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O tempo não para

As divertidas e curiosas informações do engenheiro especialista em automóveis, Boris Feldman, me pegam desprevenidas quando estou dirigindo sempre que troco de estação de rádio entre uma propaganda e outra. Das mais recentes novidades do “Auto-Papo”, Feldman anunciava a inauguração da primeira concessionária virtual do Brasil da Fiat, em São Paulo, no Pacaembu. A ideia é ‘enxugar’ espaço e produção oferecendo ao cliente uma imersão virtual pelo automóvel através de óculos 3D e simulação do test-drive como num jogo de videogame. O cliente também poderá escolher através de uma tela digital os assessórios, a cor e o modelo do carro. Um verdadeiro passeio virtual como o que vem acontecendo com empreendimentos imobiliários, onde o cliente acessa o imóvel através de óculos 3D que o conduzem ao interior do ambiente na sua escala real.

Tudo isso é bem inovador e tecnologicamente extraordinário dada a rapidez e facilidade como as coisas vem acontecendo. E não para por aí! A Arte como uma boa pré-Ciência da Humanidade não perde sua majestade para nenhuma outra área.

A magnífica exposição do artista austríaco Immersive Gustav Klimt, no Centro Cultural de Artes Virtuais, o L’Atelier des Lumiéres, em Paris, que abriu no início deste ano teve prorrogada sua data de encerramento  até dia 6 de janeiro de 2019 de tão concorrida e extraordinária que é. O espaço fundado em 1835, como uma fábrica de fundição permaneceu em propriedade da mesma família por quatro gerações até a crise de 1929, passando por algumas transformações até finalmente se tornar um ambiente para as Artes Visuais ou Virtuais e seus experimentos imersivos.

A mostra conta com 140 projetores que projetam mais de 3000 animações digitais de até 19m de altura e alta performance sonora com trilhas da época remixadas, o que leva o espectador a admirar cada detalhe das obras e o modus operandi do trabalho artístico do austríaco. As pinturas aparecem e desaparecem sobrepondo umas às outras num filme de imagens coloridas que vão tomando forma até se completarem em escalas significativamente deslumbrantes.

A maravilha que se pode presenciar é a união de um antigo trabalho artesanal produzido no atelier do artista durante anos de dedicação, projetado em constante movimento, som e tecnologia nas enormes paredes do antigo prédio da fábrica francesa, que agora abriga mostras de Arte Virtual.

Fica só uma questão, que Boris Feldman enfatizou ao findar seu “Auto-Papo”: “E o cheirinho de carro novo, como é que faz?” Olha, Boris, eu não sei, mas o cheirinho de tinta também é sedutor, assim como o tato com um livro ou o paladar numa degustação. Mas não podemos negar que a tecnologia veio para ficar e as instituições terão de se reinventar para prender cada vez mais a atenção do espectador. Assim como aconteceu com a ruptura do desenho de observação com o advento da fotografia e seus desdobramentos com os vídeos-performances, a arte cinética e o cinema. A tecnologia também terá de se reinventar para aguçar os nossos cinco sentidos. Afinal, como a Arte é uma pré-Ciência, já dizia o poeta Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um Museu de grandes novidades. O tempo não para, não para”.

47682515_287521882106318_5175402215489142784_nOs clássicos “Beijos” numa divertida montagem. Via @failunfailunmefailun

Entrar ou não na toca

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Esta é a pergunta que não quer calar!

Em 2000, o artista brasileiro Eduardo Kac, professor de arte e tecnologia, na Califórnia criou um projeto de bioarte desenvolvendo sua pesquisa a partir do experimento de células que brilham nas medusas marítimas, introduzidas numa coelha que ele denominou de Alba, doada para fins laboratoriais pelo departamento científico francês.  O experimento teve como resultado a fluorescência da pele da coelha, quando submetida a raios ultravioletas. A associação de defesa aos animais e o departamento francês reagiram com críticas e restrições ao projeto do artista alegando danos à saúde do animal e interpelando pela devolução da cobaia à instituição responsável, a qual o artista alegaria cuidar do bichinho com todos os critérios necessários, como se fosse seu pet. Mas de nada adiantou o argumento, Kac teve de devolver o animal.

E então, até quando a Arte é Ciência e a Ciência é Arte? A experiência abriu margem para estudos e questionamentos do quanto e como o homem pode interferir na natureza.

Uma recente polêmica aconteceu na China, com o experimento do médico He Jiankui, que alegou ter criado bebês geneticamente modificados alterando genes embrionários das gêmeas nascidas na última semana do mês de novembro.  A ideia seria prevenir ou combater a contaminação do vírus HIV, alterando o código genético das bebês antes do nascimento . O experimento também causou ácidas críticas no que diz respeito à ética e a segurança, mesmo porque não houve uma consulta prévia sobre esta experimentação ao Conselho de Medicina.

Mas afinal, até quando o homem pode interferir na natureza sem que haja graves consequências?

O experimento do artista brasileiro com a coelha Alba nos leva a reflexão da literatura épica de Lewis Carroll, seguir o coelho, entrar ou não na toca, eis a questão. Uma escolha desafiadora e ao mesmo tempo tenebrosa. Quem tem coragem de enfrentar o mundo maravilhoso da curiosidade tem de estar disposto a superar suas consequências, sejam elas para crescer excessivamente, ou diminuir absurdamente.

No entanto sabemos que só quem prova do veneno, pode manipular seu antídoto. E assim segue a Humanidade!

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Eduardo Kac, 2000, Bioarte, “Alba”

 

É a vida

Meu filho de 6 anos me fez a seguinte pergunta:  “Mamãe, você sabe quem nasceu primeiro? Foi o homem ou foi a mulher?” Eu, para não me aprofundar na resposta , de imediato respondi que Deus criou o homem e a partir se sua costela fez a mulher. Ele me contestou e logo afirmou: “Não, mamãe, quem nasceu primeiro foi a mulher, depois o homem e eu posso provar. Olha só o calendário: primeiro vem do Dia das Mães, depois o Dia dos Pais e depois o Dia das Crianças.”

A lógica das crianças é tão doce e pura que estou começando a adotar essa hipótese, embora em algumas mitologias e religiões a mulher realmente tenha sido criada antes do homem. Controvérsias à parte, nesta semana que passou, após quase 13 anos de mistério foi entregue as 14 esculturas gigantescas do artista Damien Hirst, instaladas em frente ao Centro Médico e de Pesquisa Sidra, em Doha, Qatar, “A Jornada Milagrosa”(2005 – 2013). As esculturas em bronze, que variam entre 5 a 11 metros de altura, contam a trajetória da gestação e sua finalização num gigantesco bebê, que tem em seu umbigo a marca da ligação eterna com sua mãe.

O início da jornada é demonstrado com a primeira escultura de um óvulo e um espermatozoide e a seguinte simplifica a mitose que acontece com as células para a formação do embrião. Dentre as 14 esculturas, o artista cria um ventre representando fetos bivitelinos, o que comprovaria que a milagrosa jornada da Humanidade pode ter sido criada com o nascimento do homem e da mulher simultaneamente, não é mesmo!?

O que chama a atenção neste trabalho do tão polêmico artista norte-americano, além da escala das esculturas, é o tema que gera controvérsias já que a maior parte dos países do Oriente Médio não tem o hábito, nem a cultura de tocar em assuntos, que de certa forma, contestem a religião e o machismo. As mulheres dessa nacionalidade, assim como as turistas, não devem usar roupas decotadas, nem minissaias, os homens podem ter mais de uma esposa e a pena de morte é legal, assim como a severa punição da esposa adúltera.

Não é por acaso que a obra “A Jornada Milagrosa” demorou tantos anos para ser descoberta pelos 14 mantos brancos que a cobriam. A direção do Centro Médico com a Fundação Qatar, encomendou o trabalho ao artista e bancaram aproximadamente 12 milhões para sua execução, se comprometendo com a função social de responsabilidade ao propor o questionamento da população sobre a verdadeira origem do ser humano.

Num território onde a maternidade é visitada, até hoje, através de cenas como as da Virgem Maria com Jesus Cristo em seus braços, fica difícil conscientizar os crentes ou religiosos assíduos que Nossa Senhora na verdade não era virgem e sim jovem, como comprova algumas traduções do hebraico para outras línguas. Se Jesus Cristo veio do Espírito Santo, só Deus sabe, mas na oração “Ave Maria”, se sabe que foi do “bendito fruto do vosso ventre!”.

Não há como negar que a química entre Ciência e Arte é perfeita para se compreender os mistérios e milagres da vida sem ferir princípios e crenças alheias. Basta acreditar e questionar as pessoas certas como a “pureza da resposta das crianças. É a vida, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha).

miraculous_jourey_hirst_05-798x500“A Jornada Milagrosa”, bronze, Damien Hirst (2005 – 2013) – Via AVA

Domos

Domos, do latim domus que derivou as palavras: dom, domicílio, doméstico, domificar, ou dividir em cúpulas (casas) é o tema do texto, cuja imagem foi extraída do Instagram de uma amiga das antigas, residente há mais de 10 anos na Alemanha, Lorena Ribeiro (@lores1810).

Lorena visitou o Museu da Ciência, Klimahaus Bremerharen e registrou a instalação do artista Michael Pinsky, que consiste em 5 cúpulas geodésicas construídas para a apreciação do espectador aos ares de 5 grandes metrópoles mundiais e a comparação da poluição existente em cada uma delas. O gráfico e o próprio odor oferecido em cada cúpula comprova as diferenças e perigos da poluição para a saúde. A mostra é itinerante, sua estréia foi em Londres, no mês de Abril e tem como principal meta conscientizar a humanidade dos riscos que corremos, como demostrou outro recente gráfico, na Revista National Geographic, do mês de Outubro, na matéria, “O mundo respira mal”. O site specific da mostra Pollution Pods, construído em domos geodésicos foi estratégico e ao mesmo tempo futurístico permitindo ao espectador espaço e maior mobilidade, visto que não há pilastras ou vigas na estrutura interna da instalação.

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Pollution Pods, em Londres, Abril/2018. Via Google

Esse tipo de construção nos remete imediatamente aos filmes de ficção científica, espaços astronômicos, ou de entretenimento e arte, como o Epcot Center, nas instalações do Walt Disney, nas obras de arte do artista Olafur Eliasson e de Matheu Barney, no Instituto Inhotim e mais ainda, do icônico Pavilhão norte-americano, em Montreal, do “pai” dos domos geodésicos, Buckminster Fuller. Fuller fundou a ideia estrutural dos domos estabelecendo um padrão, ordem e equilíbrio entre eles para uma criação arquitetônica leve de parâmetros igualitários e sinergéticos.

Fato ou mito, a história de vida do arquiteto norte-americano se funde à pesquisa futurística entre o arrojado estudo de estruturas geométricas harmônicas e acontecimentos intrigantes de sua trajetória, como sua expulsão de uma das mais aclamadas instituições acadêmicas, a Harvard e mais tarde, a trágica morte de sua filha. Se fizer sentido ou não, é certo que este arquiteto-inventor deixou um grande legado de pesquisa para as próximas gerações, alegando sempre a importância de se estabelecer equilíbrio e unidade entre arquitetura e sociedade.

Tão interligado ao nome, a invenção do domus beneficiou a estética e promoveu à ciência, à arquitetura e à arte uma nova estrutura de convivência, fazendo jus ao seu significado. Por essas e outras é que temos de admitir, assim como pensava Fuller e tantos outros, que “a natureza sempre será a maior fonte de inspiração para os homens”.

Que possamos respirar o ar puro que existe em cada canto, em cada lar, em cada domos do mundo!

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Pollution Pods, na Alemanha, Novembro/2018. Via @lores1810

Obrigado

“OBRIGADO @japanhousesp por existir na minha vida, por trazer coisas incríveis da cultura que mudou meu jeito de ver o mundo. O Japão me mostrou o quanto ainda sou superficial na visão das coisas e o quanto podemos evoluir. Essas duas exposições que tão rolando lá, tão surreal: trabalhos do @nonotakstudio e da @anrealage_official um sopro de inovação e avanço em tempos de retrocessos e pensamentos limitados ao mundano”.

Essa é a mensagem de gratidão do artista multimídia, Flavio Samelo, que expressa bem a soberania de requinte e disciplina que esta cultura oriental tem para nos ensinar. A atmosfera de luxo, sofisticação e engajamento que paira sobre a Japan House, inaugurada o ano passado na Avenida Paulista é um arrojado prédio de três andares com atrações gratuitas voltadas à arte, gastronomia e tecnologia. O Brasil é o terceiro país a abrigar a unidade do projeto desenvolvido pelo governo japonês na Inglaterra e nos EUA.

Construído pela comunidade japonesa em São Paulo, a Japan House, Centro Cultural dedicado à cultura nipônica conta ainda com um café e um restaurante japonês do chef Jun Sakamoto. O Centro Cultural abriga uma biblioteca dedicada à um acervo que vai da culinária à arquitetura, além de receber eventos como degustação de chás, gastronomia e arte contemporânea.

Ali é, sem dúvida, um verdadeiro oásis cultural! Experimentar sensações japonesas no território brasileiro usufruindo de mostras de arte gratuitas vindas exclusivamente para serem montadas para a Casa do Japão é uma miragem nos dias de hoje! O agradecido artista paulista, Flavio Samelo registrou sua interação num dos sites specifics (obras idealizadas para um ambiente e lugar determinado), do duo NONOTAK (@nonotakstudio). Fundado em 2011 pelo arquiteto e músico japonês Takami Nakamoto e a ilustradora Noemi Schipfer, se destacam em apresentações, instalações e performances subvertendo noções de tecnologia e arquitetura utilizando um viés poético e inovador.

A instalação imersiva fotografada por Samelo é a “Daydream V.5 Infinite”. Feita com projeção a laser, espelhos e sonorização, que dialogam com a sensação de infinito e geram distorções espaciais acabando por estabelecer uma conexão física entre o espaço real e o espaço virtual. Dentro dela, o espectador é convidado a viver um distanciamento da realidade, considerando que raios de luz são usados para gerar espaços abstratos, enquanto o som cria os ecos do espaço virtual.

Essa experiência é uma prova de que somos capazes de desenvolver os sentidos e refiná-los numa proporção cada vez mais aguçada, assim como a impressionante disciplina de criação dos japoneses. Se nosso país foi um dos três a ser escolhido para que uma Casa dessas se idealizasse é porque somos bonitos por natureza e capazes de absorver as qualidades de uma cultura que só tem a nos acrescentar. Façamos como Flavio Samelo, sejamos gratos pela oportunidade de intercâmbio cultural e mais ainda, sejamos humildes em admitir nossos “retrocessos e pensamentos limitados ao mundano”.

samelo japanVia @flaviosamelo

Filho de Peixe

No extenso currículo do artista paulista, Rubens Vaz Ianelli (1953), dentre tantas premiações, salões, mostras individuais e coletivas uma referência de Otávio Tavares Araújo, de 2003, no catálogo “Quantas Cidades”, me chamou atenção. O título “Filho de peixe (e sobrinho),… peixinho é” sugere a origem do artista, que é filho de Arcanjo Ianelli e sobrinho de Tómaz Ianelli, ambos renomados artistas no circuito nacional e internacional. A árdua missão de continuidade do dom hereditário ficou a cargo de Rubens, que sempre se engajou no conhecimento das culturas indígenas e africana, na natureza brasileira e principalmente, na técnica arrojada de suas pinturas, em traços geométricos que transitam entre o imaginário de desenhos tribais, das paisagens urbanas e dos fenômenos naturais.

Rubens Ianelli tem uma curiosa trajetória e ao mesmo tempo uma modéstia refinada de quem nasceu para ser um peixinho talentoso. Nos anos 80 inicia os estudos na Medicina e aprofunda na área de saúde pública aceitando o convite do Ministério da Saúde para ajudar na implantação dos distritos sanitários indígenas no Acre, onde permaneceu no cargo até o ano 2000. Daí se dedica à pesquisa de etnias e na valorização do nosso patrimônio cultural e nacional.

Rubens adota uma multiplicidade de suportes para o seu trabalho como na pintura à óleo, no carvão, no desenho à caneta, na escultura de bronze, nos objetos de vergalhão de ferro e, o mais recente deles, a cerâmica. Ele acaba de terminar uma minuciosa pintura num grande painel de azulejos que foi adquirido para o hall do Seasons Four Hotel, em São Paulo.

A geometria presente, a paleta de cores, que cuidadosamente clareia e escurece com naturalidade, projeta a pintura com uma inacreditável perspectiva, mesmo não fazendo o uso objetivo do desenho técnico ou do jogo entre luz e sombra, mas sim uma sutil sensação de ilusão d’ótica entre suas formas e tons. A pesquisa de Rubens transforma-se orgânica quando estabelece um diálogo da figuração com a geometria na liberdade de traços planejados dando uma profundidade ao resultado final da obra.

Rubens faz jus ao sobrenome que leva, encarando seu destino de ser literalmente, um Cientista da Arte revelando a intensidade das cores que ele identifica na natureza e na interferência do homem nela, assim como também fizeram seus ‘antepassados’.

As obras de Rubens Ianelli fazem parte do nosso acervo desde 2012, visite nossa: GALERIA DE FOTOS

Rubens IanelliPainel de azulejo no Seasons Four Hotel, em São Paulo

Mito

Há uma bela e trágica história na mitologia grega sobre um titã que desobedeceu Zeus para agraciar os humanos. Para quem sabe da trama e suas conseqüências fica fácil identificar a moral da história, mas quem não sabe ou não lembra, tentarei fazer um breve resumo.

Prometeu, um destemido titã em companhia de outros Deuses presenciou a distribuição de talentos à todos os animais do planeta. Os humanos, em especial foram moldados em barro e receberam o sopro sagrado de Atena.  Prometeu se fascinou pela nossa espécie e um elo afetivo os uniria para sempre. A aliança eterna desta relação seria o fogo. A contragosto de Zeus, Prometeu agraciaria os homens com o elemento da luz, quando enfim, prosperariam iluminando um futuro de desenvolvimento e progresso. Mas isso causou muitas competições, guerras, intrigas, ódio e inveja. Zeus puniu severamente a desobediência de Prometeu o castigando com uma terrível tortura. Durante o dia uma águia lhe comeria o fígado e durante a noite o órgão tornaria a regenerar e assim, sucessivamente. Por anos o sofrimento se repetiria até que Hércules mataria a águia e se substituiria no lugar do titã, o centauro, Quíron. O sentimento de desejo de Prometeu pelos homens foi o principal responsável por sua desagradável desobediência. Sua irresponsabilidade em roubar o fogo de Zeus teve uma gravíssima conseqüência.

Os humanos por sua vez também foram castigados pelos seus próprios erros. Eles espalhariam o fogo pelas matas, museus e bibliotecas, pelos canais de comunicação ateariam as faíscas através das cenas de violência, do aculturamento social, do fanatismo religioso e da exacerbada sexualidade explícita. Convém dizer que os humanos foram e continuaram sendo coniventes aos seus erros adorando a bunda nua que rebola na TV, a música xucra de refrões repetitivos e alienantes, as desinformações diárias e os beijos “laicos” das novelas. O homem vive em busca mesmo é do fogo, da guerra, da discórdia e do poder.

Mas Zeus não foi o único a sofrer com a desobediência. O Cristianismo conta a história de Lúcifer, um anjo, que por ciúmes da relação de Deus com nós mortais, o desobedeceu e foi expulso do Céu para arder no fogo do Inferno. Há quem relacione o titã Prometeu ao anjo Lúcifer, cujo significado é aquele que traz a luz. Essas entidades icônicas da literatura da Humanidade se assemelham e se correlacionam por causa da força do fogo inspirando temas para reflexões sobre o comportamento humano. O mito Prometheus, do grego o que possui antevisão, reascende o presságio do caos, da fúria, dos conflitos, dos castigos. Desde a antiguidade artistas retratam as cenas da mitologia pintando, esculpindo, desenhando, moldando.

Uma curiosa escultura do titã, Prometheus, do artista art décô Paul Manship (1934), está localizada na frente do Rockfeller Center, um dos principais centros turísticos de Nova Iorque, que leva o nome da família mais tradicional dos negócios financeiros do mundo. Há quem diga que este é um dos maiores símbolos dos Iluminates, uma teoria da conspiração que elege uma Nova Ordem Mundial para apoiar a seletiva supremacia de certos indivíduos.

Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte, isso veremos, identificando seus mistérios e avisos. O mito que conduzirá a nossa espécie para um objetivo justo e decente será aquele que souber a diferença entre o fogo que ilumina daquele que queima!

prometeu-pratoTaça espartana de cerca de 550 a.C. Via Google

Valente

Meu primeiro contato visual com a mitologia yorubá foi através das fotografias do francês Pierre Verger (1902 -1996), que viajou por vários países da África expandindo o seu conhecimento, registrando a cultura africana e seus vários desdobramentos e ainda mais, quando desembarcou  no Brasil. As vestimentas, os assessórios e as ferramentas de cada orixá estampando as fotos preto e branco do francês são certificados de sua formação como etnólogo e também importante hierarquia do Candomblé intitulado como Fatumbi, o sacerdote de Ifá. A curiosidade do tema me despertou a partir daquelas impactantes imagens que a priori tem um ar primitivo, teatral e exótico, mas intimamente nos soa algo muito familiar.

A história da mitologia yorubá está intrínseca à Natureza e os seus fenômenos. Os orixás, os deuses africanos são entidades providas de escudos protetores, lanças, instrumentos mágicos, simbologias místicas e rituais litúrgicos que transformam as cerimônias em verdadeiras festas religiosas, cheia de dança e música que ecoa da tríade de atabaques.

Um artista muitíssimo cotado no mercado atualmente, que deixou uma preciosa produção artística sobre esta manifestação africana foi o baiano Rubem Valentim (1922-1991). Valentim foi um dos percursores da renovação das artes plásticas baiana, num momento onde se firmava a identidade mestiça da nação abraçando sempre a matriz africana. Embora a marginalização das diversas manifestações afrodescendentes ocorresse pela constante repressão da burguesia brasileira, artistas como o argentino, Carybé, os baianos Rubem Valentim, Carlos Bastos e Mário Cravo Júnior apostaram na pesquisa da cultura africana com lealdade e compromisso. Valentim também foi um sacerdote de ifá, isto é um valente vidente, sábio porta-voz do destino da cultura, um legítimo artista do saber. Todo seu trabalho é baseado na geometria dos elementos do candomblé, as lanças, as armas, as proteções, os escudos, os patuás. Valentim aliou a religiosidade à Arte com maestria e coerência. Trabalhou com ardor na pesquisa de composição das cores, que também é destaque e preferência de cada orixá. Sintetizou uma linguagem única e inconfundível em sua obra. Soube valorizar o patrimônio mais precioso que temos: as nossas raízes. A África ainda é o berço da Humanidade (até que o Criacionismo prove o contrário). Lá nasceu a Mama que atravessou o continente e deixou seus restos em terras americanas, onde até pouco tempo o crânio de Luzia, com mais de 11 mil anos se encontrava exposto, no finado Museu Nacional. Reconhecer nossa origem e saber valorizá-la é para valentes como o baiano Rubem Valentim.

No início do mês foi inaugurada a mostra “Rubem Valentim – Construção e Fé”, com curadoria de Marcus Lontra, na Caixa Cultural de São Paulo. Vale a visita! Finalizo o texto com a imagem do nosso cartão virtual de felicitações de Ano Novo 2018, com obra da série “Emblema” 89/90. Axé! Saravá! Paranauê, camará! Link para ver a mostra: “Construção e Fé”

2018

ton sur ton


Histórias acerca do artista paulista, Eduardo Srur contam que uma de suas extravagantes ideias era a de reunir um montante de milhares de ratos e soltá-los no horário de rush no metrô de São Paulo. O Ministério da Saúde teria barrado o projeto, pois isso poderia causar um surto de pânico nos passageiros.  O artista alegaria a favor de seu projeto a justificativa de que só porque não vemos os ratos, não significa que eles não existam naquele local. A obra foi concretizada no objeto interventivo “Farol”, em 2013, que foi instalado no centro histórico da Capital e é composta de material metálico, madeira, acrílico, 20 mil ratos de plástico e graxa.  Srur tem sua pesquisa calcada nos problemas ambientais de sua cidade, cuja poluição é o principal foco de seu trabalho. Num levantamento estatístico da época, o número de ratos ultrapassaria a marca de 170 milhões, uma média de 15 ratos por habitante. A escolha pelo local da instalação da obra também foi proposital, o Vale do Anhangabaú, significa em tupi-guarani “rio dos malefícios do diabo”, onde os índios acreditavam que suas águas provocavam doenças físicas e mentais. O nome da obra nos direciona a reflexão sob a luz da filosofia e as leis herméticas: “tudo que está em cima é como o que está embaixo”. A super população de ratos é consequência do descuido do sistema e dos cidadãos com o meio ambiente. Comemos, procriamos e sujamos tal qual ou mais ainda que os ratos. Tornamos agradável, aparentemente os lugares que frequentamos, mas pisamos sob o chão de uma infinita galeria de esgotos existente no subterrâneo das metrópoles.

O poético vídeo da atriz Vera Holtz, “Camundongos”, postado recentemente no seu Instagram, sublima a coexistência vital entre os seres, mas nos incomoda com a presença de inúmeros camundongos em movimento tocando seus braços. Num abraço terno da atriz que os observa com delicadeza, pena e zelo, a proposta ganha harmonia, estética e leveza, quando observada racionalmente. Vera Holtz tem uma poética visual única, autentica e interligada com sua profissão. Ela atua em seus vídeos como uma performance encarnando o personagem do tema de sua obra. Ela está atenta ao momento e demonstra a cada publicação seu compromisso com a Arte, com a sociedade e seus princípios. A ideia dos camundongos foi proposital ao momento atual que, embora parece repulsivo à primeira vista por impulso emocional, é suave num ton sur ton do cenário, com o tampo de mármore da mesa, a cor branca dos ratos e dos longos cabelos da atriz.

Estamos todos conectados mesmo que nos repulsando, discordando, odiando. Somos uma unidade, uma sociedade organizada que produz, reproduz, cria e procria. O excesso ou escassez desse processo vital é o que desequilibra o sistema. Quem nos diz isso primeiro são os artistas e depois as estatísticas. O protesto-arte de Holtz e Srur são provas disso, assim como também já cantou nosso poeta Cazuza em “O tempo não pára”. E que a Arte siga cantando, pintando e mostrando o quanto a vida pode ser grande em cima ou em baixo, ton sur ton na medida certa!

Eles sãos

A impecável série da Netflix “The Crown” traz um ousado ponto de vista sobre a monarquia britânica e abala nossas opiniões acerca da moral, ética e conservadorismo, colocando em prática a máxima social “isso também acontece nas melhores famílias”. O “isso” é tudo isso mesmo: traições, homossexualismo, crimes políticos, escândalos morais e toda sorte de acontecimentos que nos prende do início ao fim da série. Numa dentre tantas outras primorosas cenas de audiência particular com a Rainha, se estabelece um diálogo a respeito do então Primeiro-Ministro, Wintson Churchill (1874-1965), quanto suas práticas de guerra contra o monstruoso Nazismo (ou o sistema de controle de natalidade a favor da raça ariana). O diálogo se resumiria na qualidade de homens como Churchill e Adolph Hitler (1889-1945), que ao se digladiarem na IIª Guerra Mundial tomariam ao certo as mesmas decisões genocidas que fossem necessárias para ganhar. O nobre e grande estrategista inglês, preparado desde cedo para assumir importantes missões como esta, Churchill, sai vitorioso da guerra independente de qual teria sido sua decisão final.

Seu respaldo histórico na política monárquica o condecoraria mais tarde, com um retrato encomendado pelo Parlamento, do sombrio artista Graham Suterland. Aos 80 anos enfim, aposentaria da vida política homenageado com o pronunciamento e a entrega da obra encomendada para a ocasião. A contratação do artista foi providencial ou proposital, pois ele captaria a penúria e penumbra do líder conservador que se ofenderia de tal forma a declarar publicamente sua recusa pela obra. Após dois anos de sua morte, a esposa Clementine Spencer-Churchill, queimaria o retrato num ato, dito pelo autor da obra, de vandalismo.

Os fatos da História da Humanidade recebem várias versões e consequentemente desfechos previstos ou não, mas podemos crer que a verdade encontra só um resultado, o bem vence acima de tudo. Wintson Churchill pode lá não ter sido um santo, o salvador da pátria que todos gostariam de pintar, poderia ao menos ter se ausentado da vida política aos 76 anos (ou até antes), idade que decidiu retomar suas atividades parlamentares, poderia ter sido um pouco menos gordo carrancudo e beberrão de whisky, entretanto, no fim das contas, por incrível que pareça, ele conseguiu por em prática o modelo comunista (ou humanista), cuja atitude de seu adversário foi exatamente a oposta.

Em “The Crown” há o sério argumento que o Ministro seria o único a conseguir combater as forças do Frührer, porque tal qual o ditador alemão, o nobre britânico teria a tão monstruosa capacidade estrategista para derrota-lo. Dois grandes líderes totalitaristas. Eles foram sãos em seus ideais, um: na tentativa de exterminar toda uma “raça inferior”, o outro: na tentativa de conter um tanque de guerra desgovernado.

Quem hoje conta os fatos é a História e as Artes e só aprende quem estuda, pesquisa e adquire sensibilidade daquilo que interpretou (se é que interpretou). Embora Hitler tivesse comovido toda uma nação tilintando os dentes e batendo forte os pés no chão, Churchill sensibilizou o mundo ganhando o Prêmio Nobel da Literatura, em 1953 e sendo eleito, em 2002, pela BBC como o maior britânico de todos os tempos.

Saibamos interpretar a História e seus sinais. A vida é um ciclo vicioso e estamos prestes a retroceder tanto de um lado quanto de outro. Evitemos expectativas, façamos por nós mesmos, para o nosso bem. Ou melhor, para o bem de todos que querem o bem, pois a luz e a sombra podem coabitar juntas na mesma intensidade.

churchillCena da série “The Crown”, o ator Stephen Dillane, interpretando o artista Graham Suterland e o ator John Lighgow, no papel de Wintson Churchill.