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Dois bicudos não se beijam

O último episódio da 1ª Temporada da série “The Crown” discorre sobre a glamurosa reviravolta da irmã Margareth para contornar um problema diplomático entre a Inglaterra e os EUA. Para quem acompanhou a série e sabe um pouco da história da Rainha mais antiga da Humanidade, vai lembrar que as duas irmãs eram sensos opostos. A monarca sempre conservadora, rígida, ríspida e chata, a caçula sempre alegre, extrovertida, brilhante e alternativa. Na cena final do episódio, o marido, o duque Philip têm uma conversa à sós com a sua esposa e usa o mito da águia bicéfala, Reichsadler para ilustrar a primogenitura. Ele diz: “Todos queremos igualdade, mas nós não nascemos iguais” e compara então as gerações passadas de Libeth, explicando detalhadamente que para um irmão chato, haverá um divertido. A origem hereditária é a mesma, ou seja, o corpo da águia é o ventre, mas cada cabeça pensará por si só. A liderança sempre escolherá a cabeça chata, o conservadorismo e a disciplina como foi o caso do reinado de seu tio Eduardo VIII, que abdicou precocemente do trono para o irmão mais novo, seu pai, George VI.

A história do mito da águia é descrita em várias versões, uma delas a heráldica do Império Romano, que sucedeu no Segundo Império Alemão (1871 -1918) até a introdução do símbolo da suástica na águia ao comando do Third Reich. Mas as origens são muito mais antigas. A águia vem desde tempos bizantinos (17 a 12 a.C.), o berço mundial da cultura, a Turquia ditou o mito até encontrar pouso nas bandeiras russas, que a cada mudança de império intercalava os adornos em suas garras. De tempos em tempos imagens como a coroa, o cetro e o globo eram substituídos pela cruz, escritos ou espadas. Em verdade, a origem das duas cabeças simbolizaria na Antiguidade os dois opostos da Terra, a Ásia Oriental e a Europa Ocidental. A bipolaridade que dividia o mundo em hemisférios. Observando as curiosidades da Humanidade, a Rússia, que reinventou a águia, também substituiu seus adornos pela foice e o martelo que apareceram em 1923 e até hoje está no imaginário estrangeiro, no entanto: “O fortalecimento do poder do Estado sob o Presidente Wladímir Putín se refletiu no símbolo da Rússia, que recebeu três coroas e símbolos de poder”. Via Russia Beyond

A diversidade dos símbolos em suas garras não muda a representatividade do mito, que aparece também como brasão maçon. Além de ser um predador do topo da cadeia alimentar ela possui uma visão aguçada que facilita seu trabalho de caçadora. Se suas cabeças adornam coroas ou não, se suas garras seguram suásticas, cruzes, espadas, cetros ou globos, se tem o desenho arredondado, ou é mais altiva nas formas geométricas, de fato isso nunca interferiu na sua mitologia porque ela sempre transitou entre os opostos conservando a tradição de ser um símbolo ambíguo. Há de se esperar que duas cabeças realmente funcionem melhor que uma, pois a Psicologia explica que sem o conflito não há o aprimoramento dos argumentos sobre as discordâncias, ou na Filosofia onde a tese tem a antítese para enfim se chegar uma síntese. O episódio de “The Crown” deixa esta ambiguidade no ar quando promove a importância do feito da irmã mais nova nos EUA, embora não formaliza sua atuação integral no reinado, protagonizando o perfil da cabeça chata que deve se impor aos exageros da diversão. A conduta de sucesso é um protocolo que deve ser seguido à risca com muita disciplina e chatice, mas a vida sem diversão é um fracasso à parte. Fica a mensagem subliminar que um pouco de ousadia e transgressão faz bem à saúde e aos negócios, mas manter a disciplina e o foco conservam o respeito e a credibilidade da liderança. Que cada cabeça saiba se colocar no seu devido lugar a tempo de se tornar uma só e se permitir a Paz, de vez enquanto.  

Tarcísio Veloso, óleo sobre tela, 60 x 60 cm, “Paz”, 2020.

Florescer

“Você não sabe o quanto pesa um morto, exclamava o velho, numa frase que ribombava nos ouvidos do garoto e reverbera na obra do escritor” . Biografia escrita por jornalista colombiano que traçou as relações entre ficção e a vida do Nobel Gabriel García Márquez (Via Diário de Cuiabá, 13/04/2000)

É, vocês não sabem o quanto pesa uma energia materializada imóvel, morta. Sabe aquele medo do escuro, aquele medo de mexer naquela gaveta que há anos a gente só coloca coisinhas que um dia iremos usar e nada. Sabe aquela caixona lá em cima do armário, sabe aquilo tudo que fica num fundo escuro acumulado, acumulando sujeira, barata, rato e teia de aranha, sabe?! Certamente todos sabemos! Aquilo ali tudo pesa! Pesa muito! Se livrar de energias paradas é a maior e melhor maneira de se desintoxicar, de lavar a alma, de se manter saudável, limpo e livre.

Tem um ditado que diz, “o que você não usa, não te pertence”. Escrevi há alguns post’s atrás sobre um artigo do ano passado, da Revista DasArtes, que tratava do processo de desapego do artista com sua criação. A necessidade do descarte, queima e destruição do que foi feito também faz parte do aprendizado, do processo criativo e da trajetória do trabalho artístico. E assim, o é em tudo! O Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018, a Cinemateca, em 2016, o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, incendiados… A Catedral Notre-Dame, em 2019 e tantos outros patrimônios mundiais que se perderam no decorrer de milênios. Quem não se lembra da Biblioteca de Alexandria, 48 a.C, ou o Movimento Nazista, em 1933, ou ainda a Revolução Cultural Chinesa, em 1966 que também promoveu a queima de livros.

Nós, serezumanos somos assim, criamos e destruímos. Está na nossa natureza. Daí tantas mitologias, como a da Fênix, que renasce das cinzas. Também somos capazes de nos recriar, de nos inventar. É depois de perder tudo que sentimos a necessidade de ganhar novamente. Li nos stories do criativo, Jean Bergerot uma pérola “antes de pegar uma boa onda tem que remar contra a maré”. Antes na água que no fogo, né não!? Pensar em como nos recriar talvez seja o nosso real objetivo. Tem também aquele ditado do Luiz Fernando Veríssimo: “quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”.

Para o domingo não passar em branco, resenhei este descompromissado texto, talvez para me redimir em ser humana, em acumular, em guardar sem necessidade para enfim, me desapegar e poder compartilhar com vocês o quanto isso me fez bem. Talvez porque somos todos assim, como o cerrado, durante a seca a gente se fortalece com as queimadas, para depois, nas chuvas, finalmente florescer!

Agradeço sempre a atenção dos que me dedicam dois ou três minutinhos de leitura!

Desenho em nanquim, Wés Gama.

Hoje é o dia

Vocês devem ter percebido que tenho uma quedona pelo Cinema e diga se de passagem, as Artes Plásticas ora ocupam o mesmo lugar ora o segundo, no meu coração. A dita sétima arte é fascinante e consegue agregar todas as outras juntas, igual coração de mãe. Fico aqui matutando quem teve a discrepância de dizer, em épocas remotas: “pra quê servem os artistas?” Haja Covid para sarar a mente dessas pessoas, “Perdoe-os, não sabem o que fazem” ou dizem, (como diria o Livro Sagrado). Mas vamos falar de coisas boas!

Me veio a lembrança de um episódio da série televisiva, de uma emissora que todo mundo ama e odeia ao mesmo tempo, “Hoje é Dia de Maria” (2005)! Aparentemente é uma série simples, sem muitos luxos e ostentações cinematográficas sobre uma menina que quer atravessar o sertão e conhecer o mar, mas sua árdua trajetória a obriga amadurecer e entender os desafios que o mundo reserva para quem tem coragem de descobrir os mistérios da vida, da força da Natureza e da sabedoria do Tempo.  Numa das cenas que me emocionei muito, foi quando já cansada e com sede, Maria é presenteada com uma cabaça de água por uma das entidades que encontra no seu caminho. Conformada e grata por mais um sinal de resistência às intempéries da seca, antes mesmo de saciar sua sede, Maria já dá de cara com um grupo de saltimbancos, cujo líder lhe toma sorrateiramente a cabaça da mão e esbraveja certeiras palavras acerca do egoísmo humano. “Os homens retiram tudo da Natureza sem ao menos repor o que consomem. Dá cá esta água, deixe que ela volte para onde veio, para que possa umedecer a terra e então prosperar”. E daí a magia da cena começa, os pingos de água que penetram na terra logo se transformam em lama, em poça, em evaporação e enfim, em chuva. Maria dança debaixo do aguaceiro e se vê feliz novamente.  

Fiquei pensando como a simplicidade de uma cena exemplifica tudo o que está acontecendo. Quanta água, quanta terra movemos e em busca do quê!? Será que recompensamos a Natureza por tudo que ela nos oferece? Pois bem, ela nos presenteou com um vírus e isso me parece um sinal bem sério! Foi na marra que Ela achou um meio de nos deter, de nos frear para aí sim, poder prosperar! As tartarugas voltam a se reproduzirem em Galápagos, os cervos se deleitam entre as cerejeiras do Japão, os pandas se acasalam em cativeiro, em Hong Kong, os peixes voltam a nadar nos canais de Veneza e por incrível que pareça, o Vice-Presidente do Brasil faz mea-culpa sobre os desmatamentos na Amazônia! É… a Natureza não tá pra brincadeira! Quem ainda não entendeu seus sinais, ou que comece a escrever o Testamento, ou testemunhe a favor dela, demonstre amor pelas pequenas coisas, jogue fora ou doe o que não usa e nem interessa mais usar, não haverão festas ou bailes tão cedo. Produza ideias, produza conhecimento, plante uma árvore, regue uma planta, ame os animais, eduque os filhos, respeite os pais!

Perder também pode ser ganhar! Maria perdeu uma cabaça d’água, mas ganhou um dia chuvoso! Perdemos a liberdade de nos abraçar, de sentar num bar, de levar as crianças para escola, de viajar, de visitar exposições, feiras, congressos, mas ganhamos tempo, exercitamos a paciência, observamos mais o que está em volta, estabelecemos concessões para vivermos com mais significado. Arrumar o lar, trocar as coisas de lugar, organizar os armários, folear aquela revista do ano passado, ou de 10, 20, 30 anos atrás… Ah, como era tudo diferente, mas o mesmo! Onde erramos? Onde continuamos a errar! Enquanto houver quem se pergunte “pra quê servem os artistas” continuaremos a errar e a Natureza a nos cobrar mais sensibilidade, mais cuidado, mais prosperidade! Estamos de castigo no cantinho da sala, o que temos que fazer para sair daí? Cuidemos dos seres vivos, cuidemos de nós! A carpa é símbolo de beleza, boa sorte, sucesso e perseverança! Boa sorte para nós! Ilustra o texto aquarela do artista paulista Fernando Ekman.

Look

Assisti o longa (bem longo, 189 min.) “Never look away” (2018) inspirado no artista alemão Gehard Ritcher (1932), mas que transita entre uma história de amor e os horrores da decadência do Nazismo. Meu olhar crítico é sempre tendendo mais para o lado da Arte, das curiosidades históricas e fatos realmente verídicos, como na cena onde é narrada o fatídico acidente do conterrâneo Joseph Beuys (1921-1986) pelo personagem que interpreta seu professor vanguardista, na Academia de Belas Artes. Há beleza, dor e uma impecável fotografia no filme. Certas cenas são documentos preciosos aos historiadores e amantes da Arte. Sem dúvida uma obra-prima para quem busca conhecimento deste período da História da Arte (1940-1966), mas principalmente curiosos recadinhos nas entrelinhas dos personagens, como a própria frase do título do filme, que a esquizofrênica tia do artista lhe confidência na infância: “nunca deixe de enxergar” e “tudo que é verdadeiro é belo” ou ainda nas lições do professor vanguardista: “apenas o artista pode devolver ao povo a sensação de liberdade”.

A rejeição do protagonista ao produzir seu trabalho em prol da Política é o viés mais interessante do roteiro. Há nele, uma luta interna em distinguir entre o que fazer, como fazer e para quê fazer. Essas questões pessoais de autoconhecimento (“mich, mich, mich”, em alemão “eu, eu, eu”), que no filme é repetida e refutada por um outro professor, um conservador que insistia por preservar padrões estéticos para manter a ordem e vangloriar sua vertente ideológica. A Arte não trabalha para a Política, ao contrário, ela a denuncia, a confronta, a questiona, a desnuda aos olhos de quem está disposto a enxergar. O longa intensifica a tensão politica das duas vertentes contrárias no auge da IIª Guerra Mundial para demonstrar o quanto o artista pode ser um atento observador dos fatos, um xamã, ou quase vidente, um percursor dos acontecimentos. Ele é capaz de enxergar a verdade antes do homem mediano, do medíocre, dos alienados culturalmente. Vale a pena dedicar o tempo a esta sétima maravilha das Artes. Serão 3 horas muito bem usufruídas diante da tela eletrônica.

Ilustra o texto obra do artista Siron Franco, de 1986 intitulada duas vezes. A primeira como “Fantasma no Hospital de Base” e a segunda “Os Pirilampos de Brasília”, que denuncia silenciosamente a máfia do contrabando de órgãos. A mão de um político roubando um coração.

Aceita

Há algum tempo fazemos uma divertida brincadeira interna com o trocadilho da palavra “aceita”! Em verdade, lançamos o desafio em nossa Instituição, que além de ser uma empresa particular, familiar e comercial, sempre foi um veículo de informação e esclarecimento para quem está disposto a entender mais sobre a História da Arte, seus efeitos e consequências. Daí a ideia da seita: “Aceita Ver”! A seita Ver a Arte! Aceita que dói menos! Observando a História da Humanidade onde, somente a cultura determina o estágio de evolução de uma sociedade percebemos que para cada apogeu há sempre uma decadência. Foi assim desde o Egito Antigo, Alexandria, Constantinopla, Grécia, Creta, Roma… O homem medíocre parece ficar insatisfeito com a luz, o conhecimento e a verdade, então inebria entre seus pares a discórdia, a dúvida, a guerra, a religião! Uma pena, mas aceitemos, somos serezinhos bem complicados. Senão por nós, pela Nossa Mãe Natureza, com seu implacável e justo castigo aos seus filhos, ora com a peste, ora corona, ora tsumani, ora erupção vulcânica… Somos exterminados sem dó!

Uma provocativa série da Netflix lançada em fevereiro, “Freud” usa o nome do psiquiatra para nos entreter numa teia de acontecimentos metafísicos, que mais teriam sentido com seu colega Carl Jung e simpatizantes da Antroposofia. Mas a beleza dos personagens, o cenário sombrio de uma Viena em tensão Austro-Húngara cria um climão e haja fôlego e coragem para prosseguir. Mas quem for corajoso o bastante será contemplado com uma magia incomum da Psiquiatria e isso envolve histeria, xamanismo, hipnose e sexo selvagem. AVISO: Essa série não é para amadores! O enredo discorre a partir de uma antiga mitologia húngara, Táltos, um feiticeiro capaz de descobrir e combater bruxarias, um justiceiro astral, que é invocado em rituais litúrgicos e cultuado por uma espécie de seita familiar, que coordena um cronograma de vinganças. O protagonista entra bem cético na trama, mas acaba se afeiçoando pelo assunto e usa a hipnose como sua aliada! Louco, não?! Até que não. Se é possível na Arte é possível na vida ou vice-versa!

Desde segunda-feira os noticiários devem estar bem felizes com a audiência, porque, meus queridos, a gente adora um barraco, mas principalmente quando alguém desprezível vai pra cadeia! Correu por aí que um dos detentos estava sob os cuidados de um certo advogado de um certo Presidente da República e, vejam só, que ironia da história, já foi citado num caso de seita maligna! Eu nunca ouvi falar dessa palavra: emasculados, mas era exatamente isso que faziam com crianças de 5 a 12 anos! Casos de seitas satânicas são bem comuns entre homens e mulheres medíocres, alguns filmes de Quentin Tarantino abordam bem o assunto, mas Tarantino também não é para amadores! Houve um tempo que um tipo de “seita” iniciou a terapia do abraço por essas bandas! Vinham atores famosos, políticos, gente graúda da área do Direito, nessa época deve ter saído até no Fantástico. Mas a coisa desandou quando um dos participantes suicidou! O clima pesou e a “seita” acabou se diluindo por aí! Mas tudo são histórias, o caso advogado do Presidente foi encerrado sem provas e, abraçar, minha gente, continua sendo uma coisa muito boa! Pelo menos em quem a gente gosta!

Ilustra o texto obra premiada do artista goiano, Sandro Gomide. Aceitar ver, enxergar quem somos, o que somos e o que somos capazes de fazer são perguntas essenciais para não nos tornarmos tão medíocres ou permanecermos amadores. Aceitar ver o corpo, o nu, o sangue, a verdade, a Arte e nos desnudarmos para vida, para os falsos valores e as falsas morais. Aceitemos mais para doer menos em nós e nos outros. Porque a verdade é que o Rei está nu e ele ainda não viu ou não aceitou!

Trabalhos em óleo sobre tela. Auto-retratos do artista goiano Sandro Gomide em tamanho real.

Breu

Anish Kaapor é um artista indiano-britânico surpreendentemente incrível e mais que um pré-cientista, ele é um engenheiro das formas, reflexos e cores ou a ausência delas. Sua impressionante obra “Descida para o Limbo” (2018) é um enorme círculo negro “pintado” ou forjado no chão, onde a escuridão é tanta que um espectador chegou a duvidar que existia um buraco naquele breu (mesmo com todas as advertências) e presumiu que não cairia (pensando ser apenas uma imagem), de uma altura de 2,5m, mas acabou caindo. Kaapor patenteou os direitos artísticos de um material conhecido como Vantablack. “O material é capaz de alocar fótons dentre nanotubos de carbono feito em laboratório, que se recuperam até que sejam absolvidos. Apenas 0,035% da luz visível é refletido em um objeto coberto com Vantablack, tornando impossível ver curvas ou contornos”. (Via Gizmodo). Sim, a Arte de Kaapor é quase um experimento científico ou ainda mais importante para a Humanidade quanto a Ciência.

O artista ou pré-cientista produziu em 2011 a obra “Leviathan“, uma extraordinária estrutura penetrável com 35m de altura e 120m de comprimento que “recria em seu interior uma atmosfera de um organismo vivo”. “Leviathan” é, literal ou visceralmente, a representação do monstro bíblico, criado por Deus, que disseminou o medo e pânico entre os homens para que ninguém ousasse enfrentá-lo. Em 1651, Thomas Hobbes (1588-1679) matemático e filósofo inglês escreveu o livro “Leviatã” relacionando a força e poder do monstro com o Absolutismo. Acreditava que para governar os homens, eles teriam de renunciar sua liberdade aos comandos do Rei. O monstro, representado na Literatura e nas Artes Plásticas como uma gigantesca serpente ou um dragão negro foi fonte de inspiração para Kaapor produzir esta estrutura com formato orgânico de cor escura por fora e completamente vermelha por dentro. A relação medonha do ser mitológico com o Estado é vivenciada nesta intrigante obra. A sensação de estar dentro das entranhas de um aterrorizante ser, seria como nos confrontarmos com nossos próprios medos e fragilidades. Seria como estarmos à mercê de nossa impotência perante a grandeza do horror, das sombras, da escuridão, da escravidão e da morte. Anish Kaapor entende bem da escuridão e estava em tempo de falar sobre sua obra, afinal estamos vivendo tempos sombrios, tempos onde negros morrem e brancos aplaudem.

A obra do artista goiano Pitágoras que ilustra o texto atualiza a sociedade e o governo vigente nesta mitologia bíblica. Ainda somos aterrorizados por monstros-políticos e mais, comandados por robôs, máquinas e informações obscuras para nos manipular o tempo todo. Outro artista que há tempos nos elucida, o músico pernambucano, Lenine produziu o álbum “Falange Animal” (2002) com o refrão da canção “Quadro Negro”:

“Quem vai pagar a conta

Quem vai lavar a cruz

O último a sair do breu

Ascende a luz”

Vamos ascender a luz uns para os outros para não cairmos nos buracos sombrios da nossa própria prepotência.

Pitágoras, 160 x 200 cm, 2015. Créditos Rodolpho Arraes e seu filhote-modelo, Joaquim.

Viagem do tempo

Aproveitando o ensejo do último texto sobre o tempo, rememoro a mostra “Blue” do artista goiano, atualmente radicado em NY, Gustavo Rizério, de 2009. A tela “Viagem do tempo”, a última em grande formato da série ainda em nosso acervo conta uma história peculiar sobre as técnicas e percepções do artista à respeito dos homens, o meio em que vivem, suas experiências e suas histórias. Rizério passou algumas temporadas vivendo no exterior antes de se mudar de mala e cuia para a terra do Tio Sam. Entre frios nórdicos e viagens à países sul americanos, o artista encheu sua bagagem de conhecimento cultural e pontos de vistas a respeito do mundo, do ser humano e de sua profissão. Com uma habilidade incontestável da técnica da pintura à óleo, o artista desafia o abstracionismo, o figurativismo, a arte óptica e clássica.

Em Nova Iorque, se engajou na tatuagem, que é sua eterna paixão e ganha pão, mas reserva tempo para sua grande amante, a pintura. No Brooklyn, entre um inverno rigoroso e um verão na quarentena ele adaptou sua residência para ostentar um atelier que muito novaiorquino sonharia em ter. O talento e austeridade no trabalho confirmam que Rizério é um artista nato. Apesar de um gênio hostil e diagnosticado com TDAH (Transtorno Défit de Atenção e Hiperatividade) ainda jovem, ele consegue canalizar suas expectativas em formas, cores e movimentos pictóricos, utilizando a arte como terapia, calmaria e auto-conhecimento.

Na obra, “Viagem do Tempo: eu quis representar a passagem do tempo. Como uma viagem do tempo. Algo que revela a vida vivida, a experiência. A própria existência sendo uma viagem e a vida como destino”. Ludmila Potrich que promoveu e divulgou o trabalho do artista no mercado goiano relata: “as figuras ele se inspirou num livro de cenas inglesas, eles são da guarda real em momento de descontração, para quem acha que os soldadinhos são imóveis ou estátuas, eles também tem sentimentos”.

O tempo é escancarado no excesso de rugas, na repetição contínua da imagem invertida, de cabeça para baixo ou com um gorro. Rindo de felicidade ou de nervos, sabe se lá o que passa na cabeça de um soldado inglês, a verdade é que o tempo passa e passa para todos. Viver não é tempo perdido, é uma viagem sem volta, um riso sem arrependimento, uma lágrima com sentimento. Se viajar no tempo fosse possível eu não mudaria nada! E vocês? Viver é desenhar sem borracha”. (Millôr Fernandes)

Gustavo Rizério, óleo sobre tela, 130 x 210 cm, 2009

Stairs

Uma intrigante notícia do mundo científico difundida por jornalistas confundiu leitores e constrangeu os cientistas. Após anos de pesquisas na Antártida com a Anita (Antena Transitória Impulsiva Antártida) os cientistas detectaram vários eventos anômalos com a “partícula fantasma”, uma partícula sem carga magnética denominada neutrino.

“Segundo os especialistas, em vez dos neutrinos de alta energia chegarem do Espaço, eles parecem ter vindo de um ângulo estranho, atravessando o interior da terra antes de atingir o detector”. Galileu

Essa observação teria impulsionado uma publicação no The Astrophysical Journal sugerindo um “universo paralelo” onde o tempo funcionaria lá inversamente ao nosso de cá. A notícia se espalhou embora os estudos não estivessem completamente concluídos. Outra notícia que corre no mundo filosófico (mas diga se de passagem também científico), é a teoria da “Caixa”, que descreve o “agora” como um lugar arbitrário no tempo e afirma que o passado, o futuro e o presente existem todos simultaneamente. A teoria é do filósofo americano Bradford Skow e comunga com a teoria de espaço e tempo unificados do cientista Albert Einstein, de 1915.

Ele propõe que o espaço-tempo toma forma de maneira múltipla ou contínua e que se visualizado, você verá os dois como um espaço vetorial quadridimensional. Esse vetor é reconhecido como ‘teoria dos blocos’ “. Pensar Contemporâneo

Ou seja, teoricamente não deveríamos nem envelhecer, né! Esse assunto científico me fez refletir sobre um filme muito peculiar “O estranho caso de Benjamim Button” (2009), que conta a história do protagonista que nasce com 80 anos e retrocede sua idade com o passar do tempo. O grande sonho do multifacetado Charles Chaplin (1889-1977), “Deveríamos nascer velhos (…)  A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para frente.”

Visulamente falando ainda sobre cinema, na cena das escadarias para os aposentos da série inglesa, Harry Potter (2001-2011), teríamos uma prévia hipotética de como a ciência (ou a magia) brinca com o mundo material. Quando as escadas trocam de lugar, tal qual como M.C.Escher (1889-1972) havia desenhado isso há quase um século atrás, nos permite observar que o tempo e o espaço coexistiriam paralelamente. Para quem vai ou volta, essa impressão seria verificada a partir de um referencial. A estética da escada seria um excelente demonstrativo experimental para esta teoria. A maravilhosa estrutura arquitetônica em NY, The Vessel, projetada por Thomas Heathewick, por exemplo é um monumento colossal de cobre e aço com 154 lances interconectados de escadas. De fato, ali você terá muitos pontos de vista permanecendo no mesmo lugar, cogitando uma ideia superficialmente.

As escadas além de fascinantes podem ser tão ambíguas quanto nosso sobe e desce, vai e vem, entra e sai. A gigantesca “Escada Infinita” (2013), do artista David McCracken, em alumínio, dá a ilusão d’ótica de estar em ascensão ao céu.  A obra “Escada Inexplicável” (1999), de Regina Silveira é uma pintura sobre chapa de PVC, onde a artista brinca, como de costume, com a sombra e reflexo, em grande escala.  A famosa e super fotografada escada do MAM, no Rio, projeto por Affonso Eduardo Reidy, ou a suntuosa escada do Palácio do Itamaraty, projetada pelo aclamado Oscar Niemeyer são verdadeiras obras de arte ou elementos  engenhosos para estudo científicos.

Dada suas devidas proporções, cada escada, cada sobe e desce, cada neutrino tem sua história para contar. Se há “universo paralelo” eu não sei, mas que uma força magnética nos guia para cima e para baixo constantemente, isso aí a gente sente na panturrilha, na sola do pé, no tendão! Mas daí é outro assunto para Aquiles, né!

evandro

“Escadas” monocromáticas em fios de aço, por Evandro Soares, 2019

(Tatiana Potrich reforçando a panturrilha)

Espírito Santo

Recordo como se fosse hoje o dia que fizemos o curso para batizar o meu primeiro filho. Ele nasceu no mesmo dia que completou um ano exato do meu encontro com seu pai e coincidentemente, no mesmo dia do meu Batizado, há 42 anos atrás. Uma honra e surpresa para mim, que sou apenas uma reles católica não praticante. O fato é que a aula do padre sobre os dogmas do Batismo foram de certa forma bastante reconfortantes e coerentes dado a tantas incertezas da vida. Ele ressaltou que quando a criança recebe o Espírito Santo ela fica protegida dela mesma. Haja vista, que o ser humano é mal por natureza, sua essência pela sobrevivência o deturpa, o corrompe, o desencaminha. O Batizado é uma bênção, um benzer mítico, uma proteção espiritual contra o nosso maior inimigo, nós mesmos. Noutras culturas os rituais se diferem, mas tem o mesmo propósito.

Entender o sentido do Espírito Santo e suas diversas formas de manifestação é um ato de empatia, humanismo e equidade. Os monges, os yogues, os umbadistas, os kardecistas, os do Candomblé também se benzem, se protegem e acreditam no mau que nasce junto com nosso instinto de sobrevivência. Movida pela espiritualidade decidi escrever este texto como uma confissão deste meu lado naif de ser. Sou uma adepta à mediunidade, adoro uma roda de batuque, pernadas, braçadas, rituais lisérgicos e entrega espiritual. A arte da Capoeira me abriu este chakra e feliz ou infelizmente estou condenada a adorá-la pelo resto da vida.

Acredito que tudo é um chamado, uma vocação. Certa vez disse à uma colega que não é a gente quem escolhe a Capoeira e sim ela que escolhe seus discípulos. Tem que ter coragem, coluna, sola do pé dura como o chão e muita ginga no corpo. Achei bonito e pertinente a entrevista do psicanalista, Contardo Calligaris para o site Gaúcha AZ Comportamento, em 28/04/2020:

“Os ônibus voltaram a estar lotados, não sei quem teve a ideia de diminuir o número de veículos, só para baixar a gasolina, porque iria acabar aumentando a lotação. Esse exército permite a uma casta que não é mínima, as classes A e B, com alguns pedaços da C, se manter protegida. É uma tamanha confirmação da dolorosa desigualdade social brasileira. Seria útil que as pessoas da A e da B lessem Gilberto Freyre durante este período, não Casa Grande e Senzala, mas Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, para entender como chegamos nessa. A divisão e a desigualdade existem no mundo inteiro, mas nós temos algo distinto. Os que podem se proteger e os que podem se contaminar”.

Indicar Gilberto Freyre em tempos de pandemia é um ato de coragem. Ler Freyre é uma vocação. Foi o primeiro livro da trilogia quem me escolheu: “Casa Grande e Senzala” (1933). Tenho tatuado no braço o nome do livro que é também o apelido dos dois irmãos capoeiristas que conheci no ‘ringue’ de uma roda na praça. Casa Grande é o mais novo, belo e um típico atleta de ébano e seu irmão, Senzala dispensaria comentários não fosse seu intrigante intelecto. Assistir ao duelo fraterno destes dois foi uma epifania, após ter concluído meu primeiro livro do sociólogo pernambucano. Aquele magnetismo me chamou, me conquistou de vez. Foi como se o Espírito Santo, Emí Mimò, abençoasse a minha vocação, o meu bem querer pela cultura brasileira, pela minha saúde física e mental, pela minha consciência desta cabulosa desigualdade social a qual vivemos.

São mais de 20 anos de relação e me sinto completamente realizada pelo que consegui aprender na prática, mas principalmente na teoria. A Capoeira é um viver filosófico em liberdade e disciplina! Ela é meu Espírito Santo!

 

capoeira

Obra “Capoeira” e pote em cerâmica pela artista mineira naif, Helena Vasconcelos. Gravura e desenho em papel, do artista e gravador fluminense Zècésar.

Diário de uma Mãe na Quarentena

Hoje é Dia das Mães e eu como uma boa mamãe venho acompanhando diariamente o desenvolvimento dos meus filhos na escola, em videoaulas, principalmente agora em tempos de quarentena. O mais velho está com 12 anos e frequenta o 7° ano do Ensino Fundamental II, num colégio católico. O professor da disciplina de História acaba de introduzir a Idade Moderna assuntos como a Reforma Protestante e a Contrarreforma. É um tanto desconfortante ler argumentos e críticas sobre o Catolicismo no livro didático do próprio colégio, mas venhamos e convenhamos, o Protestantismo tem lá as suas inúmeras falhas também. Incrível como a Política e a Religião sempre andaram de mãos dadas. Enquanto que, na Monarquia, o Rei e o Papa eram como amigos íntimos, só depois da bronca de Lutero as coisas começaram a mudar ou não.

A Arte sempre permanecera às margens, ou às encomendas da nobreza, como era de praxe retratar os membros de alto escalão e suas extravagâncias. Mas a Idade Moderna superou algumas expectativas, pois depois de Leonardo Da Vinci o mundo nunca mais foi o mesmo. A profundidade da paisagem de fundo da tela da Mona Lisa (1503) viralizou uma hipotética ideia da terceira dimensão, embora atualmente vivamos já o fim da quarta e o início de uma quarentena sem fim.

Um ano definitivamente, sui generis que merece um texto para o dia das mães tão atípico quanto. No começo da quarentena andei postando (mas apaguei) algumas sugestões de filmes em minhas redes sociais. Dentre eles selecionei um clássico do cinema italiano, “O Leopardo” (1963). Embora, literalmente um longa, o filme me marcou, pois após mais de 180 minutos, a frase óbvio ululante do personagem: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está” é a máxima da estratégia política que todo maquiavélico tem de saber de cor.

Protestantismos à parte, um recente acontecimento de uma singela troca de ideias contrárias sobre uma postagem nas redes sociais, me vi envolvida opinando à respeito da descriminalização do aborto num perfil que se confirmava de um grupo patologicamente religioso. Enfim, não foi a minha intenção defender de forma ofensiva a minha ideia, mesmo acreditando que nem toda mulher que é capaz de parir tem capacidade de ser mãe, porque isto não é um assunto religioso e sim sociocultural.

Bem estranho falar desse assunto nestes dias, mas levando em conta que nada anda em sua normalidade habitual resgatei a imagem da Galeria de 11 anos atrás toda pintada de vermelho que me remeteu a um típico teste de Gestalt psicológico. Enxerguei uma imensa vagina, orifício único para concepção de um filho, ou sua eterna rejeição. Sei que levantar assuntos como este em tempos de pandemia é como, diria os sábios de gerações passadas, “enxugar o gelo”.

“Acredito que quando a crise acabar as pessoas sentirão ainda mais a necessidade de estabelecer vínculos sociais. Não acredito que possa haver uma mudança fundamental na natureza humana”. Yuval Noah Harari

Nem eu, Harari!

Feliz Dia das Mães! #55quarenteneday

red paulo torres

Mostra Epiderme Urbana, coletiva do artista mineiro Paulo Torres e o fotógrafo Nello Aun, 2011