escala para a admiração do espectador. Kusama afirma que a arte é seu ponto de equilíbrio e graças a ela não se matou.  Suas incríveis instalações misturam tridimensionalidade e ilusões d’óticas.  Uma de suas reflexivas obras se encontra no Instituto Inhotim, “Narcissus Garden Inhotim” (2009). Lá, além de magnificamente instalada ela conta com um histórico bem peculiar.  São dezenas de grandes esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas conforme a ação dos ventos. Essa obra é uma réplica/versão da escultura que fez em 1966 para participar da 33ª Bienal em Veneza, onde ela instalou 1500 esferas espelhadas e as vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia uma placa com os dizeres “Seu narcisismo à venda”. Era uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das artes. A instalação foi retirada da Bienal e ela só voltou a representar o Japão na mostra, em 1993.

narcissus

A cultura japonesa encanta e ao mesmo tempo assusta. A disciplina milenar, a prioridade na educação, o politeísmo e as influências indianas são algumas das características desta nação que inventou o Pókemon. A maior tecnologia nas mãos de quatro frágeis ilhas no meio do oceano. Será que toda essa potência não está no sentimento de nacionalidade, autoestima, disciplina e respeito aos Deuses alheios? O país do Sol Nascente é um exemplo de superação e organização. Tomara que seus descendentes nipo-brasileiros nos ajudem a auto afirmar a nossa nação, para que se emerja aqui no “país da piada pronta” mais respeito, disciplina, autoestima e politeísmo. Kanpaí!

Só mais um maluco

Tem um verso da música do rapper carioca, MV Bill “Só mais um maluco” (2009), que diz assim:

“O sociólogo me ouve e fica puto.

Diz que esse bagulho de rap é coisa de maluco.

Analfabeto ignorante sem cultura.

Diz que quem é sábio com favelado não de mistura.

Quem diria, que sabedoria.

Estudou noutro país e agora tem pavor da maioria.”

Fiquei matutando sobre essas rimas depois de alguns episódios políticos ocorridos recentemente. Um deles foi a infelicidade do pernambucano, Romero Brito, que preferiu viver em Miami e distribuir presentes aos políticos brasileiros pintando seus respectivos retratos. A melancolia se deu por causa da apreensão de um de seus quadros que retratava o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral condenado pelo crime de peculato. Nossa, muito triste isso! Uma calamidade, meu Deus!

Outro mal entendido foi a troca de farpas entre Adriana Varejão e o retrocesso do MBL contra sua obra “Cenas do Interior II” (1994). As cenas deste capítulo resultaram numa postagem da artista em seu perfil do Instagram (já excluída), com o áudio da canção de Lulu Santos, “De repente, Califórnia“. A postagem excluída deu pano pra manga o que também acarretou na atitude da artista em selecionar sua conta para privada restringindo seu perfil aos seguidores aprovados após prévia solicitação.  Esse breve período durou o tempo das decisões judiciais a respeito das restrições etárias para mostras de arte serem indicativas e a nudez ser descaracterizada como pedofilia.

Num dos comentários desta postagem excluída, o cantor carioca Seu Jorge replicou: “Venha, venha mesmo. Vem embora desse lugar cheio de gente que não deixa a gente trabalhar!” Lembrei-me de Romero Brito na Flórida e Seu Jorge na Califórnia. Quanta coincidência e senso comum se exilaram no país mais “neo libertinagem” do mundo, indo embora de seu próprio, abandonando sua origem, seu povo (e fãs), sua verdadeira cultura.

Outro episódio da balbúrdia brasileira foi a condenação do empresário mineiro, Bernardo Paz e amor, um “santo” idealizador do maior Instituto a céu aberto de arte contemporânea e espécies botânicas. Esse homem, para mim, deveria ser canonizado e perdoado de todos os seus pecados. A existência de Inhotim é um orgulho para nosso país, onde desgraçadamente temos de lidar com a corrupção como ato cultural de nossa nação.

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Jardim de Inotim, ao fundo árvore Tamburil, símbolo do Instituto

É chocante como os valores da sociedade são invertidos e o jogo de poder é facilmente associado à um tabuleiro de xadrez. Você ataca e recua, às vezes perde peças para executar suas estratégias, às vezes perde Rainhas. O importante é cuidar para que o Rei não seja capturado. Tal qual no tabuleiro, a figura masculina está sempre em voga na sociedade. A imagem viril do cavalo, a imponência do Bispo, a resistência da Torre e a versatilidade da Rainha ou Dama são características bem semelhantes ao comportamento humano.

Vejo uma foto no perfil da filha de Seu Jorge, Maria Flor onde ela posta sua irmã, Luz Bella realizando um gesto obsceno ao maior símbolo do capitalismo ocidental. Há de se ver que uma geração versátil tem um posicionamento político e cultural um tanto coerente. Há de se saber se outros grupos se estendem a posicionamentos esclarecidos ou são subordinados às mídias imponentes e aos resistentes “fake news” espalhados pelas redes sociais. Revolução hoje, em minha opinião, é saber diferenciar pontos de vistas próprios aos de mídias imediatistas.

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Foto via @flordeexplora

Cautela aos políticos, religiosos, jornalistas, artistas e afins, pois estamos todos no mesmo barco, no mesmo Planeta. Pensar como a Noruega que guarda milhares de grãos num Banco de Sementes ou o próprio Instituto Inhotim, que estuda espécies da flora e da “fauna artística” são exemplos para as próximas gerações se inspirarem. Cultivar mais orgânicos e menos artificiais é um ponto de vista a se pensar e colocar em prática, porque entre construir um outro Parque de Diversões em Orlando ou preservar um Jardim Botânico no sudoeste do Brasil, com certeza eu fico com a segunda opção!

Sou só mais uma maluca!

 

 

Conto Faceiro

Completamos 38 anos de Galeria de Arte e beirando a “idade da loba posso dizer, sem sombras de dúvidas, estamos no auge da maturidade e excelência, obrigada! Para quem não conhece ou só ouviu falar pelas boas ou más línguas, a Potrich Galeria de Arte nasceu da sociedade entre as duas irmãs Marina e Marúcia, filhas de Suzana, nos anos 80.

Nos finais de semana reuníamos a família na fazenda para jogar baralho, fazer cigarro de fumo de rolo, tomar leite no curral e comer as roscas de Dona Suzana com cafezinho quente. Mas durante a semana o rojão era puxado. Contas a pagar, negócios pra fechar, exposições a organizar. Clientes se tornavam amigos, artistas se tornavam parceiros e eu, uma criança em desenvolvimento assistia a tudo com os olhos de quem aprende um novo conto de fadas a cada dia! Desde que estabelecida no Bairro do Setor Oeste, ao lado do primeiro Hotel Cinco Estrelas da cidade, o nome da Galeria iria se expandir para outros Estados e até países saindo totalmente da zona de conforto.

A construção da sede e a casa ao lado no Setor Jardim Goiás foram um marco da empresa fixando seu local na cidade como ponto turístico cultural e histórico na Capital. Também foi na casa ao lado do grande “galpão” ampliado para mostras épicas como a ‘Retrô 22’, em comemoração aos 22 anos onde assino o meu primeiro texto para o catálogo e minha irmã, o projeto gráfico, que realizamos bazares e um escritório de arte provisório.

galeria 1Fachada da Galeria Potrich com banner da mostra coletiva Retrô 22.

A residência foi projetada com arquitetura moderna associada ao contemporâneo em técnicas de construção, nos início dos anos 90 e por isso ostenta um aspecto imponente e de bom gosto até hoje. No entanto, como em todo comércio existem altos e baixos, Marina e Amilto Potrich, sobrenome da família sulista, advinda de hábitos italianos bem contrastantes aos de descendentes de Bandeirantes, cuja miscigenação gerou outra dupla de irmãs, que tomaram a frente administrativa do patrimônio da instituição Potrich.

Ludmila e Tatiana Potrich, vivenciando os costumes de ambas as culturas e estudando a arte e o mercado empreendem tempo e esforços na instituição familiar que também é compartilhada pela fraternidade de Mara Dolzan, proprietária da Galeria de Arte de mesmo nome, na capital do Mato Grosso do Sul. Mara e Marina realizaram e realizam feitos na sociedade em que vivem, fazendo a diferença cultural.

familiaTatiana e Ludmila Potrich na festa temática com direito à roda de capoeira ‘Reggae Night’, em 2001. Marina Potrich, Lúcia Barbosa, Ludmila Potrich e Mara Dolzan, na mostra itinerante ‘Peretá’, em 2002.

alziraAlzira Potrich, na mostra ‘Epiderme da Pele’, em 2011.

A unidade familiar tem potencial de alcançar valores e atitudes capazes de modificar totalmente os fatos. Diz a constelação familiar que romper com velhos hábitos faz a alma evoluir. Sair da zona de conforto e se confrontar com obstáculos que exigem mais coragem e generosidade é uma forma de atingir o perdão, quiçá o altruísmo. Até quando um pequeno prejuízo de um filho (mesmo que seja uma batida de carro) posso ser superada e agradecida pela benção da sobrevivência no acidente.

Gratidão às grandes matriarcas dessas famílias maravilhosas, as mães de Mara e Marina, Dona Alzira e Dona Suzana, mulheres guerreiras, esposas e transformadoras. O’ponopono para uma vida melhor, mais leve e de mais elevação à alma. Deixo aqui um poema “bobo” criado em Abril/2002, que resume toda essa historinha:

poema 1

novas aquisicoes 1Mostra ‘Novas Aquisições’, coletiva de obras de arte e mobiliário de design, em 2011.

bo-tatao (1)Eu e ela, na mostra Fake Fake Illustraciones, 2009.

Amélia é que era mulher de verdade

Morreu na última quarta-feira (08/11) dormindo e em paz, aos 90 anos, a verdadeira Dama das Artes Brasileiras, a artista paulista, Amélia Toledo.  Com extenso currículo e múltiplas variações de suportes, temas e produções Amélia mergulhou profundo em dimensões cósmicas para investigar a própria natureza humana. A sua última e conclusiva mostra, a retrospectiva dos seus 60 anos de carreira, traz um título bem sugestivo e divertido “Lembrei que Esqueci”, com curadoria de Marcus Lontra, em cartaz até o dia 8 de Janeiro no CCBB, de São Paulo.

Amélia viveu uma vida artística plena e completa, digo isso porque sendo uma quase centenária, sóbria e em produtividade teve o privilégio de conviver com grandes nomes da arte brasileira e pôde presenciar as diversas mudanças e transformações de períodos políticos, econômicos e sociais de nosso país. Sua contribuição incontestável está na narrativa de suas obras passando pela pintura figurativa acadêmica, quando ainda era aluna de Anita Malfaltti, na abstração cromática em vínculos construtivos e influências do artista Waldemar da Costa e o arquiteto companheiro de Paulo Mendes da Rocha, João Batista Vilanova Artigas, na interatividade de suas esculturas-objetos, em orgânicas instalações e sua joalheria alternativa. Uma artista completa!  Sua investigação pela beleza estética, equilíbrio de tons e harmonia construtiva nos impulsiona aos mais prazerosos questionamentos como o que e quem somos nós diante de tamanha beleza que a natureza nos proporciona? As cores, formas e todo conjunto de elementos existentes: pedras, conchas, areia, água, metais… Amélia soube perfeitamente usar a antropofagia a seu favor, nunca abandonando suas raízes brasileiras, mas investigando sempre infindas possibilidades.

Na obra “Caixinha do sem fim” (1971) é perceptível seu encontro com as raízes do Movimento Neoconcreto propostas por Ferreira Gullar e companhia, em 1959, onde a obra de arte promoveria a interatividade táctil com o espectador.  Ou ainda em “Oceânico” (1990), onde Amélia propõe mais uma dentre tantas outras interatividades através de extensos tecidos suspensos formando uma espécie de labirinto azul translúcido e lúdico.

caixinha-do-sem-fim 1971

Caixinha do Sem Fim, 1971. Caixas de acrílico em tamanhos variados.

amelia

Oceânico,1990. Tecidos.

Os vínculos com a brasilidade, a natureza e sua pesquisa arqueológica vão além, como a obra “Encontro com os Mares do Mundo” (1999). A grande bandeja de conchas diversas é um tesouro coletado pela artista, cuja raridade e magnitude seriam naturalmente denominadas de Sambaqui, pelo primeiro arqueólogo que as avistasse.

 “Quantos caminhos deve ter andado Amélia coletando e reunindo conchas, pedras, areias, sementes, luzes, cores, formas, texturas, poesias da natureza para falar através de suas obras, pura alquimia, sobre a beleza e harmonia profunda da natureza. A arte de Amélia é generosa porque serve a algo muito maior, transmite mensagens importantes para nossa alma. Vamos caminhar vendo e conhecendo mais sobre essa mulher, essa artista linda que hoje foi seguir outros caminhos, deve ter ido colher estrelas…” Cecilia Borelli em comentário na página do Facebook de Fernando Assad.

entre mares

Entre os Mares do Mundo, 1999. Conchas variadas, areia e bandeja de aço. A artista em montagem da obra na casa de Fernando Assad.

Poço 2007

Poço, 2007. Aço inox e seixos.

Amélia também trabalhou a distorção de imagens numa impactante estética visual e investigativa como na obra “Bambuí” (2001), instalação com pedras brutas e polidas e placas de inox espelhado de forma sinuosa, que espelham de forma distorcida as pedras trazidas da região de mesmo nome, em Minas Gerais, onde há milhões de anos havia mar. Esta obra está na mostra do CCBB, em Sampa.

Amélia, a mulher de verdade das artes brasileiras dedicou o seu tempo e toda sua vida ao estudo das artes, da natureza, da brasilidade! Nada mais justo para o fim de uma digna vida morrer num lindo sono profundo e,  se possível fosse, em permanente contato cósmico com seu legado de beleza e cores!

amc3a9lia-toledo-colheita 1982 Colheita, 1982. Objetos de uso cotidiano submetidos a ação do tempo debaixo d’água.

Nem tão marginal assim

Na semana passada saiu uma chamada num tabloide virtual a respeito da voz de prisão de um PM contra uma adolescente, estudante da UEPB, que escreveu num muro cedido aos alunos pela instituição para intervenções, a poética da bandeira de Hélio Oiticica: “Seja Herói, Seja Marginal”, alegando apologia à marginalidade. Afff!

A bandeira-obra realizada em plena ditadura militar foi sintetizada na série que o artista denominou como Marginália ou Cultura Marginal. Era um ato de resistência contra o golpe militar e a censura contra a liberdade de expressão e registrava a imagem do traficante de drogas morto, Cara de Cavalo, divulgado nas mídias da época. A ideologia contrastante entre ser herói e ser marginal, ainda hoje é atualíssima. Cara de Cavalo era o protetor e o rei da favela, por ele os negócios aconteciam, a comunidade era cuidada e o crime tinha um chefe.

A Revista TRIP, publicou no mês passado (Outubro/2017) a instigante entrevista com Anderson França, um visionário e sensível transformador, que investiga a cultura carioca, a história do crime no Rio e as possibilidades de transformação desta dura realidade. França apontou algumas peculiaridades da economia do narcotráfico e citou a coincidente história de “O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio” (Companhia das Letras), do escritor Misha Glenny sobre Nem, traficante preso em 2011 que consolidou um marco na Favela da Rocinha, diminuindo os índices de violência investindo em benefícios para a comunidade os lucros do tráfico. França faz diversas colocações pertinentes entre elas transcrevo uma:

(…)”A gente pede para passar por situações que, a princípio, parecem não fazer sentido. Mas o que não faz sentido é o Temer, é Gilmar Mendes, é o [Ministro da Fazenda Henrique] Meirelles, o ovo da serpente desse governo, já querendo se candidatar para sucessão. Faz sentido o Nem vir e falar: “Vocês estão fazendo delação premiada com o Eduardo Cunha, podem fazer comigo também”. Mas aí imagina quem poderia aparecer por trás do tráfico na delação? Um grande empresário, um banqueiro, um senador da República…”

Anderson França e Misha Glenny estiveram na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) em Julho deste ano,  salvo que o primeiro esteve presente através de uma videoconferência por ter sofrido ameaças de morte decorrente de incessantes investigações e luta contra o racismo nas mídias sociais. Por segurança o evento sugeriu esta alternativa para a fala de França, que foi muito bem recebido.

Segundo uma entrevista de Misha para o Jornal El País, no primeiro ano da legalização da maconha, o Colorado, nos EUA, coletou 76 milhões de dólares em impostos, valor duas vezes maior do que o arrecadado com impostos sobre bebidas alcoólicas. “Nos países onde existe a regulamentação das drogas, como Uruguai, EUA e Canadá eles não querem a violência associada à guerra às drogas em suas ruas. Por isso nestes países cresce o apoio às reformas na legislação”.

Não é muito difícil imaginar porque o Brasil é tão arredio e preconceituoso quando se trata deste assunto. Uma bancada moralista e “imbecilizadora” ainda não vislumbrou o avanço econômico e a paz entre as comunidades com programas de regulamentação, conscientização e prevenção ao uso de drogas, ou vislumbrou e percebeu que irá perder certas regalias.

Ainda bem que existem transformadores, “inteligentizadores” e iluminadores no fim dessa escuridão. Obrigada, Hélio Oiticica, Anderson França, Misha Glenny, Equipe da Revista TRIP são pensadores como vocês que fazem a diferença na Humanidade neste nosso curto período de existência na Terra, onde alguns vivem para acumular e outros vivem para doar!

Nem tão herói! Nem tão Marginal assim! Vamos ser mais humanos, por favor!

helio encorporo a revolta

Obra da série Parangolé, de Hélio Oiticica com a inscrição “Incorporo a Revolta”, título do poema épico do baiano Wally Salomão.

Nus proteja

Num dos cursos de Agentes Culturais que frequentei na CEFET, há uns 15 anos atrás o professor propôs uma atividade bem interessante. Ele distribuiu um balão a cada um de nós e pediu aos 20 poucos alunos da sala para enchê-lo e logo depois distribuiu palitos de dente para cada um. O vencedor do desafio seria aquele que mantivesse seu balão cheio. De súbito escutei um estouro e daí por diante a batalha estava formada. Venceu o colega que conseguiu “trepar” na janela e segurar o mais alto possível seu balão. Conclusão: ele não estourou o de ninguém. Moral da história: ele apenas defendeu o seu.

Atualmente tenho ouvido rumores sobre as polêmicas exposições de arte, performances em museus e até na capoeira, que incitam falsos depoimentos e “demonização” dos exercícios culturais propostos por essas instituições. Ora, nada mais natural que estratégias medíocres e mal intencionadas de “imbecilizadores profissionais” (adorei esse termo) pudessem causar um furor coletivo a ponto de discordâncias familiares e até o estremecimento de amizades. Pior que a bipolaridade política radical é a desinformação cultural de algo que se desconhece, mas se acredita nas palavras e nos vídeos dos “imbecilizadores”, afinal eles são profissionais.

A História da Arte é muito mais antiga que a Política ou a Religião. O registro do corpo humano vem antes de leis, dogmas ou de tabus persistirem nas sociedades. Vamos tomar de exemplo essa escultura do Paleolítico, a Vênus de Willendorf, com mais de 22.000 A.C.  Ela é a expressão pura e simples da fertilidade, da mulher que engravida e amamenta. Ela está nua há mais de 20.000 anos.

Vênus de Willendorf

Estamos prestes a retornar a Idade das Trevas senão tomarmos consciência e luz dos fatos. A procura de esclarecimento com pessoas inteligentes, adequadas e qualificadas no assunto é a chave para a iluminação, a segurança do nosso frágil balão, a preservação dos bens culturais, do conhecimento do eu interior, do nosso corpo, da nossa mente, da nossa opinião.

Meu filho me perguntou por que me desentendi com um parente próximo sobre as notícias de arte que tinham a ver com um a pessoa nua. Respondi a ele que houve uma falta de comunicação entre nós e só porque uma pessoa nua incomodava outras, isso não significa que ela seja do mal. Ele simplesmente indagou: “Mas os índios não estavam nus quando os portugueses chegaram? Qual o problema de se estar nu”?

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Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci, de 1490 (dez anos antes dos portugueses “descobrirem” o Brasil)

Seus questionamentos elucidaram à respeito de uma moral da história da antiga fábula dinamarquesa, do século XIX, “A Roupa Nova do Rei”. A fábula descreve a absurda produção de uma roupa invisível encomendada pelo Rei a um vigarista que se faz passar por um alfaiate muito habilidoso. A conversa do alfaiate engambela o Rei, que para não se sentir ridicularizado diante de seus súditos se deixa levar pela ladainha do falso alfaiate e aceita as vestes. O Rei, enfim pronto, com a sua roupa nova para o pronunciamento real e sua entrada triunfal é desmascarado pela criança que aponta e grita: “O Rei está nu”. Ela, diferente de todos que ali estavam, foi sincera e realista, porque ainda não teve seus pensamentos contaminados pelo sistema vigente. Moral da história: todos permaneceram em dúvida, mesmo percebendo a nudez do Rei.

Vamos observar a arte como o olhar de uma criança, desprovido da contaminação da política vigente ou das opiniões alheias imbecializantes. Vamos proteger o nosso balão de palitos afiados prontos a estourá-los a qualquer preço. A maldade não está no nu e sim em quem vê nele uma forma de demonização, imbecilização, ou pensa como o vigarista-alfaiate da história, só para poder levar vantagem! Sejamos mais puros e sem dúvidas quanto aos nossos sentimentos afinal, aos olhos de Deus, somos todos iguais, com ou sem roupas. Que os olhos nus proteja!

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Fabuloso trabalho da série Big Nudes, Hulmet Newton, de 1981

Te dedico

Esse ensaio não será uma história, mas um depoimento.

Tantos e tão poucos sabem que Marina Potrich esteve à frente da Galeria de Arte há quase 13 anos atrás. Marina, minha mãe, realizou o feito de levantar a maior Galeria de Arte do Centro-Oeste em meados dos anos 90, no Bairro Jardim Goiás. A mudança de endereço, logo após a separação do matrimônio de mais de 27 anos, foi um trauma familiar. Mas como diz o velho ditado: “o que não mata, fortalece”. Eu e minha irmã ficamos numa boca de sinuca, num mato sem cachorro, num desdém de dar dó. Tal quais duas pequeninas crianças abandonadas pelos pais ou pela união deles. Restou-nos, nesse tempo de “limbo”, nos apoiar nos amigos e conselheiros. Lembro certa noite, à luz de velas, porque não havia energia por falta de pagamento, nossa vizinha, a artista Simone Simões se ofereceu para jogar tarô numa tentativa de consultar o oráculo e enxergar uma luz no fim do túnel. Recordo também que as cartas faziam parte de um belíssimo projeto idealizado pelas inseparáveis curadoras, Larissa Siqueira e Lucia Bertazzo, que se chamava 0 a 1. Eram 10 edições de diferentes formatos de “catálogos de arte” dos quais a Revista 7 foi minuciosamente executada em formato de tarô. Todas as ideias das 10 edições foram formidáveis, mas a sétima… Ah, o número 7 é místico!

O catálogo-revista-tarô foi produzido por 23 obras de 23 artistas, cada qual com a específica característica de cada carta do tarô. Simões é exímia nas artes do esoterismo e filosofias de culturas orientais e com a habilidade de uma cartomante embaralhou as cartas e as ofereceu primeiro à minha irmã. Sempre tive medo de consultar o oráculo em momentos tensos e de grandes incertezas, mas nenhuma resposta poderia ser pior do que aquela situação que estávamos passando. O jogo foi ameno e nada me surpreendeu até ela escolher a última carta que faltava para completá-lo. A carta número 15 foi produzida por ninguém mais nem menos que o neo-punk contemporâneo, Pitágoras. A dupla de curadoras denominou a carta de “Sombra”, no entanto seu nome original no tarô é “Diabo”.

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Carta 15, “Sombra”, de Pitágoras , verso da carta do tarô com obra “Hades”, de Ana Maria Pacheco.

Mas a curiosidade do meu relato vai além. Surpreendentemente, na minha vez de jogar, a última carta que eu tiro é a mesma. Estava traçado que aquela criatura indomável entraria de vez em nossas vidas. Um artista determinado a não aceitar os padrões “certinhos” dessa sociedade hipócrita a qual vivemos. Ele seria, enfim, a expressão artística no fim do túnel que estávamos em busca. Parodiando o ditado: “a sombra que vive em mim, saúda a sombra que vive em você”, porque não somos só luz, somos metade dia e metade noite.

Para a Revista 7 também foi elaborado um pequeno manual de leitura sobre o significado de cada carta onde incluía versos, citações de grandes nomes da literatura, letras de música e observações pessoais da taróloga, Larissa, tudo revisado aos cuidados de Max Miranda. A carta 15, a “Sombra” de Pitágoras ganhou um trecho da música do talentosíssimo pernambucano, Lenine que diz assim:

“Se na cabeça do homem tem um porão,

Onde mora o instinto e a repressão,

(diz aí) o que é que tem no sótão”.

E para finalizar ninguém mais nem menos que o incorrigível, Pitágoras:

“Só nos resta amar aquilo que nos assusta”.

Como não amar um taurino! Te dedico.