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O enigmático

tunga oti

Penso ser bem apropriado, nos tempos de hoje, um artista brasileiro ter o apelido de Tunga. Mais comum em países subdesenvolvidos, a tungíase é uma doença infecciosa de pele causada pela fêmea (Tunga penetrantes), o vulgo bicho-de-pé. Antônio José de Barros Carvalho Mello Mourão é o Tunga, um enigmático cidadão do mundo, que além de conservar um mistério acerca da localidade de seu nascimento, sempre nos surpreende com obras estranhamente familiares e extremamente intrigantes. Pois foi assim mesmo que me senti! Acometida misteriosamente pelos sintomas de uma incessante coceira e irritação nos nervos, que ora aliviava, ora agravava, ao meu primeiro contato com o livro “Tunga – Barrocos de Lírios”, editado pela Cosac & Naif, em 1997.

O livro traz uma poética trajetória artística com registros fotográficos e primordial diagramação, dada a qualidade das imagens dos trabalhos e suas descrições. Desde então o que mais me intrigava era o complexo enredo que o artista criara sobre sua obra Xifópagas Capilares (1985). Através de cartas e poemas dum dinamarquês, o texto no livro, intitulado Xifópafas Capilares entre Nós, descreve o mito de origem de um povo nórdico e relata o nascimento de xifópagas e capilares, que gerou discórdia, discussões e desavenças no país. A narrativa abrange atitudes morais da sociedade e coloca em evidência preconceitos e a salvação através do amor. Depois de lido e relido, recordo-me ainda de divagar à respeito da Rapunzel, cujo final da história, em algumas versões, conta que tendo sido cortados seus cabelos pela bruxa, passa longo período de fome no deserto, mas reencontra seu príncipe e vivem felizes com suas filhas gêmeas no reino.

Tunga dedicou este livro à sua mãe e à sua tia.

Em outubro de 2010, numa entrevista do artista à Revista Piauí, dei por mim que suas obras tem um sentido muito mais profundo que supostamente acreditava. Seu avô, Antônio de Barros Carvalho era muito amigo do famoso artista Alberto da Veiga Guignard, que em 1940 pintou a tela, “As Gêmeas”. As irmãs eram Léa, mãe de Tunga e sua tia, Maura. Quarenta e cinco anos depois, Tunga apresenta a performance Xipófagas Capilares, onde duas meninas compartilhavam uma cabeleira enorme.

Trago aqui recente  imagem de Lézart (1989), que está na Galeria Psicoativa de Tunga inaugurada em 2012, no Instituto Inhotim. A sensação que tive ao revisitar sua obra foi aquela coçadinha que alivia e até desperta um certo prazer, entretanto este é apenas o início de uma “infecção psico-artística”. Uma reflexão à respeito de alguns valores humanísticos há de nos penetrar paulatinamente, muito além da pele.

Comungo com as observações do curador Luiz Camillo Osório: “Todo mundo concorda que os trabalhos dele falam do inconsciente, do desejo e da transformação biológica de suas obras, mas esses temas complexos problematizam ainda mais a sua produção (…) apesar de sempre ter tentado entender o Tunga, nunca consegui de fato. A graça dele está nesse enigma.”

xipofagas capilares oti

O prazer do movimento na arte brasileira

Me propus o desafio de fazer um ensaio bem resumido, sem qualquer pretensão, mas com alguma emoção, acerca da surpreendente história da arte brasileira baseado nas minhas experiências, estudos e pesquisas de campo.

O sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre trouxe uma interessante passagem do historiador suíço, Siegrief Giedion, no seu livro Casa-Grande e Senzala (1933), em nota de rodapé, sobre o processo de mecanização da rede indígena ou cama brasileira (Brazil bed) e a mecanização baseada em mobilidade:

“Desse processo se aproxima (segundo o suíço), a arte do escultor norte-americano, Alexander Calder (1898-1976), na qual a obsessão do artista pela solução dos problemas de movimento teria encontrado a sua primeira expressão artística. A rede, entretanto, pode ser considerada manifestação já artística do gosto do repouso combinado com o prazer do movimento, que se comunicou dos indígenas da América aos primeiros conquistadores europeus do Continente, entre os quais Cristovam Colombo, em 1492.”

Os indígenas, intuitivamente, já compreendiam bem desde a fenomenologia do filósofo francês Merleau-Ponty às teorias estéticas publicadas no De Stijl, pelo artista neerlandês Theo van Doesburg, apenas em observar o meio ambiente. Do artesanato à arte erudita o salto equivalente se deu através da elaboração de fabulosos cocares, minuciosas tecelagens e trançados em palha, sofisticadas pinturas corporais e as formas orgânicas em artefatos domésticos e utensílios para caça e pesca perfeitamente confeccionados para o uso diário.

O esmero do trabalho artístico indígena traduzia uma celebração à vida, aos deuses e principalmente à natureza.  Acredito que a arte brasileira nasceu deste contato puro e ingênuo com a terra, com o movimento das águas e a biodiversidade. Foi a inexata geometria indígena que inspirou nossos primeiros artistas, nossos mestiços, antropófagos, grupos revolucionários ou de ruptura, à frente de seu tempo, neoconcretos, verdadeiros vanguardistas. Depois da Revolução Industrial, do Futurismo, do Suprematismo, do Abstracionismo e demais “ismos” que vieram do outro lado do oceano, ascenderam se as faíscas para uma retomada às referências genuinamente brasileiras.

A Semana de Arte Moderna (1922), como efeméride da Independência da República, teve sua grande parcela de responsabilidade quanto à ânsia de nos alimentarmos das culturas alheias, no entanto foi o Movimento Neoconcreto (1959) quem abraçou a pureza das formas e cores se aproximando mais ainda das nossas origens, dos efeitos geométricos em constante transição, da graça e mistério na interação com as obras, do prazer combinado com o movimento.

O Neoconcretismo catalisou os efeitos seguintes da arte brasileira se desdobrando em ideais de interatividade como em obras da Nova Objetividade na década de 60, transmitindo posteriormente estes mesmos ideais para obras conceituais da década 70, assim como a poesia concreta da década de 80, em movimentos urbanos, que democratizam e interagem com a cena da cidade como o grafite, se expandindo na fotografia, artes cinéticas, robóticas e ainda invadindo a linha tênue entre arte e design em projetos de iluminação, gráfico e moda.

O prazer do movimento associado à participação ativa ou passiva sempre fez parte da nossa cultura, ele apenas descobriu outros meios de se manifestar artisticamente ao longo dos séculos!

Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, Cosmococa 5 Hendrix War, 1973, projetores, slides, redes, trilha sonora (Jimi Hendrix) e equipamento de áudio, dimensões variáveis, blog Instituto Inhotim

 

Crédito para imagem: Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, Cosmococa 5 Hendrix War, 1973, projetores, slides, redes, trilha sonora (Jimi Hendrix) e equipamento de áudio, dimensões variáveis. Blog Instituto Inhotim

Uma carta para Léo

leo

Caro Léo,

impulsionada pela admiração e orgulho que tenho dos talentos goianos, me dei a liberdade de relembrar alguns momentos de minha vida em que você esteve presente.

Recordo de sua visita para uma conversa serena com minha mãe, Marina Potrich, nos fiz dos anos 90, na nossa Galeria de Arte, no Jardim Goiás. Vocês articulavam uma exposição muito mais criativa e ousada que a recém terminada mostra de desenhos seus, em 1998. Recordo ainda da minha ingênua aproximação, assim como uma aluna solicita ao mestre (na época você lecionava na UCG), para me auxiliar no desenho técnico de uma obra do artista Amilcar de Castro. Pobre de mim, horas intermináveis para que você solucionasse em segundos.

Dois anos depois, em 2001 você apresenta a mostra individual “Quadrado Entre Aspas”, um misto de objetos de arte, mobiliário e peças de decoração. Exponho entre minha singela coleção de arte, no entanto, exibo apenas para os íntimos, a luminária em placa de vidro na caixa de madeira que vem com a exclamação: FAÇA SEXO!, entre cores quentes e frias, que fez parte da mostra. Amo toda vida!

Em 2006 você aceita, para nosso enriquecimento cultural, ministrar a palestra sobre sua visita à feira de móveis de Milão para o Projeto Cultural “Olhar Crítico sobre a Arte”. O projeto aprovado através da Lei de Incentivo foi um circuito de palestras realizado em nossa Galeria de Arte, onde você selecionou imagens do trabalho dos brasileiros Irmãos Campana que se destacaram na feira, além de expor seu ponto de vista e perspectivas sobre arte e design!

Mas foi em 2008 que eu vi você sair literalmente da zona de conforto e se arriscar numa área que reluz. A mostra de jóias no Centro Cultural Oscar Niemeyer, na minha opinião, foi a mais surpreendente de todas as mostras de arte já realizadas por lá. Seu talento e a composição estética da montagem e curadoria ficaram expressas em pequeninas miudezas valiosas. O contexto artístico aliado ao design tomaram formas majestosas em suas jóias, suas fotos, suas tatuagens, sua pele e seu pêlo. Você se “despiu” de dogmas e paradigmas e eu delirei!

Em 2011, depois de visitar a Casa Cor (donde pairava um estrondoso banner de um boneco nu com o seu rosto impresso), folhear seu livro, admirar sua arquitetura, ler as caseiras confissões do companheiro Marcelo e refletir sobre o texto do amigo Jean Bergerot , decidi por fim,  reproduzir a última frase que te define tanto:

“E hoje, depois de tantos anos eu descobri que quanto mais ele se doa, maior ele fica.”

Daí por diante dispensarei mais recordações a não ser quando nos encontramos há uns dois ou três anos atrás, na piscina olímpica do condomínio onde mora e você me cumprimentou diante de algumas crianças que brincavam por ali, e após um ligeiro mergulho, se despediu. Uma deles me perguntou quem você era e eu novamente ingênua respondi: “Ele é o Léo Romano, um dos maiores arquitetos do Estado de Goiás.” Se fosse hoje teria dito que é também um dos maiores designers do nosso país!

Léo, continue nos encharcando com suas chuvas de criatividade!!!                                                                                                                                                                                                                                                                                        Atenciosamente,                                                                                                                                               Tatão

JÓIAS, CHAMPAGNE E LUXO PARA TODOS

hotel + campana

O maior concurso de jóias do mundo realizado pela AngloGold Ashanti promoveu, em 2006, uma videoconferência com transmissão para mais de oito capitais  do país, onde estive presente, em Brasília. A videoconferência foi ministrada por várias entidades, dentre elas o presidente da mineradora e a dupla de designers brasileiros Humberto e Fernando Campana. A palestra se deu entre imagens avassaladoras do Brasil como o Carnaval, as favelas, os aterros sanitários, o artesanato popular e os camelódromos, as praias e as mulheres, a biodiversidade e finalmente as contradições sociais de um país tão grande e diversificado. O objetivo foi instigar o grupo de ouvintes a uma investigação minuciosa de nossas origens e a capacidade de organização das imagens e idéias à pesquisa do produto final, isto é a jóia conceitual. Este foi meu primeiro encontro indireto com a dupla, que esplendorosamente nos deixou uma mensagem muito sincera, o inusitado se encontra nas coisas mais simples.

 

No ano de 2010 finalmente os conheci pessoalmente no lançamento do livro Complete Works Campana Brothers (so far), numa loja de decorações em Goiânia. A mostra de design trouxe alguns dos mobiliários da dupla, como a linha de cadeiras Sushi e, claro a presença dos designers para a noite de autógrafos. Simpáticos e pacientes, Fernando e Humberto curtiram a tietagem goiana e nos contemplaram num encontro com a magnitude do design brasileiro que foi e é reconhecido e premiado mundialmente. Desde o mais experiente profissional ao mais curioso e inocente convidado, as formas, cores e materiais atraíram os olhares e atenções, isso porque suas obras transcendem as fronteiras entre arte e design. Eles ignoram todas as convenções do design tradicional, brincam com a noção de funcionalidade e formam seus objetos poéticos a partir de realidades contraditórias.

 

Humberto queria ser índio. Fernando astronauta. Os irmãos faziam os próprios brinquedos desde crianças e a infância no campo foi determinante em seu trabalho. Conta Humberto, em entrevista à Revista Casa Claudia que, “… a gente queria fazer uma fusão entre caipira e urbano (…). Vivemos num país naif, caótico, colorido e, logo percebemos que teríamos que trabalhar com a imperfeição.”

Uma dessas imperfeições foi parar no Hotel Du Marc, na França. “La Gloriette” dos Campana foi feita sob medida para a Veuve Clicquot. Nos antigos palácios europeus, desde o século XII e hoje, em espaços que possuem áreas para jardinagem, a edificação gloriette (gloire do francês que significa pequeno cômodo) é muito apreciada por moradores e visitantes. Situada em local alto de destaque a obra é um misto de técnicas arrojadas e do romantismo do século XIX, num moderno gazebo que simula o crescimento das vinhas. Sua cor faz alusão às folhagens dos vinhedos e principalmente ao rótulo do champagne mais desejado do mundo.

O luxo de suas criações vai além do mobiliário. Os Campana em parceria com a joalheria H.Stern criaram uma coleção formidavelmente criativa e inusitada. Movimentos, articulações e originalidade são um dos adjetivos das jóias que mais se parecem obras de arte. Inspirado nas madeirites, nos papelões de embalagem, tubos plásticos, cordas, ralos, casulos e texturas orgânicas a dupla nos surpreendem quando integra o rústico à técnica da ourivesaria. Roberto Stern, em prefácio do catálogo Campana descreve: “São ousadas, uma ruptura com o tradicional e um passo adiante em tudo que é feito atualmente em joalheria. O resultado foi registrado neste catálogo pelo olho mágico do fotógrafo suíço Michel Comte. Ninguém mais sensível do que ele, que divide seu tempo entre fotos de celebridades e de guerras, para interpretar um trabalho nascido de contrastes.”

 

Mas não só os nobres têm acesso aos produtos Campana. A marca Melissa lançou uma linha de sapatilhas e bolsas assinadas pela dupla. Também foram convidados pela grife francesa Lacoste para inventar, brincar e adestrar seus lindos jacarezinhos. É verdade que algumas peças tiveram edições super limitadas, contudo os designers também formataram suas embalagens exclusivas, em palha e lona.

 

Em comemoração aos 150 anos do Grupo Monte-Carlo SBM, a dupla abriu a mostra Dangerous Luxury que foi até o dia 20 de julho deste ano, no Salão Sporting d’Hiver, em Mônaco, onde interrogou o público acerca do conceito do luxo e sobre como um objeto popular ou do cotidiano pode se transformar em objeto de luxo.

 

Simples e sensíveis estes sonhadores transformam o lixo em luxo, o rústico em sofisticado, o artesanal em larga escala. Adeptos à sustentabilidade e trabalhando pela “humanização do design”, tem como prioridade o respeito ao meio ambiente e a natureza. Carinhosamente relembram a infância na cidade de Brotas, em São Paulo e guardam lembranças de histórias e feitos, como a primeira casa na árvore. Enquanto Humberto cria seus objetos como um artesão e artista autodidata, Fernando participa como um arquiteto experiente. Uma união perfeita entre familiaridade e  profissionalismo. Um casamento que realmente nos enchem os olhos e a alma! Vida longa ao talento desta dupla brasileira!

 

TATIANA POTRICH

Capueira

Miguel Rio Branco oti

Foi no dia 26 de novembro de 2014 (para quem ainda não soube), que a Unesco a reconheceu como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Também porque necessitava me manifestar a respeito do tema, mas ainda não havia chegado o merecido reconhecimento. E por fim, ninguém menos para ilustrar o sucinto texto como a foto do artista Miguel Rio Branco. A cena foi registrada em Salvador, no ano de 1989, na qual três corpos parecem desafiar a gravidade. (Imagem extraída da Coleção Folha Grandes Fotógrafos – BRASIL)

Rio Branco é um cidadão do mundo, nasceu na Espanha, mas se criou nos arredores europeus, nova-iorquinos e finalmente se estabeleceu no país verde-amarelo.  Com uma visão imparcial da cultura brasileira e sensibilidade fotográfica para registrar a realidade nua e crua, no entanto temperada à óleo de dendê e vatapá, o artista ultrapassa a barreira de ensaio etnológico para o verdadeiro estado visceral das “coisas”. A começar por sua obra Blue Tango (1984), onde dois garotos demonstram o bailado brasileiro, a ginga de raiz africana e de nome indígena, numa fotomontagem de 20 imagens. Uma das definições sobre o título desta obra, como a do blog Kindred Subjects, sugere que as silhuetas dos dois capoeiras que, ora está em cima, ora em baixo, numa penumbra azulada, remeteriam os movimentos das ondas do mar, dada a longa viagem dos africanos até chegarem a terras brasileiras. E ainda o termo tango, que em sua época inicial era dançado apenas por homens.

Registrada ao longo dos tempos por inúmeros artistas estrangeiros e nacionais como Rugendas, Debret, Carlos Bastos, Carybé, Bruno Giorgi, Pierre Verger, Mario Cravo Filho, ZèCésar, André Cipriano e outros, a capoeira reconta visualmente a história brasileira através dos estilos artísticos os quais foi sendo expressada. No início eram as ilustrações, principalmente das missões científicas do século XIX, cujo o zoólogo alemão,  Johamm Baptist Spix, foi um dos integrantes e responsáveis pela identificação de mais de 3.400 espécies, onde uma delas é o conhecido pássaro uru, o odontophorus capueira spix. Depois veio a fotografia como recurso tecnológico mais definido, rápido e alternativo. Além das demais técnicas como gravura, escultura, pintura e instalação que fizeram parte do “roteiro” plástico desta manifestação cultural. Ícone da brasilidade e peça mestra na roda de capoeira, o berimbau foi tema da obra do artista mineiro Paulo Neflíndio, selecionado para o 3° Prêmio Flamboyant, em Goiânia,  no ano de 2003, com a obra Berimbau Digital. O curioso é que foi também em Goiânia, no ano de 1974, que faleceu o baiano, Mestre Bimba, criador e promotor da Capoeira Regional.

Sim, a capoeira é uma ave galiforme. Ela não voa tão alto, mas desafia a gravidade com elegância e fugacidade. Ela pode ser um cesto de taquara, pode ser um mato abandonado, pode ser um quilombola, pode ser um capão ou um capitão do mato, pode ser a tribo indígena uru ou urubu, pode ser tupi ou guarani, pode ser kimbundo, pode ser vissungo. Ela pode ser luta, dança, jogo, magia, arte, cultura brasileira.

“A capoeira é tudo que a boca come e tudo que o corpo dá”, assim disse Pastinha!

Salve, camará!

A excelência em arte e paisagismo

Gilberto Elkis

O palácio de Versalhes tem fama consolidada pela sua exuberante arquitetura e decoração, como também pelo paisagismo e avançada engenharia hidráulica de suas fontes e espelhos d’água. A devoção e ousadia dos “artistas-jardineiros”, como o queridinho do rei Luiz XIV, André Le Nôtre (arquiteto, paisagista, urbanista e colecionador de arte), que se dedicou durante anos, exclusivamente às podas e sofisticação dos labirintos geométricos em uma incansável busca pela perfeição obteve, ao longo dos tempos, grande sucesso e reconhecimento mundial. A herança deste talento com a natureza é um legado francês transferido para o Festival Internacional de Jardins, em Chaumont-sur-Loire, à 200 km de Paris. O castelo, que foi antiga propriedade da Rainha Maria de Médicis e, atualmente nomeado pela Unesco Patrimônio Mundial da Humanidade, desde 1992 é uma galeria  à céu aberto e ainda abriga obras de arte de renomes internacionais, no interior de seus cômodos. Dentre elas está “Momento Fecundo”, do brasileiro Henrique Oliveira.

Outra grande presença da arte contemporânea internacional, no jardim do castelo francês é o artista italiano, Giuseppe Penone, famoso por suas intervenções na paisagem e em ter seus trabalhos transformados pela vegetação. Criou, para a comemoração dos 400 anos de Le Nôtre, 23 esculturas que foram espalhadas nos jardins de Versalhes, ao longo do eixo do Grande Canal.  Penone também está presente na maior galeria de arte à céu aberto da América Latina, o Instituto Inhotim. Sua obra “Elevazione”, parte da modelagem e conseguinte fundição em bronze de uma castanheira centenária, à qual outras partes de árvore foram soldadas. A grande árvore de metal está presa ao chão por pés de aço e, plantadas ao seu lado, estão cinco outras árvores que, ao longo dos anos, irão crescer e se aproximar da escultura, como se a sustentassem e criassem um espaço arquitetônico para abrigá-la. Um diálogo constante de transformação entre arte e natureza.

Idealizado por Bernardo Paz e projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx, o Instituto Inhotim é um verdadeiro parque botânico e artístico, com programas e oficinas que beneficiam a pesquisa multidisciplinar entre música, dança, artes plásticas, jardinagem, botânica, artes cênicas, agronomia e muito mais. Com galerias de arte espalhadas pelos mais de 8 hectares de jardins, as esculturas em madeiras ou bancos, do gaúcho Hugo França são outro espetáculo à parte. Esculpidas a partir de resíduos florestais, França cria verdadeiras obras de arte ou de design. Sim, elas servem para um repouso! E ele ainda tem uma produção de móveis residenciais! Sorte nossa!

O fascínio que temos ao nos depararmos com a natureza em perfeita harmonia com a criação artística, seja pelo paisagismo, seja pela intervenção de uma obra de arte é simplesmente gratificante. A sensação é de estarmos num conto de fadas, no país das maravilhas, na casa de Edward mãos de tesoura (como bem intitulou a revista Casa Vogue, do mês de setembro) é inspirador.

Neste mesmo mês participei do Earq 2014, evento de arquitetura e design realizado no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia, que teve como objetivo um circuito intenso de palestras. No último dia assisti à fala do paisagista Gilberto Elkis, que explanou em imagens de alguns de seus trabalhos, a arte e a delícia de trabalhar diretamente com a natureza. A ciência e a delicadeza de esculpir a planta, encaminhar o curso da água e desenhar o caminho das pedras.

A excelência de integrar a vegetação ideal para cada ambiente e realizar um sonho verde no quintal, na varanda ou no “puxadinho” está no compromisso com a dedicação, o respeito e o uso consciente dos recursos que a natureza oferece.

Os jardins verticais ou de Monet, as pontes sobre espelhos d’água, as quedas d’água ou fontes, as hortas mandalas, o húmus, os cascalhos, seixos rolados, cascas de eucalipto, bambus, tocos, tijolos, garrafas pets, britas, pneus, engradados, sapatos velhos, tudo são recursos para se criar e imaginar um universo de verdes possibilidades. Os artistas, designers, arquitetos, paisagistas, jardineiros também são cientistas, médicos, curandeiros. Nada melhor para alma que ter um lugar de paz, para ser feliz, para se sentir mais humano, mais natural, mais vivo!

Paisagismo e arte juntos são imprescindíveis para um inesquecível casamento com a natureza.

Faço votos que se perpetuem!

 

 

 

 

 

Quem me dera ao menos uma vez

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A mostra “Amazônia Ciclos da Modernidade”, com curadoria de Paulo Herkenhoff, em agosto de 2012, no CCBB de Brasília, fez um recorte da história do Brasil sobre a região amazônica no Modernismo. Levantou hipóteses de uma surpreendente cartografia do conhecimento e da cultura visual brasileira a partir de especificidades, diferenças e contradições no espaço e no tempo.

Aqui selecionei imagens do meu arquivo pessoal, que se misturam entre passado e presente. Registros visuais datados há quase 200 anos por estrangeiros recém-chegados ao Novo Continente, pinturas do Romantismo e Modernismo e fotografias da contemporaneidade.

Da interpretação e detalhamento nas obras destes cientistas da arte o relato visual foi se estabelecendo de forma heróica e sensível. Histórias orais e temas do cotidiano tomaram forma e cor a partir de expressões plásticas como Moema, de Vitor Meireles, ou The Pira rucu, de Franz Keller. A lenda da índia tupinambá que seguiu seu destino rumo ao fundo do mar, morrendo por amor, ou o mito do boto, ou ainda a sereia Iara. O Romantismo teve grande influência nas artes plásticas para o espírito nacionalista brasileiro, valorizando suas raízes e enaltecendo as conquistas da pátria.

O marco da identidade da cultura nacional se deu na Semana de Arte de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência. O Movimento Modernista entra pela porta da frente no país e os artistas iniciam uma jornada mundial difundindo a formação de uma nova etnia. As referências nacionalistas nas obras brasileiras eram retratos de mestiços, operários e ainda antropófagos, onde o Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral, se tornaria ícone do movimento artístico no país.

Com novos recursos da tecnologia, a arte contemporânea ganha novos aliados, a fotografia e a multidisciplinaridade. O jornalismo tem como base estrutural a fotografia in loco, que registra o momento, a notícia e o realismo incondicional. A tecnologia das máquinas fotográficas torna se indispensável a este profissional, que se destaca pela criatividade, percepção e originalidade. Sebastião Salgado é um, dentre vários jornalistas, que se ingressaram neste universo subjetivo. Viajando mundo a fora, durante 8 anos, traz registros preciosos de um universo paralelo existente nos mais inóspitos territórios do planeta. A mostra e o livro Genesis é a prova viva do seu deslumbramento com uma natureza pura e selvagem. Em entrevista à Folha S.P., relata: “Estive com o grupo Zo’e, que foram contatados há 15 anos e estão num estado de pureza total. Você vê o cara trabalhando numa flecha (…). É exatamente a ciência do foguete(…)”.

Certa vez, o artista parisiense, Paul Gauguin (França 1848 – Taiti 1903) desabafou: “Fugi de tudo que era artificial e convencional. Aqui penetro a verdade, integro-me à natureza.” Segundo Herkenhoff, o desafio mais urgente da “civilização brasileira” é a integração das três ecologias: meio ambiente, relações sociais e subjetividade. Se em contato direto com a natureza penetramos a verdade, está na hora de repensarmos nossos conceitos de “civilização”. Ainda dá tempo! Acorda, Brasil!

Um velhinho muito maluquinho

ccbb

No mês de abril deste ano assisti pelo canal Arte 1 um documentário sobre a trajetória artística do ilustrador norte-americano, Norman Rockwell (1894-1978) e percebi sua notável contribuição cultural e social para com o país e o mundo.

Rockwell desenhou toda sua vida sendo um homem generoso e desapegado, ainda porque perdeu muitos trabalhos importantes depois de um grande incêndio em sua residência. Atualmente suas obras são vendidas à valores significativos e disputados por colecionadores e celebridades.

Mas foi a tela The Connoisseur (1962), cujo tema retratava um conhecedor de arte perplexo diante de uma pintura de Jackson Pollock (1912-1956), que chamou a atenção ao me recordar de um outro grande ilustrador, porém brasileiro e ainda vivo: Ziraldo.

O mineiro, que lançou o livro Zeróis pela FTD, em 2012 reúne os principais super heróis das Histórias em Quadrinhos aos grande pintores da História da Arte como Goya, Velásquez, Picasso, Dalí, Grant Wood e outros.

Antes disso visitei a mostra Zeróis: Ziraldo na Tela Grande, no CCBB-RJ, em 2010 e fiquei impressionada com a qualidade plástica do trabalho somada ao seu sarcástico senso de humor. Numa de suas telas retrata o super herói Capitão América, “O connoisseur das HQ’s”, segundo ele, perplexo diante de uma obra de Roy Lichtenstein (1923-1997). A paródia visual com a obra do ilustrador Rockwell é simplesmente uma sátira ou uma suspeita homenagem à cultura norte-americana.

Um outro exemplo é a obra Wonder Woman Warhol, onde trabalha a produção em série como o artista pop Andy Warhol (1928-1987), mas substitui a maravilhosa Marylin Monroe pela imagem da heroína de mesmo adjetivo.

Ziraldo não só esmiúça o domínio cultural que os norte-americanos exercem sobre o mundo como traz à tona ícones da arte numa visão bem humorada e bastante crítica sobre a sociedade e seus valores. Principalmente na tela do Superafrodescendente, onde deixa claro de quais valores se refere quando dá cor negra à pele do imbatível herói Super Homem e brinca com sua nacionalidade.

“Exemplo de síntese e originalidade o nome Zeróis já encena por si só todo propósito do seu criador: Zero, Heróis, Ziraldo”, assim define Gessy de Sales o neologismo do título, resultado divertido do encontro entre famosos personagens das histórias dos homens, ora heróis, ora artistas.

Como um eterno menino brincando de desenhar, hoje aos 81 anos de idade, posso dizer com todo respeito e admiração, que este velhinho será sempre muito, muito maluquinho mesmo! Viva, Ziraldo! Salve, Brazil!

 

Bahia de todos os dons!

casas coloridas

 

“Não existe tela branca nos trópicos. É como se tudo fosse atravessado pela cor.”

A frase é do artista paulista Luiz Zerbini, em entrevista à Folha de SP ,” que viu isso com clareza numa viagem com as filhas para o sul da Bahia. Sua idéia era criar ali um diário do que acontecia, mas ficou tão estarrecido ao ver os tons da paisagem e dos bichos, que nada escreveu.”

O deslumbramento de Zerbini faz jus à região. Um lugar esculpido pela natureza e nos presenteado como uma obra de arte viva e pulsante. Foi berço caloroso para diversas manifestações populares dentre elas a capoeira, o afoxé, o acarajé e o candomblé.

Nos dons das palavras são célebres poetas e escritores da literatura brasileira Gregório de Mattos, Castro Alves e Jorge Amado.

Nos dons dos sons, a Bahia foi “progenitora” do Tropicalismo, movimento cultural que mais se intensificou na música reafirmando o talento dos jovens baianos Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé.

Nos dons das artes visuais foram pioneiros na renovação das artes plásticas baiana os filhos de orixás e desbravadores dos emblemas da religiosidade yorubá, Rubem Valentim, Mario Cravo Júnior e Carlos Bastos. O artista baiano, Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi foi além da bidimensão e convenções estruturais. Concebeu esculturas-objetos ou artefatos de adoração num entrelaçado de varas de bambu ornamentados com búzios e outros aviamentos da brasilidade. Talvez, por uma ironia do destino,  foi pelos tons do artista argentino Hector Julio Páride Bernabó, apelidado como Carybé (do tupi, pequeno peixe amazônico) que mais se difundiu visualmente a cultura baiana, no Brasil e no exterior. Carybé dedicou toda sua produção artística nos temas da baianidade e recebeu título de Doutor Causa Honoris pela Universidade Federal da Bahia. Me foi dito ainda, pelos arredores do MAM/BA, em Salvador, que o concederam a cidadania baiana em gratidão à sua incansável pesquisa cultural. O contemporâneo, Marepe, Marcos Reis Peixoto desenvolve sua pesquisa no mote dos objetos do cotidiano e, a relevância de sua obra é tanta, que o Instituto Inhotim abriga em seu acervo pelo menos cinco delas.

Descrever toda essa energia de dons da terra da alegria é um desafio, mas a Bahia deu sua graça na presença feminina e caracterizou a cultura do país no estrangeiro. A  pequena notável, Carmem Miranda com sua euforia contagiante, seus exagerados adornos, fitas, laços, frutas e toda sorte de apetrechos encantou, cantou e contou pro mundo “o que é que a baiana tem.”

Cito também, por conhecimento pessoal, a fantástica companhia de dança contemporânea baiana, a Dance Brazil Foundation. Encabeçada por Jelon Vieira, as coreografias interagem balé clássico, movimentos da capoeira e danças folclóricas, no entanto restringem suas apresentações à Salvador e Nova Iorque.

Encontramos mais arte e talento nos roteiros dos longas, Cidade Baixa e Ó, Pai, Ó!, estreados pelos baianos Wagner Moura e Lázaro Ramos, onde a realidade brasileira demonstrada é ora atônita e cruel, ora bela e feliz.

Assim vem se formando um povo de muitos dons inspirados pela natureza e guiados pela fé. Axé, Oxalá, Saravá!

TATIANA POTRICH

Ponto de vista

A princípio a ideia era estabelecer um ponto de vista crítico sobre a política atual e o assunto do ouro negro brasileiro que abarrota todos os noticiários, porém não sendo eu muito caxias, ou quiçá uma jornalista, transfiro minha avalanche de propostas críticas sobre os pós e contras, esquerdas e direitas, brancos e pretos, altos e baixos para nossos cientistas da arte. Elementar que sejam eles os primeiros a proferirem os acontecimentos e desdobramentos de uma sociedade que vive a cerca do narcicisismo, acúmulo e desequilíbrio emocional.

M.C. Escher (1898 – 1972) há tempos já dissertava suas conclusões à respeito da natureza humana, embora embevecido de pura contrariedade, Escher manifestou artisticamente a eterna constância do ser ou não ser, certo ou errado, real ou virtual.

escher

O domínio da técnica baseada no ponto de fuga, zénide e nadir, nas congruências ou divergências das curvas ou retas, nos poliedros, espirais, ou na fita de Moebius, sem limites para criar, Escher desenhou o infinito com limitações do espaço. Sua inquietação era nada mais do que toda a anti proposta humanitária, teve surtos criativos ao se deparar com as notícias da guerra do Vietnã, viu conhecidos serem levados para campos de concentração no auge do Nazismo, mas ainda assim testemunhou o preconceito e a rivalidade serem vencidos pela arte.

Sim, este sobe e desce de sensações e emoções na vida de um artista são combustível para sua criação. Aqui trago recente imagem do fotógrafo Heródoto, extraída de seu intagram @herodoto, intitulada “Escher feelings”. A vida imita a arte, a arte imita a vida. Esta seria talvez a ideal política à sobrevivência, pois que a “arte existe para que a realidade não nos mate”.

Escher feelings

O artista goiano Evandro Soares absorve este surto contemporâneo do qual vivemos e tenta descobrir mais um ponto de fuga para clarear as ideias e acreditar que existe uma esperança para a humanidade. Soares inventou ou a casualidade o surpreendeu com o surgimento da sombra como elemento pictórico. Ele usa o suporte bidimensional para traçar suas retas, suas escadas, seus cubos torcidos ou distorcidos, para que então prenda sobre eles delicados fios de ferro, dando lhes volume, corpo, vitalidade. Não bastasse esta intervenção, Soares conta ainda com a sombra dessas formas, que se multiplicam e formam ou deformam a primeira proposta artística. A luz sobre seus trabalhos enriquece, transforma e intensifica o desenho na sua totalidade. A sombra se comporta como a quarta dimensão no suporte da obra finalizada.

39 salo de arte de ribeira preto yoli cipriano

Quem dera caminhássemos rumo à quarta dimensão, porque a geração coca-cola com pipoca 3D já deu o que tinha que dar. Se a sombra não sobrevive sem a luz e vice-versa, estamos fadados a acreditar que o bem não sobrevive sem o mal, daí o ponto de vista que recai sobre o espectador é: defina qual a sua luz e sua sombra e siga em frente, mas sem apagar a do próximo, por favor!

Imagem de Evandro Soares na montagem do 39° Salão de Arte de Ribeirão Preto, por Yoli Cipriano