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Da Favela do Vidigal à Estética Militar

A jornalista e editora da Revista Bamboo, Clarissa Schneider assina curadoria da Mostra DNA Artefacto, uma estética amorosa que acontece na próxima segunda-feira dia 07/08. Com seletos nomes do design brasileiro a mostra terá parte da renda arrecadada destinada à Escola Vidigal, um projeto idealizado pelo artista e fotógrafo Vik Muniz. Clarissa postou um vídeo em seu instagram de uma das atividades promovidas pelo projeto que visa o ensino de arte e tecnologia para crianças entre 5 a 8 anos da Favela do Vidigal. A aula registrada foi de uma roda de capoeira onde as crianças aprendem a musicalidade, senso de cooperativismo, coordenação motora e história do Brasil.

Para mim foi uma surpresa assistir ao vídeo e testemunhar a elite da estética brasileira se mobilizar e direcionar holofotes à cultura popular. O idealizador Vik Muniz presenciava as acrobacias das crianças e também escutava ao vivo o som do berimbau isso tudo com uma vista privilegiada do mar. “Só faltou a máquina fotográfica para eternizar esse momento e postar no seu instagram, né Vik!?”

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Vik Muniz na entrada da Escola Vidigal observando a roda de capoeira

Link do vídeo: https://www.instagram.com/p/BXYiEP7jVmt/?taken-by=clarissaschneider

No livro de Gilberto Freyre, Ordem e Progresso, o sociólogo pernambucano faz referência ao escritor português Ramalho Ortigão que foi professor de Eça de Queiroz e personalidade distinta da classe filosófica erudita da época. Ortigão observou a decadência do Império em contrapartida no que deveria ter sido a transformação política brasileira para a República e relata em 1890, na Revista de Portugal, “O quadro social da revolução brasileira”. Num belíssimo trecho sobre as observações de Ortigão, Freyre identifica com sensibilidade as alternativas políticas acerca da estética militar:

“Semelhante organização é evidente que teria sido alcançada de modo efetivo, durante reinado tão longo como foi o de Pedro II, se, em vez de ter se extremado, como se extremou, em rei acadêmico, o chefe de Estado tivesse se apoiado sobre um exército, como o imaginado pelo escritor português: disciplinado, aguerrido e brilhante; sobretudo capaz de ser um fator considerável na educação nacional, um foco de aperfeiçoamento físico, de destreza e de força, uma escola prática de disciplina e de respeito… Inclusive, através de uma capoeiragem estilizada em exercício militar.”

Bem issae! Salve, camaradas! A capoeira salva!

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Foto de André Cypriano na Favela da Rocinha

Sobre Homens e Gorilas

Recentemente revi ao filme Nas Montanhas dos Gorilas, de 1989, com a talentosa Sigourney Weaver que interpreta a zoóloga norte-americana Dian Fossey. Fossey dedicou anos na pesquisa e convivência com os gorilas da África utilizando todos os meios possíveis para protegê-los. Sua luta se tornou uma paixão tão obsessiva que seus discursos e atitudes começarem a preocupar os caçadores e elementos corruptos do exército de Ruanda. Ela foi terrivelmente assassinada e ninguém nunca achou o autor do crime. As imagens do filme, até hoje atuais, nos levam a crer que embora os animais em extinção se diversifiquem em muitas outras lutas sociais e filantropias, a favor até mesmo da Floresta Amazônica ou o degelo dos Polos, temos muito ainda por fazer pela natureza, mas principalmente pela nossa própria sobrevivência em harmonia com ela.

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Imagem do evento promovido pela Fundação DiCaprio, em Saint Tropez, França (2017).

Certamente nossos filhos não desbravarão a Chapada dos Veadeiros como nós fizemos há 20 anos, ou numa visita à Machu Picchu, onde poderíamos divagar sobre sua paisagem sem tempo contado de estadia! O mundo mudou, nós crescemos e paramos de morrer tão cedo. E a natureza? Alguém perguntou como ela está? Os cientistas e os artistas conversam com ela, denunciam, descrevem, desenham, pintam, fotografam e tentam incessantemente conscientizar uma sociedade cega a enxergar os problemas gritantes desta relação parasita entre seres humanos e os outros seres vivos.  Somos predadores natos, carnívoros, mamíferos, mas principalmente, seres pensantes. Hoje li nas redes sociais esse lindo pensamento: “A violência não é força, mas fraqueza, nem nunca poderá ser criadora de coisa alguma, apenas destruidora.” (Benedetto Croce)

Sigourney Weaver interpretou a zoóloga com a força e convicção de sua personagem protagonista de Alien. A paixão, a garra, a raiva e o instinto animal da atmosfera da mata e a selvageria do nativo é o ponto crucial da saga ao indomável, imensurável e inacreditável comportamento humano. Existe um limite de atitude que impera entre a ética e os bons costumes. Enxergar a linha que separa o exagero, a insensatez e os maus hábitos é dever de todo cidadão. Somos homens ou ratos? Até quando vamos nos alimentar de água preta gaseificada ou restos de pseudo alimentos em latas com data de validade? Até quando financiaremos heróis estrangeiros ao invés de inventarmos os nossos ou acreditarmos em líderes culturais nacionais? Até quando procuraremos o belo ao invés de enxergarmos ele dentro de nós mesmos?

O ator norte-americano e ativista ambiental, Leonardo Di Caprio foi anfitrião no evento beneficente, na última quarta-feira (27/07) que arrecadou mais de 30 milhões de dólares para causas e incentivos em energia limpa no mundo e projetos para Fundação DiCaprio. O evento foi realizado em Saint Tropez, na França e várias celebridades brasileiras compareceram, além de um show surpresa da pop-star Madonna e a presença de sua parceira do Titanic, Kate Winslet. Se esta verba realmente for revertida para os fins propostos este evento foi louvável, altruísta e esperançoso!

Resta esperar com cautela e muita consciência a resposta da natureza quanto às nossas ações. Pois, ela é o verdadeiro Deus que a ciência também não explica. Ela, não ele! Ela quem gera, concebe e amamenta! A Mãe Natureza, Senhora de todas as coisas, Deusa da vida e da morte. A Rainha das transformações. Salve, Ela! Salve a Natureza!

Imagens dos artistas, respectivamente: desenho do mineiro Carlos Cordeiro, fotografias da carioca Cristina Oldemburg e do paulista Flavio Samelo e pinturas do goiano Pitágoras e do baiano Rubens Ianelli.

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Bertholletia excelsa

Certa vez um obstinado avô decidiu plantar uma Bertholletia excelsa, ou a famosa castanha-do-pará. O jovem sobrinho indignado perguntou, “O senhor acha que dá tempo pra ver nascer alguma castanha, vô?” O avô respondeu: “Se eu não for usufruir, outros  irão. Eu não estou plantando para mim, mas para as próximas gerações.”

Há um imediatismo em relação aos nossos resultados  que esquecemos de pensa-los à longo prazo. Como nalguns causos e histórias de pessoas que compraram lotes ou obras de arte, joias ou até mesmo qualquer artefato para um hábito de colecionismo e após algum tempo obtiveram êxito na sua valorização.

Só nos esquecemos de pensar à longo prazo quando acreditamos num conto à primeira vista. É à longo prazo que as ideias e os frutos  amadurecem e quando prontos são absolvidas pela sociedade. É assim com a Bertholletia e com os grandes artistas, que tantas vezes morrem na miséria e depois são supervalorizados pelo mercado que os menosprezou.

As ideias vanguardistas estão para um seleto grupo de pessoas que compreendem a origem das manifestações culturais e é capaz de reverberar a história delas à várias outras gerações.  Mas sem dúvida é complexo admitir que um pedaço de papel desenhado possa ser uma apólice de previdência. Você vai me dizer que talvez um agropecuário seja mais visionário e saiba investir melhor nos negócios, eu diria que para os veganos, esse ponto de vista seria bem diferente.

Pensar dentro deste seleto grupo de pessoas não está no entendimento de muitos sobrinhos. Mas com certeza existem exceções que de uma forma ou outra pensam nas próximas gerações. Resta só distinguir se este é um sentimento imediatista ou existe uma preocupação com o futuro, não só de uma geração onde impera o nepotismo, mas para o coletivo em geral, pois que uma castanheira consegue alimentar mais que uma família! Quem planta, colhe!

Obra do acervo do MASP em mostra no CCBB-DF, do artista holandês Vincent Van Gogh, que morreu na miséria.

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What if?

Depois de ver a foto do fenômeno pop star, Beyoncé com seus gêmeos no colo, posando como uma santa negra num altar repleto de flores campestres com visual sereno e cores vivas fui subitamente remetida à imagem de nossa Padroeira ou a Santa do Rosário dos Pretos ou mesmo orixá Ogum. A imagem sacralizada através dos filhos de apenas um mês, dormindo em seus braços reforçou essa significação, ainda mais envolta num manto violeta, não deixando desejar a quaisquer imagens de santas brancas representadas pela Igreja Católica e seus altares intocáveis.

 

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Há uma crença no ideal estético europeu ainda muito presente nas sociedades. Uma prova disso foi a “brincadeira” que rendeu marketing e louros ao designer/arquiteto/artista Henrique Steyer, em 2012. Mediante uma experiência num resort na República Dominicana, Steyer se deparou com uma pergunta fugaz que levanta questões polêmicas e éticas. Em parceria a Felipe Rijo eles manipularam retratos de celebridades públicas com cor de pele branca e as transformaram em negras, ele denominou a série What if? E se todos fossem negros? A resposta é o espectador quem vai dar, mas depois de observar os retratos da Rainha Elizabeth, Marlin Monroe, Ayrton Sena, Hittler, o Papa, Carmem Miranda. Assim como eu, Steyer é tiete da pop star hors concours, Madonna, em quem ele se espelha e se inspira. Madonna, que sempre polemizou, causou um frisson em 1989 com o videoclipe Like a Prayer, quando apareceu beijando os pés de um santo negro.

 

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Quem também polemizou foi o rapper brasileiro, MV Bill que pôs o dedo na ferida tupiniquim, em 2002. Ele compôs a canção Só Deus pode me julgar, com refrãos pertinentes sobre o racismo e o preconceito, como este em que ele canta uma questão tão relevante quanto à de Steyer:

“Pra quê, por quê?/ Só tem paquita loira/Aqui não tem preta como apresentadora.”

Foi por causa dos escravos que o culto a Nossa Senhora Aparecida ganhou adeptos e com o passar do tempo ela se tornou oficialmente a padroeira do país. Ela é o símbolo da base formadora da cultura brasileira e mais ainda, a étnica. A negritude da cantora estadunidense e as insistentes tentativas em sacralizar sua imagem desde o início de sua gravidez são notórias.  Diferentemente da mídia apelativa das concorrentes, Beyoncé posa como ícone canonizado da cultura contemporânea e inspira uma geração de mulheres, mães, negras ou esposas. Ela atinge o objetivo visual quando o transforma em espiritual, em familiar, em fértil, em sublime!

Pode parecer clichê e até um ato de contradição minha reverenciar uma pop star norte-americana. De fato ela ou os norte-americanos conseguiram criar um fenômeno midiático de alta produção, porém dentro de uma ideologia contagiante. Ela expira o feminismo na medida exata e reflete o consumo como um ato corriqueiro, excêntrico e sagrado.

What if wouldn’t we racist?

 

 

Você tem fome de quê?

Há um antigo ditado que diz: “o segredo é não correr atrás das borboletas, mas sim cuidar de seu jardim”. Cuidar do jardim não é um trabalho muito simples, afinal existem alguns muitos empecilhos para o seu florescer como as pragas, as formigas, o excesso de água ou sol, a escolha do adubo e claro, o cuidado diário e permanente. Falando assim, exemplificarei minha metáfora a respeito da visita das borboletas.

Fundado em 2006, o Centro Cultural Oscar Niemeyer CCON é um grande e complexo “jardim de concreto” para a nossa Capital. Apesar das críticas e escândalos financeiros o empreendimento é um poderoso agulhão vermelho plantado em terras goianas.

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imagem via @marciliolemos

Estive presente numa das primeiras mostras no prédio destinado ao MAC, Museu de Arte Contemporânea, do fabuloso artista mineiro Farnese de Andrade.  O Museu também recebeu a mostra de desenhos do famosíssimo artista espanhol, Pablo Picasso quando, pela primeira vez na história da arte goiana houve filas para se visitar uma mostra, tamanha a necessidade de “cultura polida” de um público que é regado à Pecuária e Villa Mix.

Dentre outras tantas mostras que visitei como a Rumos Itaú, tive o prazer de participar da palestra da dama da intelectualidade das artes plásticas brasileira, Aracy Amaral, no prédio Monumento dos Direitos Humanos, onde também foram realizados os interessantíssimos Cafés Filosóficos, com palestrantes da alta estirpe intelectual.

Mas a odisseia do CCON só estava começando. Entre tropeços e arranhões mal arrumados, houve reformas, recessos, críticas e mais fofocas. Embora os fuxicos negativos sejam sempre mais bem-vindos, o CCON sempre foi alvo dos mais badalados eventos culturais da cidade. Um deles é o Festival de Rock Bananada, que gerou outra grande polêmica entorno de uma intervenção num dos prédios do complexo da Esplanada da Cultura. Caprichos ou mal entendidos da organização do evento, eis que uma “maquiagem” é feita para se ir a uma festa e, logo após o seu fim, é desfeita. Ponto Final.

No prédio do Palácio da Música, destaco o evento EARQ, Encontro de Arquitetura e Design que tem como principal objetivo a troca de informações de consagrados arquitetos e designers com o público interessado. Dentre algumas personalidades estavam Irmãos Campana, Leo Romano, Guto Requena, Maurício Arruda e Camila Klein.

No entanto, em minha opinião, a “borboleta” mais encantadora que pousou no nosso “jardim de concreto” foi a mostra “Nos Caminhos Afro – fotografias de Pierre Fatumbi Verger”. Uma belíssima curadoria e material visual com textos informativos que elucidam a história da humanidade entrelaçada à formação da cultura brasileira. O impressionante acervo fotográfico é uma viagem ao tempo e à nossa árvore genealógica. A mostra incluía uma sala de vídeo com imagens em ordem cronológica e trilha sonora ora africana ora brasileira, requintada ao batuque do samba, capoeira, frêvo e afoxé.

 

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Foi maravilhoso visitar uma mostra rara dessas e mais ainda revisitá-la com meus filhos. Poder influenciar uma geração ao hábito de ver, entender e curtir a arte em todos os seus sentidos é humanizar corações engessados pela tecnologia e shopping centers. Faço votos que nosso “jardim de concreto” ainda proporcione muitos pousos de raras borboletas, para que o público goiano veja as cores, os sabores e saberes da verdadeira cultura que alimenta e nutre e diferenciá-la de um fast-food que engorda e adoece! Você tem fome de quê?

Digna Boa Alma

A primeira vez que a vi foi numa vernissage na galeria, não me lembro de quem… só lembro dela! Éramos adolescentes, eu um pouco mais velha, ela um tanto mais bela! Nem pequena, nem grande. Proporcional em tudo, exceto nos longos fios de cabelos negros que contornavam seus ombros e desciam até quase chegarem nos quadris. Pensei: “Iracema, de José de Alencar ganhou vida e encarnou nessa chinesa nascida no Brasil.”

Filha de Lee Chen Chen e Tai Hsuan-na, Lian Tai é uma artista multifacetada. Ela posa, mas não é modelo, ela escreve, mas não é poetisa, ela atua, mas não é atriz, ela viaja, mas não é turista. Ou é tudo ao mesmo tempo! Lian é um personagem de uma história a ser contada. Um estereótipo de beleza exótica, mas de uma simplicidade tão natural de ser que já é familiar!

Voltei a pensar comigo observando aquela cena, ela ali, no centro da Galeria com aquelas madeixas negras, aquela roupa meio hippie, meio hare krishina, meio ela: “nossos caminhos ão de se cruzar”.

Muitos anos se passaram desde então e deixáramos a puberdade para o passado. Eu havia produzido um colar de penas de arara e fio de prata imaginando que índia o usaria. Nunca havíamos sido apresentadas, apesar de nossos pais se conhecerem. Com a cara e coragem lhe enviei uma mensagem através das redes sociais e ela atenciosamente me atendeu. Nem acreditava que pudesse acontecer dessa forma, mas após um ano ela veio a mim e  fizemos nosso primeiro ensaio fotográfico com a fotógrafa Eliane de Castro.

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Fomos nos reencontrar novamente ano passado, quando por acaso vi uma imagem sua com meus brincos no jornal, cuja seleção de fotos o editorial escolheu, dentre outras que Lian havia enviado para a matéria. Tratava-se de uma entrevista com a autora do livro “Crônicas de Varanasi”. Fique feliz em revê-la e mais ainda em ler suas crônicas.

 

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Na última feira literária da escola de meu filho encontrei com a artista plástica Rossanna Jardim, que divulgava o livro, em parceria à Amir R. Hamú, “Histórias de Ternura”. Nele há uma terna história do pai de Lian, intitulado “Minha Mãe”, onde ele caracteriza Lian como sendo uma digna boa alma, assim como sua avó. O que mais eu poderia dizer sobre ela que seu próprio pai já não disse, escreveu ou publicou?

Lian esteve em Goiânia este ano e para minha felicidade ela aceitou mais uma vez em posar para mim. Mas Lian não só posa, ela encara a situação, ela se prõe ao desafio, ela acredita na causa e não foge à luta! De chinesa à índia, de índia à diva brasileira, de diva à sereia…

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“Ai de mim, querida Lian, ter ainda muita criatividade para te vestir muitos colares, brincos, anéis… Saibas que tua generosidade é tão grande quanto tua beleza e tanto mais é admirável a sua naturalidade!”

Que nossos encontros sejam mais que curtos períodos de trabalho, mas longas conversas sobre a vida, a arte e a humanidade. Um brinde aos cafés tomados com pessoas de digna boa alma!

Namastê!

Um certo inseto

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Segundo fontes de pesquisas científicas no ramo da biologia são descobertas por ano cerca de 15.000 espécies como bactérias, vírus, vermes, insetos, répteis, anfíbios e mamíferos. “Desde que a primeira lista foi lançada, em 2008, já se descobriu e batizou mais de 200 mil espécies”, como informa o site www.observador.pt. O que me chamou a atenção e me inspirou a escrever este texto foi a imagem publicada pela joalheira mexicana, Daniela Villegas de uma possível espécie de besouro colorida, cujo título da postagem era “unknown”. Você pode até duvidar que ela seja verdadeira, afinal tantos fakes pela mídia a fora, mas não posso negar que a imagem reavivou em mim umas antigas histórias que agora vou contar…

Uma delas foi a primeira vez que me deparei com o livro Barroco de Lírios (1997), de Tunga, editado pela Cosac & Naify, o qual já fiz referência há tempos atrás e seleciona uma parte muito interessante do seu trabalho cuidadosamente diagramada, quase pretendendo ser um livro objeto. Um dos capítulos está dedicado à obra Besouros Tesouros, cuja pesquisa científica do artista é provocar o espectador entre o limite da realidade e o fake. Ele descreve sua viagem ao Norte do país em busca de aromas brasileiros. Conta sobre sua visita à entomóloga Terezinha, que lhe apresenta a espécime Scarabacus Tucurui Sagrado, “que são coleópteros de extrema beleza na forma e, sobretudo na cintilância cromática”, Tunga continua:

“Há, contudo algo horripilante no fascínio que exercem. Conhecê-los melhor é iluminar o escabroso. São extremamente hábeis e persistentes. A habilidade constitui-se na formação de geóides imensos, em relação às suas minúsculas dimensões. Persistentes na peregrinação obstinada que os leva ao “menu” predileto. Tal predileção nos revela o dito escabroso de seus hábitos. Os escaravelhos desta espécie são necrófilos e coprófilos.”

A pesquisa do artista finda em estimular os escabrosos insetinhos na formação de grandes geóides de excrementos para obter enfim, a plástica visual de sua obra. Conhecidos vulgarmente como “rola bosta”, os três besouros capturados produzem o tão procurado, mas nem tanto agradável aroma.

 

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Bizarrices à parte, o besouro se integra num imaginário fantástico em várias culturas, principalmente na japonesa, onde ele é criado como bicho de estimação. Existem até clínicas veterinárias especializadas em vender ração e primeiros cuidados para estes tesourinhos da natureza. São venerados como seres sagrados e vendidos a pequenas fortunas, por serem raros e espetacularmente bizarros.  Também comentei sobre o filme KUBO, com produção da Laika, em texto passado, onde um dos personagens, que foi drasticamente amaldiçoado e transformado num besouro guerreiro, tem como insígnia o desenho do inseto no kimono e nas bandeiras levantadas a redor do templo e do tatame.

Bem, mas a história do besouro não fica só lá pelas ilhas do outro lado mundo, aqui no Brasil a lenda virou mitologia nacional. Manoel Henrique Pereira foi um exímio capoeirista baiano que nasceu na passagem do século XIX para o XX, em meio à abolição da escravatura e a República. Sua vida é rodeada de mistérios e histórias mirabolantes, sobre um super humano, capaz quase de voar e desaparecer. Daí o apelido, Besouro Mangangá, além de sua resistência e o mito do “corpo fechado” a balas e punhais. A lenda do capoeirista se faz mais lúdica ao se saber como morreu, pois protegido pelos orixás só uma faca de tucum (madeira com veneno próprio) poderia fatalmente lhe ferir. O misticismo e o culto afro-brasileiro elevaram o personagem a protagonista do filme de João Daniel Tikhomiroff, Besouro (2009), também baseado nos livros de Antonio Liberc Cardoso Simões Pires: “Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá – Três personagens da capoeira baiana” e “A capoeira na Bahia de Todos os Santos – Um estudo sobre cultura e classes trabalhadoras (1890-1937)”.

 

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Mito ou lenda, verdade ou realidade é certo que o inseto tem suas particularidades até no nome.  A palavra Coleoptera vem do grego κολεός, koleos (estojo) e πτερόν, pteron (asas), como uma referência a uma importante característica dos besouros: um par de asas anteriores rígidas, conhecidas como élitros, que protegem como um “estojo” as asas posteriores, que são membranosas e delicadas. O nome besouro por sua vez provém do castelhano abejouro por intermédio do português antigo “abesouro”, aumentativo de abeja (abelha). (via Wikipédia)

Só a ciência para explicar a pergunta que não quer calar:

Como um estojo! Ops… um besouro consegue voar?

O maravilhoso mundo das mulheres de Pitágoras

Entre uma e outra trocada de estação de rádio dentro do carro, escuto o bate-papo de jornalistas sobre o novo filme da Warner Bros, Wonder Woman. O comentário vem de uma voz feminina que acabara de vir do cinema e está deslumbrada com a ideologia e perspectiva feminista que o filme abrange. Ela cita o diálogo da protagonista como se fosse um troféu a todas as mulheres! No entanto, não tarda para que um comentário malicioso, de um de seus colegas de trabalho fosse destilado aos ouvintes: “Nossa, quer dizer que por causa de uma ‘heroína’ os outros super-heróis podem ser ‘enterrados’? É isso que você está dizendo? Que uma mulher é melhor que todos os ‘Vingadores’?” _ “Sim!”, ela respondeu.

É certo que o cinema norte-americano, há tempos, anda puxando sardinha para o gênero mais afeminado. Desde as princesinhas da Disney, que escolhem seu príncipe ou decidem se por não escolherem, como a Elza, de Frozen, Mérida, de Valente ou a havaiana autoconfiante, Moana até a nova esperança de Logan, dos mutantes X-Men, Laura Kinney, uma jovem e poderosa pré-adolescente.

(Vocês devem estar pensando que eu sou uma cinéfila “incurável”, mas eu gosto mesmo é das artes plásticas brasileira).

O tema das Mulheres Maravilhosas não foi por acaso. As obras do artista Pitágoras com a temática da personagem acabaram de desembarcar na capital goiana após uma longa estadia em importantes instituições culturais do país. Pitágoras já se adiantou em multiplicar as imagens da heroína mor das HQ’s, desde 2008/2009. Há princípio foram intervenções capciosas em anúncios publicitários que sempre continham imagens de modelos em poses, caras e bocas que o artista se encarregava de caricaturar. Mas Pitágoras também consegue torna-las atraentes ou sensuais destacando “seus olhos de ressaca” ou as caracterizando como Mulheres Maravilhas em pinturas ou intervenções, algumas até meio ser humano meio robô.

 

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Essa é sempre sua principal proposta. Um futuro robótico como os das ficções científicas ou aterrorizante como a vida em Gotthan City. A realidade de Pitágoras é cruel e protagoniza um registro da sociedade que talvez ainda não tenha sido feito, pelo menos dentro deste ponto de vista. Ele enfatiza a verdade suburbana da sociedade brasileira como uma sátira teatral, em historinhas de seres estranhos, supostamente possíveis, mascarados, maquiados ou fantasiados. É realmente tentadora e convidativa a vida suburbana, quem sabe até um pouco mais que a do high society, no entanto as obras do artista goiano são um choque da realidade. Elas fazem questão de denunciar a natureza animalesca do ser humano, as luxúrias da carne e os prazeres profanos do corpo.

Só mesmo Pitágoras para inventar uma nova perspectiva pictórica para a Mulher Maravilha!

Só mesmo desvendando suas obras para percebermos as dores e as delícias de ser humano, suburbano, imperfeito e “incurável”!

Só mesmo nas HQ’s para existir super-heróis, super-heroínas e super finais felizes!

Porque no maravilhoso mundo das mulheres de Pitágoras os super humanos podem existir, mas como homens transvestidos de heroína.

 

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Sou fã


Hoje meu filho de 9 anos me perguntou:

_ Se você pudesse ser fã só de uma pessoa, de quem seria?”

Não me atinei se o personagem tinha de ser real ou fictício, então eu cantei:

_ “Ôh, maluquete, de quem você é tiete? Eu sou, sou tiete da Ivete! heheheheh”

Ele retrucou:

_Não, mãe, fala uma pessoa.

Pensei que fosse sério e respondi sem hesitar:

_ Adriana Varejão.

_Quem? Ele me olhou desentendido!

É um nome, quer dizer, um sobrenome esquisito mesmo!

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Adriana Varejão com sua filha Catarina

Tentei explicar a ele porque eu seria sua fã nos tempos atuais. Primeiro: porque ela é mulher, mas isso não tem nada a ver com o feminismo, mas com maternalismo. Ela é simples, natural e discreta, mas suas obras desdizem toda essa fisionomia frágil e delicada. Varejão é fugaz, densa e escandalosamente visceral.

Recordando uns dias desses, sobre um email trocado com o goiano, diretor e pesquisador de cinema, Beto Leão, há muito tempo atrás, em que divagávamos à respeito da filmografia nacional e, enfim chegamos à conclusão que os filmes, Brava Gente Brasileira, de Lucia Murat e Cidade Baixa, de Sérgio Machado, complementam um ao outro no aspecto visual da formação do povo brasileiro. O ponto em comum dos filmes, mas principalmente da obra da artista plástica carioca é o aborto, a carnificina e a violência velada de uma sociedade miscigenada à ferro e fogo.

Adriana “não tápa o Sol com a peneira”, ela o deixa entrar ao meio-dia, no solsístico. Tentando explicar ludicamente ao meu filho a importância da informação e da verdade que a artista exprime, digo que ela é uma cientista da arte, historiadora, antropóloga e socióloga. Mesmo ocupando uma posição privilegiada, Varejão não vira as costas para a realidade. Ela sofre com a desigualdade social e isso é explícito em sua obra. A doçura do tom com que trabalha a cor azul é calma e imperceptível não fosse a frieza que nos toca o olhar. Seus relevos viscerais, a crônica pervertida dos chinoiseries, os ex-votos, a insistência da frieza dos azulejos, as plantas carnívoras, a fauna e flora, o processo de craquelamento, as incisões… Ela desnuda a sociedade brasileira sem ser perniciosa ou preconceituosa, mas ácida, sanguinária com os nossos instintos, crítica defensora dos direitos humanos.

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Crédito das imagens @adrianavarejao

“Claro, meu filho, ela deve ter mil defeitos, como qualquer ser humano. Mas eu preferi ser fã de uma pessoa que existe, do que de uma que não existe. Nela eu enxergo, eu me enxergo dentro do sistema e tento me entender e entender os outros. Somos todos feitos de carne e sangue. Se você preferiu construir no seu quadrado uma piscina, uma sauna, um banheiro, uma sala de cirurgia, uma sala frigorífica para abate, um manicômio ou clínica de reabilitação, cuidado! O azulejo é escorregadio, ele corta e é frio como a cor azul.

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Catarina com 11 anos, vendo o encarte do cd de Antônio Zambujo

São essas e outras reflexões que Adriana Varejão deixa acesa, como uma luz no fim do túnel, aquecendo nossa alma. Ela provoca ao ponto de tocarmos o dedo na ferida, falarmos de assuntos tabus e pensarmos de onde viemos, o que somos hoje e para onde vamos?!

Termino meu texto com a canção Tubi Tupy, de Lenine, de quem também sou tiete e fã pra caramba:

“Eu sou feito de restos de estrelas

Como o corvo, o carvalho e o carvão

As sementes nasceram das cinzas

De uma delas depois da explosão

Sou o índio da estrela veloz e brilhante

Que é forte como o jabuti

O de antes de agora em diante

E o distante galáxias daqui

 

Canibal tropical, qual o pau

Que dá nome à nação, renasci

Natural, analógico e digital

Libertado astronauta tupi

Eu sou feito do resto de estrelas

Daquelas primeiras, depois da explosão,

Sou semente nascendo das cinzas

Sou o corvo, o carvalho, o carvão

 

O meu nome é Tupy

Guaicuru

Meu nome é Peri

De Ceci

Sou neto de Caramuru

Sou Galdino, Juruna e Raoni

 

E no Cosmos de onde eu vim

Com a imagem do caos

Me projeto futuro sem fim

Pelo espaço num tour sideral

Minhas roupas estampam em cores

A beleza do caos atual

As misérias e mil esplendores

Do planeta Neanderthal”

Banho de Sensibilidade

Poucos ambientes me impressionaram na CasaCor 2017, mas os que o fizeram foi pra valer, como a Sala de Banho Aldeia. Ela expira uma primeira impressão sobre o feminino, o fértil e parodiando Marvin Gaye, o “sexual feeling”. É delicada sem ser frágil e forte sem ser rude. Inúmeras são as sensações que se vive neste ambiente e, em sua maioria, são humanamente boas.

O mobiliário arrojado e toda sorte de elementos dispostos e posicionados sobre eles são de curadoria da dupla Adriana Mundim e Fernando Galvão. De fato há muita força nos sobrenomes. A árvore genealógica é um dos fatores primordiais dos sintomas herdados dos pais e avós. A trajetória de gosto apurada, sempre em processo construtivo do casal, tem o diagnóstico de ser “deliciosamente cuidadosa” nos detalhes e nos pequenos caprichos ainda mais quando se permitem ousar com muita sutileza! São experimentais e investem no equilíbrio e harmonia de seus projetos. Não poupam esforços para preencher cada espaço com memória e objetos sensoriais.

Na sala do banho não é diferente. Lá é possível experimentar sensações lúdicas como a de estar dentro de um aquário. O ambiente tem cheiro de fragrância perfumada, água do mar, algas e sonhos marítimos. O extenso aparador de vidro onde pedras em tons frios estão contidas é o conjunto perfeito com a foto do artista goiano, Rogério Mesquita, que reflete a imagem duplicada da modelo submersa em água azul. Ali, de súbito, é possível acreditar que sereias existem!

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Um lounge à frente de poltronas claras e aspecto bem macio é um convite ao conforto e uma celebração ao descanso. O lavatório e o espaço íntimo receberam um inventivo revestimento na parede. O geométrico mosaico em mármore branco, da Mosarte lembra a tridimensionalidade das obras do renomado artista, Sérgio Camargo.

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sergio camargo

Ao lado dela outra sensação, outra cor, outro cheiro. A sauna que exala um odor de calor e limpeza em deck de madeira cuidadosamente delineado é a experiência mais próxima de prazer sensitivo que tive desde os “Penetráveis” de Hélio Oiticica. O grande diferencial é que eu estava descalça na instalação do artista carioca e nela tudo era permitido tocar e pisar. Ficou em mim a deliciosa sensação de sentir a madeira quente e firme do chão! (imagem ilustrativa do banheiro da CasaCor São Paulo e abaixo imagem da obra “Penetráveis”, de Hélio Oiticica).

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helio oiticica

A última experiência sensitiva foi observar o lapidado design das louças do banheiro: a banheira, a pia, os vasos sanitários… Só de olhar percebemos a facilidade de manter a sua higiene pelo formato leve, límpido e simples. A experiência de visitar a Sala de Banho Aldeia é de imediato associada a um spa de alto padrão e até mais confortável e inspiradora, porque tem algo importante a nos dizer.

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Um ambiente despretensioso que foi minuciosamente projetado com originalidade e simplicidade. Uma dupla como a Adriana e o Fernando é referência convicta para ambos os predicados. Numa sala de banho assim, certamente o personagem do “Cascão” mudaria seu ponto de vista a respeito do asseio pessoal. Ali nós literalmente tomamos um banho de sensibilidade!

Crédito das imagens @adrianamundimfernandogalvao e @aldeiaacabamentos

adriana fernanda