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Caminhar Juntos

“No sábado (26/10) foi divulgado um documento de 33 páginas com propostas como a ordenação de homens casados para atuar na Amazônia, a criação do ‘pecado ecológico’, o respeito à religiosidade não cristã indígena e o estabelecimento de um ‘observatório pastoral socioambiental’. Além disso, o documento mirou no modelo de desenvolvimento da região destacando a presença de extrativismo ilegal e desmatamento e adoção de projetos econômicos que prejudicam o meio ambiente, com respaldo de governos”. (Revista Fórum 28/10)

Lendo a matéria sobre o Sínodo* da Amazônia encerrada no domingo passado (27/10) com a missa do Papa Francisco, no Vaticano, de súbito me veio imagens do filme “Brincando nos Campos do Senhor” (1991) do diretor brasileiro Hector Babenco com roteiro do francês Jean Claude Carrière, que assinou clássicos como “A insustentável leveza do ser”, “A Bela da Tarde” e “O discreto charme da burguesia”. O filme é uma Bíblia para quem não entendeu o histórico conflito entre o Capitalismo Desenfreado X Equilíbrio Ecológico. O longa é uma obra-prima do cinema, embora realmente longo, não o seria se fracionado em episódios como vem acontecendo com as séries televisivas contemporâneas. A postura ética de cada personagem se caracteriza por suas atitudes, ideologias e experiências sensoriais. Embora cada qual se sucumba aos pecados capitais, seja pela carne, seja pela matéria ou pelo poder, o resultado é um conflito que emerge a partir de mentiras, falta de caráter e segundas intenções.

Atualmente declarar que a Amazônia é uma área restrita ao Brasil seria uma blasfêmia. Quem ainda não sabe que toneladas de minérios, madeiras, ervas medicinais escoem em canais guiados por franceses, noruegueses, alemães, norte-americanos e tantos outros do lado ocidental?! Se a moda dos ambientalistas de plantão pegasse, uma Amazônia tombada como Patrimônio Mundial de Todos os Seres Vivos, não seria má ideia, mas sabemos que os indígenas ainda trocam sementes por facões, cocares por espelhos e ouro por cachaça. Mal da síndrome de vira-lata de todo brasileiro que se preza e que também faz trocas ou compras em Miami, deposita seu suado dinheirinho nas Ilhas Caymã e alegam que os filhos terão melhor Educação no exterior, porque a nossa está muito atrasada, no entanto investem tecnologias para cultivar monoculturas em solos nacionais.

Pobre de nós, humanos: índios, negros, brancos, pardos, mulheres (bom lembrar que o Sínodo da Amazônia também previu uma maior participação das mulheres na Igreja Católica), pois carecemos de vozes divinas que nos orientem porque não podemos assumir sozinhos nossos erros, a culpa é sempre do Diabo. Por isso vos digo que só a Arte salva, meus irmãos e minhas irmãs! Creiam nisso! Sensibilizar a alma se faz através da cultura, da Arte, da construção criativa, do amor ao conhecimento! Não se enganem, o ‘resto’ é só distração! Que Nossa Senhora nos proteja de todo nosso próprio mal! Amém!

Ilustra o texto obra da artista alemã Eleonore Koch (1926-2018), única discípula do consagrado artista italiano, Alfredo Volpi (1896-1988).

*Sínodo – do latim Sinodu, do grego Synodo; syn juntos, hódos caminho

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Eleonore Koch, técnica mista sobre papel

Estamos de olho

O artista Francisco Galeno residente há anos no município de Brazlândia, nasceu na Parnaíba, Piauí. A sua infância teve o velho enredo da criança pobre que inventava seus próprios brinquedos e solucionava com criatividade experimentos e saberes populares com muito pouco ou quase nada. Em suas obras estão presentes os elementos que rememoram suas origens e seu berço criativo como a referência quase constante da pipa, ou seu formato geométrico, a lamparina de zinco que além do objeto é multiplicada na pintura, como também o são os carrinhos feitos com lata de sardinha e incrementados pelos carretéis de linha referencia maior ao ofício de costureira de sua mãe e mais símbolos dos costumes e tradições regionalistas do imaginário popular, indígena e mestiço tais como escudos geométricos, lanças, flechas, ganchos, anjos, santos e carrancas. Tudo é desenho, pintura e objeto para este fabuloso artista que desenvolveu seu talento quando se mudou para Brasília em meados da década de 70. Galeno se destacou em mostras nacionais coletivas e individuais e fixou seu atelier nas proximidades da capital do Brasil onde desenvolveu projetos e criou subsídios para a promoção e divulgação de seu trabalho.

Executou a intervenção da Igrejinha de Oscar Niemeyer, em 2009, onde honrosamente foi convidado para substituir a pintura do altar, pelo então artista Alfredo Volpi.  O afresco de Volpi que foi praticamente destruído para poder ser restaurado, foi magistralmente substituído por uma Nossa Senhora de Fátima sem rosto, ela tem uma pipa no lugar das mãos e o rosário é um carretel de flores. A coroa também é decorada com flores e nas laterais, predomina a cor azul bem forte. Pipas e flores foram criadas para representar a alegria das crianças que teriam avistado a Virgem Maria, em Fátima, Portugal.

Nos anos 90 a prefeitura de Brazlândia recorreu aos desenhos de um dos seus moradores mais ilustres, o artista Francisco Galeno, para realizar mosaicos em pedra portuguesa no calçamento do entorno do lago, no centro da cidade (www.moisaicosdobrasil.tripod.com\id93.html). Galeno também foi convidado pelo time de futebol do Município para realizar o desenho da camiseta oficial do clube.

Com um currículo invejável este nordestino acolheu sua cultura como profissão e é reconhecido internacionalmente como “curumim arteiro”. Um dos mais expressivos expoentes da Geração 80, Galeno diversificou a pintura com uma técnica peculiar e temas que abrangem a brasilidade e o nacionalismo. Infelizmente sua obra não está em alguns acervos de instituições goianas, como o Centro Cultural UFG, que abriu recentemente uma pequena mostra da Geração 80. Há de se pontuar as falhas na cultura brasileira assim como também é urgente a atenção às instituições que devem ser guardiãs da memória e do patrimônio nacional. Afinal como um artista tão próximo da capital de Goiás e da importância artística de Francisco Galeno não tem uma obra integrada ao acervo goiano e por quê? Estas e outras lacunas na História da Arte Brasileira são questões a serem levantadas principalmente quanto aos investimentos e administração das Instituições Brasileiras de Cultura. Estamos de olho!

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Francisco Galeno, objeto-escada (em detalhes), dimensão 250 x 23 x 15 cm, acrílica s/ madeira, carretéis, lamparina, objetos de madeira, 2015.

A Morte

No dia 05 de Outubro o artista baiano, Tarcísio Veloso realizou um bate-papo para nos contar sobre sua inspiração da mostra “A vida é sonho”. Entre a declamação do poema do espanhol, Calderón de La Barca e a proposta ou a provocação da questão que aborda o tal conflito da vida, Tarcísio interpelou: “O que você faz para não ir para  inferno”?

Do ponto de vista Religioso me parece ambígua certas respostas, pois que nossas falhas, conscientes ou não, hão de ser penalizadas aqui mesmo, nesta vida, nesta dimensão, nem no Céu, nem no Inferno, mas exatamente aqui e agora, na Terra.

Do ponto de vista Filosófico entraremos em mérito da Ética da conduta sobre Direitos e Deveres Humanos. Praticar a Verdade, independente se ela é boa ou má seria o caminho mais acertado para não irmos ou não transformarmos nossa vida num inferno.

O Canal brasileiro, Curta! reexibiu o Programa Caixa-Preta (2018), que tem como sinopse: “Qual mensagem você deixaria em uma caixa-preta para as futuras gerações”? A pergunta foi feita para pensadores de diversas nacionalidades da Área de Humanas: Amós Oz, Carlo Rovelli, Eduardo Giannetti, Gilles Lipovestky, Jan Gehl, Leonardo Paderno, dentre outros. Suas respostas lúcidas e verdadeiramente convincentes são uma reflexão para a retomada à um Neo-Iluminismo, onde o repensar dos valores na construção do saber, da diversidade e da empatia uns com os outros seriam prioridades.

Meu filho de 11 anos me fez uma pertinente indagação. Ao passarmos em frente à uma dessas igrejas evangélicas, ele reparou nos imponentes pilares que sustentam a fachada em estilo greco-romano e curiosamente replicou: “Mãe, por que eles imitam a arquitetura grega, que era politeísta, para construir igrejas monoteístas”?

O plágio já se tornou uma virtude do ser humano em benefício ao Diabo, mas ninguém percebeu ainda. No entanto, as ambiguidades da Bíblia podem ser bastante interessantes quando bem traduzidas e expressadas, principalmente no Velho Testamento:

“A vida é um absurdo! Sorte penosa foi criada para cada homem e, jugo pesado foi dado aos filhos de Adão desde o dia que saem do ventre materno até o dia em que voltam para Mãe de Todos. O objeto de suas reflexões e o temor de seu coração exprimem a espera pelo dia da morte”.

Em Eclesiástico, 40 (Editora Pastoral, @Paullus , 2013) esta interessante passagem, cuja literatura nordestina de Ariano Suassuna reavive em “O Auto da Compadecida” é interpretada pela magistral atuação da atriz, Fernanda Montenegro, na personagem de Nossa Senhora, Mãe de Deus:

“É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam por fazer o que não presta. Mas é sem querer. É só por medo. Medo de muitas coisas: do sofrimento, da solidão e no fundo de tudo, medo da morte”.

Ao Tarcísio, responderia que o que poderíamos fazer para não ir ou estar no inferno seria enfrentar nosso medo da Morte e para as próximas gerações minha mensagem seria para aprendermos melhor em como enfrentar nosso medo da Morte!

Pois que: “Na (Mãe) Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Antonie Lavoisier)!

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Tarcísio Veloso, “As flores”, 100 x 90 cm, óleo sobre tela, 2019

Tempos Distópicos

No século XVIII o livro célebre do escritor alemão Goethe, “Os sofrimentos do Jovem Werther” (1774) viria influenciar e manifestar o suicídio em série entre jovens que acabariam de vivenciar o surgimento do Iluminismo na sociedade, período onde este surto coletivo levaria o mesmo nome, Síndrome de Werther. O best-seller vingaria a sina de sua história à uma parte dessa geração que morreria por amor ou por qualquer outro motivo de desequilíbrio emocional. A Literatura sempre teve um impacto direto com a sociedade, principalmente quando o único meio de comunicação era a leitura.

Dois séculos depois, o livro do inglês Anthony Burgess cairia nas graças do diretor norte-americano, Stanley Kubrick para a produção do clássico antiutópico, “Laranja Mecânica” (Clockwork Orange). O livro disserta sobre a psicopatia coletiva, a violência, o sexo, as drogas e intervenção de métodos científicos controladores. Embora a comoção do público sobre o filme e, consequentemente sobre o livro tenha sido bastante repulsiva, algumas partes da história foram inspiradas em fatos reais, como o estupro coletivo. O caso sobre quatro soldados americanos, na II Guerra Mundial, que violentaram uma mulher casada, que também teve de submeter  à um aborto, é verídico. O impacto do filme “Laranja Mecânica” foi tão grande que casos semelhantes de violência se refletiram na sociedade ao ponto do escritor repudiar o próprio livro.

Se a aparição do personagem do Coringa não tivesse acontecido na década de 40, eu diria que ele seria o alter-ego na versão nórdica do personagem principal do livro inglês, o Alex (A-lex, a-lux, o sem luz). O poeta inglês, Philip Larkin assim descreveu o escritor conterrâneo:

“[Anthony Burgess] deve ser uma espécie de Batman das letras contemporâneas”.

De fato, o poder que a Literatura e as Artes em geral exercem na sociedade é imediato e cíclico. Como cada cultura vive sua realidade particular é compreensível que o norte-americano tenha sua versão orange, oranga, ou ‘orangotanga’ da história, quem sabe até mais ácida, brutal e bestial que as outras. Repensar estereótipos norte-americanos como “Jason Voorhess”, “Freddy Kruger” e “It – A Coisa” nos remete ao possível terror de atitudes semi-humanas.

A relação “Laranja Mecânica” (1972) X “Coringa” (2019) implica mais sobre o comportamento contemporâneo que suas semelhanças psicóticas. Meio século separam dois cult’s do cinema e nos deparamos ainda com o reflexo de uma realidade descontrolada, distópica ou até pior. Por que, afinal tanto interesse do público em temas de terror e suspense? Por que ainda é tão atraente esta “síndrome de cluster”, o “efeito manada”, essa onda contagiosa de violência? A vida imita a Arte, ou a Arte imita a vida?

Fica a dica de dois clássicos para assistir e refletir sobre a sociedade contemporânea. O desenho em técnica mista do artista goiano Pitágoras ilustra o post.

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Pitágoras, técnica mista sobre papel, 2018

E o que será, que será?

Ninguém mais com a doçura do pernambucano, Gilberto Freyre para descrever a história da formação cultural brasileira. Ele descobriu entre escritas certas por linhas tortas, que a rapadura é doce, mas não é mole não e também que sua matéria-prima produz a cachaça, o combustível e a energia vibrante “de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta” (Milton Nascimento). Em comemoração ao Dia das Crianças e à Padroeira do Brasil, antecipo a data 12 de Outubro para prestar minha homenagem às futuras gerações e à Santa “barroca” (aqui o termo do estilo apenas como um trocadilho), que abençoa esse povo e seus mais de 200 milhões de corações que batem em ritmo tropical.

Freyre descreve com sensatez como as raças ou etnias se encontraram, se confrontaram e se miscigenaram sem dramatizar ou romantizar a História. Relata a verdade, a moralidade e a hipocrisia da natureza humana em busca da sobrevivência, mas principalmente em busca do prazer e do poder. Disserta o paraíso dos colos coloridos das mulatas, de seus batuques, de suas comidas e da prioridade de seus seios fartos de leite para matar a fome dos bebês das Sinhás. “As amas de leite são as mães pretas que criaram o país e forjaram o povo brasileiro às custas de si mesmas e de seus filhos” (Conceição Freitas, via Metrópoles, 12/05/2019). Se por volta do século XVIII, uma segregação religiosa para os negros se constituiria com a insurreição da imagem da Nossa Senhora dos Pretos, a autoestima de um povo sojigado e ferido ousaria estar protegido por uma Santa de sua cor. Uma espécie de orixá ou deusa, que alimentaria as forças ocultas dos negros mandingueiros, das frágeis mucamas, das escravas do sexo, das amas de leite e dos quilombolas. O caso é que esta imagem feminina ofuscaria a agressividade da figura patriarcal de uma sociedade que cresceria e firmaria no imaginário escravocrata a delicadeza da mulher negra que cuida, amamenta, protege e abençoa seus fiéis. Se fosse pelo acaso ou pela coincidência (que em verdade, não existe), eu poderia dizer que a obra do artista, Tarcísio Veloso tem tudo a ver com o tema deste texto.

Na brincadeira de criança, situada num salão aristocrático pode se constatar toda a história brasileira, além-mar, dentro de um “Barquinho”. Em primeiríssimo plano está uma criança negra, bem vestida, bem penteada, bem brava. Em segundo plano mais duas crianças brancas e uma outra negra bem amedrontada, logo atrás da criança brava, bem penteada. Aí, nesta cena, um pequeno retrato escravocrata da sociedade brasileira, uma precoce babá, que cuida dos filhos da patroa e também do irmão mais novo. Eles brincam dentro dum lindo barco, cujo veículo velejado por pescadores, em 1717 pescou a imagem da Santa milagreira, a Padroeira do Brasil, a tal Senhora que apareceu misteriosamente, nas redes do Vale do Paraíba. O óleo sobre tela do artista baiano dimensiona os sentimentos de um povo ainda tão imaturo, mas carregado de feridas, tristezas e esperanças. Navega, navega barquinho, nas margens da imaginação, nos sonhos possíveis da realização, da bravura, da braveza das crianças que ainda se inspiram na aparição de um milagre, de um messias, de uma Nova Era.

Era? Foi? Será?

“E o que Será, que Será?” (Chico Buarque)

Feliz Dia das Crianças! Salve Nossa Senhora Aparecida!

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Tarcísio Veloso, “Barquinho”, óleo sobre tela, 180 x 160 cm, 2019

Homem-Primata

Estudos recentes na área de Biologia tentam comprovar que os animais se emocionam como nós.  O inglês Jonathan Balcombe coleciona flagrantes de prazer entre animais e se baseia em estudos científicos sobre o cérebro dos vertebrados. “O prazer está ligado a uma região conhecida como núcleo acumbente, que nós humanos, temos em comum com outros animais. Isso mostraria que esses bichos sentem prazer de forma parecida com a nossa: Há indícios na expressão facial e nos movimentos corporais. Mesmo que seja difícil humanizar as emoções animais, as pesquisas de Balcome têm interesses que vão além da Ciência.” (Gabriel Chalita, Filosofia e Vida, Editora FTD).

No início deste ano foi decretada, em decisão histórica a proibição do encarceramento de pássaros em gaiolas, na Índia. Em Junho, foi aprovada a lei, que desde 2015 corria no Parlamento do Canadá, sobre a proibição da captura e criação de cetáceos como baleias e golfinhos em cativeiros. Biografias como a da norte-americana, Margaret Howe Lovatt “The girl who talked with Dolphins” (A garota que falava com Golfinhos) ou “Gorillas in the Mist” (Na Montanha dos Gorilas) sobre a vida da zoóloga Diane Fossey, são exemplos concretos da relação dos animais e suas surpreendentes reações emotivas.

Mas o que me motivou mesmo relatar e tentar fazer uma conexão sobre este tema à Arte foi um filme sui generis que assisti semana passada. Com um formidável roteiro e atuações convincentes, o cult belga “The Square: a Arte da Discórdia”(2017) é um filme de cabeceira para amantes da arte contemporânea e assíduos questionadores do comportamento humano. Entre o caos de viver em sociedade às tentativas constantes de altruísmo, a vida do curador de um famoso Museu é constantemente colocada em xeque nas inusitadas situações cotidianas.

A cena-inspiração do filme para este texto foi a de uma performance,  onde um artista encarna a personalidade de um primata e invade um jantar black tie provocando um audacioso desconforto entre os convidados. A princípio o artista-ator chega em movimentos brandos, cuidadosamente articulados, semelhante aos gorilas das montanhas, observando com curiosidade a elite intelectual da festa. A troca de olhares com uma dama, cuja idade poderia ser a sua, romantiza um curto momento de distração. Mas o clima começa a esquentar quando o performer interpreta a disputa pelo território e escolhe um artista do Museu para expulsá-lo da mesa do jantar. O curador intervém para finalizar o ato, mas o performer continua. Ele sobe na mesa, quebra os copos de cristais, os pratos, derruba as cadeiras e por fim, inicia sua busca pela fêmea. Puxando pelo cabelo e a arrastando pelo chão para possuí-la sem o seu consentimento, os convidados são tomados pela fúria e todos os homens da festa atacam o artista-animal!

Moral da história: a vida imita a Arte, a Arte imita a vida. Até onde um homem pode se sentir um primata? Instintiva ou intuitivamente ainda somos controlados pelos sentimentos e pelo comportamento coletivo. Esta cena sensacional me ativou um clique! “Cada pessoa sente prazer de um jeito. Imagine se compararmos espécies diferentes”, disse em entrevista para a Revista Época (2010), Mauro Lantzman, veterinário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O filme traz outras surpresas, como a jornalista que entra na vida do curador e tem como pet uma macaca que gosta desenhar! Penso que ainda somos todos um pouco primatas, ou não?

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Cruzamento de via ecológica, no Município de Goiânia

Que venha a primavera

Tem curiosidades que só a Arte se encarrega de nos ensinar! Fui descobrir que Alexandre Dumas, o escritor francês do clássico “Os Três Mosqueteiros” (1844) era negro, no filme do diretor Quentin Tarantino, “Django” (2012), numa cena memorável, onde o caçador de recompensas alemão (Christoph Waltz) e o desalmado senhor feudal norte-americano (Leonardo DiCaprio) travam um diálogo mortal. Dumas foi filho do general de exército de Napoleão e escreveu entre outros épicos que marcaram a literatura romântica do século XIX, “O Capitão Paulo” e “O Conde de Montecristo”.  O escritor é um dos retratos hiper-realistas das pinturas do artista baiano, Tarcísio Veloso, que esmiúça cada detalhe de seus personagens para lhes dar mais expressividade e força representativa.

Inspirado pelo poema do espanhol Calderón de La Barca, “A vida é sonho” (1635), o artista investe na atmosfera romântica e resgata a beleza e cuidadosa estética do renascimento europeu. Mas a sutileza de suas obras é só fachada para o poderoso discurso crítico sobre a sociedade contemporânea. Ele compreende que assuntos e diálogos como o que foi proposto por Tarantino, em Django, são relevantes em épocas sombrias de equívocos à valores morais e éticos da sociedade. São borboletas, beija-flores, rosas e tulipas que adornam corações hiper-realistas, espiritualizados, sagrados, laicos , também uma coroa de flores que adornaria, como diria Renato Russo tanto “Meninos como Meninas”.

O artista goiano, Avi Neto não só adorna sua personagem com flores como a integra no lugar da cabeça de suas figuras femininas. A Senhora Peony é esguia, sensual e carrega em seus pensamentos, frágeis e suntuosas pétalas. A peônia é uma flor típica do Hemisfério Norte e tem propriedades medicinais, curiosamente, a cultura chinesa e grega a utilizavam para rituais de cura. Para os esotéricos os efeitos mágicos da flor eram direcionados aos tratamentos alternativos. Avi passou anos estudando em Toronto, no Canadá onde concluiu sua graduação e se dedicou profissionalmente nas áreas de arquitetura e urbanismo.  Lá se deparou com a realidade de um país desenvolvido, resgatou elementos do estilo realista e compôs à sua obra figuras fantásticas saindo de sua zona de conforto para recriar uma particular realidade fantástica. Assim como a peônia o trabalho do artista está carregado de magia, seja pelos inusitados cenários de seus personagens, seja pela organicidade de seus temas.

Dois artistas que se baseiam no estilo do Realismo se expressando com diferentes histórias e trajetórias de vida. Abraçamos a ideia de ambos e a compartilharemos com você no próximo dia 19 de Setembro a partir das 20h, a mostra “Realismos Particulares”. Finalizo o texto com pouco mais da poesia cantada de Renato Russo, “Perfeição”:

Venha, meu coração está com pressa. Quando a esperança está dispersa. Só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta. E vem chegando a Primavera. Nosso futuro recomeça. Venha, que o que vem é Perfeição“.

Que venham mais flores. Que venha a Primavera! Esperamos você!

tarcisio e aviTarcísio Veloso, “Maria com Flores”, 2019  –  Avi Neto. “Hora do Chá”, 2019

Sejamos Realistas

Viver em Goiânia tem suas vantagens e desvantagens. Uma das vantagens de se viver no Centro do país é que a nossa distância das praias da Bahia é bem menor de quem vive no frio do Sul. No entanto, ser vizinho da Capital traz algumas desvantagens culturais, ou não. Grandes espetáculos e excepcionais mostras de arte acontecem em uma das Instituições que mais respeito, o CCBB, onde uma de suas unidades está localizada em Brasília. Shows, teatros, exposições e grossos incentivos federais da cultura acabam se concentrando no Distrito Federal. Ruim pra nóis, goianienses, que só temos um prestigiado evento por ano denominado por “Villa”, mas ainda bem que podemos considerar Brasília nosso quintal, a proximidade nos permite um intercâmbio cultural muito mais vantajoso que os daqui, na minha opinião!

Sempre tive o hábito de visitar as mostras de arte do CCBB desde os anos 2000 e, como emana o mantra da física quântica: “não existem coincidências”. Em fevereiro deste ano o CCBB-DF abriu mostra com curadoria da historiadora de arte paulista Tereza de Arruda, “50 anos de Realismo: do fotorrealismo à realidade virtual”. A curadora fez uma seleção de artistas nacionais e internacionais para levantar questões sobre a história do Realismo nas Artes Plásticas e como a sociedade e seu tempo vem sendo registrada pelos artistas.

A variedade de suportes e temas da mostra que abordaram o Realismo, o Fotorrealismo e o Hiper-realismo adubou um terreno para colher frutos em áreas científicas como a Informática e a Psicanálise e “justamente por essa aproximação, surge certo estranhamento e desconforto no momento em que nos perguntamos o que é realidade e qual sua importância na representação artística”. (Tereza de Arruda)

Este foi o cerne para a realização da nossa próxima mostra de Arte “Realismos Particulares”. A Potrich Galeria convida para a primeira inédita de dois artistas que primam pela pintura sobre tela e entendem a realidade com suas devidas particularidades. O artista goiano, Avi Neto foi aluno ouvinte na FAV/UFG e divagou sobre grandes feitos de Mestres da pintura elegendo como estilo o “Realismo Mágico” criando características próprias em suas obras. O artista baiano, Tarcísio Veloso vem com uma bagagem autodidata somada a estudos de aulas de teatro e prática pictórica nos estilos do Romantismo e Hiper-realismo e idealizando o sonho como narrativa. Dois artistas que elucidam sua realidade através da primorosa figuração, com certas peculiaridades, no estilo realista. O que eles têm em comum com os outros 30 artistas da seleção de Tereza de Arruda? Eles demonstram, em coletividade, o quanto ainda somos orgânicos e movidos pela emoção, se valendo da máxima “realidade nua e crua”, “a vida como ela é” e como nela ainda vivemos, sobrevivemos e sonhamos.

O artista apenas registra seu ponto de vista do momento que vive. Se para o goiano Avi, o momento é feminista, de emponderamento da mulher que pensa, educa (ou adestra) e age com sensibilidade, para o baiano Tarcísio o momento é de militância por causas urgentes, como os direitos humanos e um olhar mais atento às crianças, ao futuro. Ambos estão corretos! São mesmo essas as urgências do momento.

Sejamos realistas, meus caros!

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Avi Neto, “Mr. Peony”           –            Tarcísio Veloso, “Soldadinho”

Solidão

No início deste ano a Netflix anunciou que transformará numa série o livro do colombiano e Prêmio Nobel em 1982, Gabriel García Márquez (1927-2014), a sua obra-prima “Cem anos de solidão” (1967). Os cinéfilos e ‘seriezeiro’ de plantão já estão ansiosos pela estreia, inclusive eu. Um dos livros mais vendidos da história narra a saga de uma família em meio a mistérios, catarses e uma forte narrativa socioeconômica sobre a América Latina. A literatura do estilo Realismo Fantástico do escritor foi uma reação à literatura mágica europeia dos anos 60 e 70, também uma maneira de se expressar contra os governos totalitários da época. Este estilo de literatura viria contagiar centenas de escritores latinos, inclusive um deles de Corumbá de Goiás, o goiano José J. Veiga. O estilo literário aborda situações inusitadas que prendem a atenção do leitor a mitifica a realidade estabelecendo uma relação entre o possível e o impossível.

“O amor nos tempos do cólera” (1985), outro clássico do escritor foi adaptado para o cinema em 2007 e traz surpreendentes passagens a começar pelo trocadilho do título. A comparação dos sintomas do cólera com as dores de um amor não correspondido é o mote central da trama romântica. O incorrigível apaixonado espera por este amor durante 51 anos até reencontrá-lo e consumir sua paixão. A mãe do protagonista no filme é interpretada pela atriz brasileira Fernanda Montenegro e a atmosfera caótica entre religiosidade, ‘edipianismo’ e o drama da epidemia do cólera na cidade litorânea é interrompido por momentos de doçura e sensibilidade como o conteúdo das cartas de um homem apaixonado ou na trilha sonora do filme cantada pela voz característica da também colombiana Shakira. O cenário de sua obra é inspirado na paisagem afrodisíaca de Cartagena, com seu clima tropical, sua beleza abençoada por natureza e sua posição estratégica entre América do Sul e Central. A cultura colombiana se expressa por hábitos regionalistas de uma sociedade colonizada por espanhóis e movida pela agropecuária e um intensivo tráfico de maconha e cocaína.

O Realismo Mágico de Gabriel García Márquez, representa bem esta realidade do país e deixa subliminar estereótipos de uma cultura movida pela prostituição e pelo comércio de produtos ilícitos. Essa realidade fantástica do século XX é mais expressiva e contrastante atualmente. Resgatar uma história escrita no final dos anos 60 para exibir num dos maiores programas especializados em séries televisivas do mundo é um sinal, um redirecionamento do olhar para a cultura verdadeira, a Arte que fala a verdade, mas que também sonha e cria a magia, transforma o olhar, investiga a origem das angustias, das dores, dos amores e da solidão!

Ilustra o texto obra do artista goiano Avi Neto, que permeia o Realismo Mágico com personagens femininas e paisagens fantásticas. O artista abre mostra de arte na Galeria este mês de setembro. Aguardem!

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Avi Neto, “The yellow boat“, acrílica s/ tela, 80 x 90 cm, 2018.

Você tem fome de quê?

Aos colegas de minha geração, ou como diria meu filho de 11 anos “a geração do século passado”, sei que serão solidários comigo em rememorar a icônica canção dos Titãs, “Comida” de 1987. A letra é tão atual quanto a maioria dos temas das outras músicas da banda que o refrão dela reverberou, consciente ou inconscientemente para a tradução do título do livro de autoria do médico indiano, radicado nos EUA, Doutor Deekpak Chopra : “Você tem fome de quê?” (2002). O médico que é adepto às teorias de Carl Gustav Jung e ao conhecimento da Ayurveda dividiu em dois grupos distintos hábitos diários com a comida para diagnosticar as causas do desequilíbrio alimentar de cada um. O primeiro grupo tenderia a uma causa mais leve, relacionada a desatenção ou distração na hora das refeições, tipo: a comida seria um entretenimento e não uma necessidade. O segundo grupo exigiria mais cuidados, o descontrole na alimentação teriam causas mais relacionadas ao emocional e uma tentativa de preenchimento de um vazio, de um buraco sem fim… O médico indiano se baseia na holística da cultura oriental e observa que a imprudência alimentar também tem reflexos na negligência com a espiritualidade. A saúde física deve estar diretamente relacionada à saúde espiritual. Para Chopra não há tratamento para uma doença se não há combate aos agentes etiológicos e acrescenta que “o sucesso espiritual não é necessariamente o sucesso financeiro”, tudo faz parte de um cauteloso equilíbrio de valores e sentimentos.

Na sexta-feira passada morreu o 10° homem mais rico do mundo, David Koch, aos 79 anos, de um câncer, cuja doença há anos vinha lutando contra, inclusive investindo grandes quantias para pesquisa científica em busca da cura. O drama desse tipo de notícia é que, apenas num momento como este, a morte, todos nos tornamos iguais, ninguém leva nada daqui, a fortuna de um bilionário não entra dentro dele, nem entra no céu, nem na terra, nem no inferno. O cientista americano, Neil deGrasse Tyson elucida constantemente seus seguidores sobre os mistérios do universo e a fórmula mágica da vida. Simplifica nossa singela e complexa existência nos confortando sobre nossa magnitude e mortalidade. Conclue que conscientes que a vida tem prazo de validade devemos manter um constante zelo aos nossos objetivos, mas principalmente ao nosso tempo, em como utilizá-lo bem para que ao menos realizemos uma vitória para a Humanidade.

Pois se a verdade para Tyson é que nossa energia vital se transforma ou é consumida por outrem após a morte, que cuidemos muito bem dela e das calorias ingeridas para fortalecê-la em vida, pois como pensa Chopra, devemos também cuidar de nossa força espiritual! Fica a questão final, a sua espiritualidade tem fome de quê?

Ilustra o post pintura hiper-realista do artista baiano, Tarcísio Veloso, com mostra prevista para o próximo mês, aguardem!

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Tarcísio Veloso (BA), “Fome”, óleo sobre tela, 30 x 30, 2019