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Stairs

Uma intrigante notícia do mundo científico difundida por jornalistas confundiu leitores e constrangeu os cientistas. Após anos de pesquisas na Antártida com a Anita (Antena Transitória Impulsiva Antártida) os cientistas detectaram vários eventos anômalos com a “partícula fantasma”, uma partícula sem carga magnética denominada neutrino.

“Segundo os especialistas, em vez dos neutrinos de alta energia chegarem do Espaço, eles parecem ter vindo de um ângulo estranho, atravessando o interior da terra antes de atingir o detector”. Galileu

Essa observação teria impulsionado uma publicação no The Astrophysical Journal sugerindo um “universo paralelo” onde o tempo funcionaria lá inversamente ao nosso de cá. A notícia se espalhou embora os estudos não estivessem completamente concluídos. Outra notícia que corre no mundo filosófico (mas diga se de passagem também científico), é a teoria da “Caixa”, que descreve o “agora” como um lugar arbitrário no tempo e afirma que o passado, o futuro e o presente existem todos simultaneamente. A teoria é do filósofo americano Bradford Skow e comunga com a teoria de espaço e tempo unificados do cientista Albert Einstein, de 1915.

Ele propõe que o espaço-tempo toma forma de maneira múltipla ou contínua e que se visualizado, você verá os dois como um espaço vetorial quadridimensional. Esse vetor é reconhecido como ‘teoria dos blocos’ “. Pensar Contemporâneo

Ou seja, teoricamente não deveríamos nem envelhecer, né! Esse assunto científico me fez refletir sobre um filme muito peculiar “O estranho caso de Benjamim Button” (2009), que conta a história do protagonista que nasce com 80 anos e retrocede sua idade com o passar do tempo. O grande sonho do multifacetado Charles Chaplin (1889-1977), “Deveríamos nascer velhos (…)  A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para frente.”

Visulamente falando ainda sobre cinema, na cena das escadarias para os aposentos da série inglesa, Harry Potter (2001-2011), teríamos uma prévia hipotética de como a ciência (ou a magia) brinca com o mundo material. Quando as escadas trocam de lugar, tal qual como M.C.Escher (1889-1972) havia desenhado isso há quase um século atrás, nos permite observar que o tempo e o espaço coexistiriam paralelamente. Para quem vai ou volta, essa impressão seria verificada a partir de um referencial. A estética da escada seria um excelente demonstrativo experimental para esta teoria. A maravilhosa estrutura arquitetônica em NY, The Vessel, projetada por Thomas Heathewick, por exemplo é um monumento colossal de cobre e aço com 154 lances interconectados de escadas. De fato, ali você terá muitos pontos de vista permanecendo no mesmo lugar, cogitando uma ideia superficialmente.

As escadas além de fascinantes podem ser tão ambíguas quanto nosso sobe e desce, vai e vem, entra e sai. A gigantesca “Escada Infinita” (2013), do artista David McCracken, em alumínio, dá a ilusão d’ótica de estar em ascensão ao céu.  A obra “Escada Inexplicável” (1999), de Regina Silveira é uma pintura sobre chapa de PVC, onde a artista brinca, como de costume, com a sombra e reflexo, em grande escala.  A famosa e super fotografada escada do MAM, no Rio, projeto por Affonso Eduardo Reidy, ou a suntuosa escada do Palácio do Itamaraty, projetada pelo aclamado Oscar Niemeyer são verdadeiras obras de arte ou elementos  engenhosos para estudo científicos.

Dada suas devidas proporções, cada escada, cada sobe e desce, cada neutrino tem sua história para contar. Se há “universo paralelo” eu não sei, mas que uma força magnética nos guia para cima e para baixo constantemente, isso aí a gente sente na panturrilha, na sola do pé, no tendão! Mas daí é outro assunto para Aquiles, né!

evandro

“Escadas” monocromáticas em fios de aço, por Evandro Soares, 2019

(Tatiana Potrich reforçando a panturrilha)

Espírito Santo

Recordo como se fosse hoje o dia que fizemos o curso para batizar o meu primeiro filho. Ele nasceu no mesmo dia que completou um ano exato do meu encontro com seu pai e coincidentemente, no mesmo dia do meu Batizado, há 42 anos atrás. Uma honra e surpresa para mim, que sou apenas uma reles católica não praticante. O fato é que a aula do padre sobre os dogmas do Batismo foram de certa forma bastante reconfortantes e coerentes dado a tantas incertezas da vida. Ele ressaltou que quando a criança recebe o Espírito Santo ela fica protegida dela mesma. Haja vista, que o ser humano é mal por natureza, sua essência pela sobrevivência o deturpa, o corrompe, o desencaminha. O Batizado é uma bênção, um benzer mítico, uma proteção espiritual contra o nosso maior inimigo, nós mesmos. Noutras culturas os rituais se diferem, mas tem o mesmo propósito.

Entender o sentido do Espírito Santo e suas diversas formas de manifestação é um ato de empatia, humanismo e equidade. Os monges, os yogues, os umbadistas, os kardecistas, os do Candomblé também se benzem, se protegem e acreditam no mau que nasce junto com nosso instinto de sobrevivência. Movida pela espiritualidade decidi escrever este texto como uma confissão deste meu lado naif de ser. Sou uma adepta à mediunidade, adoro uma roda de batuque, pernadas, braçadas, rituais lisérgicos e entrega espiritual. A arte da Capoeira me abriu este chakra e feliz ou infelizmente estou condenada a adorá-la pelo resto da vida.

Acredito que tudo é um chamado, uma vocação. Certa vez disse à uma colega que não é a gente quem escolhe a Capoeira e sim ela que escolhe seus discípulos. Tem que ter coragem, coluna, sola do pé dura como o chão e muita ginga no corpo. Achei bonito e pertinente a entrevista do psicanalista, Contardo Calligaris para o site Gaúcha AZ Comportamento, em 28/04/2020:

“Os ônibus voltaram a estar lotados, não sei quem teve a ideia de diminuir o número de veículos, só para baixar a gasolina, porque iria acabar aumentando a lotação. Esse exército permite a uma casta que não é mínima, as classes A e B, com alguns pedaços da C, se manter protegida. É uma tamanha confirmação da dolorosa desigualdade social brasileira. Seria útil que as pessoas da A e da B lessem Gilberto Freyre durante este período, não Casa Grande e Senzala, mas Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, para entender como chegamos nessa. A divisão e a desigualdade existem no mundo inteiro, mas nós temos algo distinto. Os que podem se proteger e os que podem se contaminar”.

Indicar Gilberto Freyre em tempos de pandemia é um ato de coragem. Ler Freyre é uma vocação. Foi o primeiro livro da trilogia quem me escolheu: “Casa Grande e Senzala” (1933). Tenho tatuado no braço o nome do livro que é também o apelido dos dois irmãos capoeiristas que conheci no ‘ringue’ de uma roda na praça. Casa Grande é o mais novo, belo e um típico atleta de ébano e seu irmão, Senzala dispensaria comentários não fosse seu intrigante intelecto. Assistir ao duelo fraterno destes dois foi uma epifania, após ter concluído meu primeiro livro do sociólogo pernambucano. Aquele magnetismo me chamou, me conquistou de vez. Foi como se o Espírito Santo, Emí Mimò, abençoasse a minha vocação, o meu bem querer pela cultura brasileira, pela minha saúde física e mental, pela minha consciência desta cabulosa desigualdade social a qual vivemos.

São mais de 20 anos de relação e me sinto completamente realizada pelo que consegui aprender na prática, mas principalmente na teoria. A Capoeira é um viver filosófico em liberdade e disciplina! Ela é meu Espírito Santo!

 

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Obra “Capoeira” e pote em cerâmica pela artista mineira naif, Helena Vasconcelos. Gravura e desenho em papel, do artista e gravador fluminense Zècésar.

Diário de uma Mãe na Quarentena

Hoje é Dia das Mães e eu como uma boa mamãe venho acompanhando diariamente o desenvolvimento dos meus filhos na escola, em videoaulas, principalmente agora em tempos de quarentena. O mais velho está com 12 anos e frequenta o 7° ano do Ensino Fundamental II, num colégio católico. O professor da disciplina de História acaba de introduzir a Idade Moderna assuntos como a Reforma Protestante e a Contrarreforma. É um tanto desconfortante ler argumentos e críticas sobre o Catolicismo no livro didático do próprio colégio, mas venhamos e convenhamos, o Protestantismo tem lá as suas inúmeras falhas também. Incrível como a Política e a Religião sempre andaram de mãos dadas. Enquanto que, na Monarquia, o Rei e o Papa eram como amigos íntimos, só depois da bronca de Lutero as coisas começaram a mudar ou não.

A Arte sempre permanecera às margens, ou às encomendas da nobreza, como era de praxe retratar os membros de alto escalão e suas extravagâncias. Mas a Idade Moderna superou algumas expectativas, pois depois de Leonardo Da Vinci o mundo nunca mais foi o mesmo. A profundidade da paisagem de fundo da tela da Mona Lisa (1503) viralizou uma hipotética ideia da terceira dimensão, embora atualmente vivamos já o fim da quarta e o início de uma quarentena sem fim.

Um ano definitivamente, sui generis que merece um texto para o dia das mães tão atípico quanto. No começo da quarentena andei postando (mas apaguei) algumas sugestões de filmes em minhas redes sociais. Dentre eles selecionei um clássico do cinema italiano, “O Leopardo” (1963). Embora, literalmente um longa, o filme me marcou, pois após mais de 180 minutos, a frase óbvio ululante do personagem: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está” é a máxima da estratégia política que todo maquiavélico tem de saber de cor.

Protestantismos à parte, um recente acontecimento de uma singela troca de ideias contrárias sobre uma postagem nas redes sociais, me vi envolvida opinando à respeito da descriminalização do aborto num perfil que se confirmava de um grupo patologicamente religioso. Enfim, não foi a minha intenção defender de forma ofensiva a minha ideia, mesmo acreditando que nem toda mulher que é capaz de parir tem capacidade de ser mãe, porque isto não é um assunto religioso e sim sociocultural.

Bem estranho falar desse assunto nestes dias, mas levando em conta que nada anda em sua normalidade habitual resgatei a imagem da Galeria de 11 anos atrás toda pintada de vermelho que me remeteu a um típico teste de Gestalt psicológico. Enxerguei uma imensa vagina, orifício único para concepção de um filho, ou sua eterna rejeição. Sei que levantar assuntos como este em tempos de pandemia é como, diria os sábios de gerações passadas, “enxugar o gelo”.

“Acredito que quando a crise acabar as pessoas sentirão ainda mais a necessidade de estabelecer vínculos sociais. Não acredito que possa haver uma mudança fundamental na natureza humana”. Yuval Noah Harari

Nem eu, Harari!

Feliz Dia das Mães! #55quarenteneday

red paulo torres

Mostra Epiderme Urbana, coletiva do artista mineiro Paulo Torres e o fotógrafo Nello Aun, 2011

Quarta Quarenta Quarentena

“Para o historiador britânico, Eric Hobsbawm (1917-2012), o século 19 só acabou com o 1ª Guerra Mundial. Isso porque mais que um intervalo de tempo, os séculos carregam mensagens, ideias e esperanças. O período de 1801 a 1900, por exemplo, foi marcado pela vitória da burguesia pelo mundo regido pelas invenções que libertariam a humanidade. O século virou oficialmente em 1901, mas foi necessário a carnificina da 1ª Guerra Mundial para demonstrar a utopia de uma sociedade regida pelo progresso, pela ciência e pela ideia de que todos evoluímos igualmente. Dessa vez vemos o evento se repetir. A diferença é que o inimigo é um microrganismo que veio para mostrar como o ser humano é vulnerável. Ao mesmo tempo escancarou nossas desigualdades”.

A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz expõe a ideia do historiador britânico que para o fim de cada século há sempre um grande evento, um marco que termina para que outro se inicie. E para cada Revolução Industrial novas invenções são utilizadas, como a máquina à vapor, no século XVIII, os veículos, telefone, televisão e antibióticos, no século XIX, os celulares, o computador, a internet, no século XX e agora, na 4ª Revolução Industrial, dita tecnologia disruptiva, com a robótica, a automação e a nanotecnologia.

Brincando, mas falando sério, comemoramos nossos quarenta anos na quarentena em plena quarta revolução industrial, confinados em casa! Um tanto contrastante, não acham?! Como Schwarcz cita, em meio a todo avanço tecnológico nos percebemos vulneráveis diante de um inimigo invisível. Enxergar nossa pequenez diante do poder da Natureza nos encabula, nos força a procurar respostas e nos volta a atenção ao meio ambiente, a curtir as coisas simples da vida. Paciência ao tédio, contemplação da paisagem, observação do nascer e do pôr do Sol, atenção às fases da Lua!

A sensibilidade dos artistas acompanha essa mudança de comportamento e eles expressam suas sensações conscientes ou inconscientes do atual momento. Quando havia monstros, sombras, insetos, esgotos e robôs nas pinturas do artista Pitágoras, agora nos deparamos com um horizonte limpo, neutro, cheio de natureza e esperança! Será esse o nosso futuro depois desta aprovação virótica, deste sacrifício econômico, desta contaminação e “carnificina” enterrada em valas comuns?

Quem sabe!? Quem sabe os artistas já sabem! A gente acredita na Arte! A gente acredita no futuro próspero!!!

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Tarsila Potrich em balanço Tidelli gentilmente cedido pela AZdecor para montagem da mostra “Potrich – 40 anos de arte contemporânea”, ao fundo obra do artista Pitágoras.

Política & Cultura

No livrinho “Nietzsche – Uma Filosofia à Marteladas” (1984), o autor Scarlett Marton organizou as ideias do filósofo prussiano em breves sinopses cujos pensamentos flertam com uma rígida coerência realista:

Estado e Cultura são pólos antagônicos e adversários: um vive às expensas do outro. As épocas de grande fertilidade cultural correspondem épocas de decadência política. Impõe-se trabalhar para deixar se levar pelo ruidoso tagarelar político dos dias que correm (…) É preciso isolar-se, retirar-se do mundo para continuar a criar”.

A Revista GQ, do mês de Março concebeu entrevista com as duas duplas de irmãos, OsGêmeos e os Irmãos Campana e uma das perguntas do ping-pong fraterno foi “O que o brasileiro tem de melhor e de pior?

OsGêmeos responderam: “Todo brasileiro tem um pior e um melhor dentro dele. Crescemos aprendendo essa diferença. A gente precisa aprender a lidar e domar. Todo mundo tem os dois lados. Mas uma das piores coisas são os políticos.”

A resposta dos Campana focou no tema ambiental, mas sem fugir à crítica política.

Fernando: Melhor: carisma, disponibilidade, afeto, generosidade. Pior: falta de consciência ambiental e respeito à Natureza.

Humberto: Melhor: criatividade. Pior: o eterno jeitinho brasileiro.”

Entender a Filosofia através da Arte, do Design ou da Cultura é como entoar aquele jargão irônico: “precisa desenhar”? Nunca foi tão fácil enxergar as duas forças opostas que separam o joio do trigo, a água do óleo, a noite do dia. Política e Cultura não se beijam. Certa vez, alguém muito próximo confessou, com uma pontadinha de razão, que as leis de incentivo à cultura obstruíram o ciclo criativo das Artes Plásticas Brasileira. Enquanto que a efervescência dos anos 80 veio para iluminar as trevas de décadas de repressão militar movimentando um circuito fértil, autônomo e independente, a virada do século ostentou verbas milionárias à artistas medíocres, conhecidos ou reconhecidos pelos seus q.i’s (quem indica’s). Um negócio que girou em torno de artistas e produtores vinculados à lobbies e contatos de empresas para financiar exposições que se auto promoviam sem necessitarem do mercado, isto é, da cadeia de profissionais da área como historiadores, curadores e críticos de arte para endossá-las. A Política de Incentivo, em alguns casos (e digo apoiado naquela pontinha de razão) desviou o olhar crítico sobre a Arte para incentivá-lo como negociata.

Em vista da pandemia, a ideia de “isolar-se, retirar-se do mundo para continuar a criar”, segundo Nietzsche é muito bem-vinda hoje em dia. É hora da Arte se mostrar com lucidez, esperança e autonomia. É nas Trevas que se faz necessária a Luz. Um país que não entende seu passado não terá consciência do seu futuro. Que saibamos discernir a qualidade de produção artística de cada época e valorizá-la como ela merece. O futuro é agora!

campana e nósIgor e Tatiana Potrich em lançamento do livro Complete Works, Campana’s Brothers, na AZdecor, em 2010.

Tatiana Potrich com Humberto e Fernando Campana, no Earq, em 2015.

 

O peso da verdade

O vencedor do Prêmio Jabuti e imortal na Academia de Letras, o escritor baiano, João Ubaldo Ribeiro (1944-2014) tem uma célebre frase que resume o significado do título do texto:
O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, existem histórias”.
Então vamos às histórias:
O cearense, Leonilson (1957-1993) foi o primeiro jovem artista brasileiro a merecer, logo após sua morte, um estudo e edição do livro “São tantas as Verdades” (1998), organizado pela crítica de arte Lisette Lagnado, que reuniu mais de 120 imagens e entrevista inédita. O nome do livro é uma entre tantas outras frases distribuídas em seus trabalhos, onde disserta sentimentos íntimos como num diário particular. Tal qual um poeta, Leo alinhava literalmente letras bordadas em versos, dilacerando a realidade, entonando sonhos, expressando a beleza da dor e as ambiguidades da vida. Leonilson integrou o grupo de artistas da Geração 80 e manteve significativo contato com grandes nomes da arte brasileira como Leda Catunda, Sérgio Romanolo e Eduardo Brandão. Leo tomou como inspiração a arte de artistas e seus distintos suportes elaborando um criativo discurso visual com referências simplificadas de técnicas e formas das obras de Antônio Dias, Arthur Bispo do Rosário, Edgar de Souza, Daniel Senise, Waltércio Caldas, Lygia Clark e Hélio Oiticica. Em 1985, expõe pela primeira vez obras em tridimensão que integraram a instalação da 18ª Bienal de São Paulo, “O Homem e a Vida”. A foto divulgação, onde o artista segura o globo em fios de aço nas suas costas simbolizou o tema do evento parodiando uma entidade da mitologia grega. Assim como Atlas foi obrigado a carregar o peso do planeta Terra nas costas, por ser o maior e o mais forte dos Titãs, Leo foi o Homem a representar o artista que carrega o peso da Vida. Portador do vírus HIV, expressou em suas obras a vulnerabilidade da vida denominando seus trabalhos com sugestivos títulos: “Moedas de artista, dias contados” (1985), “Aqui está meu coração. Ouro de artista é amar bastante” (1989), “Grandes homens, mesmo veneno” (1991). Em entrevista para o livro, declara: “Os trabalhos são todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade diretamente, mas mostram uma visão aberta”. No ano de 1993, com uma breve e intensa carreira internacional, o artista falece precocemente aos 36 anos deixando cerca de 1000 obras, 800 delas catalogadas. Em 1998, sua fotografia com o globo é usada na confecção do logotipo da 24ª Bienal de São Paulo. “São tantas as verdades” é o relato de um artista que passou pelo prazer de vivenciar o amor e a dor na mesma intensidade.
Não sou dada à Religiões, embora cultive a religiosidade como exercício espiritual, mas achei interessante um pensamento do tietado Padre das Celebridades, Fábio de Melo, que diz assim:
Ninguém é capaz de produzir a Verdade. Nem tão pouco alterá-la. Ela será de quem procurar por ela”.
Leo procurou, achou e descansou em paz, nos deixando uma imortal e preciosa produção artística. Com essa história toda a gente começa a entender que segurar o peso do mundo nas costas não é pra qualquer um não, apenas para os grandes, os fortes, os que conseguem suportar a arte de viver em Verdade. Num é verdade!?

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Leonilson em foto por Eduardo Brandão, 1985

Templo

Há uma semana, pela segunda vez leio o termo “templo” para designar edificações destinadas em abrigar obras de arte. A primeira vez foi no texto sobre a Galeria Lygia Pape no Blog do Instituto Inhotim https://www.inhotim.org.br/blog/o-templo-de-lygia-pape/. A segunda, li no livro de Hilma af Klint “Paintings for the Future”(2018), da legenda “Plans for a temple” (1930), um estudo resenhado pela artista em sua caderneta de anotações que foi inspiração para a construção do prédio do Museu Guggenheim, em Nova Iorque,  projetado pelo arquiteto, Frank Lloyd Wright e inaugurado em 1959.

Se a nomenclatura nos museus, teatros, institutos e galerias de arte fosse substituído por “Templos” faria mais jus às verdadeiras intenções destas instituições na sociedade. Não que o culto à Arte viesse a ser um mecanismo de dominação em massa, como a Religião, mas o discurso, o diálogo e a narrativa do contexto cultural clamariam mais por questões baseadas na Filosofia, Estética e conduta Ética como um dever civil, do que propriamente uma aceitação por um Deus personificado e estereotipado. A compreensão da Arte provê a liberdade de pensamento, oportuna a empatia como veículo de conhecimento, inspira a autonomia como satisfação e, por conseguinte, a felicidade.

Visitar uma exposição de Arte é ter a oportunidade de entender a história das obras, da curadoria e do artista. É uma aula que elucida mais e traz positivos resultados à sociedade do que aglomerações abatidas por batidas descompassadas de sermões sobre punição divina, paraíso, culpa, céu e inferno. Vamos lá, pessoal, a gente sabe muito bem que “aqui se faz, aqui se paga, aqui se jaz”.

O psicanalista Christian Dunker acaba de publicar um texto na página https://artebrasileiros.com.br/cultura/coroa-de-espinhos-christian-dunker-peste-coronavirus-saude-mental/ , onde disserta sobre a autocrítica e encargos de consciência que cada um deve carregar. O texto de Dunker, intitulado “Coroa de Espinhos” traz a ilustração da obra “Tentação de Santo Antônio”(1650), de Jees Vem Craesbeek projetando uma luz sob nossas fraquezas de pensamento e como é de costume transferirmos nosso sentimento de culpa ao outro para nos eximirmos das responsabilidades.

Pois bem, a compreensão da Arte faz exatamente o oposto, ela demonstra o que cada um é capaz através do conhecimento cultural, suavizando o olhar para o outro, a inibição do preconceito e da culpa e a potencialização da auto crítica como fonte inesgotável de reclusão e livramento. A compreensão da Arte possibilita exercitar os sentimentos para que possamos ser donos de nossas próprias vontades, escolhas e atitudes e estejamos prontos em aceitar as consequências de nossos atos. Que neste Domingo de Páscoa a quaresma tenha cumprido com suas tradições e, ainda que na quarentena, possamos enxergar a luz em outros Templos.

plans for a temple spiritual

Caderneta de anotações de Hilma af Klint, “plans for a temple” ou “temple of the spirit”, 1930-31

Por Sérgio Valle DuarteA

Vista do Museu Guggenheim, NY. Foto recente de Sérgio Duarte A. Via Wikipedia.

Teia

No texto do Domingo passado ressaltei que várias e sérias Instituições Culturais prosseguem seus trabalhos, apesar do isolamento e o adiamento de eventos, postando em suas redes sociais diversas informações, mantendo um diálogo com seu público mesmo que virtualmente. Pois bem, na última quinta-feira a curadoria do @museoguggenheim, em Bilbao postou um vídeo sobre a obra “Mamá”, da francesa naturalizada americana, Louise Bourgeois (1911-2010). A obra é uma gigantesca aranha em bronze, majestosamente alocada no pátio externo do museu, onde é possível se deslocar ao seu redor e vislumbrar seus imponentes detalhes. A artista denominou a obra em homenagem à sua mãe que foi uma exímia tecelã, assim como o mito de Aracne, a humana que desafiou Atená, na mitologia grega. A competição entre a humana e a deusa acaba com o castigo de Atená sobre a arrogante humana, que a transforma numa aranha, eternamente fadada a tecer suas teias.

Em Julho de 2019, revisitamos o Instituto Inhotim para conhecer, enfim a Galeria da fantástica artista neoconcreta Lygia Pape (1911-2010) que abriga a obra “Tteia C1”.  Após atravessarmos os suntuosos jardins do parque, nos deparamos com um fabuloso bloco de concreto facetado que guarda em seu interior um ambiente paralelo ao externo, com uma atmosfera cósmica muito familiar. A penumbra iluminada por feixes de luz refletidos nas linhas douradas que se despendem do teto até chegar ao chão formam teias diagonais milimetricamente perfeitas. A jornalista Bruna Nicolielo descreveu as impressões sobre a obra e o depoimento da artista para o blog do Inhotim:

“Certa vez, em um depoimento, ela declarou que circular pela urbe se parece com o feitio de uma teia, por uma aranha. Como o animal que produz sua rede de fios para uma dada finalidade, que vai da captura de presas à cópula e ao abrigo, andamos pela cidade criando fluxos próprios. Para Lygia, nesse trânsito elegemos espaços importantes e de afeição, que marcam a experiência humana. Essas reflexões se concretizaram nas Tteias, que, não por acaso, remetem às palavras teia e teteia, que no linguajar do povo, significa algo bonito, gracioso”.

Magicamente, ambas artistas se identificam com a teia, com o entrelaçar, com os laços da afetividade. O tecer é um ato místico e milenar, suas simbologias e superstições são descritas por culturas celtas, nórdicas, gregas, bíblicas ou exotéricas. Estamos todos conectados, em teia, em rede, em vida. Que gracioso poder observar estes gestos artísticos, que embora tão distantes podemos contemplar virtualmente. Entre o medo de ser contaminado, envenenado ou picado por um aracnídeo, deve haver também o sentimento de o contemplar como um ser da Natureza, que faz parte da cadeia alimentar, que tece sua teia como qualquer um que tece sua vida. Resta entender que Atená teve lá as suas razões quando castigou Aracne, pois cada ser deve aprender e entender o lugar que lhe cabe, a se posicionar perante os fatos da vida com justiça e respeitar as regras da Natureza. Afinal, Ela é quem tece os seres da cadeia alimentar, ou não?!

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Galeria Lygia Pape, 2019

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“Tteia 1C” (1977-2000), Lygia Pape, Instituto Inhotim

Vazio

“Cada vez mais voltados para as preocupações particulares, os indivíduos se pacificam não por ética, mas sim por hiperabsorção individualista: nas sociedades que impulsionam o bem estar e a realização de si mesmo, os indivíduos, é claro, tem mais desejo de encontrar a si mesmo, de se auscultar, de se ‘drogar’ com viagens, música, esportes, espetáculos em vez de se defrontar fisicamente”. (A Era do Vazio, Gilles Lipovetsky, pág. 169, Ed. Manole, 2005)

Neste parágrafo do filósofo francês, o trecho “se defrontar fisicamente” caberia bem na atual conjuntura. O isolamento é um estágio providencial para nos defrontarmos com nossa verdadeira realidade, sobre o que somos, o que nos falta e o que nos sobra. Sejamos realistas, gente, numa hora ou outra a Natureza nos daria um puxão de orelha. Já estava em tempo silenciar tanta barulheira inoportuna. Esses ditos bailes ou shows de pseudo músicas que entoam, em altos refrões, declamações obscenas em batidas sertanejamente descompassadas. Também os cultos ensebados de falsas glórias de missionários, que se enriquecem às custas da servidão de incapazes fiéis. Ou ainda a ascensão de super-heróis da autoestima, os ditos coach’s que lotavam auditórios com dicas mágicas e conselhos revolucionários para a emergência financeira. Nem sei se devo comentar do Futebol, cujos milhões destinados à construção de glamurosos estádios para a Copa do Mundo, atualmente servirão para abrigar pacientes em tratamento do COVID-19, em caso de sobrecarregar hospitais e clínicas.

Sobre o pessoal da Arte, posso dizer que continuamos a fazer nossa parte. As instituições culturais de todo o mundo que realizariam mostras e feiras de Arte adiaram seus eventos, no entanto continuam mantendo o compromisso de divulgar imagens e informações em suas redes sociais fazendo uma coerente curadoria  de obras, livros, filmes, artistas e suas trajetórias, passeios virtuais em 360°, além de vídeos com depoimentos de profissionais relacionados à cultura sobre o impacto da pandemia no circuito da Arte.

Em 2008, visitei a 28° Bienal Internacional de São Paulo, “Em vivo contato”. O momento era delicado, a verba para o evento estava reduzida e o prédio sofria de restrições, embora já houvessem concordâncias sobre “dar uma freada” e estabelecer um conjunto de artistas mais qualificados e comprometidos com a crítica ao sistema e necessárias mudanças de comportamento.

O primeiro andar foi um experimento à interação, o público seria responsável em fazer parte de tudo, sendo elemento indispensável da obra e do evento de Arte. A disposição de mesas e cadeiras para atividades coletivas, a troca de conhecimento, o respeito do espaço mútuo e a responsabilidade um com o outro. Um exemplo dessa troca foi o quiosque de chaveiro, um reade made funcional, onde se fabricava a chave do portão dos fundos do prédio da Bienal, que o espectador poderia trocar por uma chave que fosse sua. O segundo pavilhão estava completamente vazio e foi essa marcante característica que lhe valeu o nome “Bienal do Vazio”, por causa também da falta de financiamento do governo e de empresas. O terceiro andar manteve uma curadoria sóbria, mas com clima de recessão.

Tão atual como há 12 anos atrás, o vazio em nós tem outro nome, o COVID-19. Quando achávamos que a sífilis seria o inibidor da libido desenfreada entre nós, vem um bichinho verdinho invisível para avassalar nosso conceito de liberdade. É hora de refletir sobre esse vazio. O que estamos fazendo, produzindo, para quê, para quem, por quê?

Finalizo com mais um trecho de Lipovetsky:

“O fato de a vanguarda se encontrar esfalfada não quer dizer que a Arte morreu, que os artistas não tem mais imaginação, mas sim, que as obras mais interessantes deslocaram, já não procuram inventar linguagens em ruptura, são mais ‘subjetivas’, mais toscas ou obsessivas e abandonaram as alturas da pesquisa pura do Novo”. (Era do Vazio, pág. 97)

Vamos em busca de renovar conceitos, reinventar linguagens e romper com velhos padrões, que visivelmente não estão dando mais certo. Fiquem todos bem! Aproveitemos nossos vazios para brevemente nos enchermos de responsabilidade e confiança uns nos outros!

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“Bienal do Vazio”, 2008. No fundo do pavilhão, lado esquerdo, o quiosque “Chaveiro Talismã”, de Paul Ramirez Jonas.

O artista sempre esteve nu


Existem muitas maneiras de iniciar uma pesquisa artística. Um novato pode começar com estudos sobre utensílios, estamparia, azulejos, joalheria, expressões corporais, experimentos científicos e tantos outros suportes. Mas o artista bom, o que se entrega de corpo e alma, se desnuda como num show de strip tease. Não estou dizendo que strip tease seja arte (quase que Demi Moore, ao som de Annie Lennox me provou o contrário), mas digo como performance ou happening, enfim o artista se desnuda, se mostra plenamente, sem negar suas origens, seus ideais, sejam eles bons ou maus, contudo sinceros, coerentes e elucidativos.

Quando tivemos a ideia de abrir o Edital de Seleção firmamos o compromisso de mostrar à sociedade goiana a produção destes novatos (ou não) que estão atentos, lúcidos e mordazes em seu ofício. Aqueles que agradam e ferem os olhos e o coração! Aqueles que dizem a verdade sem medo das consequências e vivem conforme seus princípios. Estes 20 artistas inscritos passarão por um processo seletivo de avalição, não para se envaidecer ou alimentar seu complexo de superioridade, mas para reforçar sua capacidade de exercer essa função.

Um artista, assim como um juíz deve sim passar por um concorrido concurso  para ser um profissional justo e competente. Deve ele cumprir com seu dever mesmo indo contra a opinião alheia. Este profissional não deve se render ao mercado, não deve aceitar mentiras, barganhas ou manipulações, mas e principalmente ser imparcial sobre elas. O mesmo se dá ao artista quando ele submete seu trabalho à um Concurso de Salões e Premiações de Arte, mostras em espaços culturais e admissões em instituições de ensino artístico. Ele ou ela devem ser avaliados por uma banca qualificada. Profissionais que entendam a História da Arte, o mercado cultural, a estética, o comportamento social e as premissas dos conceitos filosóficos, assim como também se exige no Direito. Devemos ser justos com o candidato e com sua obra. É um árduo ofício! Um bom artista não vive só de louros e holofotes, eles enfrentam guerras e balas perdidas, documentam a verdade, se jogam no fundo do poço para entender a escuridão e a desigualdade, aprofundam seus conhecimentos nas áreas mais escondidas da psique humana para entender os movimentos da Natureza, seus fluxos e refluxos. São estes artistas que tem de ser respeitados e valorizados, estes que enfrentam concursos, bancas qualificadas, olhares de curadores, historiadores, diretores e colegas de trabalho para endossar sua obra, sua pesquisa artística. É realmente um privilégio para estes 5 artistas selecionados estarem ao lado de veteranos, que enfrentaram tantas bancas e se desnudaram para seus espectadores simplesmente para lhes mostrar a verdade.

Não é sobre enxergar se o Rei está ou não nu, mas nos desnudarmos dos falsos valores e valorizarmos os verdadeiros artistas. Aqueles que realmente se encorajam para ficarem nus diante de nós e finalmente nos mostrar o que pensam, o que pesquisam, o que está acontecendo. Estes são pré-cientistas. Acreditem!

ana maria

Gravuras da artista goiana, a veterana Ana Maria Pacheco (1943), no acervo do MAC – Museu de Arte Contemporânea de Goiás. Obra da artista e de outros veteranos integrará a mostra de nossos 40 anos com os 5 artistas selecionados. Resultado do Edital será divulgado em breve. Foto de Leonam Nogueira.