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Entre dois séculos (XX – XXI)

Um fato curioso e bem interessante na História da Arte aconteceu recentemente, logo no fim do mês de Janeiro deste ano. O mais aclamado ou odiado homem do mundo, o presidente dos EUA, Donald Trump solicitou ao Museu Guggenheim de Nova Iorque, o empréstimo da obra “Paisagem com Neve”, de Vicent Van Gogh para os aposentos da Casa Branca. A curadoria do Museu, em carta sucinta alegou que a obra de Van Gogh não estaria disponível, no entanto ela sugeriu ao presidente a obra do polêmico italiano, Maurício Cattelan “América”, uma sanita de ouro 18K, que apesar de frágil viria com um manual de fácil manuseio. A carta não obteve resposta, mas o episódio virou um marco para a Arte e a reflexão sociológica da atual conjuntura. Símbolo do excesso de consumo e a discrepância social, os EUA levam o prêmio de honra do absurdo capitalismo desenfreado que assola o mundo. A privada de ouro é só um dos milhares de exemplos que a Arte Contemporânea vem demonstrando sobre esse exagero. Cattelan ficou conhecido mundialmente por suas sátiras como a obra “La Nona Ora”, onde o Papa é atingido por um meteorito ou “Him”, onde a escultura de Adolf Hitler está de joelhos com as mãos em posição de oração.

Mas nem só de ouro vive a História da Arte, o artista francês, Marcel Duchamp, em 1917 ganhou mídia e notoriedade quando enviou para um concurso de arte o mictório, que ele denominou “Fonte”, assinado como R.Mutt, que era o nome da fábrica das porcelanas. A obra foi rejeitada, mas o artista promoveu outro marco com uma nova proposta artística, o ready made, a peça pronta como obra de arte. Mas por que justamente um mictório? Algumas teses apontam que a forma dele lembraria o corpo feminino e assim a supremacia do ato fisiológico do homem sobre a mulher. Ou não, ou o mictório seria apenas um mictório, uma sátira à sociedade, nossa vulnerabilidade física, nossos anseios e consumos, nossas discrepâncias e bizarrices. A verdade é que dois séculos foram marcados com dois acessórios indispensáveis dos sanitários, tanto a “Fonte”, num momento pré-industrial, quanto “América” na atual era da robotização. De fato, o homem conseguiu informatizar tudo, ou quase tudo, pois as necessidades fisiológicas, as bizarrices e as fogueiras das vaidades serão eternamente humanas.

sanitario“América”, Mauricio Cattelan(2012) e “Fonte”, Marcel Duchamp(1917)

O tema me lembrou duma canção da banda brasileira, Capital Inicial que fala assim: “O que você faz quando/ Ninguém te vê fazendo/ Ou o que você faria/ Se ninguém pudesse te ver.” Somos tão bombardeados de informações e imagens diariamente, que fica difícil distinguir o bom do ruim, ou o certo do errado. Se ninguém vê não tem graça ou quem sabe seja até melhor, porque é “ilegal, imoral, ou engorda”. Daí enfim, surgem os conflitos.

Já citei em artigo anterior, sobre a filantropia e seu provérbio de lei: “A caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Mas não é bem assim que vem acontecendo ultimamente. Que graça tem fazer uma doação se ninguém fica sabendo que você a fez? Madre Tereza de Calcutá tem um sério mandamento em relação à filantropia: “Quer fazer algo pela Paz mundial, vá para casa e ame a sua família”.

Separadas ou unidas por um século as obras de arte são o reflexo da sociedade a qual vivemos e é a partir delas que podemos analisar nossos hábitos e costumes. Ainda há tempo para refletirmos se não estamos fazendo muita merda por aí, não é mesmo!?

donachic

créditos @donachic

Perdoe-os, queridos!

Permitam-me usar a famosa frase “O Brasil é um país que não deve ser levado a sério” ou o slogan do irônico Zé Simão “O país da piada pronta”. Seria cômico se não fosse trágico a repercussão do assassinato da vereadora, Marielle Franco e o motorista que a acompanhava. A notícia ganhou as mídias e as redes sociais mais que qualquer programação para o “Panelaço”, “Pagação de Pato” e a variável “Prende-Solta-Solta-Prende”… Se isso vai chegar a algum resultado só o tempo dirá, mas o que me chama a atenção é a apatia da ala artística. Onde estão as canções que repercutiam (até mesmo em melodias folks) sobre o descontentamento político e cultural, onde estão as expressões visuais que denunciavam a má conduta e a corrupção, onde estão as performances transgressoras que tanto sangravam? Ultimamente nem o grafite grita mais com suas caras amarelas, tudo são rostinhos psicodélicos coloridos, flores, firulas e formas geométricas advindas de um constante déjà vu. Tanta falta de opinião e crítica que ressoou talvez na declaração de Bernardo Paz, idealizador do Inhotim, em entrevista para Revista TRIP há alguns anos atrás sobre a obra de Beatriz Milhazes não integrar o acervo do Instituto: “Seu trabalho é apenas uma releitura dos bordados do século XIX.” Infelizmente, Paz esteve envolvido em escândalo e na polêmica sobre suas finanças, que culminou no seu afastamento da direção de uma das mais importantes instituições do mundo em arte contemporânea.

E para não perder a piada da semana aproveito a oportunidade para dar uma sugestão caso alguém fosse enviar um projeto para algum deputado qualquer conceder título de alguma coisa. A proposta seria alterar o nome das Instituições (sérias) de Arte para Centros de Ciência Avançado em Arte (CCAA), por exemplo: Centro de Ciência Avançado em Arte Inhotim, Centro de Ciência Avançado em Arte Banco do Brasil – CCAA BB… Aí sim faz algum sentido!

A semana que passou também levou dessa para uma melhor, o cientista britânico Stephen Hawking, uma perda para a humanidade, mas um marco para evolução científica. Hawkings revolucionou as teorias a respeito dos buracos negros, a formação das galáxias e uma constante ordem no complexo caos do universo, tudo isso e algumas teses a mais, o que para alguns bípedes não seria grande feito, pois para eles a mente só lhes serve para induzir os outros a se ajoelharem a favor deles mesmos. Impressionante as aberrações que vemos e ouvimos por aí. Quanta superficialidade se vende a troco de sonos mal dormidos e sonhos mal sonhados.

O filósofo italiano, Umberto Eco criou um mantra: “A internet deu voz a uma legião de imbecis”. A unanimidade dita a uma diversidade de seres humanos o que devem ser, ter ou usar. Estamos perdendo a autenticidade e adquirindo o mesmo gosto do senso comum, pois numa época de cópias, não conseguimos mais ser originais. Onde estão os ativistas, onde estão os verdadeiros revolucionários? Faço uma prece, porque creio em Deus e em Deusas, “eu acredito em fadas”, oro, agradeço e peço às Forças da Natureza que iluminem a mente dos corpos sãos, que andam e correm diferentes de Hawking, mas que possam usar a mente para pensar ou ao menos respeitar a Ciência e a Arte.

Deixo aqui a imagem da obra da artista mineira Lygia Clark, “O eu e o Tu” (1967), que foi tema de discussão no ano passado da censurada mostra QueerMuseum, no Santander Cultural. Na obra a artista propunha a interação e investigação do corpo do outro através dos acessórios da roupa. A obra gerou polêmica nas redes sociais, onde “a voz da legião…” alegava que o orifício de ligação de uma roupa a outra era para a troca de contato nos órgãos genitais. Ora, a obra nem poderia ser tocada, quem diria vestida e foi anteriormente apresentada, sem menores problemas, em Paris e Frankfurt. Lygia Clark, antes de tudo foi uma artista séria e levou sua pesquisa e produção aos limites da ciência, aliando a Psicologia e experimentações sensitivas em busca do equilíbrio emocional. Lygia viveu, estudou e lecionou durante anos no exterior e grande parte de sua produção está em coleções estrangeiras.

Queridas e querido Lygia, Hawkings e Marielle, perdoem alguns bípedes, eles não sabem o que falam ou fazem! Que Deus, ou Deuses, e Deusas nos abençoem, porque um só não vai dar conta de toda essa legião! Amém!

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“O eu e o Tu”, 1967, Lygia Clark

Guapas, pero que brutas

Para não perder o fio da meada volto ao tema da semana passada sobre a corajosa artista sueca Hilma af Klint e a percepção da sociedade em relação às mulheres e suas ideias vanguardistas. Assim como foi árduo para Hilma “tornar-se mulher” (como diria a escritora francesa, Simone de Beauvoir no século XIX) foi também para a incompreendida Camile Claudel (1846-1943). A escultora francesa teve sua obra considerada por alguns críticos de arte tão ou mais significativa e transgressora quanto ao do seu amante Auguste Rodin. No entanto desacreditada, enlouquecida e abandonada pela família e amigos, Claudel morreu sozinha numa clínica de reabilitação. A artista mexicana Frida Kahlo (1907-1954) também teve uma vida conturbada e muito bem expressada em suas obras, vivendo “às sombras” de seu grande amor, o aclamado Diego Rivera, que dominava a cena artística. Entre dores e amores, Frida manteve casos com mulheres e com o revolucionário Leon Trotsky, causando furor em seu matrimônio e em sua carreira.

A excêntrica norte-americana Peggy Guggenheim (1898-1979) foi quem deu o nome a um dos mais importantes museus do mundo, por causa do hábito de colecionar obras e amantes dentro do universo da arte. Peggy definiu uma trajetória única rompendo padrões e estabelecendo autenticidade em suas atitudes, identificando o talento e financiando grandes artistas que viviam na pobreza. Assim foi também com a brasileira Aimée de Heeren (1903-2006), que colecionou maridos e amantes dentre eles Getúlio Vargas e o mecenas das Artes, Assis Chateaubriand, fundador do MASP. Aimée ficou famosa por seu bom gosto impecável, pois sendo amiga íntima de outro ícone da feminilidade, a estilista francesa Coco Chanel (1883-1971) “causava” com suas aparições em modelitos extremamente sofisticados.

Dentre tantas magníficas mulheres que cometeram grandes ousadias está uma mulher no meio de 158 médicos formandos, a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999). Nise revolucionou o método de tratamento psiquiátrico contestando a cátedra do Conselho de Medicina. Apoiada por ideologias junguianas e pelos pensamentos de Baruch Espinoza, Nise conseguiu realizar um feito surpreendente para a recuperação mental nos tratamentos de seus “clientes”. Ela foi a primeira médica brasileira a inserir arte terapia em clínicas de tratamentos mentais e seus métodos consistiam na liberdade e manifestação de pensamentos através do exercício da pintura sobre tela com propostas livres, assim como a cerâmica para a produção de esculturas e a interpretação dos autores sobre suas obras. Essa fantástica jornada foi o tema da mostra no Itaú Cultural que aconteceu entre os dias 25 de novembro de 2017 a 28 de janeiro de 2018. Na exposição “Ocupação Nise da Silveira”, além da mostra das obras de seus pacientes o público poderia fazer experimentações livres, como no método aplicado pela médica.

Seriam tantas outras e tão diversas mulheres que citaria aqui, incluindo minhas avós, minha mãe e minha irmã. Mas deixo apenas o registros dessas vanguardistas que acreditaram e acreditam piamente na Arte como uma prioridade para uma vida com sentido, com sentimento com alguma razão vital em comum!!

Science Fiction

A Pina (Pinacoteca de São Paulo) abriu ontem (03/03/2018) a mostra individual da sueca Hilma af Klint: Mundos Possíveis (1862 – 1944). O curioso da artista é o seu registro em testamento onde grande parte de sua produção fosse somente exposta, após 20 anos de sua morte. Jogada de marketing ou não a pioneira do abstracionismo foi cautelosa o bastante simplesmente por dois pontos cruciais na História da Humanidade, creio eu. O primeiro deles, por ser uma mulher e artista, pois quem não se lembra das mulheres interessantes da Antiguidade que eram acusadas de bruxarias e condenadas a queimar na fogueira? Ou estar à frente de seu tempo, como o cientista italiano Galileu Galilei (1564 – 1642), que teve de voltar atrás e admitir que a Terra era plana ao invés de redonda. Quem não reconhece estes fatos? Rudolf Steiner, filósofo, educador, artista, esotérico e amigo pessoal de Klint a alertou sobre o vanguardismo de sua arte e o impacto que ela poderia causar naquele momento, já que cada época sofre de certas limitações de pensamento.

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Hilma af Klint, “Serie VII”, 1920

A teosofia é uma doutrina espiritualista ligada à tradição ocultista que engloba uma série de estudos da mente e meditação, mas principalmente estímulos sensitivos que só a arte e as pesquisas de Klint poderiam expressar com tamanha precisão. A ideia da interatividade do observador com a arte é perceptível pelo fato do movimento das formas e cores em sua obra. A sueca extrapola o Suprematismo de Kandisky e o Neoplasticismo de Mondrian numa mesma tela, querendo constantemente nos comunicar algo além do abstrato. Um movimento artístico brasileiro que se contextualiza dentro das características do abstracionismo mágico de Klint e suas teorias filosóficas é o Neoconcretismo (1959). O Manifesto escrito por Ferreira Gullar e assinado por grandes como Amílcar de Castro, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Pape consistia do espectador fazer parte da obra, participar dela como se ele também fizesse parte da ideia central e a interação, o resultado final da obra de arte. O Neoconcretismo trabalhou com cores primárias, as formas geométricas e as sensações orgânicas da interatividade.

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Lygia Pape, “Roda dos Prazeres” (1968)

A pesquisa geométrica e o orgânico também foram cientificamente aplicadas no livro de Israel Pedrosa, “Da cor à cor inexistente” (1977), que enfatiza as mandalas de cores e suas reações à luz. Um apanhado cultural da história das cores e suas adaptações no cotidiano, nas religiões e no contexto “linguístico” da estética dialogam em harmonia com as vibrações e energias do tempo e do espaço. “Da cor à cor…” promove o embate do que se vê e do que é real para cada um. Pedrosa trabalha o jogo das cores na Gestalt, na Arte Óptica e na proposta empírica de realizar a percepção visual através de exercícios que estimulam a mente, o corpo e a visão de mundo.

Klint pode não ter presenciado suas descobertas passarem por todos esses desdobramentos, mas com certeza a impressão que fica é que a Arte vem sempre antes da Ciência. Como diria Jorge Bem Jor e Lenine, respectivamente: “Os alquimistas estão chegando/ Estão chegando os alquimistas” e “Ninguém faz ideia de quem vem lá/ Ciganas e Neonazistas/ O bruxo, o mago, o pajé/ Os escritores de science fiction/ Quem diz e quem nega o que é.”

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Depois de uma saturação de 40 segundos, olhando para a área branca abaixo veremos a bandeira nacional nas cores reais. “Da cor à Cor Inexistente”, pg. 80, Israel Pedrosa, 10ª Edição, SENAC Editoras, 2009.

 

Naif

Pablo Picasso tem uma frase muito reflexiva sobre ser artista: “Toda criança é um artista. O problema é como manter se artista depois de crescido.”

O Naif, estilo artístico denominado pela palavra francesa de significados amplos e metafóricos: inocente, ingênuo e infantil, provavelmente seja a expressão mais pura que se aproxime da reflexão de Picasso. As obras de grandes artistas deste estilo deixam claras as alegrias no colorido dos temas, da realidade naturalista contrabalanceada à monocromia da arte contemporânea. No naif é possível se confrontar com o céu e o inferno, com Eva e Adão, com as festas juninas ou os terreiros de samba, com as índias pardas ou os negros alforriados, com Jesus ou Oxalá, com a Congada ou a Balaiada, com a chuva ou a seca, com o pobre ou o rico. Tudo junto e misturado. Tudo num emaranhado infinito de cores que até a cena mais trágica ganha humor. A falta de perspectiva, a constância do figurativo e a natureza como berço esplendido no cenário são de fato, as principais características deste estilo.

Curiosamente, estudando sobre o assunto me deparo com a bibliografia de Heitor dos Prazeres (1889 -1966), artista Naif que tinha na roda de samba um fomento maior que no atelier de pintura. Sou tentada a acreditar que sua aptidão musical beneficiou sua pintura e a brasilidade em seus temas. Prazeres expressou sua cultura afrodescendente em episódios da favela, do boteco, do terreiro e da ginga carioca. Foi um dos expoentes mais expressivos do estilo por se tratar de um legítimo brasileiro da gema. Outro grande nome do Naif, porém nascido em Braga, Portugal ficou conhecido como Antônio Poteiro (1925 -2010), pois esculpia potes em cerâmica com a temática da fauna e flora brasileira, assim como a mitologia indígena, a catequização e seus elementos bíblicos. Esses temas tomaram conta de enormes painéis que o artista pintou numa série de arcas de Noé, a floresta Amazônica, o Pantanal e toda uma diversidade de pássaros. A.Poteiro estabeleceu morada em Goiânia na década de 50 e deu continuidade aos temas naif’s num traçado característico e o “uso personalíssimo da cor” (apud Olívio Tavares).

naifTatiana Potrich diante da obra “O artista” de Heitor dos Prazeres e Ludmila Potrich instalando obra de Antônio Poteiro em casa de cliente.

No próximo mês, dia 9 de março, o MASP abrirá o ciclo dedicado às histórias afro atlânticas que reúne mais de 80 obras da artista mineira Maria Auxiliadora (1938 -1974). O destaque da artista está no universo feminino pintado com minuciosos detalhes, assim como a abordagem em temas polêmicos para época como o culto ao Candomblé e a vida promíscua na periferia.

Como toda criança, o artista naif tem seu lado perverso e rebelde, mas tão inocente que até o adulto fica sem saber onde começa e onde termina a crítica. Ali, observando aquela técnica sem perspectiva e por vezes rebuscada pela informalidade do contorno das figuras, bem ali diante da obra, nós nos desnudamos. Desnudamos no sentido da perfeição, do conceitual, do engajado ou prolixo em relação a nós mesmos e aos conceitos de evolução. Finalizo minha singela menção ao Naif afirmando a reflexão do artista espanhol, que toda criança é um artista, mas só quem cresce e continua criança, continua realmente sendo um artista, porque a vida é uma contínua brincadeira e fazer arte faz parte dela.

imageObra “Capoeira”, da artista mineira Helena Vasconcelos apresentada na mostra “Nosotros” que foi capa no jornal de maior circulação da Capital.

 

A arte da simplicidade

Há algum tempo acompanho a trajetória do artista baiano Evandro Soares. Um simplório serralheiro que descobriu na arte uma alternativa para expansão de sua mente e controle da ansiedade. O papel do serralheiro, tão importante quanto o do artista e vice-versa, veio complementar a carreira deste profissional que ilumina o circuito da arte com suas formas em perspectivas e nos convida a sair do lugar comum do bidimensional para o tridimensional e deste para o encontro da luz com a sombra. O reflexo, o encontro duplicado da geometria com a refração da luz contra a sombra, faz surgir um novo elemento, uma terceira forma. O desenho em plano cartesiano, o princípio de um, dois, três, quatro pontos de fuga, a profundidade descoberta no Renascimento e no Iluminismo, seus desdobramentos figurativos ou não em importantes movimentos do século XX, como o Construtivismo, o Abstracionismo, o Suprematismo e mais tarde na Arte Óptica, na Arte Cinética, na Arte Interativa e no movimento brasileiríssimo, do Neoconcretismo foram apenas degraus para a redefinição das linhas geométricas desse artista.

portugal evandroFolder e entrada do Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte onde o artista participa de mostra coletiva, em Évora/Portugal

Evandro Soares pode até desconhecer os termos e “protocolos” da História da Arte, mas ele sente, pressente uma necessidade humana de produzir arte para desenvolver sua técnica, sua pesquisa, suas perspectivas. Ele solta a imaginação com suas pipas em losangos feitos de fios de aço, suas escadas que ora sobem, ora descem num inventivo jogo óptico recriando uma perspectiva tridimensional tão surreal quanto às obras do holandês M.C. Escher. Mais ainda, em seus cubos soltos no espaço, ou reproduzidos em adesivos, ou presos às suas sombras, ou espelhados através de uma estrutura de vidros, ou até beirando à escala da arquitetura.

A arte de Evandro Soares transcende o desenho tradicional e questiona a contemporaneidade a respeito do que é real ou só um reflexo.

O que é luz e sombra?

O todo que sobrevive de opostos!

À primeira vista parece algo simples, mas se engana quem pensa ser a simplicidade algo fácil de alcançar, como diria Clarice Lispector. Simples é ser tão verdadeiro consigo mesmo que a procura do autoconhecimento é expresso naturalmente em seu fazer atístico. Seja pelo inconsciente coletivo, seja pela simplicidade aprimorada com o tempo, o baiano-goiano se engaja no melhor que  sabe fazer. Ser um talentoso serralheiro e ter nascido com o dom de transformar seu ofício em arte! Obrigada, Evandro por nos iluminar com a simplicidade de sua obra!

escadaIntervenção do artista no escritório da Potrich Galeria

Bravas Flores

Tive a felicidade de assistir o filme Flores Raras (2013), com certo atraso, apesar da insistência de minha mãe, mas confesso que me arrependi de não ter o visto antes! Afinal mamãe tem sempre razão!

Um filme de leve beleza e um cuidado estético primoroso. O romance é um tanto curioso e trágico, quanto real e aprimorado com requinte e sabedoria de sensíveis artistas, que elas eram. O triângulo amoroso entre a poetisa americana Elizabeth Bishop, a arquiteta brasileira, Tola de Macedo e sua ex-companheira Mary Morse foi ousado e transgressor numa época onde nem se falava em diversidade. Bishop e Tola compartilharam e comungaram do mesmo sentimento hostil e vulnerável que a natureza humana se encarrega de nos entregar como legado, a relação delas (como em toda relação) foi comovente e ao mesmo tempo bruta.

O filme destrincha com sutilidade o respeito à diversidade conquistada com diplomacia e disciplina, a adoção de filhos por casais homossexuais, a dolorida relação entre pais e filhos, as inspirações artísticas advindas das formas da natureza, a capacidade intrínseca de se posicionar duramente a um ideal e defendê-lo até o fim, ou não dar tanta significância e morrer tragicamente por ele. É um filme para pensar, para se alimentar de arte, de design, de arquitetura, da paisagem, da cultura brasileira!

Posso dizer que não faltou nada, nem a menção à capoeira sugestionada com suavidade e romantismo entre as duas amantes, Lota e Mary. Não faltaram obras da icônica Tarsila do Amaral, o design do mobiliário de Joaquim Tenreiro ou Sergio Rodrigues, as músicas de Tom e Vinícius, o futebol no aterro do Flamengo, a praia de Ipanema, o Cristo Redentor, a lua cheia em Ouro Preto, a cachaça, os negros, os políticos, os figurantes, a perfeita atuação de atrizes interpretando as raras flores da História da Humanidade.

raras floresUma das cenas do filme (trailer). Detalhe para obra de Tarsila do Amaral

Um filme corajoso, tão sensível que até “o mais hétero dos héteros” derramaria suas lágrimas ao assistir tanta cultura brasileira concentrada em 120 minutos. O sofrimento não está no rompimento da relação entre elas, mas no conflito de ideologias. Ao se corromper, ao ser corruptiva a personagem brasileira se perde e perdida ela adoeça e doente ela se enfraquece. Como uma bola de neve, o efeito borboleta, sucumbindo à dor de não se aceitar, de não perdoar, de se apegar, de se amarrar às luxúrias da carne e da matéria. Assim é, assim somos!

A poetisa americana apontou alguns dos deslizes brasileiros e os “documentou” em seus ácidos e iluminados poemas. Bishop soube administrar suas frustrações e conflitos apoiando-se em sua arte, em seus sentimentos verdadeiros. Entre altas e baixas doses de álcool a arte foi mais forte e ela enfim voltou para casa, Nova Iorque, onde se estabeleceu novamente, lecionando e escrevendo sem cessar. Seu olhar estrangeiro e imparcial provou ser esta fantasiosa esperança nacional que nos une, nos fere, nos cura e no final nos faz feliz. Nos transforma em brava gente brasileira!

Aprecie o Carnaval com moderação e como uma breve reflexão deixo aqui o poema “Cadela Rosada” :

Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito parafuso.

Falando sério, o jeito mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à toa com essa cara.

Você devia pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!

ELIZABETH BISHOP

 

 

João

Há inúmeras peculiaridades em torno do artista negro, filho de imigrantes e naturalizado norte-americano, Jean-Michel Basquiat, que está em mostra no CCBB de São Paulo até 07 de abril e percorrerá os demais CCBB’s ao decorrer do ano. Ao contrário do que a maioria pensa, a sonoridade francesa do nome vem só do som, Jean tem origens latinas e sua tradução para o português é João, um nome popular aqui no Brasil. “João” Basquiat foi um transgressor marginalizado como qualquer negro pobre nova-iorquino da década de 1980. Ele denunciou em murais, papelões, tapumes e espaços públicos seus mais sinceros sentimentos e sensações a respeito da sociedade, do sistema, do racismo, mas principalmente da diversidade, termo hoje tão difundido mais por modismo que por consciência. Essa foi uma das principais diferenças do negro que entrou nas graças do mito pop das artes plásticas, o branco elitista, Andy Warhol. Warhol não só percebeu essa genialidade como também o incentivou e o difundiu para alta sociedade, onde lhe foram abertas portas, janelas e muitos bolsos cheios de dólares. Não se pode falar em Basquiat sem falar em Warhol ou vice-versa. É como café com leite, goiabada com queijo, hambúrguer com batata frita, ou ainda a ideia dos contrastes das imagens do fotógrafo, Olivero Toscani. A dupla foi a máxima do provérbio “é melhor ir mais longe acompanhado, que rápido sozinho”. Basquiat traz outro dito à tona, “melhor viver 80 anos em 8, que 8 em 80”. Sua precoce morte, aos 27 anos, de certa forma beneficiou a valorização de seu formidável trabalho, pois sua produção ficou restrita às generosas paredes de grandes colecionadores, como o israelense Jose Mugrabi.

Tal qual o ciclo natural, ou o símbolo místico ouroboros, a transgressão de Basquiat continuou na cidade que não dorme, nos murais das grandes metrópoles do mundo e segue contagiando gerações de artistas que consciente ou inconscientemente retomam temas e condições sociais que ainda fazem parte da angústia, inconformidade ao sistema e incompatibilidades raciais, culturais, financeiras e de gênero. Bem aqui, na central do Brasil, na capital de Goiás está um artista tão peculiar quanto o pobre negro que morreu cedo e se tornou atemporal.

Pitágoras Lopes Gonçalves já se destaca pela força e significado de seu nome, assim como o nome do local onde vive e trabalha, no Bairro Fama. O artista goiano se dedica única e exclusivamente à sua arte, onde poucos ainda se arriscam a acreditar ou a investir, com tão árdua e insistente fé, na cultura como profissão. Pitágoras é um gênio, um peculiar, um transgressor assim como Basquiat. Há uma profunda tendência em admirar o que é do outro, o que vem de fora, ou como diz o velho ditado “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Então vamos colocar mais adubo aí, minha gente. A alta autoestima que resvala na cultura brasileira, por causa de nossa origem vira-lata emerge quando os estrangeiros veem para cá nos valorizar, nos enaltecer, nos comprar. Marchands estrangeiros caíram nas graças de Pitágoras, que elevaram seu trabalho às paredes de Galerias de Arte da tão famosa e glamorosa Miami. O trabalho de Pitágoras está em Feiras de Arte ao redor do Brasil e suas obras são inúmeras em acervos e coleções dos mais importantes nomes do circuito cultural.

Ah, João!

Seus sonhos, seu árduo trabalho, suas parcerias não foram em vão! Você teve e tem admiradores que dão continuidade às suas ideologias e sentimentos transgressores. Você precisou morrer tão jovem para que ficasse a certeza de que a fé na arte produzida com verdadeiros sentimentos simplesmente é imortal!

pitagoras joao

Pitágoras, acrílica sobre papel, 2010

Um corpo em obra

O início de 2018, para não perder o ritmo do ano que passou e considerar as devidas consequências de nossos atos, chega com interessantes embates ideológicos seguidos de desdobramentos mais que satisfatórios, em minha humilde observação. Vejo correções judiciais a respeito da idade indicativa para mostras de arte ao invés de restritivas, vejo que o Santander Cultural será obrigado a realizar mostra sobre diversidade, vejo que as belas e recatadas loiras não são tão puritanas assim, vejo que as feministas encorajadas são muito mais machas que muito homem, vejo que a ciência evoluiu ao ponto de transformar mulher em homem e homem em mulher para disputarem campeonatos esportivos de igual para igual. Uau!!! Quanta evolução sofremos com as redes sociais, os bitcoins, as vacinas para febre verde, amarela, cor-de-rosa, etc, tudo que imaginávamos e, por um milagre da tecnologia, conseguimos realizar. É tudo tão normal e tão louco ao mesmo tempo, como a cuidadosa interpretação de uma instalação do artista Tunga. Tão lógica, porém tão misteriosa!

O artista contemporâneo, morto em 2016 é destaque da exposição Tunga: O Corpo em Obras, no MASP até dia 11 de março. A curadoria é o conjunto de trabalhos, ao longo da carreira do artista, que permeiam a essência do corpo humano e suas multiplicidades sexuais. Apoiado ao chão e encostada na parede está a obra Les Bijoux de Madame de Sade. A peça traz uma mensagem subliminar sobre as orgias sexuais que Renée de Sade teria se submetido para satisfazer seu marido, contrapondo com episódios que testemunhamos atualmente nas mídias, tão soberbos quanto os descritos pela Bíblia, em Gênesis. Ao pé da letra, As Joias de Madame de Sade são três aros entrelaçados, como na clássica Aliança Cartier, em formato de ossos, onde o princípio da tríade em Tunga irá se repetir noutras obras, como nas Tranças (feitas ora por cobras, ora por fios de aço) e na performance Sero te Amavi. O artista pernambucano estudou a finco os princípios da alquimia, as reticências de culturas longínquas ou ainda a religiosidade perene nas sociedades mais arcaicas do nosso planeta. O que ele constatou, ou pelo menos deixou um legado para que nós, simples mortais sexuados pudéssemos desvendar seria o seguinte: “O mistério bendito, Deus, também pode habitar dentro de nós”. (Programa Espiritual Segundo Evangelho de Jesus Cristo)

tunga 1983Les Bijoux de Madame de Sade, 1983 (foto Enock Sacramento, 2018)

A continuidade implícita dos questionamentos de Santo Agostinho, a “tripolaridade” dos pensamentos insanos de Marquês de Sade, o existencialismo nos triângulos amorosos dos romances de Simone de Beauvoir ou ainda as diretrizes sobre flerte, namoro ou sedução no manifesto de Catherine Denueve levam-nos a maiores esclarecimentos do nosso íntimo, da nossa sede de conquista e poder, dos nossos mais horrendos desejos, das nossas mais improváveis provações. Cabe aqui uma brincadeira poética que me veio de súbito à cabeça:

Ode aos Deuses que tudo veem e bem sabem nossas mais profundas intenções,

Ode à Santíssima Trindade que ainda castra devassos corações,

Ode ao repulso pederasta que nos atenta à batida do funk sensação,

Ode ao tal lugar nenhum de Pablo Vittar onde antes posava Roberta Close em primeiro lugar,

Ode às pobres e indefesas almas perdidas,

Que pela carência do sexo se entregam aos ardentes desejos não correspondidos,

Atraídos ou repelidos, assediados ou amados,

Eis, que somos todos sodomizados!

Que em 2018 nos esforcemos mais para distinguir entre obrar em um corpo, do enunciado, um corpo em obra e que não nos falte reciprocidade entre nossa tríade: Corpo, Mente e Alma! Amém!

tunga a vanguarda viperina 1985Vanguarda Viperina, 1985, Tunga

Flor de Formosura

Para não dizerem que não falei das flores vou contar uma história contagiante sobre o incentivo inclusivo da arte para excluídos da sociedade. A história começou com um ensaio fotográfico do artista-fotógrafo goiano, Rogério Mesquita e a artista-modelo mineira, Naty Edenburg, em 2015. Eles tiveram a ideia de imprimir 365 imagens do retrato da top model para que ela, diariamente intervisse em cada uma, formatando um projeto bem sucedido que foi denominado “How do I feel today?” (Como eu me sinto hoje?). Em 2016, a ideia foi parar no 41° São Paulo Fashion Week, onde todas as fotos foram vendidas e sua renda revertida para realizar oficinas voluntárias com crianças carentes e moradores de ruas, além da participação, apoio e divulgação de atrizes famosas, que postaram o projeto em suas redes sociais.

naty edenburgvia @natyedenburg

A proposta de Naty é incentivar a prática da arte principalmente para crianças, porque ela é “uma poderosa ferramenta de autoconhecimento”, enfatiza a top.  A modelo tem uma queda pelas artes plásticas e dentre suas postagens nas redes sociais estão estonteantes imagens de sua beleza, lugares exóticos e paradisíacos, trabalhos de sua autoria e também obras de artistas imortais como Degas, Marc Chagall, Romero de Torres, Alexander Calder, Francesca Woodman, Balthus, Man Ray, Tarsila do Amaral, Leonardo Da Vinci, Henri Matisse, Botticelli, Frida Kahlo, OsGÊMEOS, Win Botho e Antonio Bokel.

A meu ver, Naty já é simpática por se simpatizar com a arte e também porque é singela em fazer referências ao seu projeto “How do I feel today”, que este ano beneficiou crianças indígenas e várias instituições que necessitam e muito deste tipo de incentivo. Como diz o provérbio, “a caridade deve ser anônima do contrário, é vaidade”. Vaidosa ela é sim, mas por causa de sua profissão, porém não faz caridade por vaidade, mas por vontade.

naty duas

Ela é uma flor de formosura! Autodidata, ela pinta óleo sobre tela ou se atreve a fotografar vagando entre o cubismo, modernismo e a contemporaneidade. Se arrisca e petisca na curiosidade de saber quem é e com isso incentiva e ajuda a abrir caminhos para um olhar mais profundo sobre a arte e o autoconhecimento.

Cada dia é um novo dia, um novo e diferente sentimento! A ideia de registrá-lo através de cores, formas ou palavras em nosso próprio rosto é um simples hábito que poderia transformar vidas. Afinal, quem somos nós? Quais são os nossos sentimentos hoje? E por quê?

A Arte, meus queridos, ajuda a responder isso também!

Que o ano novo venha com mais gerações assim, lúcidas, floridas e cheias de atitude social. E que essa historinha contagie a todos!

Feliz Ano Novo! Feliz 2018!

(Volto ao Blog em Fevereiro/2018)

naty2

Foto de  Naty Edenburg, por Rogério Mesquita no nosso salão de exposição