BLOG

Fé cega na tecnologia

“WALL-E, abreviação de Waste Allocation Load Lifter Earth Class é o ultimo robô deixado na Terra. Ele passa o dia arrumando o lixo do planeta. Mas por 700 anos WALL-E desenvolveu uma personalidade e é mais do que um robô. Ao avistar Eve, uma sonda mecânica em missão na Terra, ele se apaixona e resolve segui-la por toda galáxia.”

A sinopse do filme WALL-E, produzido em 2008 pela Pixar é romântica, mas não descreve a complexidade de acontecimentos que, no passar dos quase quarenta minutos de filme sem algum diálogo aparente, sequencia uma série de fatos curiosos sobre uma projeção futurista para a Humanidade. Vi, revi e revivi com meu filho várias vezes a história desse robozinho sentimental, tanto que ao completar 4 anos ele me pediu o tema de robô para sua festinha de aniversário. O artista plástico goiano, Pitágoras confeccionou uma espécie de “boneco robô” para a decoração da festa e posso garantir que todos aprovaram a “escultura” feita de caixas de papelão, embalagens de danone, molas, luzes de led, tinta e spray.

pityPitágoras, “Robô para Igor”, 2011

Meu filho, hoje aos 10 anos de idade, acaba de receber uma atividade de Ciências da escola sobre o filme, após reassistí-lo em sala de aula. As perguntas sobre o filme são muito pertinentes e levantam questões de um futuro não tão distante da atual realidade. Um dos picos emocionantes do enredo é a tomada de comando da nave cruzeiro, com tripulação humana, pelo piloto automático. Um robô, que por si só, desenvolveu autonomia para comandar os demais robôs a bordo e a manter os humanos sob controle.  Os sentimentos que pareceriam comuns nos humanos são características dos robôs com defeitos de fabricação, que acabam desenvolvendo relações de cumplicidade uns com os outros. Contemporaneíssimo mesmo após completar 10 anos de idade, WALL-E é um clássico tanto quanto “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick ou “Star Wars”, de George Lucas.

A Arte tende a nos antecipar ou prever com as devidas consequências nossos atos diários, na incansável busca pela sobrevivência sem sofrimento, sem dor, nem tristeza, mas com conforto, com prazer e muito entretenimento. É certo que a ficção extrapole nos efeitos especiais, mas no nosso inconsciente estamos lidando com fatores possíveis, palpáveis e praticamente em direção a um constante declínio ou ascensão do caos. O termômetro desses fatores está explícito na Arte. Na Arte de verdade. Aquela que abala a zona de conforto, que cutuca a ferida, que incomoda. Não nesses versinhos ou contos pra boi dormir, nessa eterna espera de Príncipes Encantados, Super-Heróis ou na Liga da Justiça, mas sim nas caricaturas dos “Zérois”, de Ziraldo, no Neoconcretismo das Lygias, nas vísceras de Adriana Varejão, nas transgressões pictóricas de Pitágoras, nos “Homens Amarelos” do OsGêmeos ou nos do ORappa, na melodia sacro-profana de IZA, ou nos versos tão verdadeiros de Lenine:

“Agora são com dados estatísticos. Os cientistas é que nos dão razão. De que valeu, em suma, suma lógica, do máximo consumo de hoje em dia, duma bárbara marcha tecnológica e da fé cega na tecnologia?” (É Fogo – álbum “Labiata”)

pity 1Via @pitagoras_lopes, 2018

Casa Mente Real

Aprendi uma piada muito curiosa sobre o casamento e vou descrevê-la para descontrair o texto de hoje:

A filha, ao lado da mãe na Igreja, pergunta quando a noiva, linda de véu e grinalda, faz sua entrada triunfal:

_ Mãe, por que a noiva está de branco?

_ Ah, minha filha, porque o branco é símbolo da paz, da pureza e ela está vivendo um dos momentos mais importantes de sua vida. Responde orgulhosa a mulher.

_ E o noivo, por que está de preto?

_ Cala a boca, menina! Finaliza a mãe.

“Não é sem razão que o branco é o ornamento da alegria e da pureza, sem mancha e o preto o do luto, da aflição profunda, símbolo da morte.” Kandisnky

Não se aborreçam comigo, mas a vida é feita pela atração de opostos, a mulher e o homem, o branco e o preto, a vida e a morte. Parece cômico se não fosse trágico essa analogia, mas… O casamento aos moldes católicos e todo protocolo da realeza são a prova de que estamos há milhas de distância de uma aceitação daquelas ideologias à respeito de temas tabus como os de gênero, casamentos gays, feminismo e o tal poliamor. A repercussão do matrimônio real diverge da ideologia mundial sobre esses tantos direitos ou desejos a serem defendidos pela sociedade. Ainda nos curvamos ao colonizador e aplaudimos os escolhidos de Deus para poder assistir confortavelmente a união transgressora (só que não) de uma mestiça com um nobre de sangue azul. Ora, por favor, cadê a união televisionada do Rei Eduardo VIII com Wallis Simpson?

Não bastasse a audiência do tradicional ritual católico ontem, na Inglaterra, no início deste mês contemplamos também o mega evento fashion proporcionado pela super poderosa da Vogue, o Met Gala, no Metropolitan Museum de Nova Iorque, com o tema “Corpos Sagrados: a moda e a imaginação Católica”. Ousados decotes, pedrarias e suntuosos ornamentos de cabeça foram as sensações. Nunca o Catolicismo esteve tão na moda, até o Papa cobiçaria o acessório usado pela cantora Rihanna.

Mas a Arte não enxerga os “corpos sagrados” com tanta beleza e estética perfeitinha. Afinal somos movidos pelos opostos, o que seria do branco se não existisse o preto? Artistas como o inglês Francis Bacon e sua obra “Study after Velazquez I” (1950), o argentino Léon Ferrari com sua obra “La Civilización Occidental e Cristiana” (1965), o italiano Maurício Cattelan e sua obra “La Nona Ora” (1999) e o brasileiro Siron Franco com sua recente obra “Século 21” (2017) concentram em seus currículos uma aclamada produção que também traz um sóbrio discurso sobre as verdadeiras intenções religiosas.

Desviamos nossa atenção aos glamorosos holofotes da mentira. Apreciamos, comentamos, criticamos e tentamos de uma maneira ou de outra participar de algo tão exclusivo, ou de exclusão! Mas a tell lies vison é mestre em satisfazer nossas angustias e por isso continuamos a interagir nas redes sociais, a assistir os eventos megalomaníacos e a venerar ídolos sem cérebro. Mas ainda bem que “a Arte existe, porque a vida não basta”, né Ferreira Gullar!

casa mente real

Sentido horário: Francis Bacon -“Study after Velazquez I” (1950), Léon Ferrari – “La Civilización Occidental e Cristiana” (1965), Siron Franco – “Século 21”  (2017) e Maurício Cattelan – “La Nona Ora” (1999)

Sobre olhos e dentes

Essa semana que passou, me deparei com algo que ascendeu a chama da minha autocrítica e me colocou em “xeque” comigo mesmo. Críticos, curadores e jornalistas adoram uma polêmica que envolva seus próprios interesses e direcionem holofotes para suas vias de argumentos (nisso também me incluo, mea culpa). E os melhores caminhos para se atingir essas estratégias são as redes sociais que, quando não são por próprio punho redigidas, são por links compartilhados com uma sutil alfinetada do objeto crítico em questão.

Se acima escrevi: “a semana que passou” foi porque acabo de me tocar e ser tocada dos absurdos que cometemos em mostrar os dentes uns para os outros nas mídias virtuais. No meu caso e na minha área percebo que não importa o depoimento sobre a crítica, se é sobre aquela única obra daquele artista famoso que está no acervo do Museu X que será vendida para sanar as dívidas desta instituição, ou se a nova taxação, dos aeroportos privatizados, sobre as obras das Galerias de Arte que participam da Feira Y, ou ainda se a lavagem de dinheiro do mecenas Z e sua negociação em permutar obras de arte para estancar seu débito fiscal.

Cada instituição e entidade devem saber de si como proceder em todos os casos. Não há como se eximir dos encargos tributados, seja devida ou indevidamente. Acabamos por viver dentro de uma legislação que bem ou mal foi decretada para estabelecer a ordem. Se funciona ou não, se é perecível à corrupção ou não, felizmente o Tempo é amigo antigo da Justiça e ela nunca falha. Pelo menos em longo prazo. Assim são com os artistas, com os heróis, vilões, líderes, gurus e mártires da História da Humanidade.

Nós, críticos, temos o péssimo hábito de julgar, promover a difamação e compartilhar algo com segundas intenções ao invés de propor mais mudanças e incentivar novas ideias. Deparei-me com meu Rei em “mate”, tendo de assumir meu erro e deletar meu comentário. Um passo atrás, um recuo para o bom jogador que quer continuar no jogo. Assim segue a difícil relação social quando se divergem ideias e críticas. Mas tudo tem seu momento, tudo em sua hora, afinal o Tempo é amigo íntimo da Verdade. O que nos resta enquanto esperamos o Tempo da Justiça chegar é fazer Arte, falar sobre Arte, acreditar cegamente na Arte e em seus benefícios. A Arte nos auxilia a enxergar a verdade, a estética não padronizada, o belo fora da caixa, o olhar de dentro para fora.

A Justiça em tempos remotos tinha como lema: “olho por olho, dente por dente”. A obra do enigmático Tunga, “Olho por Olho” é o contraponto da balança de Têmis. Num tabuleiro de xadrez são dispostos dentes como peças, num jogo que irá decidir quem está apto a ganhar a justiça. Belíssima metáfora da vida, o jogo de xadrez é até hoje o estereótipo da máxima do estrategista que sabe que os requisitos para ganhar são concentração, inteligência e paciência!

Boa partida, jogadores da vida!!!

tunga 2005Tunga, “Olho por Olho”- Xadrez, 2005

Planeta das Macacas

Podem me chamar de feminista, que assumo a responsabilidade. Alguns fatos da atualidade, que muito me parecem relevantes confirmam o consciente coletivo de um feminismo mundial crescente.

Um deles é a continuação da épica filmografia de Star Wars (2016 – 2017) protagonizada por ninguém mais, ninguém menos que uma mulher no papel de Jedi. Outra constatação cinematográfica foi o filme Logan (2017), onde o cansado, Wolverine e o decadente Professor Xavier são reanimados pela força e a juventude de uma jovem mutante. Além de burburinhos dentro dos bastidores acerca da possível continuação de Indiana Jones, que adotaria um nome feminino caso o protagonista fosse uma mulher, o que parece favorável para os críticos. Bem, isso são ficções, a sétima arte em ação como entretenimento, no entanto a vida imita a arte, a arte imita a vida.

Em países desenvolvidos da Europa, operárias ainda lutam pelo direito de salários iguais, prazos mais longos para licença à maternidade e maior abertura para alcançarem cargos políticos. Isso em países “desenvolvidos” viu, gente.

O MASP, Museu de Arte de São Paulo recebeu uma doação, em fevereiro deste ano, do grupo de norte-americanas, Guerrilla Girls,  uma obra transgressora, feminista e ousadamente realista . O grupo que mantém o anonimato das autoras, tramita pelos quatro cantos do mundo suas obras carregadas de denúncias sociais . Diversificando suportes, mas nunca o tema, Guerrilla Girls é uma entidade ativista que funciona mais que qualquer ato político. Elas se apropriam de espaços urbanos com grande visibilidade pública como outdoors, postes e muros onde colam cartazes, utilizam adesivos e todo artefato de publicidade para propagarem ideias, críticas e estatísticas que insistem em boicotar as mulheres no mundo inteiro. A máscara de gorila que usam para se manterem em anonimato é a marca registrada do grupo.

A escritora Virgine Despentes lançou em 2016, o livro a Teoria King Kong sobre a força da mulher e de como essa força poderia ser canalizada para gerar mais igualdade entre os sexos ou quiçá, a superioridade da mulher sob o homem. Despentes tem uma passagem do livro bem pertinente. Eis que descrevo a passagem sem ressentimentos ou ofensas, mas num intuito de acender questionamentos que talvez expliquem tantos abusos sexuais de homens que não sabem se comportar como seres humanos-civilizados:
Como se explica que nos últimos 30 anos nenhum homem tenha produzido nenhum texto inovado sobre a masculinidade? Eles que são tipicamente loquazes e tão competentes quando se trata de discorrer sobre as mulheres? Como se explica esse silêncio em relação a eles mesmos? Porque sabemos que quanto mais falam menos dizem sobre o essencial, sobre o que tem na cabeça. Talvez queiram, por exemplo, que digamos o que pensamos dos estupros coletivos? Diremos que eles querem mesmo é foder entre si, olhar para os paus uns dos outros, excitar-se juntos, diremos que eles tem vontade de meter nos cus uns dos outros”.

Temos de agradecer a estas Macacas Maravilhas, que tem coragem de expressar os sentimentos de tantas mulheres reprimidas, que são obrigadas a se tornarem princesas quando, em verdade, querem se tornar guerreiras. Viva Lá Revolución! Que venha o Planeta das Macacas, das Jedi’s, das Mutantes, das Indianas Janes! Tá tudo dominado!

guerrilla girls

Via @adrianopedrosa com links para @guerrillagirls @masp_oficial

O descobrimento de ser angry

Pode parecer infantil, mas por coincidência meus filhos insistiram de assistir ao longa metragem do desenho animado Angry Birds pela quinta vez. Coincidência ou não o filme conta o ponto de vista do protagonista Red, um pássaro zangado e as estratégias que usa para alertar sua aldeia sobre a suspeita visita de porcos estrangeiros. A paródia vem a calhar com o Descobrimento do Brasil, ou como diria Darcy Ribeiro, “Achamento do Brasil”, comemorada hoje, dia 22 de Abril, quando supostos desbravadores de terras distantes pisaram em território indígena já com segundíssimas intenções.

A animação é perfeitamente bem adaptada para o contexto atual, pelo menos para visualizarmos o que aconteceu há 500 anos. A aldeia de pássaros, que vivia em plena harmonia, salvo a personalidade de caráter duvidoso de alguns personagens (como o Juíz Coruja), era administrada com civilidade e a peculiaridade da loucura dos personagens no convívio social. O fato é que com a chegada de uma imponente Caravela tripulada por centenas de porcos, a vida na aldeia muda completamente.

O argumento dos porcos ao atracarem no território do bando para se instalarem e logo se tornarem amigos destes ingênuos bichinhos era o de lhes proporcionarem a tão batida estratégia de domínio, a do “pão e circo”. De imediato, os porcos organizam um espetáculo circense com música folk e os porcos ganham a empatia da Coruja e dos demais pássaros da aldeia, com exceção (claro) de Red, o pássaro zangadão.

Por analogia o filme ressalta um pouco a ideia do livro de George Orwell, a “Revolução dos Bichos”, onde os estrategistas, os porcos, tomam o poder dos humanos e passam a controlar a sociedade dos animais de forma obtusa e suspeita. O que antes pareceria um método de política coerente e socialista passa a ser tirânico e ditatorial. As voltas e reviravoltas das histórias ganham significado com a luta de classes, no caso de Angry Birds, a luta das espécies, os pássaros contra os porcos, ou no caso da Rússia, bolcheviques contra mencheviques, no caso de Pedro Alvares Cabral, índios contra portugueses, no caso do Brasil atual, pobres contra ricos e por assim vamos.

Entender de forma lúdica essas estratégias de domínio e aceitar as condições que a política nos impõe é o grande objetivo dos zangadões de plantão. O protagonista Red tem uma personalidade forte e, por natureza, uma característica antissocial. Ele desafia o sistema e delata com muito esforço o plano de domínio de seus adversários, embora sofra constantes repreensões e censuras. Quando o verdadeiro artista e, quando digo artista, digo no contexto dos que exercem a arte como profissão, os verdadeiros escritores, atores, arquitetos, cineastas, músicos, dançarinos… Aqueles cuja personalidade possa ser um tanto zangada, estes sim estão verdadeiramente em busca de um método político coerente e humanista. Não há como, em sã consciência ser um artista feliz enquanto vivermos numa sociedade doente e desigual. Se o artista que você conhece é feliz, então ele não é um artista verdadeiro. O Red é um estrategista, um arquiteto, um pássaro inconformado e em busca da verdade, porque foi a partir de questionamentos e insatisfações que ele descobriu as más intenções e tentativas de domínios de espécies ditas mais evoluídas que as dele. Red ganhou a disputa contra os porcos através da união de sua espécie a seu favor e conseguiu esclarecer a todos de que ser um tanto zangado é um tanto vantajoso.

CabralOscar Pereira da Silva, “Desembarque de Cabral”, 1922

Juízo Final

Falar sobre política é algo muito complicado e inesperado para mim, principalmente nas condições em que o nosso país se encontra, é complicadíssimo estabelecer um lado para defesa prévia. Se me perguntassem se prefiro perder a mão direita, ou a mão esquerda, eu diria que a esquerda, porque sou destra, mas o canhoto certamente escolheria a direita, embora ambos, caso fosse o contrário, com o passar do tempo, aprenderíamos a controlar com mais facilidade os movimentos da mão que menos usamos. Aí está a inteligência ou a Política da “coisa”, adaptar se às circunstâncias conforme as intempéries do momento.

Percebo na cultura brasileira contemporânea um desvio para o escárnio, um desleixo, uma avacalhação, o que não é apenas uma observação pessoal. A atriz, escritora e bem politizada, Fernanda Torres, em entrevista num programa da Rede Globo sobre o seu último livro, “A Glória”, identificou a ausência de espetáculos e públicos eruditos que antes eram comuns nos Teatros do país. Esse diagnóstico é explícito quando observamos quais são os Best Sellers mais vendidos, os campeões de bilheteria no cinema, as blogueiras de moda da hora ou ainda o artista plástico mais cobiçado. A Política de um país dita o direcionamento de toda uma nação e não é tão difícil perceber o rumo que há tempos  estamos tomando. Mesmo não sendo uma expert no assunto percebo que a corrupção e a falta de ética acontece dentro de todos os circuitos comerciais, inclusive no mercado de arte. Algumas Galerias de Arte, pseudo-artistas e como eu mesmo denominei, “os subaqueiros” (um neologismo para os ditos marchands que vendem obras informalmente por aí, de baixo do braço) incitam o mercado com falsificações, reproduções indevidas, sofismo cultural e promoção da anti-arte como decoração.

Nada disso é tão novidade assim, porque desde que o homo sapiens começou a raciocinar, ele usou sua inteligência em benefício próprio e do seu clã para sobreviver, isso também é Política. Estabelecer um lado, uma defesa, um ataque para a sobrevivência é a forma mais natural de exercer a inteligência, pois a busca pelo suposto conforto, requinte e sofisticação custa um alto preço a se pagar. Quem tem boca vai à Roma, à Miami, ou morar em Portugal. Quem não tem fica na roça. Tem um ditado antigo que mamãe sempre me contava: “onde o ferro vai a ferrugem vai atrás”. Não interessa quão alto da pirâmide podemos chegar, mas o quanto de ferrugem poderá nos corromper, porque quem dita o Juízo Final mesmo é a força implacável da Natureza. O oxigênio é capaz de curar, mas ele também tem o poder de destruir! Vamos com calma, vamos com alma! Respira, inspira, não pira!

domacollectiveCréditos @feiraparte obra “Políticos” do coletivo de artistas argentinos @domacollective

“Após quatro meses na capital paulista, visitando bares na periferia ou jantares chiques em Higienópolis, o artista argentino Orilo Blandini produziu 11 peças que retratam sua visão da sociedade brasileira. A guerra de egos baseada em capitalismo, os problemas políticos, o machismo, o culto ao corpo perfeito e às aparências estão lá na mostra ‘Plato del día’, na Adelina Galeria”. Legenda via @revistadasartes

Oiapoque

Há quem diga que Abril tenha a fama do mês de Agosto, o mês do desgosto. Há quem diga que “Fechou” ao invés de “Abril”! Há quem não o diga.

De fato o primeiro dia do mês é o Dia da Mentira e isso seria um prenúncio.  No dia 4 de Abril, Martin Luther King foi assassinado e o ex-presidente da República, Luiz Inácio da Silva foi condenado.  O nome do mês foi título do premiado filme nacional, do cineasta Walter Sales, “Abril Despedaçado”, que tem uma narrativa dramática sobre a violência e o patriarcalismo  brasileiro sob um ponto de vista romântico e uma fantástica fotografia do sertão nordestino. No dia 19 de Abril é celebrado o Dia do Índio, data em que se relembram os primeiros habitantes do Brasil, terra do Mundo Novo “descoberta” por Pedro Álvares Cabral em 22 de Abril de 1500. Também há o “agravante” dos nascidos neste mês pertencerem ao signo de Áries, regidos pelo elemento fogo e ávidos seres viventes, líderes natos e um tanto “cabeças duras”. Há quem não diga nada, nem acredite em nada disso! Afinal é bem melhor e mais cômodo em nada crer. No entanto, depois da mordidinha na maçã, não há como negar ou se eximir da responsabilidade em estarmos nus, não é mesmo? A “Dona Serpente” que o diga!

Lendo a respeito dos estudos de Freud e sua pesquisa sobre o que é estranho, me deparei com a bizarra bibliografia do japonês Yukio Mishima. O livro, abordado na dissertação de Alexandre Lucio Sobrinho é o “Mar da Fertilidade”, onde estão registros de sonhos e coincidências, assim como a profunda análise sobre a morte. O autor faz uma sucinta e reflexiva descrição sobre seu objeto de pesquisa:

“Nada é fixo e imutável. Deve se considerar que não existe ‘isto é meu’, ‘esse sou eu’ ou ‘isso vem de mim’, pois não há um ‘eu’ permanente. Ou melhor, não há um ego permanente. Nada é estável e o mundo a nossa volta sofre constantes transformações, portanto é necessário reconhecer que, como o homem não tem controle sobre os eventos fenomenológicos, não deve se apegar a nada, sequer na vida. Nesse ponto precisamente encontra se a temática favorita de Mishima: a morte”.

Estranho ou não a morte é a única certeza que temos e sendo assim, replico o artigo de Milly Lancome para a Revista TPM sobre a passagem do livro de Darcy Ribeiro, “O povo brasileiro” do diálogo dentre um índio e o português:

“Por que vem de tão longe buscar madeira? Não tem na sua terra?” Quis saber o índio. O português disse que sim, mas não naquela quantidade e que a madeira não era usada para ser queimada, mas para o tingimento. O índio perguntou se precisavam de tanta madeira para tingir, e o colonizador explicou que em sua terra havia negociante que possuíam mais panos do que ele poderia supor e que eles eram tão ricos que, sozinhos compravam um navio inteiro de pau-brasil. “Ah, tu me contas maravilhas”, disse o índio. “Mas esse homem tão rico de que me fala não morre?”, perguntou. “Morre como todos”, disse o português. O índio então quis saber para quem ficava aquela quantidade toda de madeira depois que o homem morria. “Para os filhos”, disse o colono. E o índio, finalmente: “Mas então vocês são todos loucos. Atravessam mares, sofrem grandes incômodos, trabalham tanto para amontoar riquezas para os filhos? Não será a terra que nutriu vocês suficiente para alimentá-los? Temos pais, mães e filhos a quem amamos, mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”.

Certamente Abril é um mês para abrir pensamentos, germinar ideias e debater estranhezas, afinal somos mutáveis, a vida está em movimento e a Lei da Natureza ainda é a maior e a mais poderosa das certezas: “nada se perde, tudo se transforma”! Salve a metamorfose.Salve o Oiapoque, que do tupi-guarani significa o que expande ao se abrir, denominação de uma cidade município de um rio banha o Estado do Amapá.

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. (Einstein)

 

_MG_7413Foto de Rafael Mollica com Lian Tai

Quase uma loba

Hoje, dia 1° de Abril de 2018, a Galeria de Arte que leva o sobrenome da família Potrich completa 38 anos de idade. Isso mesmo, meus queridos, quase uma loba! Significa que fomos embaladas no colo, engatinhamos, caímos nos primeiros passos, passamos pelo Jardim de Infância, Ensino Médio, Faculdades, Pós-Graduações, nos tornamos mães e mantivemos em sintonia o ciclo familiar, profissional e o nosso eterno amor à arte e ao trabalho! Um ciclo de altos e baixos, versos e reversos que só quem esteve ou está dentro poderia dizer, ou quem sabe até o próprio Honoré de Balzac: “Quem julga não tem tempo de amar”. Importante escritor francês da literatura realista do século XIX ganhou fama com uma de suas personagens icônicas que caracterizava a maturidade emocional e o empoderamento da mulher na idade da loba, ou quase loba. Balzaquiana se tornou o termo que designa a idade áurea das mulheres pós 30 anos, que hoje são os 40. Idade áurea que a fundadora da instituição, Marina Potrich integrou arte contemporânea ao carente circuito cultural do Centro-Oeste.

Fundada 1980, quando o país foi marcado pela efervescência cultural de vozes emudecidas pelo longo período da ditadura militar, o mercado de arte nacional estimulou um circuito crescente para criação de obras com conteúdo crítico social e político. Os artistas fervilhavam em produções e engajamento de técnicas, temas e profissionalismo do mercado.  O curador Enock Sacramento, certa vez nos confidenciou que colecionadores assediavam ateliers dos artistas para barganharem menores preços, no entanto, em respeito ao mercado e a decente postura destes profissionais, a atitude era de garantir o valor e a comissão da Galeria de Arte e de indicar esta instituição que os representavam aos seus visitantes.

Certamente, com o passar dos tempos, a acessibilidade à logística, à internet e outros meios de produção facilitaram a oferta de produtos e mercadorias. Certamente o país (ou a grande maioria dos brasileiros), ao longo destes quase 40 anos, passou (ou passaram) por transformações e algum desapego cultural ou um menosprezo à cultura refinada, digamos assim. O que constatamos depois de anos de experiência e experimentos é que a persistência e a criatividade são os principais ingredientes para o empreendedor que busca retorno na arte como profissão. E claro, o bom senso! Assim como um Arquiteto não pode operar um paciente, um ator de filme pornô não pode ocupar o cargo de Ministro da Cultura. Se chegamos até aqui é porque há mérito, muito amor envolvido e pouco julgamento desperdiçado. Há muito conhecimento na Ciência da Arte e pouca valorização da cultura inútil. Felizmente o estudo da História da Arte nos proporciona um discernimento maior e um senso crítico mais aguçado e criterioso. Se chegamos aos 3.8 (três ponto oito, o três oitão) sem esse tal “que tiro foi esse” é porque a Arte ainda é a mais poderosa das armas. Arte-se!

Parabéns para nós!!!

roy e ziraldo

Obras de 1967: Roy Lichtenstein – “The gun in America” & Ziraldo – “BUM”

Entre dois séculos (XX – XXI)

Um fato curioso e bem interessante na História da Arte aconteceu recentemente, logo no fim do mês de Janeiro deste ano. O mais aclamado ou odiado homem do mundo, o presidente dos EUA, Donald Trump solicitou ao Museu Guggenheim de Nova Iorque, o empréstimo da obra “Paisagem com Neve”, de Vicent Van Gogh para os aposentos da Casa Branca. A curadoria do Museu, em carta sucinta alegou que a obra de Van Gogh não estaria disponível, no entanto ela sugeriu ao presidente a obra do polêmico italiano, Maurício Cattelan “América”, uma sanita de ouro 18K, que apesar de frágil viria com um manual de fácil manuseio. A carta não obteve resposta, mas o episódio virou um marco para a Arte e a reflexão sociológica da atual conjuntura. Símbolo do excesso de consumo e a discrepância social, os EUA levam o prêmio de honra do absurdo capitalismo desenfreado que assola o mundo. A privada de ouro é só um dos milhares de exemplos que a Arte Contemporânea vem demonstrando sobre esse exagero. Cattelan ficou conhecido mundialmente por suas sátiras como a obra “La Nona Ora”, onde o Papa é atingido por um meteorito ou “Him”, onde a escultura de Adolf Hitler está de joelhos com as mãos em posição de oração.

Mas nem só de ouro vive a História da Arte, o artista francês, Marcel Duchamp, em 1917 ganhou mídia e notoriedade quando enviou para um concurso de arte o mictório, que ele denominou “Fonte”, assinado como R.Mutt, que era o nome da fábrica das porcelanas. A obra foi rejeitada, mas o artista promoveu outro marco com uma nova proposta artística, o ready made, a peça pronta como obra de arte. Mas por que justamente um mictório? Algumas teses apontam que a forma dele lembraria o corpo feminino e assim a supremacia do ato fisiológico do homem sobre a mulher. Ou não, ou o mictório seria apenas um mictório, uma sátira à sociedade, nossa vulnerabilidade física, nossos anseios e consumos, nossas discrepâncias e bizarrices. A verdade é que dois séculos foram marcados com dois acessórios indispensáveis dos sanitários, tanto a “Fonte”, num momento pré-industrial, quanto “América” na atual era da robotização. De fato, o homem conseguiu informatizar tudo, ou quase tudo, pois as necessidades fisiológicas, as bizarrices e as fogueiras das vaidades serão eternamente humanas.

sanitario“América”, Mauricio Cattelan(2012) e “Fonte”, Marcel Duchamp(1917)

O tema me lembrou duma canção da banda brasileira, Capital Inicial que fala assim: “O que você faz quando/ Ninguém te vê fazendo/ Ou o que você faria/ Se ninguém pudesse te ver.” Somos tão bombardeados de informações e imagens diariamente, que fica difícil distinguir o bom do ruim, ou o certo do errado. Se ninguém vê não tem graça ou quem sabe seja até melhor, porque é “ilegal, imoral, ou engorda”. Daí enfim, surgem os conflitos.

Já citei em artigo anterior, sobre a filantropia e seu provérbio de lei: “A caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Mas não é bem assim que vem acontecendo ultimamente. Que graça tem fazer uma doação se ninguém fica sabendo que você a fez? Madre Tereza de Calcutá tem um sério mandamento em relação à filantropia: “Quer fazer algo pela Paz mundial, vá para casa e ame a sua família”.

Separadas ou unidas por um século as obras de arte são o reflexo da sociedade a qual vivemos e é a partir delas que podemos analisar nossos hábitos e costumes. Ainda há tempo para refletirmos se não estamos fazendo muita merda por aí, não é mesmo!?

donachic

créditos @donachic

Perdoe-os, queridos!

Permitam-me usar a famosa frase “O Brasil é um país que não deve ser levado a sério” ou o slogan do irônico Zé Simão “O país da piada pronta”. Seria cômico se não fosse trágico a repercussão do assassinato da vereadora, Marielle Franco e o motorista que a acompanhava. A notícia ganhou as mídias e as redes sociais mais que qualquer programação para o “Panelaço”, “Pagação de Pato” e a variável “Prende-Solta-Solta-Prende”… Se isso vai chegar a algum resultado só o tempo dirá, mas o que me chama a atenção é a apatia da ala artística. Onde estão as canções que repercutiam (até mesmo em melodias folks) sobre o descontentamento político e cultural, onde estão as expressões visuais que denunciavam a má conduta e a corrupção, onde estão as performances transgressoras que tanto sangravam? Ultimamente nem o grafite grita mais com suas caras amarelas, tudo são rostinhos psicodélicos coloridos, flores, firulas e formas geométricas advindas de um constante déjà vu. Tanta falta de opinião e crítica que ressoou talvez na declaração de Bernardo Paz, idealizador do Inhotim, em entrevista para Revista TRIP há alguns anos atrás sobre a obra de Beatriz Milhazes não integrar o acervo do Instituto: “Seu trabalho é apenas uma releitura dos bordados do século XIX.” Infelizmente, Paz esteve envolvido em escândalo e na polêmica sobre suas finanças, que culminou no seu afastamento da direção de uma das mais importantes instituições do mundo em arte contemporânea.

E para não perder a piada da semana aproveito a oportunidade para dar uma sugestão caso alguém fosse enviar um projeto para algum deputado qualquer conceder título de alguma coisa. A proposta seria alterar o nome das Instituições (sérias) de Arte para Centros de Ciência Avançado em Arte (CCAA), por exemplo: Centro de Ciência Avançado em Arte Inhotim, Centro de Ciência Avançado em Arte Banco do Brasil – CCAA BB… Aí sim faz algum sentido!

A semana que passou também levou dessa para uma melhor, o cientista britânico Stephen Hawking, uma perda para a humanidade, mas um marco para evolução científica. Hawkings revolucionou as teorias a respeito dos buracos negros, a formação das galáxias e uma constante ordem no complexo caos do universo, tudo isso e algumas teses a mais, o que para alguns bípedes não seria grande feito, pois para eles a mente só lhes serve para induzir os outros a se ajoelharem a favor deles mesmos. Impressionante as aberrações que vemos e ouvimos por aí. Quanta superficialidade se vende a troco de sonos mal dormidos e sonhos mal sonhados.

O filósofo italiano, Umberto Eco criou um mantra: “A internet deu voz a uma legião de imbecis”. A unanimidade dita a uma diversidade de seres humanos o que devem ser, ter ou usar. Estamos perdendo a autenticidade e adquirindo o mesmo gosto do senso comum, pois numa época de cópias, não conseguimos mais ser originais. Onde estão os ativistas, onde estão os verdadeiros revolucionários? Faço uma prece, porque creio em Deus e em Deusas, “eu acredito em fadas”, oro, agradeço e peço às Forças da Natureza que iluminem a mente dos corpos sãos, que andam e correm diferentes de Hawking, mas que possam usar a mente para pensar ou ao menos respeitar a Ciência e a Arte.

Deixo aqui a imagem da obra da artista mineira Lygia Clark, “O eu e o Tu” (1967), que foi tema de discussão no ano passado da censurada mostra QueerMuseum, no Santander Cultural. Na obra a artista propunha a interação e investigação do corpo do outro através dos acessórios da roupa. A obra gerou polêmica nas redes sociais, onde “a voz da legião…” alegava que o orifício de ligação de uma roupa a outra era para a troca de contato nos órgãos genitais. Ora, a obra nem poderia ser tocada, quem diria vestida e foi anteriormente apresentada, sem menores problemas, em Paris e Frankfurt. Lygia Clark, antes de tudo foi uma artista séria e levou sua pesquisa e produção aos limites da ciência, aliando a Psicologia e experimentações sensitivas em busca do equilíbrio emocional. Lygia viveu, estudou e lecionou durante anos no exterior e grande parte de sua produção está em coleções estrangeiras.

Queridas e querido Lygia, Hawkings e Marielle, perdoem alguns bípedes, eles não sabem o que falam ou fazem! Que Deus, ou Deuses, e Deusas nos abençoem, porque um só não vai dar conta de toda essa legião! Amém!

lygia clark

“O eu e o Tu”, 1967, Lygia Clark