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Gigantes pela própria natureza

A arte indígena tem se mostrado ao longo dos tempos uma manifestação cultural antropológica e ao mesmo tempo uma expressão significante de autoafirmação nacional. Certa vez, minha tia, há uns 15 anos atrás, recém-chegada do Canadá me confessou com grande entusiasmo e satisfação a valorização do povo canadense em relação às suas origens e a cuidadosa preservação de sua cultura primitiva. O país tem espalhado em praças públicas, estátuas de líderes indígenas, assim como em Museus e Instituições Educacionais.  Recordo-me bem desse diálogo porque ela enfatizava sempre se lembrar de mim quando avistava algum símbolo, monumento ou homenagem aos primeiros povos que habitaram aquele país. Comentou também sobre as cédulas e moedas que retratavam os indígenas e o quanto o povo canadense se orgulhava em demonstrar suas origens e hábitos de seus antepassados.

Essa lembrança veio à tona em meus pensamentos devido a uma recente visita ao Museu do Índio, atualmente Museu das Culturas Dom Bosco, na capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande. Elaborada e projetada para abrigar artefatos indígenas, além de uma série de objetos arqueológicos, uma fauna de animais empalhados e uma extensa exposição de invertebrados, o Museu é uma espécie de Centro Científico Cultural, que nos transporta para o túnel do tempo e para dentro da nossa natureza primitiva e selvagem. Grande parte da mostra foi organizada em vitrines com formatos lúdicos, que recontam os costumes indígenas além de toda ambientação da mostra nos remeter às aldeias e a penumbra suave e misteriosa das florestas.

museu indio

O acervo conta com uma valiosa coleção adquirida ao longo dos anos e selecionada por padres italianos da Missão Salesiana, do Mato Grosso. Ironicamente uma instituição católica conseguiu reunir uma extraordinária coleção de arte indígena e valorizar sua estética na impressionante montagem contemporânea de rústica beleza. As divisões e suportes utilizados foram estudados com muita sensibilidade para garantir ao espectador a compreensão da grandiosidade e diversidade das etnias indígenas que habitavam nosso país em tempos remotos. Dentre os grupos indígenas estão peças dos povos Bororós, Xavantes, Karajás, Kadiwéu,  Tukanos, Desanos, Tarianos, Pira-Tapuios, Paracabâs, Taiwanos e Wananos.

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Vocês não podem imaginar a quantidade de artefatos, canoas, instrumentos de caça e pesca, de música, liturgia, cestarias, pinturas, cocares, cerâmicas e muito, muito, muito mais! Posso garantir que até o mais antipático dos brasileiros sairia de lá querendo ter um parente próximo com raízes indígenas. Tenho a impressão que minha tia ficaria também maravilhada com todo esse resgate e preservação da memória brasileira. Aberto ao público com um razoável valor de ingresso, o Museu tem expografia de centenas de fotografias de índios, de seus costumes e rituais, assim como a monitoria de estagiários da Universidade Católica Dom Bosco. Bem provável ser maior a admiração de turistas estrangeiros ao acervo do museu que a dos próprios brasileiros, em questão. Talvez por sermos um povo tão jovem sejamos ainda um tanto imaturos para reconhecer quão ricas e nobres são as nossas raízes e o quanto podemos nos afirmar como nação através delas.  Os padres italianos que o digam! Vai Brasil, porque o gol não é só dentro de campo, mas em todo grande território do país!

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Tapa na cara

“Aí veio uma iraniana com sotaque italiano e deu tapa na cara da sociedade brasileira”. Beta Germano – Editora de Arte e Estilo da Revista Vogue

Quem achou que eu iria “deixar passar batida” a importante mostra da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi na feira de Design de Milão, em abril deste ano, se enganou. Responsável pelo projeto do edifício icônico na Avenida Paulista, o MASP e pelos inventivos suportes de vidro para expor as obras de arte, Lina Bo Bardi também é reconhecida pela belíssima Casa de Vidro – Instituto Bo Bardi, no setor nobre da capital paulista e pelo prédio do SESC Pompéia, onde caracteriza as formas modernistas e se deixa levar pela cultura brasileira no movimento, leveza e na geometria, que embora muito sutil ainda encontra berço na influência dos desenhos indígenas. Lina Bo Bardi executou uma série de mobiliários em parceria com o também ítalo-brasileiro Giancarlo Palanti, cuja parceria foi cuidadosamente estudada e exposta pela curadora iraniana Nina Yashars, no espaço da Nilafur Depot, uma sumidade em arte e design desde 1900, em Milão.

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Via @betagermano

Uma grande homenagem a dois designers que ressaltam como a simplicidade e a criatividade são ferramentas ideias para um design autoral de qualidade. Igualmente simples e criativa foi a montagem de Yashars que enriqueceu o design da dupla e estabeleceu um elo íntimo com a cultura brasileira, calcada na geometria, transparência do vidro e na força das matérias-primas. Os tablados, ora padronizados por caixotes de madeira para elevar os móveis, ali foram substituídos por tijolos furados com acabamento em placas de vidro na superfície. Uma sacada sensível que até os Irmãos Campana sentiriam uma pitadinha de inveja. Digo “inveja branca”, porque a ideia foi muito feliz!

Mais feliz ainda foi o recente anúncio no instagram do MASP sobre o filme da vida da arquiteta, que será interpretado por ninguém mais que as talentosíssimas Fernandas. Fernanda Torres fará o papel de Lina Bo Bardi na primeira fase de sua vida e Fernanda Montenegro já interpretará sua velhice. “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”. Fiquei emocionada com esta notícia não fosse mais um tapa na cara da sociedade brasileira, o filme será dirigido pelo artista e diretor inglês Isaac Julien. Ainda bem que as brasileiríssimas Fernandas fazem jus ao papel, à profissão e à brasilidade, senão seria tapa demais na nossa cara, né não, Beta Germano!?

linaVia @masp_oficial

Véio, cê tá certo!


Uma coisa temos de tirar o chapéu, o ser humano realmente é um ser surpreendente. Quando a gente acha que o jogo tá perdido, vem um e faz o Gol no último minuto do segundo tempo. O ponto vencedor foi para a notícia dessa semana passada, sobre a iniciativa de moradores de um bairro de Teresina (PI) em pintarem os muros da rua onde moram das cores de nosso arque inimigo, a Argentina em protesto à política do pão e circo e da “Suja Jato”. A Copa do Mundo é um momento ideal para a quadrilha política do país se reorganizar e votar todas as regalias a seu favor, cujo desvio da atenção de torcedores apaixonados é sempre providencial em situações de tensão popular. Este ato de protesto Nordestino foi, em minha opinião, uma intervenção artística, um ato social com uma postura patriótica um tanto sarcástica, mas num momento bem apropriado. O curioso que nessa mesma semana que passou foi comemorado pelas cidadãs argentinas e aprovado pela Câmara dos Deputados desse país a lei que permite a interrupção da gravidez por decisão da mulher. Assunto polêmico, tabu ou transgressor é fato que vários países desenvolvidos e em desenvolvimento já aderiram à descriminalização do aborto. Outro fato divulgado essa semana que passou foi o “mimimi” em relação à seleção campeã mundial de futebol, a Alemanha que viajou em classe econômica para Rússia. Ora, alguns irão defender que a distância do Brasil à Rússia é muito maior e em se tratando da seleção pentacampeã mundial, eles merecem o conforto da primeira classe. Será? A verdade é que alguns brasileiros são deslumbrados por natureza, a ostentação é cultural nestes “emergentes” da nossa sociedade. No entanto não podemos negar que somos um povo muito criativo e conseguimos improvisar diante de situações inusitadas.

Um exemplo disso são as obras do artista sergipense, Véio, que ganhou importante mostra este ano, no mês de Março e tem um reconhecido trabalho com troncos de árvores secas que ganham vida em suas mãos. Cícero Alves dos Santos, que assim foi apelidado porque sempre estava na companhia de pessoas mais velhas. Véio nos surpreende quando recolhe da natureza troncos e os transforma em animais, humanos e demônios apenas com o uso de tinta em determinadas partes dos galhos. Parece simples e é, mas Véio acreditou na simplicidade e deu certo! O artista tem merecido destaque no circuito e textos publicados por grandes curadores. Se você ou seu filho dariam conta de fazer a mesma coisa eu não tenho dúvidas, mas a repetição, o amor e o vício do artista pelo seu ofício fazem de sua produção uma relíquia, um tesouro, um conhecimento empírico que só quem conseguiu passar dessa fase “emergente” conseguiria entender e valorizar. Certamente, um pedaço de pau não nos diria muita coisa, mas o conjunto deles contaria a história de vida, de lendas e de saberes que só um Nordestino saberia contar. Engajado na cultura popular brasileira, Véio, em entrevista para o Estadão analisa: “O sertão é praticamente esquecido, só é lembrado em período de eleições”.

Tomara que tomemos consciência e lembremos que o Nordestino é surpreendente e tem de ter voz ativa. Tudo é possível acontecer quando se acredita num ideal justo e por mérito concebido.

Que vença o melhor, mas que vença honestamente! Vai, Brasil!

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Véio – A Imaginação da Madeira, Itaú Cultural (foto André Seiti)

A Era do Ego

O escritor francês Gilles Lipovetsky publicou o livro “A Era do Vazio”, em 2005. O livro é atualíssimo e explana a sociedade narcisista que caminha incessantemente para se afogar. Lipovetsky não tem um ponto de vista tão pessimista, mas pontua os defeitos e as poucas qualidades do desenvolvimento do ser humano e suas transformações como ser consciente de si e de sua comunidade. Ressalta o suicídio como fato inerente, que ao contrário do que imaginávamos é tão comum como antigamente. A diferença, diz ele é que antes os suicídios eram bem sucedidos, pois as ferramentas para cometê-los não tinha erro, eram cordas e armas de fogo e atualmente se ingere medicamentos que, com a velocidade dos veículos de emergência e a eficácia da desintoxicação se tornam um empecilho a estes depressivos em potencial.

A Era não é de depressão e sim de Ego. Inacreditavelmente, li numa dessas revistas populistas de péssima gramatura e conteúdo um tanto tendencioso uma enquete feita sobre uma personagem de uma novela cuja previsível trajetória de vida era ser uma moça feliz, mas pobre e depois de acumular desgraças, uma rica infeliz. A pergunta aos telespectadores (cuja escolaridade ou nível cultural eu desconheço) era qual fim a garota deveria ter: voltar a ser a humilde moça feliz ou ser a ricaça depressiva. Ora, pelas referências é bem possível que você, querido leitor, adivinhe quem ganhou no Ibope. A inversão de valores é impressionante, nunca a Filosofia se tornou tão necessária num momento tão antiético como o atual. Existe uma grande diferença do pensar no nosso próprio bem, entre fazer o bem para próximo ou de achar o equilíbrio entre os dois. Um sociólogo formado em Harvard, numa entrevista anos atrás, numa dessas revistas de má gramatura, levantou a questão acerca da filantropia. Dentre alguns exemplos ele citou que grandes nações na tentativa de ajudar países subdesenvolvidos acabam por prejudica-los, por falta de cuidado ao informa-los e direcioná-los para a autonomia. Seria equivalente a tal suspeita da “Bolsa Família”. Para quem vai, quanto vai e até quando vai ajudar?

O perigo está em fazer e não acompanhar o feito. O imediatismo, a selfie e a enxurrada de curtidas são o que conta, mas e depois? “Caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Daí a Era do Ego, a Era do Ego Vazio. Se fizermos algo bom pelo outro para nos sentirmos bem, ok, mas a controvérsia é que alguns utilizam essa consciência de que fez o bem para compensar para que ele possa fazer o mal. Já que eu fiz essa grande doação vou poder roubar aqui um pouquinho, né! Né não!  Não é assim que funciona, minha gente. A  “santa” Filosofia explica. Os artistas de certa forma pressentem tudo isso e expressam em suas obras essa infeliz constatação. Não é a Arte que está ficando feia, promíscua, “trans” ou apelativa é o ser humano quem está maquiando suas imperfeições ao invés de enxerga-las e corrigi-las. Estamos vivenciando um momento onde se erguem Igrejas e se fecham Bibliotecas, onde se abrem Clínicas de Estética e se taxam altos impostos sob Feiras de Livro, onde se censuram Mostras de Arte e se cultuam falsas celebridades. Estamos seriamente doentes. O excesso de espelho em casa já pode ser um sintoma. Cuidemos para que não nos afoguemos dentro de nosso Ego.

egoObra do Coletivo Argentino DOMA, via @artsoul.br

Match Point

A grife de móveis em Goiânia, Artefacto teve um tema muito feliz para sua Mostra Anual, o Cinema. A proposta é que cada arquiteto se inspirasse no filme de sua preferência e adequasse seu espaço com a ideia da cenografia mais a trilha sonora.

Dentre tantas escolhas originais ou previsíveis destaco a da dupla invencível, Adriana Mundim e Fernando Galvão. Eles escolheram o cult “Match Point”, de Woody Allen (um típico Nelson Rodrigues norte-americano) que conta com uma coletânea de dramáticas óperas italianas. A dupla também escolheu a Potrich Galeria para definir as principais características do filme nas obras de arte, que subliminarmente, remetem à personalidade dos personagens e seu desfecho.

A obra de Siron Franco “Semelhante”, da década de 1980, traz uma figura híbrida, meio bicho, meio homem, nos remetendo a esse instinto de desejo proibido e de luta fugaz pela sobrevivência. Essa selvagem personalidade é perceptível no protagonista do filme, um infeliz alpinista social que utiliza de todos os métodos para alcançar seus objetivos. Num jogo calculista de instinto e sorte ele tenta viver um conturbado triângulo amoroso.

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A fabulosa fotografia, do artista Rogério Mesquita roubou a cena dos móveis da grife, que num ousado nu, sai esbanjando sensualidade por toda sala e é a prova de que a beleza feminina ainda é o maior entorpecente para se cometer uma grande loucura. A obra da série “Brazil Encarnate” encarna a personagem da bela Scarlett Johansson e sua explícita característica sensual, por quem o protagonista se sente perdidamente atraído e disposto a qualquer sacrifício para possuí-la.

rogerio mesquita

Toda atmosfera do ambiente é submetido às vozes italianas de clássicas óperas, como a “La Traviata”, baseada no épico romance “Dama das Camélias”. Em depoimento para o catálogo da Mostra, os arquitetos relatam que a leitura do tema do filme é inspirada na elegância própria de Londres, pelo valor à arte e principalmente pelo contraste do apartamento do casal, em oposição à mansão da família da personagem que se casa com o protagonista. Ela, que inicialmente é sua aluna “sem graça” de tênis, no decorrer da trama, passa a ser uma bem sucedida dona de Galeria de Arte.

O ato final está na obra de Gustavo Rizério. A série de trabalhos intitulada “Blue” traz formas viscerais camufladas ou destacadas no vívido fundo azul da grande tela. A obra nos remete ao brutal assassinato da amante e também as declarações dela ao protagonista, sobre seus abortos, consequência de sua relação anterior. O azul da tela suaviza o drama do crime em contraste com o vermelho sangue, que sinaliza mais uma gravidez interrompida, confirmando a sorte do protagonista em alcançar, insanamente, seus objetivos.

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A dupla de arquitetos, em verdade, o casal invencível é sempre minucioso, detalhista e cuidadoso. Como na preparação de uma obra-prima, estes profissionais, peritos para transformar espaço em ideias, atuam quase como curadores, montando o ambiente para uma mostra que questiona como reage a psique e o que realmente mora dentro de cada um de nós. A sensibilidade e persuasão na interpretação do filme trazem como resultado o que certamente Woody Allen adoraria ver, a fatídica história explicitada com sutileza e dramaticidade num ambiente cuidadosamente calculado. Um filme complexo que mexe com nossos valores humanos e coloca em pauta a importância da sorte no destino da vida. E Ponto Final.

Bravo, Adriana! Bravíssimo, Fernando!

Fé cega na tecnologia

“WALL-E, abreviação de Waste Allocation Load Lifter Earth Class é o ultimo robô deixado na Terra. Ele passa o dia arrumando o lixo do planeta. Mas por 700 anos WALL-E desenvolveu uma personalidade e é mais do que um robô. Ao avistar Eve, uma sonda mecânica em missão na Terra, ele se apaixona e resolve segui-la por toda galáxia.”

A sinopse do filme WALL-E, produzido em 2008 pela Pixar é romântica, mas não descreve a complexidade de acontecimentos que, no passar dos quase quarenta minutos de filme sem algum diálogo aparente, sequencia uma série de fatos curiosos sobre uma projeção futurista para a Humanidade. Vi, revi e revivi com meu filho várias vezes a história desse robozinho sentimental, tanto que ao completar 4 anos ele me pediu o tema de robô para sua festinha de aniversário. O artista plástico goiano, Pitágoras confeccionou uma espécie de “boneco robô” para a decoração da festa e posso garantir que todos aprovaram a “escultura” feita de caixas de papelão, embalagens de danone, molas, luzes de led, tinta e spray.

pityPitágoras, “Robô para Igor”, 2011

Meu filho, hoje aos 10 anos de idade, acaba de receber uma atividade de Ciências da escola sobre o filme, após reassistí-lo em sala de aula. As perguntas sobre o filme são muito pertinentes e levantam questões de um futuro não tão distante da atual realidade. Um dos picos emocionantes do enredo é a tomada de comando da nave cruzeiro, com tripulação humana, pelo piloto automático. Um robô, que por si só, desenvolveu autonomia para comandar os demais robôs a bordo e a manter os humanos sob controle.  Os sentimentos que pareceriam comuns nos humanos são características dos robôs com defeitos de fabricação, que acabam desenvolvendo relações de cumplicidade uns com os outros. Contemporaneíssimo mesmo após completar 10 anos de idade, WALL-E é um clássico tanto quanto “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick ou “Star Wars”, de George Lucas.

A Arte tende a nos antecipar ou prever com as devidas consequências nossos atos diários, na incansável busca pela sobrevivência sem sofrimento, sem dor, nem tristeza, mas com conforto, com prazer e muito entretenimento. É certo que a ficção extrapole nos efeitos especiais, mas no nosso inconsciente estamos lidando com fatores possíveis, palpáveis e praticamente em direção a um constante declínio ou ascensão do caos. O termômetro desses fatores está explícito na Arte. Na Arte de verdade. Aquela que abala a zona de conforto, que cutuca a ferida, que incomoda. Não nesses versinhos ou contos pra boi dormir, nessa eterna espera de Príncipes Encantados, Super-Heróis ou na Liga da Justiça, mas sim nas caricaturas dos “Zérois”, de Ziraldo, no Neoconcretismo das Lygias, nas vísceras de Adriana Varejão, nas transgressões pictóricas de Pitágoras, nos “Homens Amarelos” do OsGêmeos ou nos do ORappa, na melodia sacro-profana de IZA, ou nos versos tão verdadeiros de Lenine:

“Agora são com dados estatísticos. Os cientistas é que nos dão razão. De que valeu, em suma, suma lógica, do máximo consumo de hoje em dia, duma bárbara marcha tecnológica e da fé cega na tecnologia?” (É Fogo – álbum “Labiata”)

pity 1Via @pitagoras_lopes, 2018

Casa Mente Real

Aprendi uma piada muito curiosa sobre o casamento e vou descrevê-la para descontrair o texto de hoje:

A filha, ao lado da mãe na Igreja, pergunta quando a noiva, linda de véu e grinalda, faz sua entrada triunfal:

_ Mãe, por que a noiva está de branco?

_ Ah, minha filha, porque o branco é símbolo da paz, da pureza e ela está vivendo um dos momentos mais importantes de sua vida. Responde orgulhosa a mulher.

_ E o noivo, por que está de preto?

_ Cala a boca, menina! Finaliza a mãe.

“Não é sem razão que o branco é o ornamento da alegria e da pureza, sem mancha e o preto o do luto, da aflição profunda, símbolo da morte.” Kandisnky

Não se aborreçam comigo, mas a vida é feita pela atração de opostos, a mulher e o homem, o branco e o preto, a vida e a morte. Parece cômico se não fosse trágico essa analogia, mas… O casamento aos moldes católicos e todo protocolo da realeza são a prova de que estamos há milhas de distância de uma aceitação daquelas ideologias à respeito de temas tabus como os de gênero, casamentos gays, feminismo e o tal poliamor. A repercussão do matrimônio real diverge da ideologia mundial sobre esses tantos direitos ou desejos a serem defendidos pela sociedade. Ainda nos curvamos ao colonizador e aplaudimos os escolhidos de Deus para poder assistir confortavelmente a união transgressora (só que não) de uma mestiça com um nobre de sangue azul. Ora, por favor, cadê a união televisionada do Rei Eduardo VIII com Wallis Simpson?

Não bastasse a audiência do tradicional ritual católico ontem, na Inglaterra, no início deste mês contemplamos também o mega evento fashion proporcionado pela super poderosa da Vogue, o Met Gala, no Metropolitan Museum de Nova Iorque, com o tema “Corpos Sagrados: a moda e a imaginação Católica”. Ousados decotes, pedrarias e suntuosos ornamentos de cabeça foram as sensações. Nunca o Catolicismo esteve tão na moda, até o Papa cobiçaria o acessório usado pela cantora Rihanna.

Mas a Arte não enxerga os “corpos sagrados” com tanta beleza e estética perfeitinha. Afinal somos movidos pelos opostos, o que seria do branco se não existisse o preto? Artistas como o inglês Francis Bacon e sua obra “Study after Velazquez I” (1950), o argentino Léon Ferrari com sua obra “La Civilización Occidental e Cristiana” (1965), o italiano Maurício Cattelan e sua obra “La Nona Ora” (1999) e o brasileiro Siron Franco com sua recente obra “Século 21” (2017) concentram em seus currículos uma aclamada produção que também traz um sóbrio discurso sobre as verdadeiras intenções religiosas.

Desviamos nossa atenção aos glamorosos holofotes da mentira. Apreciamos, comentamos, criticamos e tentamos de uma maneira ou de outra participar de algo tão exclusivo, ou de exclusão! Mas a tell lies vison é mestre em satisfazer nossas angustias e por isso continuamos a interagir nas redes sociais, a assistir os eventos megalomaníacos e a venerar ídolos sem cérebro. Mas ainda bem que “a Arte existe, porque a vida não basta”, né Ferreira Gullar!

casa mente real

Sentido horário: Francis Bacon -“Study after Velazquez I” (1950), Léon Ferrari – “La Civilización Occidental e Cristiana” (1965), Siron Franco – “Século 21”  (2017) e Maurício Cattelan – “La Nona Ora” (1999)

Sobre olhos e dentes

Essa semana que passou, me deparei com algo que ascendeu a chama da minha autocrítica e me colocou em “xeque” comigo mesmo. Críticos, curadores e jornalistas adoram uma polêmica que envolva seus próprios interesses e direcionem holofotes para suas vias de argumentos (nisso também me incluo, mea culpa). E os melhores caminhos para se atingir essas estratégias são as redes sociais que, quando não são por próprio punho redigidas, são por links compartilhados com uma sutil alfinetada do objeto crítico em questão.

Se acima escrevi: “a semana que passou” foi porque acabo de me tocar e ser tocada dos absurdos que cometemos em mostrar os dentes uns para os outros nas mídias virtuais. No meu caso e na minha área percebo que não importa o depoimento sobre a crítica, se é sobre aquela única obra daquele artista famoso que está no acervo do Museu X que será vendida para sanar as dívidas desta instituição, ou se a nova taxação, dos aeroportos privatizados, sobre as obras das Galerias de Arte que participam da Feira Y, ou ainda se a lavagem de dinheiro do mecenas Z e sua negociação em permutar obras de arte para estancar seu débito fiscal.

Cada instituição e entidade devem saber de si como proceder em todos os casos. Não há como se eximir dos encargos tributados, seja devida ou indevidamente. Acabamos por viver dentro de uma legislação que bem ou mal foi decretada para estabelecer a ordem. Se funciona ou não, se é perecível à corrupção ou não, felizmente o Tempo é amigo antigo da Justiça e ela nunca falha. Pelo menos em longo prazo. Assim são com os artistas, com os heróis, vilões, líderes, gurus e mártires da História da Humanidade.

Nós, críticos, temos o péssimo hábito de julgar, promover a difamação e compartilhar algo com segundas intenções ao invés de propor mais mudanças e incentivar novas ideias. Deparei-me com meu Rei em “mate”, tendo de assumir meu erro e deletar meu comentário. Um passo atrás, um recuo para o bom jogador que quer continuar no jogo. Assim segue a difícil relação social quando se divergem ideias e críticas. Mas tudo tem seu momento, tudo em sua hora, afinal o Tempo é amigo íntimo da Verdade. O que nos resta enquanto esperamos o Tempo da Justiça chegar é fazer Arte, falar sobre Arte, acreditar cegamente na Arte e em seus benefícios. A Arte nos auxilia a enxergar a verdade, a estética não padronizada, o belo fora da caixa, o olhar de dentro para fora.

A Justiça em tempos remotos tinha como lema: “olho por olho, dente por dente”. A obra do enigmático Tunga, “Olho por Olho” é o contraponto da balança de Têmis. Num tabuleiro de xadrez são dispostos dentes como peças, num jogo que irá decidir quem está apto a ganhar a justiça. Belíssima metáfora da vida, o jogo de xadrez é até hoje o estereótipo da máxima do estrategista que sabe que os requisitos para ganhar são concentração, inteligência e paciência!

Boa partida, jogadores da vida!!!

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Planeta das Macacas

Podem me chamar de feminista, que assumo a responsabilidade. Alguns fatos da atualidade, que muito me parecem relevantes confirmam o consciente coletivo de um feminismo mundial crescente.

Um deles é a continuação da épica filmografia de Star Wars (2016 – 2017) protagonizada por ninguém mais, ninguém menos que uma mulher no papel de Jedi. Outra constatação cinematográfica foi o filme Logan (2017), onde o cansado, Wolverine e o decadente Professor Xavier são reanimados pela força e a juventude de uma jovem mutante. Além de burburinhos dentro dos bastidores acerca da possível continuação de Indiana Jones, que adotaria um nome feminino caso o protagonista fosse uma mulher, o que parece favorável para os críticos. Bem, isso são ficções, a sétima arte em ação como entretenimento, no entanto a vida imita a arte, a arte imita a vida.

Em países desenvolvidos da Europa, operárias ainda lutam pelo direito de salários iguais, prazos mais longos para licença à maternidade e maior abertura para alcançarem cargos políticos. Isso em países “desenvolvidos” viu, gente.

O MASP, Museu de Arte de São Paulo recebeu uma doação, em fevereiro deste ano, do grupo de norte-americanas, Guerrilla Girls,  uma obra transgressora, feminista e ousadamente realista . O grupo que mantém o anonimato das autoras, tramita pelos quatro cantos do mundo suas obras carregadas de denúncias sociais . Diversificando suportes, mas nunca o tema, Guerrilla Girls é uma entidade ativista que funciona mais que qualquer ato político. Elas se apropriam de espaços urbanos com grande visibilidade pública como outdoors, postes e muros onde colam cartazes, utilizam adesivos e todo artefato de publicidade para propagarem ideias, críticas e estatísticas que insistem em boicotar as mulheres no mundo inteiro. A máscara de gorila que usam para se manterem em anonimato é a marca registrada do grupo.

A escritora Virgine Despentes lançou em 2016, o livro a Teoria King Kong sobre a força da mulher e de como essa força poderia ser canalizada para gerar mais igualdade entre os sexos ou quiçá, a superioridade da mulher sob o homem. Despentes tem uma passagem do livro bem pertinente. Eis que descrevo a passagem sem ressentimentos ou ofensas, mas num intuito de acender questionamentos que talvez expliquem tantos abusos sexuais de homens que não sabem se comportar como seres humanos-civilizados:
Como se explica que nos últimos 30 anos nenhum homem tenha produzido nenhum texto inovado sobre a masculinidade? Eles que são tipicamente loquazes e tão competentes quando se trata de discorrer sobre as mulheres? Como se explica esse silêncio em relação a eles mesmos? Porque sabemos que quanto mais falam menos dizem sobre o essencial, sobre o que tem na cabeça. Talvez queiram, por exemplo, que digamos o que pensamos dos estupros coletivos? Diremos que eles querem mesmo é foder entre si, olhar para os paus uns dos outros, excitar-se juntos, diremos que eles tem vontade de meter nos cus uns dos outros”.

Temos de agradecer a estas Macacas Maravilhas, que tem coragem de expressar os sentimentos de tantas mulheres reprimidas, que são obrigadas a se tornarem princesas quando, em verdade, querem se tornar guerreiras. Viva Lá Revolución! Que venha o Planeta das Macacas, das Jedi’s, das Mutantes, das Indianas Janes! Tá tudo dominado!

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Via @adrianopedrosa com links para @guerrillagirls @masp_oficial

O descobrimento de ser angry

Pode parecer infantil, mas por coincidência meus filhos insistiram de assistir ao longa metragem do desenho animado Angry Birds pela quinta vez. Coincidência ou não o filme conta o ponto de vista do protagonista Red, um pássaro zangado e as estratégias que usa para alertar sua aldeia sobre a suspeita visita de porcos estrangeiros. A paródia vem a calhar com o Descobrimento do Brasil, ou como diria Darcy Ribeiro, “Achamento do Brasil”, comemorada hoje, dia 22 de Abril, quando supostos desbravadores de terras distantes pisaram em território indígena já com segundíssimas intenções.

A animação é perfeitamente bem adaptada para o contexto atual, pelo menos para visualizarmos o que aconteceu há 500 anos. A aldeia de pássaros, que vivia em plena harmonia, salvo a personalidade de caráter duvidoso de alguns personagens (como o Juíz Coruja), era administrada com civilidade e a peculiaridade da loucura dos personagens no convívio social. O fato é que com a chegada de uma imponente Caravela tripulada por centenas de porcos, a vida na aldeia muda completamente.

O argumento dos porcos ao atracarem no território do bando para se instalarem e logo se tornarem amigos destes ingênuos bichinhos era o de lhes proporcionarem a tão batida estratégia de domínio, a do “pão e circo”. De imediato, os porcos organizam um espetáculo circense com música folk e os porcos ganham a empatia da Coruja e dos demais pássaros da aldeia, com exceção (claro) de Red, o pássaro zangadão.

Por analogia o filme ressalta um pouco a ideia do livro de George Orwell, a “Revolução dos Bichos”, onde os estrategistas, os porcos, tomam o poder dos humanos e passam a controlar a sociedade dos animais de forma obtusa e suspeita. O que antes pareceria um método de política coerente e socialista passa a ser tirânico e ditatorial. As voltas e reviravoltas das histórias ganham significado com a luta de classes, no caso de Angry Birds, a luta das espécies, os pássaros contra os porcos, ou no caso da Rússia, bolcheviques contra mencheviques, no caso de Pedro Alvares Cabral, índios contra portugueses, no caso do Brasil atual, pobres contra ricos e por assim vamos.

Entender de forma lúdica essas estratégias de domínio e aceitar as condições que a política nos impõe é o grande objetivo dos zangadões de plantão. O protagonista Red tem uma personalidade forte e, por natureza, uma característica antissocial. Ele desafia o sistema e delata com muito esforço o plano de domínio de seus adversários, embora sofra constantes repreensões e censuras. Quando o verdadeiro artista e, quando digo artista, digo no contexto dos que exercem a arte como profissão, os verdadeiros escritores, atores, arquitetos, cineastas, músicos, dançarinos… Aqueles cuja personalidade possa ser um tanto zangada, estes sim estão verdadeiramente em busca de um método político coerente e humanista. Não há como, em sã consciência ser um artista feliz enquanto vivermos numa sociedade doente e desigual. Se o artista que você conhece é feliz, então ele não é um artista verdadeiro. O Red é um estrategista, um arquiteto, um pássaro inconformado e em busca da verdade, porque foi a partir de questionamentos e insatisfações que ele descobriu as más intenções e tentativas de domínios de espécies ditas mais evoluídas que as dele. Red ganhou a disputa contra os porcos através da união de sua espécie a seu favor e conseguiu esclarecer a todos de que ser um tanto zangado é um tanto vantajoso.

CabralOscar Pereira da Silva, “Desembarque de Cabral”, 1922