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Domos

Domos, do latim domus que derivou as palavras: dom, domicílio, doméstico, domificar, ou dividir em cúpulas (casas) é o tema do texto, cuja imagem foi extraída do Instagram de uma amiga das antigas, residente há mais de 10 anos na Alemanha, Lorena Ribeiro (@lores1810).

Lorena visitou o Museu da Ciência, Klimahaus Bremerharen e registrou a instalação do artista Michael Pinsky, que consiste em 5 cúpulas geodésicas construídas para a apreciação do espectador aos ares de 5 grandes metrópoles mundiais e a comparação da poluição existente em cada uma delas. O gráfico e o próprio odor oferecido em cada cúpula comprova as diferenças e perigos da poluição para a saúde. A mostra é itinerante, sua estréia foi em Londres, no mês de Abril e tem como principal meta conscientizar a humanidade dos riscos que corremos, como demostrou outro recente gráfico, na Revista National Geographic, do mês de Outubro, na matéria, “O mundo respira mal”. O site specific da mostra Pollution Pods, construído em domos geodésicos foi estratégico e ao mesmo tempo futurístico permitindo ao espectador espaço e maior mobilidade, visto que não há pilastras ou vigas na estrutura interna da instalação.

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Pollution Pods, em Londres, Abril/2018. Via Google

Esse tipo de construção nos remete imediatamente aos filmes de ficção científica, espaços astronômicos, ou de entretenimento e arte, como o Epcot Center, nas instalações do Walt Disney, nas obras de arte do artista Olafur Eliasson e de Matheu Barney, no Instituto Inhotim e mais ainda, do icônico Pavilhão norte-americano, em Montreal, do “pai” dos domos geodésicos, Buckminster Fuller. Fuller fundou a ideia estrutural dos domos estabelecendo um padrão, ordem e equilíbrio entre eles para uma criação arquitetônica leve de parâmetros igualitários e sinergéticos.

Fato ou mito, a história de vida do arquiteto norte-americano se funde à pesquisa futurística entre o arrojado estudo de estruturas geométricas harmônicas e acontecimentos intrigantes de sua trajetória, como sua expulsão de uma das mais aclamadas instituições acadêmicas, a Harvard e mais tarde, a trágica morte de sua filha. Se fizer sentido ou não, é certo que este arquiteto-inventor deixou um grande legado de pesquisa para as próximas gerações, alegando sempre a importância de se estabelecer equilíbrio e unidade entre arquitetura e sociedade.

Tão interligado ao nome, a invenção do domus beneficiou a estética e promoveu à ciência, à arquitetura e à arte uma nova estrutura de convivência, fazendo jus ao seu significado. Por essas e outras é que temos de admitir, assim como pensava Fuller e tantos outros, que “a natureza sempre será a maior fonte de inspiração para os homens”.

Que possamos respirar o ar puro que existe em cada canto, em cada lar, em cada domos do mundo!

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Pollution Pods, na Alemanha, Novembro/2018. Via @lores1810

Obrigado

“OBRIGADO @japanhousesp por existir na minha vida, por trazer coisas incríveis da cultura que mudou meu jeito de ver o mundo. O Japão me mostrou o quanto ainda sou superficial na visão das coisas e o quanto podemos evoluir. Essas duas exposições que tão rolando lá, tão surreal: trabalhos do @nonotakstudio e da @anrealage_official um sopro de inovação e avanço em tempos de retrocessos e pensamentos limitados ao mundano”.

Essa é a mensagem de gratidão do artista multimídia, Flavio Samelo, que expressa bem a soberania de requinte e disciplina que esta cultura oriental tem para nos ensinar. A atmosfera de luxo, sofisticação e engajamento que paira sobre a Japan House, inaugurada o ano passado na Avenida Paulista é um arrojado prédio de três andares com atrações gratuitas voltadas à arte, gastronomia e tecnologia. O Brasil é o terceiro país a abrigar a unidade do projeto desenvolvido pelo governo japonês na Inglaterra e nos EUA.

Construído pela comunidade japonesa em São Paulo, a Japan House, Centro Cultural dedicado à cultura nipônica conta ainda com um café e um restaurante japonês do chef Jun Sakamoto. O Centro Cultural abriga uma biblioteca dedicada à um acervo que vai da culinária à arquitetura, além de receber eventos como degustação de chás, gastronomia e arte contemporânea.

Ali é, sem dúvida, um verdadeiro oásis cultural! Experimentar sensações japonesas no território brasileiro usufruindo de mostras de arte gratuitas vindas exclusivamente para serem montadas para a Casa do Japão é uma miragem nos dias de hoje! O agradecido artista paulista, Flavio Samelo registrou sua interação num dos sites specifics (obras idealizadas para um ambiente e lugar determinado), do duo NONOTAK (@nonotakstudio). Fundado em 2011 pelo arquiteto e músico japonês Takami Nakamoto e a ilustradora Noemi Schipfer, se destacam em apresentações, instalações e performances subvertendo noções de tecnologia e arquitetura utilizando um viés poético e inovador.

A instalação imersiva fotografada por Samelo é a “Daydream V.5 Infinite”. Feita com projeção a laser, espelhos e sonorização, que dialogam com a sensação de infinito e geram distorções espaciais acabando por estabelecer uma conexão física entre o espaço real e o espaço virtual. Dentro dela, o espectador é convidado a viver um distanciamento da realidade, considerando que raios de luz são usados para gerar espaços abstratos, enquanto o som cria os ecos do espaço virtual.

Essa experiência é uma prova de que somos capazes de desenvolver os sentidos e refiná-los numa proporção cada vez mais aguçada, assim como a impressionante disciplina de criação dos japoneses. Se nosso país foi um dos três a ser escolhido para que uma Casa dessas se idealizasse é porque somos bonitos por natureza e capazes de absorver as qualidades de uma cultura que só tem a nos acrescentar. Façamos como Flavio Samelo, sejamos gratos pela oportunidade de intercâmbio cultural e mais ainda, sejamos humildes em admitir nossos “retrocessos e pensamentos limitados ao mundano”.

samelo japanVia @flaviosamelo

Filho de Peixe

No extenso currículo do artista paulista, Rubens Vaz Ianelli (1953), dentre tantas premiações, salões, mostras individuais e coletivas uma referência de Otávio Tavares Araújo, de 2003, no catálogo “Quantas Cidades”, me chamou atenção. O título “Filho de peixe (e sobrinho),… peixinho é” sugere a origem do artista, que é filho de Arcanjo Ianelli e sobrinho de Tómaz Ianelli, ambos renomados artistas no circuito nacional e internacional. A árdua missão de continuidade do dom hereditário ficou a cargo de Rubens, que sempre se engajou no conhecimento das culturas indígenas e africana, na natureza brasileira e principalmente, na técnica arrojada de suas pinturas, em traços geométricos que transitam entre o imaginário de desenhos tribais, das paisagens urbanas e dos fenômenos naturais.

Rubens Ianelli tem uma curiosa trajetória e ao mesmo tempo uma modéstia refinada de quem nasceu para ser um peixinho talentoso. Nos anos 80 inicia os estudos na Medicina e aprofunda na área de saúde pública aceitando o convite do Ministério da Saúde para ajudar na implantação dos distritos sanitários indígenas no Acre, onde permaneceu no cargo até o ano 2000. Daí se dedica à pesquisa de etnias e na valorização do nosso patrimônio cultural e nacional.

Rubens adota uma multiplicidade de suportes para o seu trabalho como na pintura à óleo, no carvão, no desenho à caneta, na escultura de bronze, nos objetos de vergalhão de ferro e, o mais recente deles, a cerâmica. Ele acaba de terminar uma minuciosa pintura num grande painel de azulejos que foi adquirido para o hall do Seasons Four Hotel, em São Paulo.

A geometria presente, a paleta de cores, que cuidadosamente clareia e escurece com naturalidade, projeta a pintura com uma inacreditável perspectiva, mesmo não fazendo o uso objetivo do desenho técnico ou do jogo entre luz e sombra, mas sim uma sutil sensação de ilusão d’ótica entre suas formas e tons. A pesquisa de Rubens transforma-se orgânica quando estabelece um diálogo da figuração com a geometria na liberdade de traços planejados dando uma profundidade ao resultado final da obra.

Rubens faz jus ao sobrenome que leva, encarando seu destino de ser literalmente, um Cientista da Arte revelando a intensidade das cores que ele identifica na natureza e na interferência do homem nela, assim como também fizeram seus ‘antepassados’.

As obras de Rubens Ianelli fazem parte do nosso acervo desde 2012, visite nossa: GALERIA DE FOTOS

Rubens IanelliPainel de azulejo no Seasons Four Hotel, em São Paulo

Mito

Há uma bela e trágica história na mitologia grega sobre um titã que desobedeceu Zeus para agraciar os humanos. Para quem sabe da trama e suas conseqüências fica fácil identificar a moral da história, mas quem não sabe ou não lembra, tentarei fazer um breve resumo.

Prometeu, um destemido titã em companhia de outros Deuses presenciou a distribuição de talentos à todos os animais do planeta. Os humanos, em especial foram moldados em barro e receberam o sopro sagrado de Atena.  Prometeu se fascinou pela nossa espécie e um elo afetivo os uniria para sempre. A aliança eterna desta relação seria o fogo. A contragosto de Zeus, Prometeu agraciaria os homens com o elemento da luz, quando enfim, prosperariam iluminando um futuro de desenvolvimento e progresso. Mas isso causou muitas competições, guerras, intrigas, ódio e inveja. Zeus puniu severamente a desobediência de Prometeu o castigando com uma terrível tortura. Durante o dia uma águia lhe comeria o fígado e durante a noite o órgão tornaria a regenerar e assim, sucessivamente. Por anos o sofrimento se repetiria até que Hércules mataria a águia e se substituiria no lugar do titã, o centauro, Quíron. O sentimento de desejo de Prometeu pelos homens foi o principal responsável por sua desagradável desobediência. Sua irresponsabilidade em roubar o fogo de Zeus teve uma gravíssima conseqüência.

Os humanos por sua vez também foram castigados pelos seus próprios erros. Eles espalhariam o fogo pelas matas, museus e bibliotecas, pelos canais de comunicação ateariam as faíscas através das cenas de violência, do aculturamento social, do fanatismo religioso e da exacerbada sexualidade explícita. Convém dizer que os humanos foram e continuaram sendo coniventes aos seus erros adorando a bunda nua que rebola na TV, a música xucra de refrões repetitivos e alienantes, as desinformações diárias e os beijos “laicos” das novelas. O homem vive em busca mesmo é do fogo, da guerra, da discórdia e do poder.

Mas Zeus não foi o único a sofrer com a desobediência. O Cristianismo conta a história de Lúcifer, um anjo, que por ciúmes da relação de Deus com nós mortais, o desobedeceu e foi expulso do Céu para arder no fogo do Inferno. Há quem relacione o titã Prometeu ao anjo Lúcifer, cujo significado é aquele que traz a luz. Essas entidades icônicas da literatura da Humanidade se assemelham e se correlacionam por causa da força do fogo inspirando temas para reflexões sobre o comportamento humano. O mito Prometheus, do grego o que possui antevisão, reascende o presságio do caos, da fúria, dos conflitos, dos castigos. Desde a antiguidade artistas retratam as cenas da mitologia pintando, esculpindo, desenhando, moldando.

Uma curiosa escultura do titã, Prometheus, do artista art décô Paul Manship (1934), está localizada na frente do Rockfeller Center, um dos principais centros turísticos de Nova Iorque, que leva o nome da família mais tradicional dos negócios financeiros do mundo. Há quem diga que este é um dos maiores símbolos dos Iluminates, uma teoria da conspiração que elege uma Nova Ordem Mundial para apoiar a seletiva supremacia de certos indivíduos.

Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte, isso veremos, identificando seus mistérios e avisos. O mito que conduzirá a nossa espécie para um objetivo justo e decente será aquele que souber a diferença entre o fogo que ilumina daquele que queima!

prometeu-pratoTaça espartana de cerca de 550 a.C. Via Google

Valente

Meu primeiro contato visual com a mitologia yorubá foi através das fotografias do francês Pierre Verger (1902 -1996), que viajou por vários países da África expandindo o seu conhecimento, registrando a cultura africana e seus vários desdobramentos e ainda mais, quando desembarcou  no Brasil. As vestimentas, os assessórios e as ferramentas de cada orixá estampando as fotos preto e branco do francês são certificados de sua formação como etnólogo e também importante hierarquia do Candomblé intitulado como Fatumbi, o sacerdote de Ifá. A curiosidade do tema me despertou a partir daquelas impactantes imagens que a priori tem um ar primitivo, teatral e exótico, mas intimamente nos soa algo muito familiar.

A história da mitologia yorubá está intrínseca à Natureza e os seus fenômenos. Os orixás, os deuses africanos são entidades providas de escudos protetores, lanças, instrumentos mágicos, simbologias místicas e rituais litúrgicos que transformam as cerimônias em verdadeiras festas religiosas, cheia de dança e música que ecoa da tríade de atabaques.

Um artista muitíssimo cotado no mercado atualmente, que deixou uma preciosa produção artística sobre esta manifestação africana foi o baiano Rubem Valentim (1922-1991). Valentim foi um dos percursores da renovação das artes plásticas baiana, num momento onde se firmava a identidade mestiça da nação abraçando sempre a matriz africana. Embora a marginalização das diversas manifestações afrodescendentes ocorresse pela constante repressão da burguesia brasileira, artistas como o argentino, Carybé, os baianos Rubem Valentim, Carlos Bastos e Mário Cravo Júnior apostaram na pesquisa da cultura africana com lealdade e compromisso. Valentim também foi um sacerdote de ifá, isto é um valente vidente, sábio porta-voz do destino da cultura, um legítimo artista do saber. Todo seu trabalho é baseado na geometria dos elementos do candomblé, as lanças, as armas, as proteções, os escudos, os patuás. Valentim aliou a religiosidade à Arte com maestria e coerência. Trabalhou com ardor na pesquisa de composição das cores, que também é destaque e preferência de cada orixá. Sintetizou uma linguagem única e inconfundível em sua obra. Soube valorizar o patrimônio mais precioso que temos: as nossas raízes. A África ainda é o berço da Humanidade (até que o Criacionismo prove o contrário). Lá nasceu a Mama que atravessou o continente e deixou seus restos em terras americanas, onde até pouco tempo o crânio de Luzia, com mais de 11 mil anos se encontrava exposto, no finado Museu Nacional. Reconhecer nossa origem e saber valorizá-la é para valentes como o baiano Rubem Valentim.

No início do mês foi inaugurada a mostra “Rubem Valentim – Construção e Fé”, com curadoria de Marcus Lontra, na Caixa Cultural de São Paulo. Vale a visita! Finalizo o texto com a imagem do nosso cartão virtual de felicitações de Ano Novo 2018, com obra da série “Emblema” 89/90. Axé! Saravá! Paranauê, camará! Link para ver a mostra: “Construção e Fé”

2018

ton sur ton


Histórias acerca do artista paulista, Eduardo Srur contam que uma de suas extravagantes ideias era a de reunir um montante de milhares de ratos e soltá-los no horário de rush no metrô de São Paulo. O Ministério da Saúde teria barrado o projeto, pois isso poderia causar um surto de pânico nos passageiros.  O artista alegaria a favor de seu projeto a justificativa de que só porque não vemos os ratos, não significa que eles não existam naquele local. A obra foi concretizada no objeto interventivo “Farol”, em 2013, que foi instalado no centro histórico da Capital e é composta de material metálico, madeira, acrílico, 20 mil ratos de plástico e graxa.  Srur tem sua pesquisa calcada nos problemas ambientais de sua cidade, cuja poluição é o principal foco de seu trabalho. Num levantamento estatístico da época, o número de ratos ultrapassaria a marca de 170 milhões, uma média de 15 ratos por habitante. A escolha pelo local da instalação da obra também foi proposital, o Vale do Anhangabaú, significa em tupi-guarani “rio dos malefícios do diabo”, onde os índios acreditavam que suas águas provocavam doenças físicas e mentais. O nome da obra nos direciona a reflexão sob a luz da filosofia e as leis herméticas: “tudo que está em cima é como o que está embaixo”. A super população de ratos é consequência do descuido do sistema e dos cidadãos com o meio ambiente. Comemos, procriamos e sujamos tal qual ou mais ainda que os ratos. Tornamos agradável, aparentemente os lugares que frequentamos, mas pisamos sob o chão de uma infinita galeria de esgotos existente no subterrâneo das metrópoles.

O poético vídeo da atriz Vera Holtz, “Camundongos”, postado recentemente no seu Instagram, sublima a coexistência vital entre os seres, mas nos incomoda com a presença de inúmeros camundongos em movimento tocando seus braços. Num abraço terno da atriz que os observa com delicadeza, pena e zelo, a proposta ganha harmonia, estética e leveza, quando observada racionalmente. Vera Holtz tem uma poética visual única, autentica e interligada com sua profissão. Ela atua em seus vídeos como uma performance encarnando o personagem do tema de sua obra. Ela está atenta ao momento e demonstra a cada publicação seu compromisso com a Arte, com a sociedade e seus princípios. A ideia dos camundongos foi proposital ao momento atual que, embora parece repulsivo à primeira vista por impulso emocional, é suave num ton sur ton do cenário, com o tampo de mármore da mesa, a cor branca dos ratos e dos longos cabelos da atriz.

Estamos todos conectados mesmo que nos repulsando, discordando, odiando. Somos uma unidade, uma sociedade organizada que produz, reproduz, cria e procria. O excesso ou escassez desse processo vital é o que desequilibra o sistema. Quem nos diz isso primeiro são os artistas e depois as estatísticas. O protesto-arte de Holtz e Srur são provas disso, assim como também já cantou nosso poeta Cazuza em “O tempo não pára”. E que a Arte siga cantando, pintando e mostrando o quanto a vida pode ser grande em cima ou em baixo, ton sur ton na medida certa!

Eles sãos

A impecável série da Netflix “The Crown” traz um ousado ponto de vista sobre a monarquia britânica e abala nossas opiniões acerca da moral, ética e conservadorismo, colocando em prática a máxima social “isso também acontece nas melhores famílias”. O “isso” é tudo isso mesmo: traições, homossexualismo, crimes políticos, escândalos morais e toda sorte de acontecimentos que nos prende do início ao fim da série. Numa dentre tantas outras primorosas cenas de audiência particular com a Rainha, se estabelece um diálogo a respeito do então Primeiro-Ministro, Wintson Churchill (1874-1965), quanto suas práticas de guerra contra o monstruoso Nazismo (ou o sistema de controle de natalidade a favor da raça ariana). O diálogo se resumiria na qualidade de homens como Churchill e Adolph Hitler (1889-1945), que ao se digladiarem na IIª Guerra Mundial tomariam ao certo as mesmas decisões genocidas que fossem necessárias para ganhar. O nobre e grande estrategista inglês, preparado desde cedo para assumir importantes missões como esta, Churchill, sai vitorioso da guerra independente de qual teria sido sua decisão final.

Seu respaldo histórico na política monárquica o condecoraria mais tarde, com um retrato encomendado pelo Parlamento, do sombrio artista Graham Suterland. Aos 80 anos enfim, aposentaria da vida política homenageado com o pronunciamento e a entrega da obra encomendada para a ocasião. A contratação do artista foi providencial ou proposital, pois ele captaria a penúria e penumbra do líder conservador que se ofenderia de tal forma a declarar publicamente sua recusa pela obra. Após dois anos de sua morte, a esposa Clementine Spencer-Churchill, queimaria o retrato num ato, dito pelo autor da obra, de vandalismo.

Os fatos da História da Humanidade recebem várias versões e consequentemente desfechos previstos ou não, mas podemos crer que a verdade encontra só um resultado, o bem vence acima de tudo. Wintson Churchill pode lá não ter sido um santo, o salvador da pátria que todos gostariam de pintar, poderia ao menos ter se ausentado da vida política aos 76 anos (ou até antes), idade que decidiu retomar suas atividades parlamentares, poderia ter sido um pouco menos gordo carrancudo e beberrão de whisky, entretanto, no fim das contas, por incrível que pareça, ele conseguiu por em prática o modelo comunista (ou humanista), cuja atitude de seu adversário foi exatamente a oposta.

Em “The Crown” há o sério argumento que o Ministro seria o único a conseguir combater as forças do Frührer, porque tal qual o ditador alemão, o nobre britânico teria a tão monstruosa capacidade estrategista para derrota-lo. Dois grandes líderes totalitaristas. Eles foram sãos em seus ideais, um: na tentativa de exterminar toda uma “raça inferior”, o outro: na tentativa de conter um tanque de guerra desgovernado.

Quem hoje conta os fatos é a História e as Artes e só aprende quem estuda, pesquisa e adquire sensibilidade daquilo que interpretou (se é que interpretou). Embora Hitler tivesse comovido toda uma nação tilintando os dentes e batendo forte os pés no chão, Churchill sensibilizou o mundo ganhando o Prêmio Nobel da Literatura, em 1953 e sendo eleito, em 2002, pela BBC como o maior britânico de todos os tempos.

Saibamos interpretar a História e seus sinais. A vida é um ciclo vicioso e estamos prestes a retroceder tanto de um lado quanto de outro. Evitemos expectativas, façamos por nós mesmos, para o nosso bem. Ou melhor, para o bem de todos que querem o bem, pois a luz e a sombra podem coabitar juntas na mesma intensidade.

churchillCena da série “The Crown”, o ator Stephen Dillane, interpretando o artista Graham Suterland e o ator John Lighgow, no papel de Wintson Churchill.

Loucura e Ódio

“Há formas de loucura que a razão não pode conter. E há formas de ódio que a razão não pode conter”. Contardo Calligaris

Em tempos de loucura e ódio melhor andar bem informado sobre Cultura. Fiquem ligados ao próximo 12 de Outubro, dia das crianças, o cineasta-artista russo Ilka Khyzhanosky nos presenteará com uma ideia divertida como aquela experiência de ir ao circo e conhecer o sinistro palhaço engraçado. O Projeto DAU, do cineasta premiado é bem propício para a atual conjuntura mundial e sua ousada atitude gerou grande polêmica sobre o adormecido nazismo na Alemanha. A proposta de Kyzhanosky é resgatar o tempo de totalitarismo construindo novamente uma parte do Muro de Berlim para demostrar aos espectadores o que foi o clima de tensão da IIª Guerra. Mas não se assuste, o artista preparou uma programação cultural para quem quiser se arriscar passar pela fronteira alemã. Espetáculos, apresentações e filmes serão exibidos durante o evento que finalizará com a queda do Muro como está registrado na História. A ideia é tão pertinente que uma manchete deste mês sobre um vídeo postado pela Embaixada Alemã conscientizando a população sobre o Holocausto foi contestada por brasileiros que alegavam certos pontos de vista bem errôneos. Num dos comentários um compatriota (professor) tenta redimir o erro dos demais: “A quantidade de negacionistas do Holocausto só nessa postagem é nosso atestado de falência educacional”. A Embaixada Alemã ainda se dá ao trabalho de explicar aos indivíduos mal informados que “quem é contra o nazismo não é de esquerda, é normal”. (via O Globo 25/09/2018).

Artistas que se entregam à uma pesquisa sócio emocional colhem os frutos da sabedoria, pois uma obra de arte é sempre um prenúncio, um alerta, um diagnóstico da sociedade. Se por lá na Alemanha eles sentem uma nova tentativa de retomada dos “neoloucos”, nos EUA os movimentos de retrocesso ideológico de superioridade de raça vigoram em grupos como Kun Klux Klan. Na China, senão por raça, mas por um conservadorismo radical, o artista Ai WeiWei foi exilado de sua terra natal por insistir em denunciar a política totalitária vigente de ávidos ditadores chineses.

Realmente beiramos a volta da Idade das Trevas, talvez por uma maior consequência do Capitalismo ou a falta de autoconhecimento e das nossas reais necessidades emocionais. Vivemos numa constante busca material que nunca preenche a espiritual. Um olhar para a verdadeira Arte nos aproxima, nos educa, nos questiona, nos alerta o quão fundo podemos chegar por ganância, pela falta de humanidade e o excesso de luxuria. Finalizarei o texto com essa imagem assustadora das hélices do navio mais famoso da História, que por obra da Natureza sofreu uma grande tragédia comprovando o quanto a vaidade, o orgulho e a falta de equilíbrio emocional podem afundar um grande empreendimento coletivo. Cuidemos para nos lembrar que não estamos sozinhos, vivemos em sociedade, somos tripulantes no mesmo planeta e a jornada da vida deve ser vivida em coletividade, harmonia e paz, senão acabamos por morrer afogados em nossa própria loucura e ódio.

bildergalerie titanicHélices do Titanic 1912, via Bildergalerie Titanic

Mulata

“Di Cavalcanti pintou muitas mulheres negras, frequentemente erotizadas através de blusas decotadas, seios delineados, olhares sedutores e nomeadas genericamente ‘mulatas’ – termo de origem racista que reitegra a objetificação e o apagamento das personagens retratadas. Num contexto em que a ‘mestiçagem’ foi eleita como símbolo nacional o pintor participou da criação de um imaginário para a mulher negra que, embora ganhasse representatividade era reduzida à sua sensualidade. ‘Mulata/Mujer’, de 1952 destoa desta imagem estereotipada. Aqui a mulher tem um semblante seguro, sua postura firme, de um olhar altivo. Vemos seus braços, mãos, pescoço e rosto negros, mas não seu colo. De saia branca ela porta uma camisa com delicados motivos de folhagem sobre um fundo colorido compondo uma espécie de pintura dentro da própria pintura, no estilo tipicamente tardio de Di Cavalcanti nos anos de 1950.”

O texto descrito, publicado no Instagram do @masp_oficial é de Guilherme Guifrida e deixa bem claro seu ponto de vista histórico sobre a trajetória do artista e as mudanças socioculturais do país. Há uma passagem no livro de Gilberto Freire, em Sobrados e Mocambos onde o sociólogo ressalta que com a urbanização das cidades o distanciamento entre brancos das Casas-Grandes e os negros, das Senzalas relativamente diminui com a aproximação dos brancos dos Sobrados e os negros, caboclos e pardos livres dos Mocambos. A relação entre os opostos se daria por “aptidões artísticas”, ou “intelectual extraordinário” ou ainda “qualidades de atração sexual”, que seriam as causas da miscigenação e ascensão social das classes menos privilegiadas.

A “mulata” dos tempos da escravidão e do início do século XIX não seria mais que um objeto sexual para os seus Senhores ou a reprodutora oficial de mais escravos para as monoculturas deste período. As mudanças políticas, econômicas e culturais transformariam a sociedade e delineariam um novo trajeto da miscigenação brasileira. Também no livro há curiosas descrições de ricas donzelas prometidas que fugiram de seus casamentos para se apaziguar com “mulatos” fortes e inteligentes.

Tal qual como descrito em artigo anterior, é chegado o momento de privilegiar os olhares dos verdadeiros artistas, dos altruístas e principalmente, das mulheres sensatas. Mulheres que se posicionam com um “olhar altivo”, uma “postura firme”, uma roupa apropriada, uma atitude coerente e sensível. Deveríamos estar em busca de mais sensibilidade ao invés de sexualidade, de mais humanidade ao invés de brutalidade. O fanatismo religioso, o falso zen-budismo e outras formas de dominação psíquica limitam os sentidos, as nossas verdadeiras emoções. A verdadeira Arte associada à Sociologia e à História proporciona um olhar mais humano, mais coerente da nossa sociedade. Que todas as mulatas do Brasil se inspirem na qualidade distinta e altiva da “Mulata/Mujer”, de Di Cavalcanti, que sejam sensatas com seus pais, com seu marido (namorado ou namorada), filhos e netos, pois elas são o berço materno do carinho e da sororidade do futuro do país.

mulataDi Cavalcanti, “Mulata/Mujer”, 1952, via Pinterest

Medo

“É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam por fazer o que não presta. Mas é sem querer. É só por medo. Medo de muitas coisas: do sofrimento, da solidão e no fundo de tudo, medo da morte.” (Auto da Compadecida – Ariano Suassuna)

Dito isso enumeremos questões relevantes que amedrontam a sociedade recentemente tais como: quem matou Mariele, o que incendiou o Museu Nacional, quem esfaqueou o candidato à Presidência da República? O medo. Sim, esse Bicho Papão que nos ronda desde pequenininhos. O monstro que destila a dúvida, o conflito e a escuridão. E que ironia da vida, a Filosofia nos ensina que o medo tem seu lugar ao Sol.  Ele nos guarda das extravagâncias da carne e das injurias da alma. Limita-nos daquelas atitudes insanas, nos puxa para traz diante de um abismo, nos lembra de trancarmos a porta de casa. É o medo que controla e descontrola nossos sentidos e quanto maior a nossa falta de sensibilidade, maior os nossos medos.

Não por acaso, quase que simultaneamente, importantes instituições de arte do país abrem mostras pertinentes sobre assuntos relevantes que estão em evidência. A Pinacoteca de São Paulo está com a mostra “Mulheres Radicais”, o MASP – Museu de Arte de São Paulo, elucida a brasilidade com “Histórias Afro-Atlânticas”, o Instituto Tomie Ohtake abre a “AI – 5 : 50 anos, ainda não terminou de acabar”, o MAR – Museu de Arte do Rio expõe a coletiva “Arte Democracia – UTOPIA, quem não luta tá morto”, no Parque Lage (RJ) a comentadíssima “QueerMuseum” e bem aqui pertinho, no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil DF, “Ex-África”. Assuntos em voga como diversidade, etnias, feminismos e ecologia, tudo ao mesmo tempo agora. A 33ª Bienal Internacional de São Paulo, a maior e mais importante mostra de arte contemporânea do país apresenta “Afinidades Afetivas”, que busca um modelo alternativo ao uso de temáticas privilegiando o olhar do artista sobre seus próprios contextos criativos. Vivenciamos um momento de tensão onde realmente deveríamos privilegiar o olhar dos verdadeiros artistas, das mulheres sensatas e dos altruístas.

Num desconfortável episódio no mês de Junho, a primeira-dama Melanie Trump, em visita a um abrigo de imigrantes, cujas crianças estavam separadas dos pais, decidiu usar um modelito inconveniente com os dizeres: “I really don’t care” (Eu realmente não me importo). Felizmente o mal feito teve uma resposta acima da desastrosa atitude da Mrs Trump. Jill, a Mrs Vedder, esposa do vocalista da conceituada banda Pearl Jam, apareceu logo em seguida no show do marido, em Londres trajando uma jaqueta com os escritos: “Yes, we all care about. Y – Don’t u?” (Sim, todos nós nos importamos. Vocês não?.)

Isso talvez comprove que a incoerência não está relacionada a quantidade de riqueza ou pobreza, em ser homem ou mulher, em ser branco ou negro, mas na falta de sensibilidade. A verdadeira arte alimenta os bons sentimentos, nos une e nos torna mais humanos. O excesso de medo alimenta preconceitos e ganâncias que inibem a nossa sensibilidade. Mas o medo também vira a chave da fechadura da porta de nossa casa, nos protege. Saibamos sentir o medo com moderação e o manifestar com sapiência em momentos críticos e de tensão. Afinal, quem não tem um pouco de medo do lobo mal?

“Let’s take it easy, let’s take it slow!” (Bob Marley)

pearl jamJill McCormick em Londres, no show da banda Pearl Jam. Via Twitter @PearlJam