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Solidão

No início deste ano a Netflix anunciou que transformará numa série o livro do colombiano e Prêmio Nobel em 1982, Gabriel García Márquez (1927-2014), a sua obra-prima “Cem anos de solidão” (1967). Os cinéfilos e ‘seriezeiro’ de plantão já estão ansiosos pela estreia, inclusive eu. Um dos livros mais vendidos da história narra a saga de uma família em meio a mistérios, catarses e uma forte narrativa socioeconômica sobre a América Latina. A literatura do estilo Realismo Fantástico do escritor foi uma reação à literatura mágica europeia dos anos 60 e 70, também uma maneira de se expressar contra os governos totalitários da época. Este estilo de literatura viria contagiar centenas de escritores latinos, inclusive um deles de Corumbá de Goiás, o goiano José J. Veiga. O estilo literário aborda situações inusitadas que prendem a atenção do leitor a mitifica a realidade estabelecendo uma relação entre o possível e o impossível.

“O amor nos tempos do cólera” (1985), outro clássico do escritor foi adaptado para o cinema em 2007 e traz surpreendentes passagens a começar pelo trocadilho do título. A comparação dos sintomas do cólera com as dores de um amor não correspondido é o mote central da trama romântica. O incorrigível apaixonado espera por este amor durante 51 anos até reencontrá-lo e consumir sua paixão. A mãe do protagonista no filme é interpretada pela atriz brasileira Fernanda Montenegro e a atmosfera caótica entre religiosidade, ‘edipianismo’ e o drama da epidemia do cólera na cidade litorânea é interrompido por momentos de doçura e sensibilidade como o conteúdo das cartas de um homem apaixonado ou na trilha sonora do filme cantada pela voz característica da também colombiana Shakira. O cenário de sua obra é inspirado na paisagem afrodisíaca de Cartagena, com seu clima tropical, sua beleza abençoada por natureza e sua posição estratégica entre América do Sul e Central. A cultura colombiana se expressa por hábitos regionalistas de uma sociedade colonizada por espanhóis e movida pela agropecuária e um intensivo tráfico de maconha e cocaína.

O Realismo Mágico de Gabriel García Márquez, representa bem esta realidade do país e deixa subliminar estereótipos de uma cultura movida pela prostituição e pelo comércio de produtos ilícitos. Essa realidade fantástica do século XX é mais expressiva e contrastante atualmente. Resgatar uma história escrita no final dos anos 60 para exibir num dos maiores programas especializados em séries televisivas do mundo é um sinal, um redirecionamento do olhar para a cultura verdadeira, a Arte que fala a verdade, mas que também sonha e cria a magia, transforma o olhar, investiga a origem das angustias, das dores, dos amores e da solidão!

Ilustra o texto obra do artista goiano Avi Neto, que permeia o Realismo Mágico com personagens femininas e paisagens fantásticas. O artista abre mostra de arte na Galeria este mês de setembro. Aguardem!

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Avi Neto, “The yellow boat“, acrílica s/ tela, 80 x 90 cm, 2018.

Você tem fome de quê?

Aos colegas de minha geração, ou como diria meu filho de 11 anos “a geração do século passado”, sei que serão solidários comigo em rememorar a icônica canção dos Titãs, “Comida” de 1987. A letra é tão atual quanto a maioria dos temas das outras músicas da banda que o refrão dela reverberou, consciente ou inconscientemente para a tradução do título do livro de autoria do médico indiano, radicado nos EUA, Doutor Deekpak Chopra : “Você tem fome de quê?” (2002). O médico que é adepto às teorias de Carl Gustav Jung e ao conhecimento da Ayurveda dividiu em dois grupos distintos hábitos diários com a comida para diagnosticar as causas do desequilíbrio alimentar de cada um. O primeiro grupo tenderia a uma causa mais leve, relacionada a desatenção ou distração na hora das refeições, tipo: a comida seria um entretenimento e não uma necessidade. O segundo grupo exigiria mais cuidados, o descontrole na alimentação teriam causas mais relacionadas ao emocional e uma tentativa de preenchimento de um vazio, de um buraco sem fim… O médico indiano se baseia na holística da cultura oriental e observa que a imprudência alimentar também tem reflexos na negligência com a espiritualidade. A saúde física deve estar diretamente relacionada à saúde espiritual. Para Chopra não há tratamento para uma doença se não há combate aos agentes etiológicos e acrescenta que “o sucesso espiritual não é necessariamente o sucesso financeiro”, tudo faz parte de um cauteloso equilíbrio de valores e sentimentos.

Na sexta-feira passada morreu o 10° homem mais rico do mundo, David Koch, aos 79 anos, de um câncer, cuja doença há anos vinha lutando contra, inclusive investindo grandes quantias para pesquisa científica em busca da cura. O drama desse tipo de notícia é que, apenas num momento como este, a morte, todos nos tornamos iguais, ninguém leva nada daqui, a fortuna de um bilionário não entra dentro dele, nem entra no céu, nem na terra, nem no inferno. O cientista americano, Neil deGrasse Tyson elucida constantemente seus seguidores sobre os mistérios do universo e a fórmula mágica da vida. Simplifica nossa singela e complexa existência nos confortando sobre nossa magnitude e mortalidade. Conclue que conscientes que a vida tem prazo de validade devemos manter um constante zelo aos nossos objetivos, mas principalmente ao nosso tempo, em como utilizá-lo bem para que ao menos realizemos uma vitória para a Humanidade.

Pois se a verdade para Tyson é que nossa energia vital se transforma ou é consumida por outrem após a morte, que cuidemos muito bem dela e das calorias ingeridas para fortalecê-la em vida, pois como pensa Chopra, devemos também cuidar de nossa força espiritual! Fica a questão final, a sua espiritualidade tem fome de quê?

Ilustra o post pintura hiper-realista do artista baiano, Tarcísio Veloso, com mostra prevista para o próximo mês, aguardem!

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Tarcísio Veloso (BA), “Fome”, óleo sobre tela, 30 x 30, 2019

A Arte agradece

“Desde novo eu trabalhei com a serralheria, metalúrgica e não tem como eu fugir da minha origem. O trabalho fala de arquitetura, de fotografia como o Maat e essa tecnologia avançada sobre a fotografia digital. E hoje em dia o artista tem que pensar sobre isso. Essa evolução, esse processo. Eu sempre procuro trabalhar com algo que ultrapasse. A gente quebra essa coisa da imagem simples”.

A fala é do artista baiano, Evandro Soares radicado em Goiânia, que acaba de integrar sua obra ao acervo do Maat – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa, em Portugal. Em comemoração ao Dia Mundial da Fotografia, no próximo 19 de agosto e a 13ª Edição da Sp-Arte Foto, que começa na próxima semana (21 a 25/08), o Salão dos Artistas Sem Galeria promovido pelo Impresso e o Site Mapa das Artes com a Casa Lâminas abriu ontem (17/08) mostra paralela onde o artista com vários amigos participam da “Fotografia no Salão”.

Evandro Soares iniciou sua pesquisa com a geometria simplista do losango da pipa, depois subiu alguns patamares com minuciosas soldas em suas escadas verticais e também escadas retas (tipo perspectiva). Depois descobriu os cubos e suas interseções. Ampliou sua percepção com as fachadas concretas e espelhadas dos prédios das metrópoles e as registrou com seu engenhoso olhar de artista. Entre uma janela e outra, Evandro cuidadosamente molda seus fios de aço desenvolvendo uma técnica própria de execução. Ora impressa em papel de algodão, ora em chapa de alumínio, a fotografia recebe tratamento especial ele mesmo fabricou uma máquina a vácuo para colar ou prensar a fotografia sobre o fuan, nas medidas em que necessitar.

Incrivelmente habilidoso, o artista viabiliza seu modus operandi e transforma sua matéria prima em arquitetura, ficção, construção. ‘Arquitetura inventada’, ou como ele denomina a evolução de seu trabalho mais recentemente, ‘Construção Fotográfica da Arquitetura’ é a intervenção ou o prolongamento do desenho arquitetônico fotografado. Um pouco clichê, mas uma verdade para sempre ser dita e repetida, o artista poeticamente traduz seu ofício:

“A autoconfiança é crucial. Os artistas não pedem permissão para pintar, escrever, atuar ou cantar. Simplesmente vão lá e fazem”.

É isso mesmo, Evandro! Vai lá e faça, faça mesmo, faça sempre, sem parar!

A Arte agradece! A gente agradece!

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Evandro Soares, intervenção sobre fotografia, 2018

Guia

Recebi das mãos de meu pai um pequeno grande livro: “Sêneca: sobre a brevidade da vida” e o li com meus 20 poucos anos. Descobri nas primeiras páginas que o livro se tratava da “arte de viver” e abordava duas linhas de pensamentos filosóficos: a helenística e a estoica. Daí por diante a Filosofia iria marcar minha vida para sempre e eu seria eternamente grata ao Senhor que a me apresentou.  A alcunha Potrich é oriunda do nome de uma cidade austríaca, Petrich, no entanto nossa família paterna é de descendência italiana, por parte da avó: os Tramontini e Nicolodi e por parte do avô: os Zílio e Potrich. Amilto Potrich, meu pai, muito cedo saiu de casa para conhecer além de sua cidadezinha natal, no Rio Grande do Sul. Mergulhou na sabedoria de filósofos da Antiguidade (Sócrates, Platão, Aristóteles), dos clássicos da Modernidade (Hegel, Schopenhauer, Nietzche) e atualmente acompanha o contemporâneo brasileiro, Paulo Ghiraldelli.

Estudou numa das melhores Faculdades de Veterinária do país, no Estado do Rio de Janeiro e conheceu a Cidade Maravilhosa nos tempos áureos da brilhantina, defendendo com unhas de dentes ideais socialistas do conterrâneo, Leonel Brizola. Viajou à estudos e à trabalho pelos quatro cantos do mundo colecionando carimbos em seu passaporte de lugares distantes por poucos visitados, há mais de 40 anos atrás, como Japão, Nova Zelândia, Hawai, E.U.A, Taiti, México e alguns países em desenvolvimento da América Latina. Colecionou também moedas, souvenires e muita informação sobre a cultura e o modo de lidar com a Natureza e os animais nestes países longínquos. Trabalhou como fiscal no Ministério da Agricultura, em Goiânia durante 50 anos, elaborando projetos de pastagens, fiscalização de gado e leite e coordenando uma equipe de colegas e amigos com qualidade de padrão internacional. Há de se admitir que a Agropecuária do Estado de Goiás é uma das mais respeitadas no mundo, não só pela herança cultural de nossos Bandeirantes, mas também pela eficiência de profissionais que aqui se instalaram e implantaram ideias inovadoras.

Papai fez parte da história da agricultura de Goiás e principalmente da história da Galeria Potrich. Foi um grande mecenas para as Artes Plásticas goiana investindo em artistas consagrados como Siron Franco e Antônio Poteiro e incentivando jovens talentos do início dos anos 2000 como Pitágoras, Sandro Gomide e Evandro Soares. Um grande exemplo de pai, um amigo e como diria Sêneca (65 d.C.):

“O filosofo é como um guia, um consolador, um diretor de consciência”.

Pai, você é meu guia nesta jornada pela vida! Obrigada! Feliz Dia dos Pais!

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Registro de 1995, no atelier do artista mineiro, Carlos Bracher, em Ouro Preto pintando o retrato de papai

A arte ainda se mostra primeiro

Os insetos estão a caminho da extinção o que gera uma ameaça de colapso catastrófico dos ecossistemas da natureza, de acordo com a primeira análise cientifica sobre o assunto. A população total de insetos diminui 2,5% ao ano e isso sugere que esses bichinhos correm risco de desaparecer dentro de um século. (O Globo – Londres 11/02/2019)

O Globo , BBC, El Pais, Revista Piauí, o periódico  cientifico Biological Conservation e outras fontes de pesquisa alarmam para dados comprovados de que o declínio da população de insetos vistos em quase todas as regiões do planeta, pode levar a extinção de 40% deles, em algumas décadas. As pesquisas apontam para uma série de causas e conseqüências, principalmente o excessivo uso de agrotóxicos em lavouras, assim como o uso de inseticidas domésticos e outros

A animação norte-americana Bee Movie (2007) conta a saga de uma abelha iniciante em busca de sua vocação na colmeia. O roteiro abrange a hipótese de um efeito catastrófico na falta de polinização que resultaria numa pane na sociedade humana e toda cadeia alimentar. Ao som de “Here comes the sun“, dos The Beatles as abelhas se unem para salvar o planeta e polinizar as flores.

Ouvi alguns otimistas dizerem acreditar que, se houver um declínio dos insetos, a tecnologia há de providenciar as nano-abelhas, uns micro-robôs programados para fazer o que a natureza faz. Eu prefiro a naturalidade do mel ao melado de laboratórios! Prefiro também, a singeleza dos filmes e a sinceridade dos artistas, que nos alertam dos perigos e mistérios do futuro, antes mesmo da Ciência.

A constância dos insetos nos trabalhos do artista goiano Pitágoras é a comprovação de que a Arte é uma pré-Ciência. As imagens de abelhas, libélulas, moscas, mosquitos ou pernilongos em suas obras sempre foi uma marca registrada. Pitágoras é um artista inquietante, ávido pesquisador, atento aos detalhes da sociedade e como ela se transforma. Eu diria que ele e suas obras são a representação máxima da “Era Contemporânea”. Excessivo, ácido, feroz, selvagem, criativo, pulsante e transformador. As características de sua produção traduzem o declínio e a ascensão da jornada do homem contemporâneo. O traço compulsivo, ora das cores, ora das sombras, as formas distorcidas de seres híbridos ou trans, monstros, robôs, homens ou mulheres, as tubulações dos esgotos das metrópoles, os aviões ou naves espaciais, a poluição e a beleza da tonalidade de suas tintas. Seus bichos e insetos que invadem e dominam toda a superfície da tela é quase como um apelo, um aviso, um chamado de emergência.

Assim é a trajetória de um verdadeiro artista, um artista que diz a que veio, que tem algo significativo a mostrar. É desta maneira que uma obra de arte valoriza com o passar do tempo. Ela tem histórias para contar, tem conteúdo, tem uma pesquisa organizada sobre um tempo que presenciou e se manifestou pictoricamente, antes mesmo dos cientistas.

Vão-se os insetos, ficam as obras!

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Pitágoras, acrílica s/ tela, 2019

Andar

Retornar ao Instituto Inhotim após cinco anos e um ano depois do rompimento da barragem da Vale, seguidos de fuxicos, críticas, devaneios e malevolências, ver e sentir novamente a Natureza e a Arte Contemporânea me revigorou as energias e confirmou que estou no caminho certo para a auto consciência. Pela quinta vez, programo a viagem de férias da família para uma breve estadia em Brumadinho/MG, desta vez para conhecer a Galeria Claudia Andujar.

A suíça, naturalizada brasileira, hoje com 88 anos, tem um histórico sofrido, de solidão, guerra e abandono. Muito cedo viveu as consequências da 2ª Guerra Mundial e uma delas foi refugiar-se no Brasil no fim da década de 40. Andujar “andou” (para usar um trocadilho bem adequado ao tema) por terras brasilis e teve o privilégio de conhecer Darcy Ribeiro, o que reforçou seu destino às causas humanistas e a luta pelos direitos indígenas. Jornalista-fotógrafa por profissão, antropóloga-artista por vocação, ela se embrenhou na cultura Yanomami por uma década e registrou a geografia do habitat, os costumes e rituais, assim como o embate traumático entre brancos. As mais de 500 imagens dispostas numa galeria cuidadosamente projetada em madeira, tijolos e vidro, isolada no último canto do Instituto, nos leva a crer que sua localização é um percurso rumo à uma tribo distante e esquecida no mapa. Maravilhosamente arquitetada, o jogo sistemático do vai e vem de tijolinhos à vista, com a selvagem paisagem da mata por entre as portas de vidro, acolhe quatro amplos salões que expõem centenas de imagens repulsivas e atrativas, ora nos comovendo, ora nos enfurecendo. Uma beleza pura que se mistura entre o feio lisérgico ao sujo contato com o “invasor”. A mostra fotográfica se divide em três partes: “A terra”, “O homem” e “O conflito”, um misto de sentimentos nos atravessa os olhos e atormenta nossa alma, não só porque a imagem de um seio desfigurado de uma pré-adolescente já grávida nos choca, senão pela feiura, mas também pela beleza da fertilidade, ou o êxtase de um pajé que se entorpece com uma erva nativa e abre um sorriso amarelo, quase todo podre e desajeitado, num simples momento de prazer. Não! A nossa tormenta é interna, instintiva, animal!

Observar a produção da artista é experimentar nossas origens e entender de onde vem o animalesco que mora dentro de nós. Somos todos feitos de corpo e espírito, uns mais aperfeiçoados que os outros, seja pelas condições, seja pelo esforço diário. Outros abraçam a animalidade, a perversidade e a exploração como ideais de vida. É fato o dito “mais importante que a chegada é a caminhada”, porque chegaremos todos ao mesmo fim. O que nos resta é andar, como no trocadilho à Andujar, andar já, andar bem, para o bem andar.

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Galeria Claudia Andujar, Instituto Inhotim, 2019

Relatos em Minas

Há alguns anos escrevi o artigo “Uma breve resenha sobre o Gigante do Aço”, para a Revista DiCasa. O texto tratava sobre o discurso do Manifesto Neoconcreto, da produção artística do mineiro, Amílcar de Castro, da minha primeira visita à seu atelier quando ainda era vivo, em Belo Horizonte e mais tarde nosso retorno ao novo atelier, em Nova Lima, embora neste momento, após sua morte. Mamãe ousadamente realizara mostra individual do artista, em 2002, cuja divulgação ganhou destaque na agenda da extinta Revista Bravo. Retomo ao artista, porque durante minha viagem de férias à Minas Gerais, me deparei com uma escultura de aço com os mesmos princípios das obras deste artista. Uma grande chapa de ferro com corte e dobra, ganha dimensão e se equilibra no espaço com leveza e perspectiva. Posso dizer literalmente que o artista está fazendo Escola. A obra realizada por Reginaldo Figueiredo, para ser instalada no Parque de Itajubá é, em verdade, uma grande bússola e um relógio solar. O também mineiro tem um histórico peculiar. De família desportiva praticou o motociclismo desde a sua adolescência e após ficar tetraplégico num acidente de carro, encontrou na arte uma atividade para manter sua relação com o esporte.
Entre rodas, correntes e guidons, Figueiredo se inspira na história da arte mineira e consciente ou inconscientemente criou nas bases da arte contemporânea de Amílcar de Castro, a escultura instalada no parque desta cidade universitária, em Minas Gerais. A chapa redonda com corte e dobra características de Amílcar, devidamente instalada em oposição ao sol, recebeu uma longa haste de ferro ao centro para a projeção da sombra nos números inseridos na chapa para medir o tempo. Engenhosamente calculada, a escultura é um grande relógio que resgata a técnica de Amílcar e ao mesmo tempo valoriza e o homenageia mesmo sem alguma menção ao verdadeiro “Gigante do Aço”. Como já dizia Coco Chanel: “Se quer ser original, então espere até ser copiado.”


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Reginaldo Figueiredo, 2019, relógio solar e bússola, no Parque de Itajubá

A dura poesia concreta das ruas

O texto de hoje foi inspirado em alguns acontecimentos pessoais que se desdobraram em sucintas dialéticas à respeito das transgressões urbanas, como a pichação. Se pensarmos que a necessidade humana de se expressar iniciou nos tempos das cavernas teríamos mais tolerância em aceitar as transgressões urbanas como atos de manifestação cultural, acrescento também, como ato de rebeldia, mas como grito de sobrevivência e auto afirmação de guetos marginalizados. Se estiverem errados ou não, se é arte ou não, este não será o ponto nesta narrativa. Acredito ser como naquela velha canção de Caetano Veloso: “qualquer maneira de amor vale a pena”, qualquer maneira de se expressar também!

Certa vez ouvi de um grafiteiro que a pichação é como a cadeia alimentar, assim como o belo e estrutural da arquitetura está para beleza das frutas, a pichação está para os seres decompositores, como os fungos, as bactérias, os vírus. Não é porque não estamos vendo esta camada da classe social não significa que ela não exista. Ela impregna com seus escritos, grafias e códigos a fachada de prédios, muros, tapumes e tudo mais que estiver disponível, exposto e sem proteção, assim como uma maçã ao léu na fruteira corre o risco de ser contaminada com a larva de um mosquito. O interessante não só é vislumbrar a necessidade destes guetos pela autoafirmação na sociedade, mas quais seriam as soluções para manter a “maçã” longe desta contaminação. “Se pixarem eu chamo a polícia”, a polícia, meu caro, tá nem aí pra sua maçã, cada um que cuide da sua, veja só o que aconteceu com Adão e Eva. A ‘cuestão’ é bem maior!

Tenho um exemplo muito próximo da minha realidade e darei meu testemunho. A Escola onde meus filhos estudam ostenta um alto muro por todo quarteirão do bairro do Setor Oeste. Ali foi sempre um alvo fácil e um grande chamariz para os pichadores de plantão, até o dia em que um concurso de desenhos para os alunos abriu uma nova perspectiva sobre a rua e como o diálogo entre os transgressores poderia mudar. Mais de 30 desenhos foram reproduzidos no muro com sua escala ampliada interagindo com a paisagem, os transeuntes e os motoristas. Durante anos o muro não sofreu nenhum tipo de vandalismo e até hoje não houve melhor prevenção e preservação para o patrimônio particular da Escola, que manter a Arte das crianças ali.

Quando decidimos estabelecer um diálogo, aprendemos primeiro a falar a língua de quem não consegue aprender a nossa! Não podemos simplesmente obrigar o outro a entender o nosso dialeto e não é a polícia quem vai ensinar, talquei! Outro exemplo, atualmente é a fachada da sede da Saneago. Todo muro foi grafitado com o tema da água, um projeto que teve desdobramento em 2007, quando fomos contempladas com uma lei de incentivo à cultura e em parceria com a empresa convidamos cinco artistas goianos para intervir no canoduto da Avenida Universitária, o qual sempre foi foco de pichações e inserções de cartazes para publicidade. Hoje ainda é possível verificar a última, da terceira intervenção que propusemos no canoduto, que alias tá na hora de revitalizar! Enfim, regra o antigo ditado: é melhor prevenir que remediar!

Plantar eras, cactos, rosas, grafitar, pintar poesias, interagir com o seu muro é uma maneira de se expressar com a rua, com os transeuntes, motoristas, crianças e pichadores. Dialogue, procure uma alternativa, tente entender a dura poesia concreta das ruas!!!

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Projeto Intervenções Urbanas por Famiglia Baglioni, em 2008, contemplado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura

Link do Canoduto da Saneago, em 2008

Link do Canoduto da Saneago, em 2014

Zona de Conforto

Vocês irão me achar repetitiva, mas citarei o nome da artista Adriana Varejão novamente, não só porque ela é minha artista brasileira favorita, também por causa de sua relevância internacional, mas principalmente a postura ideológica e visual, assim como sua obsessiva investigação à respeito da formação da cultura do povo brasileiro.  Numa postagem no perfil de sua rede social, Varejão compartilhou uma tirinha do cartunista Maurício de Souza, onde a personagem Marina, com seus longos e ondulados cabelos castanhos sai correndo num campo gramado gritando: “Minha função como artista é mudar o mundo”. Aquela simplicidade e inocência que permeia as histórias em quadrinhos da “Turma da Mônica” (infantil) foi uma pérola aos olhos de meus filhos. Afinal, em tempos de “relações líquidas”, inteligência artificial e sexo virtual, quem são os verdadeiros artistas que mudam o mundo?

Pensar, questionar e ter autocrítica, atualmente virou artigo de luxo. As pessoas andam pagando caro por isso. São cursos de autoconhecimento, mindfulness, coaching, yoga ashtanga, eneagrama… Confundir artesanato, decoração, ilustração, pichação e terapia ocupacional com Arte se tornou um hábito. A recíproca é verdadeira, “precisamos mais da Arte, do que a Arte de nós”, então por que insistimos em pensar sermos todos artistas natos? Vou te contar um segredo: não somos. Nem todos somos a mudança significativa que o mundo precisa, afinal, o que Romero Britto mudou em anos de carreira? Será que ele inspirou as pessoas a mudarem comportamentos e ideologias ou conservou a antiga ladainha norte-americana que ressalta “the American dream”?

O artista de verdade não se denomina artista, é o sistema, o mercado e o tempo que percebe a solidez de sua pesquisa. Numa das palestras da Programação Cultural do GARiMPO-COLECiONiSMO foi citado o nome da polêmica diretora da Revista VOGUE Itália, Franca Sozzane (1950-2016), que revolucionou o mundo da moda e fez Arte de verdade. A pequenina italiana ousou fazer o que todo mundo queria, mas não fez. Em 2008, para citar uma de suas proezas, Sozzane lançou “uma edição especial apenas com modelos negras na capa e no recheio, batizada de ‘Black Issue’. A publicação trouxe modelos como Tyra Banks, Liya Kebede, Sesselee Lopez, Jourdan Dum e Naomi Campbell, além da ex-primeira dama, Michelle Obama e o diretor Spike Lee, também buscou refletir sobre a importância da diversidade na moda. O impacto foi enorme. A edição foi a mais vendida da revista e demandou duas reedições aumentando em 30% a receita” (Via www.escolasaopaulo.org). Para quem quiser adquirir um exemplar hoje, a Ebay vende por 2.500 dólares.

Um exemplo que não foge ao tema é o filme Green Book – O Guia (2018), uma história real sobre um pianista africano, Don Shirley que se arrisca numa turnê pelo sul dos Estados Unidos, no início dos anos 60 e sofre todo o tipo de preconceito e racismo ao longo da viagem. Seu fiel motorista, um descendente de italianos, já confuso e indignado com as situações mais humilhantes pelas quais o pianista passava, questiona aos músicos da banda: por que um artista tão bem sucedido sai do conforto de seu apartamento, em Nova Iorque para seguir o roteiro de viagem do Livro Verde e hospedar se separadamente dos brancos, sofrendo preconceitos dos maiores conservadores estadunidenses. Os músicos se entre olham e um deles responde: “Porque é preciso coragem para tocar o coração das pessoas”.

Acrescento à tirinha do criador da “Turma da Mônica” mais um pequeno detalhe, a função do artista é ter coragem de sair de sua zona de conforto para mudar mundo. Que os artistas de verdade possam sair por aí através de campos gramados, ruas, desertos, mares, ares e tocar o mais profundo possível o coração das pessoas. Ilustra o texto mais uma Mulher Maravilha do inquietante Pitágoras. Esta, porém é uma rara versão da personagem pelas mãos do artista goiano. Ela é negra!

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Mulher Maravilha, Pitágoras, 2019

Desenhar é interpretação!

Finalizamos mais uma semana da nossa Programação Cultural e os resultados foram muito produtivos. A Oficina de Arte “BaÚ”, ministrada pela artista-visual, Adriana Mendonça, com o objetivo de resgatar aqueles materiais esquecidos no fundo do baú e colocar em prática o artista que existe dentro de cada um de nós, foi simplesmente acolhedor e enriquecedor! Adriana nos elucidou sobre a importância da representação como extensão de nossa personalidade e como podemos desenhar à vontade, sem a obrigação de termos traços perfeitos ou concorrermos uns com os outros, negando nossa essência em representarmos quem somos, copiando a realidade sem um sentido específico, apenas por repetição, sem nenhuma originalidade. A proposta da oficina era que cada um também trouxesse um objeto qualquer, o qual seria colocado um ao lado do outro e assim, cada participante optaria por escolher um ângulo do conjunto de objetos para desenhar cada qual, à sua maneira. Sem regras ou proporções, sem técnicas, nem avaliações ou preconceitos.

A turma se desenvolveu trabalhando num coletivo, uns apoiando os outros, compartilhando seus materiais e somando ideias e criatividade. A segunda atividade veio especificar um detalhe do desenho produzido, para que este fosse representado em uma escala maior e mais aprimorada. A experiência valeu, pois houve um planejamento que foi amadurecido a partir do primeiro exercício de criação. Adriana recitou uma bela passagem de José Saramago, do documentário “Janela da Alma” (2001):

“Eu ia muito à ópera no São Carlos, o teatro de Ópera de Lisboa e ficava sempre pro lado do ‘galinheiro’. Na parte de cima, que era de onde se via uma coroa, era o camarote real. Começava lá de baixo e ia até lá pro alto e se fechava formando uma coroa. Uma enorme coroa dourada. Coroa que vista do lado da plateia e do lado dos camarotes era uma coroa magnífica. Do meu lado, de onde estávamos não era. Porque a coroa era dividida em quatro partes e por dentro era oca. E tinha teias de aranha. E tinha pó. E isso foi uma lição que nunca esqueci. Nunca esqueci esta lição. Para conhecer as coisas ‘ha que dar lhes a volta’”.

Sobre essa lição, a artista explica que para desenhar é necessário conhecer, dar a volta no objeto, estudá-lo com cuidado e apreciar seu defeito e sua beleza, há de se entender o que se quer demonstrar. O desenho é uma interpretação do que foi visto e estudado. É o ponto de vista figurativo ou não, de quem o desenhou. Lilia Moritz Schawrcz, em livro para Adriana Varejão, “Pérola Imperfeita”(2014), faz uma pertinente observação quanto à pesquisa da artista sobre seu objeto de estudo. Ela conclui que a qualidade estética da obra de arte está no planejamento, o artista que conhece, estuda e muda sua perspectiva de olhar, “dá a volta”, aprimora sua técnica, mas principalmente, sua estética.

A gente agradece a maravilhosa experiência e deixamos o convite para nosso encerramento na próxima quinta-feira, dia 04 de Julho a partir das 10h00, com um delicioso café da manhã e a exposição do resultado da Oficina de Arte “BaÚ”. Esperamos vocês!

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Desenho em aquarela por Adriana Mendonça, 2019