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Medo

“É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam por fazer o que não presta. Mas é sem querer. É só por medo. Medo de muitas coisas: do sofrimento, da solidão e no fundo de tudo, medo da morte.” (Auto da Compadecida – Ariano Suassuna)

Dito isso enumeremos questões relevantes que amedrontam a sociedade recentemente tais como: quem matou Mariele, o que incendiou o Museu Nacional, quem esfaqueou o candidato à Presidência da República? O medo. Sim, esse Bicho Papão que nos ronda desde pequenininhos. O monstro que destila a dúvida, o conflito e a escuridão. E que ironia da vida, a Filosofia nos ensina que o medo tem seu lugar ao Sol.  Ele nos guarda das extravagâncias da carne e das injurias da alma. Limita-nos daquelas atitudes insanas, nos puxa para traz diante de um abismo, nos lembra de trancarmos a porta de casa. É o medo que controla e descontrola nossos sentidos e quanto maior a nossa falta de sensibilidade, maior os nossos medos.

Não por acaso, quase que simultaneamente, importantes instituições de arte do país abrem mostras pertinentes sobre assuntos relevantes que estão em evidência. A Pinacoteca de São Paulo está com a mostra “Mulheres Radicais”, o MASP – Museu de Arte de São Paulo, elucida a brasilidade com “Histórias Afro-Atlânticas”, o Instituto Tomie Ohtake abre a “AI – 5 : 50 anos, ainda não terminou de acabar”, o MAR – Museu de Arte do Rio expõe a coletiva “Arte Democracia – UTOPIA, quem não luta tá morto”, no Parque Lage (RJ) a comentadíssima “QueerMuseum” e bem aqui pertinho, no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil DF, “Ex-África”. Assuntos em voga como diversidade, etnias, feminismos e ecologia, tudo ao mesmo tempo agora. A 33ª Bienal Internacional de São Paulo, a maior e mais importante mostra de arte contemporânea do país apresenta “Afinidades Afetivas”, que busca um modelo alternativo ao uso de temáticas privilegiando o olhar do artista sobre seus próprios contextos criativos. Vivenciamos um momento de tensão onde realmente deveríamos privilegiar o olhar dos verdadeiros artistas, das mulheres sensatas e dos altruístas.

Num desconfortável episódio no mês de Junho, a primeira-dama Melanie Trump, em visita a um abrigo de imigrantes, cujas crianças estavam separadas dos pais, decidiu usar um modelito inconveniente com os dizeres: “I really don’t care” (Eu realmente não me importo). Felizmente o mal feito teve uma resposta acima da desastrosa atitude da Mrs Trump. Jill, a Mrs Vedder, esposa do vocalista da conceituada banda Pearl Jam, apareceu logo em seguida no show do marido, em Londres trajando uma jaqueta com os escritos: “Yes, we all care about. Y – Don’t u?” (Sim, todos nós nos importamos. Vocês não?.)

Isso talvez comprove que a incoerência não está relacionada a quantidade de riqueza ou pobreza, em ser homem ou mulher, em ser branco ou negro, mas na falta de sensibilidade. A verdadeira arte alimenta os bons sentimentos, nos une e nos torna mais humanos. O excesso de medo alimenta preconceitos e ganâncias que inibem a nossa sensibilidade. Mas o medo também vira a chave da fechadura da porta de nossa casa, nos protege. Saibamos sentir o medo com moderação e o manifestar com sapiência em momentos críticos e de tensão. Afinal, quem não tem um pouco de medo do lobo mal?

“Let’s take it easy, let’s take it slow!” (Bob Marley)

pearl jamJill McCormick em Londres, no show da banda Pearl Jam. Via Twitter @PearlJam

Legitimidade

Pensando sobre a legitimidade do trabalho uma obra de arte me vem à cabeça e através dela todo discurso multidisciplinar do comportamento ético em sociedade e o atual momento cultural. A arte do carioca Ernesto Neto aponta para diretrizes humanistas, ecológicas e espirituais confirmando nossa incansável busca pelo autoconhecimento e a preservação de nossos bens culturais.

A obra-instalação “Gaia Mother Tree” foi projetada para o átrio de um metrô, em  Zurique e teve como mote o deleite à saúde mental, física e espiritual. A obra ganha estética de uma gigantesca árvore, que é suspendida no ar e “gerada” através de inúmeros nós produzidos artesanalmente por etnias da região amazônica. Erguidas no generoso vão, ela se transforma num espaço de paz e repouso promovendo ao espectador um momento de reflexão e meditação. Gaia é uma deusa grega, que na mitologia romana é denominada Terra, Deusa da Fertilidade. Ernesto Neto se aprofunda principalmente na mitologia indígena desenvolvendo argumentos que legitimam sua pesquisa.  Absorve da cultura nacional elementos descritos em lendas, saberes e fazeres manuais e os rituais litúrgicos, que mantinham os primeiros habitantes do nosso continente ligados intimamente à Natureza.  O artista investiga a cultura brasileira e nos presenteia com uma obra contemporânea interativa, bela e contemplativa. “A obra de arte é um poema”, recita Ernesto Neto sobre esse projeto patrocinado pela Fundação Beyeler, em Julho deste ano.  Cada nó é uma etapa adiante para uma grande árvore se erguer.  Em analogia, tal qual a árvore genealógica, a família tende a se erguer em comunhão, num mesmo ritmo, numa mesma realidade, respeitando sempre sua genética, seus nós, suas raízes, sua fonte original.

A legitimidade do trabalho do artista é sua pesquisa antropológica, sociológica e histórica. Sua obra é condizente à verdade e fiel à proposta humanista de sensibilizar mais o espectador que a contempla e entende a proposta. Numa época de tantas cópias baratas, superficialidades, mentiras, difamações e fake artists, nos depararmos com a “Mãe Terra” é uma grande responsabilidade. Afinal, quem somos? Onde nos encaixamos na árvore genealógica da vida? Somos índios, descendentes deles? Ou pardos, loiros, morenos, mulatos, mamelucos, caboclos, crioulos, cafuzos, caipiras? Somos insignificantes seres em busca de aprimoramento, de amadurecimento espiritual, físico e mental. Somos apenas pequenos nós em busca de legitimidade!

ernestoErnesto Neto, “Gaia Mother Tree”, 2018, Zurique, Suíça. Via Trover

Relatividade

Os grandes gênios, pensadores, cientistas e filósofos deixaram e deixarão um legado para as próximas gerações refutarem, repensarem e refletirem constantemente e ainda sim, terem dúvidas sobre suas conclusões. Não por menos sermos agradecidos ao “or concur” Albert Einstein por ter nos presenteado com a Lei da Relatividade. “Tudo é relativo dependendo do referencial”.

Por exemplo, se você é a favor da monogamia, mas mora na Arábia Saudita e se casa com um sheik, pode ir fazendo o favor de mudar de ideia. Algumas tribos africanas também praticam a poligamia com naturalidade. Em certas aldeias indígenas, quando um dos membros era identificado homossexual, o cacique o convocava para ser o Pajé, por sua sensibilidade nata. Noutras aldeias mais selvagens, os homossexuais eram exterminados.  Em entrevista à BBC Brasil, o médico Dráuzio Varela dá seu depoimento à respeito do aborto:

“Se você diz: eu sou contra o aborto. Tudo bem! Por questões religiosas, por quê? Porque a vida começa quando acontece a fecundação. Tudo bem, você como católico ou evangélico pode pensar assim. Mas alguns não pensam. Por exemplo: os judeus acreditam que a vida começa quando a criança nasce”.

Tudo é muito relativo!

O iconoclasta britânico, Samuel Butler (1835 – 1902) ficou famoso por uma sarcástica citação: “Qualquer idiota é capaz de pintar uma tela, mas só um gênio é capaz de vendê-la”.

A filosofia abrange aspectos da natureza humana dos quais aponta uma forte tendência ao aprimoramento através do autoconhecimento. Todos somos artistas, todos somos capazes de criar. No entanto é relativa a qualidade, a ideia, o momento de cada um e de nossa criação.  Muito se questiona a respeito da verdadeira arte, aquela que valorizará com o passar do tempo, aquela que é banida da sociedade na contemporaneidade e creditada bem mais tarde, aquele artista ou poeta que só será valorizado depois de morto. Acompanho polêmicas acerca das personalidades que são indicadas às cadeiras da imortalidade na Academia de Letras. Uma delas, o compositor norte-americano Bob Dylan, que causou um furor internacional, mas não antes, claro, do mago brasileiro, Paulo Coelho e agora o cineasta, Cacá Diegues. Há quem replique contra os ilegíveis escritos de Fernando Henrique Cardoso ou critique o título de imortal a ser dedicado à primeira mulher negra. São episódios da história que marcam um tempo e a relação da sociedade com sua cultura.

O artista chinês Ai Wei Wei, numa performance que o consagrou, quebra uma urna da Dinastia Hans, de 2000 anos, alegando o mesmo ditado do ditador: “Para se construir uma nova cultura deve-se destruir a antiga”. É mais um dado para o artigo do domingo passado sobre o assunto da inclusão da destruição na produção artística como processo de criação.

Por isso, quem sabe, seja tão difícil e relativo apontar verdadeiros artistas, celebridades e gênios no tempo vivente, no momento atual que estejam fazendo a diferença, que estejam saindo da zona de conforto e não entrando nela. Somos arrastados pelas marcas do tempo para cair em si sobre quem somos, onde estamos e para onde vamos.

Butler tem outra pérola, a qual finalizarei o texto para uma breve reflexão dominical:

“O talento não respeita tempo, dificuldade, dinheiro ou pessoas – as quatros coisas para as quais os humanos se voltam persistentemente”.

isto-nao-e-um-cachimboRené Magritte, 1929

Metamorfose

O interessante artigo “Arte e Destruição”, publicado pela Revista DasArtes, do mês de Julho, escrito por Guy Amado, disserta sobre a arte de destruir a produção artística em prol do próprio exercício de criação. O que pareceria um desperdício ou uma loucura do artista atos como rasgar desenhos, queimar telas, jogá-las fora ou obras ao mar, num contexto histórico representaria mais uma forma de manifestação do artista à sua criação. Guy Amado dá exemplos e conta casos “homéricos” de artistas como Paul Cézanne, Willen de Kooning, Jackson Pollock, Juan Miró e outros que sofreram de “surtos” de destruição para, enfim, recomeçarem do zero.

Em entrevista à uma revista de bordo, há alguns anos atrás, a artista carioca Adriana Varejão confessa ter jogado fora uma trabalhosa obra de arte em poliuretano, cujo tempo, material e desgaste físico a absorveram durante meses. Numa boa, a artista analisa sem remorso e concorda que esse desapego também faz parte da criação.

Uma constatação empírica deste ritual foi uma visita, em 1998 ao atelier do artista mineiro Amílcar de Castro, no Centro de Belo Horizonte, onde ele iniciara uma compulsiva produção de desenhos. Numa extensa bancada ele colocou e tirou folhas de papeis A3, após interferir uma a uma. Dos 10 a 15 desenhos que analisara, depois do surto criativo, o artista descartou metade do que fora aprovado. Recordo-me ainda que chegamos a desamassar um deles e lhe pedir a permissão de leva-lo conosco. Amílcar não só autorizou como também assinou o desenho. Um ano depois, em visita ao Instituto Francisco Brennand, a convite da família pernambucana, me encontrei com o mestre das cerâmicas e arrisquei especular o valor de uma de suas peças para adquirir (imagina! eu, uma mera adolescente desprevenida). Talvez por causa da minha ingenuidade, Brennand recolheu do fundo de um de seus intermináveis depósitos uma peça já em desuso, descartada por ele e esquecida empoeirada. Com nenhuma cerimônia, ele bateu por cima para tirar o grosso da poeira e me entregou sem delongas.

A produção artística exige esse exercício do erro, a magia do treinar, o desapego ao descartar e a busca pelo aprimoramento através do recomeço. Um dos maiores encontros de música eletrônica do mundo, o Burnning Man, que seleciona artistas anualmente para executarem gigantescas instalações, principalmente em madeira, tem como objetivo queimá-las em liturgia ao tema do evento, mas também envolvidos dentro do sentimento de desapego e de motivação para recomeçar no próximo evento.

O que promove essa motivação do artista é a busca pela veracidade de sua pesquisa, a liturgia do exercício de criar e recriar para tentar alcançar a perfeição. Como naquela velha opinião de Raul, os artistas vivem mesmo nessa eterna “metamorfose ambulante”! Porque tudo que vive, morre e o morto que está, se transforma.

amilcarAmílcar de Castro via Pinterest

Reflexões e Refutações

Certa vez, ministrando uma palestra para o circuito Rumos Itaú Cultural, em Goiânia, a pesquisadora, curadora e professora Aracy Amaral confessou não existirem mais autores, mas sim, editores. Tudo que imaginamos criar está pronto, atualmente apenas editamos as ideias já concebidas. Num dos poemas do filho de sertanejo com uma baiana, o poeta Wally Salomão, nos deparamos com o verso: “a memória é uma ilha de edição”. Dentro desta concepção um embate com a criatividade e uma nova forma de expressar ideias nasce com propostas editadas a partir das antigas.

Uma inusitada e corajosa expressão artística vem acontecendo e a “editora” é a afro-cubana americana (como ela se auto-nacionaliza) a talentosa, Harmonia Rosales. Rosales se apropria de imagens ícones da História da Arte: The Virtuous Woman (de Leonardo da Vinci, “O Homem Vitruviano”), The Creation of God (de Michelangelo, “A Criação de Adão”), Birth of Oshum (de Sandro Botticelli, “O Nascimento de Vênus”) e as reedita substituindo as figuras masculinas por corpos femininos negros. A proposta é tão óbvia e contundente que quase passa despercebida não fosse pelos fartos seios que preenchem os corpos das formosas deusas yorubás.

A mitologia africana cita sobre a criação dos orixás através dos fenômenos da Natureza como a tempestade, seus trovões, raios e relâmpagos, os vulcões em erupção, as altas marés, os eclipses, as chuvas de meteoros e uma série de intrigas entres eles, envolvendo traições, guerras, assim como o constante conflito das relações de entidades imortais com os mortais. Tão antiga, tanto quanto a mitologia grega, a história dos orixás conta um pouco de tudo sobre a nada romântica, mas selvagem natureza humana.

Pensando nesse assunto e avaliando recentes descobertas científicas nos confrontamos com algumas refutações a respeito das características fisiológicas do nosso Salvador, Jesus Cristo. Há hipóteses de que o filho de Maria carregasse alguns traços semelhantes às figuras de Rosales. Mas eu não sou cientista, só estou reverberando o que dizem por aí e o que a Arte vem tentando demostrar, quem sabe, há muito mais tempo.

Há também refutações quanto à autenticidade da obra, Salvator Mundi, onde cito em artigo anterior, como de autoria do “mago magnífico”, Leonardo da Vinci. As hipóteses rondam acerca de que um de seus discípulos teria executado a obra, visto que algum detalhe de percepção d’ótica do reflexo de uma esfera na mão da figura teria sido omitido pelo mestre da perspectiva. Além do suposto alarde, ainda há a suspeita se o personagem seria uma mulher ou um homem, como se já não bastasse, a polêmica sobre Monalisa. Isso não abalou a compra bilionária pelo colecionador, mas esquentou os buchichos no circuito da Arte.

Em meio há tantas reflexões e refutações, ultimamente anda bem arriscado ter certeza de qualquer coisa. Tal como o símbolo do pop, Micheal Jackson, que nasceu negro e morreu branco, ou Roberta Close que nasceu homem e vai morrer como uma “mulher”. A flexibilidade de pensamento e edições de ideias fica cada vez maior e mais diversificada com tantas informações e alternativas. Como diz um provérbio passado recente, o mais preparado para sobreviver não é o mais rico, ou o mais forte ou o mais bonito, mas o que melhor se adapta ao ambiente. O que vale mesmo é a qualidade de vida que podemos dar à nossa mente, aos nossos valores sociais e uma postura flexível ao sistema. Vale a máxima, “mente sã, corpo são”.

Somos sempre gratos à Arte por isso!

vietuous womanThe Virtuous Woman, Harmonia Rosales, 2017. Via Pinterest

Is this Art?

O hilariante Will Smith postou um vídeo na terça-feira passada, em seu Instagram, fazendo um trocadilho bem humorado sobre o que é arte e como é profundo, “bem profundo” o ato de criação do artista. Não fosse for sua localização estratégica diante da traseira da escultura em tamanho real, de um enorme touro, a pergunta faria mais sentido. Ao contrário do ator, o editor de artes da BBC, Will Gompertz publicou em 2013 o livro “Isso é arte?”, pela Editora Zahar. Gompertz de cara já nos desafia com o enunciado: “Você vai aprender: Que arte conceitual não é uma bobagem. Que Picasso é um gênio (mas Cézanne talvez seja melhor). Que Pollock não era um picareta. Que não há cubos no Cubismo. Que um mictório mudou os rumos da arte. E porque seu filho de cinco anos na verdade não sabe fazer melhor que os artistas”.

Como uma bússola o livro nos guia aos quatro cantos do mundo com explicações elucidativas acerca dos acontecimentos históricos de cada país e seus respectivos representantes da Arte naquele momento. Para quem tem ou não intimidade com História da Arte, após a leitura do livro, não fica difícil entender porque Salvatore Mundi, de Leonardo Da Vinci atingiu a maior cifra de todos os tempos, num leilão internacional.

A Arte é como um imã que atrai todos os opostos e sinaliza uma resposta para cada problema. Ela não está sendo produzida para dizer o que é certo ou errado, ela apenas registra o momento e nos induz a procurar uma resposta verdadeira sobre este problema. Quanto mais verdadeira, mais eterna e universal ela se torna e transforma a História da Humanidade. São inúmeros os exemplos, assim como inúmeros os artistas. Cada qual dentro de seu propósito, de sua realidade e nas devidas proporções de tempo, espaço e lugar.

Um marco da História da Arte bem recente foi a demolição do atelier do artista chinês Ai Weiwei, em Pequim, na semana passada. Ai Weiwei foi exilado de seu país por fazer ácidas críticas à política chinesa e atualmente vive em Berlim, na Alemanha. Este é o segundo atelier do artista destruído na China.

Um marco para História da Arte Brasileira aconteceu ano passado com a censura da mostra QueerMuseum, que se confrontou com os padrões conservadores e falsos moralistas do país do Carnaval. Não bastasse a difamação mal intencionada e fake nas redes sociais, a agressão gratuita e falta de respeito com os artistas renomados foi ultrajante. Felizmente o tempo se encarregou de esclarecer e punir estes irresponsáveis por danos morais, no entanto o episódio veio apenas registrar uma época obscura, a qual estamos vivendo. Se for desagradável visitar uma exposição que tenha como tema a discussão dos valores sexuais, de gêneros e trans, tão pior será a reação das famílias de bem, recatadas e do lar ao descobrirem que o parente mais próximo é adepto ao time gay.

Ora, meus amigos, a Arte não tem o propósito de ofender ou agradar, ela só tem o efeito esclarecedor. Por que a Guernica (1937), do artista espanhol Pablo Picasso é uma das obras mais impactante de sua carreira? Porque ela nos mostra a verdade nua, crua e sangrenta de uma guerra civil genocida e, sem querer ofender, ultimamente estamos muito pouco preparados para enfrentar a verdade, não acham? E sim! Uma performance de um homem nu representando os “Bichos”, de Lygia Clark no Museu é arte sim. E não! O artista não é um pedófilo. O é, quem pensa em pedofilia ao olhar para o artista nu. Você quer entender o que é Arte, dispa-se de falsos moralismos e olhe sem preconceito, mas com um ponto de vista ético, social e histórico. Sempre mantendo um pacto com a verdade! Isso é Arte!

guernica-pablo-picassoPablo Picasso, Guernica, 1937. Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía. Via Google

Empatia e Antipatia

Vocês começaram a desconfiar que estou me aproveitando do BLOG para desabafar e eu lhes darei toda razão, no entanto nesses meus desabafos vocês também poderão tirar algum proveito.

Dedicarei o texto de hoje à Capoeira por dois motivos, o primeiro é que no dia 3 de Agosto se comemorou o Dia do(a) Capoeirista e o outro foi um episódio que me aconteceu e gostaria de compartilhar, porque como diz o velho ditado: “Nada na vida é em vão, se não for benção é lição”.

Entre nós, serezumanozinhos habitantes da Terra existem dois pólos interessantíssimos: a empatia e a antipatia. Ocorre que você pode ter antipatia por uma pessoa e empatia pelo que ela faz. Exemplo: você pode ter antipatia por mim e empatia pela Capoeira, porque é uma luta de resistência, uma manifestação cultural e um patrimônio imaterial da humanidade. O que me impressiona é o serumano apresentar uma postura vanguardista e ter, até hoje, um discurso machista, “heterofóbico” e racista ao ponto de dizer que “Capoeira não é coisa para mulher”.

“Ave Maria, Nossa Senhora!

Esse jogo é bonito.

Esse jogo é de Angola.”

Meus amigos, atualmente qualquer coisa que uma mulher queira é para ela. Apesar da Capoeira ainda estar concentrada nas mãos e nos pés dos homens, assim como é na política e outras tantas áreas a serem distribuídas à sensibilidade feminina, percebemos a atuação de Graduadas, Professoras e Mestras tão sérias tanto quanto os antigos Mestres.

A Professora Paula, do Grupo de Capoeira Xangô, que ministra aulas na Austrália tem adotado um método muito satisfatório entre suas alunas. Paula interage yoga e musicalidade numa turma exclusiva para mulheres. As aulas, ora ministradas à beira mar, ora na bem estruturada e espelhada academia estimula a curiosidade, a resistência e a força de vontade de uma turma just for women. Para não dizer que não falei da nova geração, a sensacional Bonekinha, do Grupo Raça e Arte, de apenas 10 anos de idade coloca muita aspirante à ginasta olímpica em xeque. Sua destreza corporal é surpreendente e a habilidade de seus movimentos parecem ter saído de uma boneca de pano, que “enverga, mas não quebra”.

Tem verso de Dorival Caymmi assim: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça, ou doente do pé”. O mesmo caberia sobre a arte da Capoeira. Não por menos ela estar presente nos registros da Missão Científica do Brasil por Debret e Rugendas, nas pinturas de Portinari e Carybé, na literatura de Machado de Assis e Jorge Amado, nos versos de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, nas esculturas de Bruno Giorgi e Mario Cravo Jr e nas fotografias de Miguel do Rio Branco.

Blue Tango, série de fotografias do último está na Galeria de Arte que leva o nome do artista, no Instituto Inhotim. São 20 imagens realizadas no Pelourinho, em Salvador e registra uma sequência de movimentos da Capoeira entre duas crianças. O sobe e desce da dupla no fundo quase azul nos remete às ondas do mar, de onde veio a manifestação, embarcada em navios negreiros para desembarcar no litoral brasileiro. Outra curiosidade do título da obra é que, antigamente, o Tango era dançado apenas entre homens.

Que bom que muita coisa andou mudando ao longo dos tempos. Algumas para melhor, outras para pior, porque, afinal de contas, as polaridades não podem deixar de existir, não é! A vida é mesmo cheia de lições! Que sejamos sempre gratos pelas bênçãos! E que venham e que vão!!!

blue tangoMiguel do Rio Branco, fotografias, Blue Tango, 1984, Instituto Inhotim

Musicalizai vos

Tem um antigo ditado que diz: “O verbo tem poder”. A gente só se dá conta disso quando: “paga a língua”, quando se lembra daquela famosa frasezinha: “bem que a minha mãe me avisou” e principalmente quando medita: “a paz que existe em mim, saúda a paz que existe em você. Namastê!” A magia energética do som não é esoterismo é cientificismo. As ondas sonoras são tão reais quanto as ondas do mar e elas se alteram conforme a frequência. Haja vista nos rituais litúrgicos, shows de rock, estádios de futebol em dia de jogo, espetáculos de orquestras sinfônicas…

Dito isso, poderíamos talvez relacionar a capacidade de raciocínio do indivíduo pela sua preferência musical.  Ora, não há mal nenhum você curtir um pagodinho de vez em quanto se também for dado aos clássicos, ao reggae, ragga, blues, jazz, bossa, lounge, indie, grunge, MPB ou a nova música engajada contemporânea.  O caos é o cidadão só ter a Rádio AM sintonizada ou só de permitir ao discurso religioso 24 horas por dia. Estamos vivendo um momento para refletir e despertar. De que adianta o ser humano progredir tecnologicamente se ele não consegue distinguir a qualidade musical que escuta? Alguns me dirão que o gosto é pessoal, cada um com sua referência cultural e “mimimimi”.

O que ocorre, minha gente e tentarei ilustrar com uma ficção-suspense blasé norte-americana (embora Brad Pitt atue no filme), uma cena tétrica de Guerra Mundial Z. Numa época onde quase toda a população da Terra é contaminada por um vírus zumbi, resta uma cidade protegida por uma enorme muralha, onde religiosos se juntam para pedir ajuda aos Céus. Acontece que a altura do som e as preces por ajuda fazem com que os zumbis fiquem cada vez mais agressivos e obstinados a contaminarem os humanos ainda sãos. Realmente a cena é bem trash, tanto mais trash é a barulheira que andam dizendo por aí que é música.

De fato, o tema da música foi para desabafar sobre um novo incidente nas redes sociais. Ao postar uma imagem da obra do polêmico artista italiano Maurizio Cattelan, na página da nossa Instituição, uma enxurrada de comentários obscuros se estendeu ao longo da nossa timeline. Felizmente uns foram com ideias favoráveis, embora outros, quanta infelicidade! Fiquei um pouco chateada, mas ao visitar o perfil de um dos infelizes me deparei com a obscuridade em questão. Suas publicações se resumem a flyers virtuais de shows  undergrounds de bandas de hardcore chulas e eventos em adoração à Satã. Fala sério, pode isso Arnaldo!? “Perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem!” Minha dúvida ainda é se o perfil é fake ou é algum ser contaminado por um vírus zumbi.

O artista russo Wallisy Kandinsky (1866-1944) “foi o pioneiro da pintura abstrata como linguagem visual equivalente a música” (via ESTADÃO). Tão surpreendente quanto admirar as suas obras é através delas conseguir decifrar as notas musicais expressadas em suas cores.  Sua pesquisa profunda à respeito das formas geométricas e a harmonização de cores permeiam o Estudo da Música e a vibração da plasticidade visual da obra vinculada à sensação sonora. Que possamos escutar e enxergar mais claramente todas as cores da vida, ora mais escuras, ora mais vibrantes. No entanto, num constante colorido de tons e sons, graves e agudos, fortes e fracos, sempre numa sintonia harmônica à essa trilha sonora do viver e sobreviver. Musicalizai vos!

kandinsky-pintura-azul-aPintura Azul, via Santhatela

Minha pátria, minha língua

Há rumores de que muitas celebridades estariam se mudando para Portugal por uma série de vantagens que o país oferece, ao contrário do nosso país, onde encontramos mais desvantagens e menos motivos para ficar.  O colunista da revista vanguardista TRIP, André Caramuru faz uma observação pertinente a respeito da nossa incurável síndrome de ex-colônia, que por um longo período recebeu o império português adotando costumes dessa cultura e introduzindo leis, métodos e estratégias dos conhecimentos advindos das Universidades de Coimbra e Lisboa para a sociedade brasileira.  Caramuru finaliza seu texto com sabedoria e uma boa pose de ironia: “Por décadas fizemos piadas e rimos dos portugueses. E quem está rindo agora? Se os portugueses acertaram o rumo, será que nós não conseguimos? Eles deixaram de ser o país do passado. O que precisa para deixarmos de ser o eterno país do futuro?”

A FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), deste ano, homenageia a Língua Portuguesa com uma lista de escritores que usufruem da flexibilidade dos sotaques, gírias e neologismos desta prima-irmã do latim, mãe do Fado, de Camões e do regionalíssimo bacalhau, “ora, pois”! A também vanguardista Revista VOGUE, deste mês aproveitou o tema da FLIP e divulgou sua capa com uma deslumbrante modelo angolana mostrando a língua para os racistas caretas de plantão. O título, em letras rosa bordô traz o verso da música de Caetano Veloso: “Minha Pátria é minha língua”. VOGUE dedicou duas páginas à artista contemporânea, que nasceu em Paris e adotou Portugal como pátria-mãe. Joana Vasconcelos representou Portugal na Bienal de Veneza, em 2013 e foi a primeira mulher a expor no Palácio de Versalhes.  Naturalizada portuguesa, Vasconcelos é a primeira mulher a ganhar mostra individual num dos museus mais importantes do mundo, o Guggenheim Bilbao.

Meu primeiro contato com sua obra foi no CCBB-DF, na mostra coletiva “CICLOS – criar com o que temos”. A obra selecionada pela curadoria da mostra foi “A Noiva” (2001-2005). Feita com uma grande estrutura de metal, o gigantesco lustre suspenso é composto por 25.000 absorventes internos. A plasticidade da obra é impressionante, mesmo porque você deve se aproximar dela para descobrir o porquê desse título. A feminilidade em sua produção é uma virtude. Ela investiga a cultura portuguesa de uma maneira gentil e delicada, falando na maioria das vezes mais com a própria mulher e a interpelando sobre qual seria de fato a posição de cada uma na sociedade.

tampoes 1“A Noiva” (2001-2005), Joana Vasconcelos, no CCBB-DF, 2015.

Sua mais recente produção foi a obra “Eu sou seu espelho”, onde mais de 400 espelhos cuidadosamente moldurados são suspensos na forma de uma máscara veneziana. Joana Vasconcelos investiga as perguntas que devemos nos fazer. “Ora, pois”, onde procurar as verdadeiras respostas senão em nós mesmos? A máscara e o espelho são elementos ambíguos, assim como os absorventes internos, da obra “A Noiva”. Na mente coletiva a noiva vem de branco, por sua pureza, por ser virgem. O lustre ganha dois significados, o glamour da cerimônia do casamento e a rotina sem graça da mulher com seus ciclos menstruais. A Revista VOGUE a descreveu como “Mestre em ambiguidade” e a artista confirmou: “Ter tudo e não ter nada é uma ideia muito expressada no Fado. Uma das minhas fontes de inspiração”. O fado é um mantra português, um ôde à vida, ou não. No Brasil seria o nosso samba de raiz, de Cartola, Noel Rosa. Deixamos de escutar nossas MPB’s de raiz, para ouvir tecno brega, ou sertanejo universitário, ou funk apelativo. Diga se de passagem, até que tá bem justo que os portugueses comecem suas piadinhas sobre as futilidades dos brasileiros. Também, escutando esse tipo música!“Oh, pá!”

arte que acontece“Eu sou seu espelho”, Via Arte Que Acontece, no Guggenheim Bilbao

Atlântico Negro

Todo mundo sabe que o Brasil foi último país a abolir a escravidão, em 1888, mas o que ninguém sabe é que na França, quando o baixinho Napoleão Bonaparte mandava, a abolição ocorreu em 1794, mas foi transgredida, em 1799. Napoleão estabeleceu a escravidão em 1802 e o comércio continuaria até 1848. Eita, esse Seu Bonaparte, hein!? O caso é que a artista francesa, Marie Guillemine Benoist pintou a tela “Portrait d’une femme noire” (Retrato de Uma Negra) para o Salon 1800, vésperas da primeira data da abolição. A obra não seria tão significativa neste momento se não fosse uma das sete selecionadas para aparecer no novo videoclipe do Casal Negro do Século XXI, Beyoncé e Jay-Z. A filmagem do clipe se deu a portas fechadas no Museu do Louvre, em Paris e a obra de Benoist aparece singelamente cortada na parte dos ombros da figura negra para que não fosse exposto seu seio. O curioso é que a tela foi pintada por uma mulher branca, naquela época com o tema de uma mulher negra. Talvez em respeito à modelo negra (penso eu), o videoclipe censurou o topless. O que não aconteceu com a branca escultura “Vênus de Milo”, pois com a ausência do rosto e dos braços teve de mostrar os peitos e as asas. Bem justo e sugestivo não é mesmo, Casal 21?!

bey e jayVia @artcube

Parece-me que todas as obras selecionadas tem algo em comum, assim como sua importância na História da Arte. O Museu do Louvre está oferecendo uma visita guiada a essas míticas obras de arte e já tem lista de espera. O tour inclui a épica “Mona Lisa”, de Leonardo Da Vinci, “A Coroação de Napoleão”, de Jacques-Louis David (onde na realidade quem está em destaque na pintura para ser coroada é Josefina, a esposa do pequeno militar), “A Balsa de Medusa”, de Theodore Gericoult, a “Vênus de Milo”, de Alexandre de Antíquia, “A Grande Esfinge” de Tanis e a “Pietá”, de Rosso Fiorentino. A feminilidade é um dos pontos em comum entre as sete obras escolhidas e (vocês podem até começar a achar que tá virando ladainha) o empoderamento feminino e a voz da negritude vem soando cada vez mais alto nos veículos de comunicação, informação e cultura.

No Brasil um exemplo disso é a mostra “Histórias Afro-Atlânticas” que está no MASP e no Instituto Tomie Ohtake, com obras de mais de 200 artistas nacionais e internacionais. A curadoria é focada na produção de aristas entre os séculos 16 e 21. A ideia é despertar para um conjunto artístico de inclusão negra, onde diversas expressões são baseadas na cultura africana e algumas abordam uma modesta miscigenação com outras etnias. A satisfação desta mostra é que uma das imagens de seus chamados virtuais pertence ao artista goiano, Dalton Paula. Hoje residente em São Paulo, Dalton é um renomado artista que participou da última Bienal Internacional e vem se destacando no circuito de arte com premiações e mostras em importantes instituições. Por falar em artista goiano, o grafiteiro goiano KBOCO está com a mostra “Sertão Estendido”, no Museu Afro, também em São Paulo.

É um orgulho para nós goianienses estar fazendo parte da História da Arte Brasileira, marcando presença em território exclusivo da arte engajada do país. Que possamos nos orgulhar destes feitos não só porque somos goianos, mas porque no fundo, no fundo, carregamos o DNA africano em nossa cadeia genética. Pois, querendo ou não, viemos de algum barro, de algum lugar do mundo e por enquanto o Atlântico Negro ainda é o mais suspeito de todos!

negress“Portrait d’une noire”, Marie Guillemine Benoist, 1800