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Ela

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Há muito tempo atrás fiz uma tentativa para me inserir no universo acadêmico prestando prova para Mestrado em Sociologia. Acreditei, romanticamente que seria possível defender o curso de uma luta marcial como manifestação cultural que tenta se estabelecer como esporte, mas que já se tornou uma mitologia brasileira. Claro, não passei na prova e tentei a Especialização em História do Brasil, o que me proporcionou uma pesquisa muito mais profunda sobre o meu objeto de estudo. Tive alguns contratempos, pois, enfim, contanto, todavia, sou uma pessoa muito romântica. Aturei comentários em sala de aula do tipo: “o sociólogo Gilberto Freyre passou pó de arroz na história brasileira”, “a capoeira não tem nenhuma referência indígena”, “você não vai conseguir escrever esta monografia”. Hoje tenho a certeza e Seu Jorge canta por mim: “tive razão/ posso falar/ não pegou bem/ não foi legal/ que vontade de chorar, dói.” Mas eu sou forte e sei muito bem no que creio.

Historicamente, no ano de 1890 à 1937 a capoeira foi decretada crime e era severamente punido quem fosse pego praticando ou portando qualquer objeto cortante ou instrumento musical suspeito. Mais tarde, o presidente Getúlio Vargas, em 1943 reconheceu a capoeira como Ginástica Nacional. Em 2008, o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil oficializou através do IPHAN o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. E finalmente, em 2014 a Unesco reconheceu a capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Não é tão improvável que ela venha caminhar mais para uma vertente cultural que esportiva. Afinal suas desastrosas tentativas em ser modalidade nas Olimpíadas nunca vingarão e sabem porquê? Porque Ela é música, Ela é dança, Ela é ginga, Ela é história brasileira, Ela é cultura popular e muito mais do que isso, Ela é cooperativismo. Não se trata de um time, a capoeira se reconhece em grupos, em estilos, em ideologias. Falta só mais umas gotinhas de dendê para Ela realmente encontrar com a sua verdadeira vocação.

Panis et circenses!

Um misto de espetáculo circense com apresentações de acrobacias, teatralidade na puxada de rede (por exemplo), instrumentalização com os estilos de toques do berimbau, luta ensaiada como na cintura desprezada de Mestre Bimba, sua demonstração como dança de golpes sem combate. Um espetáculo recriado e adaptado para a contemporaneidade, porque Ela saiu das ruas deixando de ser criminalizada e subiu aos palcos, porque foi reconhecida como patrimônio cultural.  Quem soube expressar bem essa vocação da capoeira foi Mestre Jelon com a sua Companhia de Dança, Dance Brazil. O espetáculo é composto por capoeiristas e bailarinos que dançam ritmos africanos, baianos (axé), pernambucanos (frêvo), carioca (samba), dança contemporânea e movimentos de capoeira. A coreografia é acompanhada por uma orquestra de berimbaus, pandeiros, atabaques, agogôs, reco-recos e a voz característica do cantador. Os espetáculos da companhia de dança apresentados em Nova Iorque expressam essa vocação da capoeira e seu estudo para um possível Cirque Du Soleil brasileiro.

“Ela é linda, ê/ Ela é linda, ê!”

Capoeira é um substantivo feminino da língua tupi-guarani (ca’a pûera) e têm uma variedade de significados complexos. Ela combina a miscigenação africana com a indígena. A simbologia da puberdade dentro das tribos, a musicalidade relacionada aos rituais litúrgicos, a organização do espaço em formato de roda.

Essa é uma tese minha sobre os desdobramentos da capoeira. Acredito que muita gente vai torcer o nariz com essa ideia, mas eu trato a cultura como algo sagrado, ancestral, um patrimônio do saber para se manter. São dados históricos dos quais constam na cronologia da capoeira que ainda luta para se manter viva. Vivendo sob os olhares preconceituosos da sociedade e talvez, até hoje racistas. É lastimável termos que esperar que algum estrangeiro assuma uma responsabilidade que é nossa (como o que na maioria das vezes acontece), porque eles estão loucos para assumir e tomar conta dela. Vamos à luta, camaradas! A capoeira é brasileira! Bate palma pra Ela!

O olhar da alma

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O protagonista do filme cult do diretor Stanley Kubrick, Laranja Mecânica,  Alex teve e tem como ‘marca registrada’, os cílios destacados no olho direito. Há uma versão da capa do livro de Anthony Burgess, escritor inglês da obra que inspirou o filme em 1962, onde o desenho do olho do personagem é representado por uma engrenagem. Daí a ideia do olho como mecanismo de movimento, de transformação, experimentação visual que transforma a mente e por consequência as atitudes, fazendo jus às constatações da fenomenologia e ao ditado “os olhos são a janela da alma”.

Na história antiga, o mito egípcio Hórus é representado pelo olho esquerdo como um amuleto. Conta lenda que o deus Seth arrancou o olho esquerdo de Hórus que simboliza o lado abstrato, feminino, a Lua, lhe restando o olho direito, que simboliza o concreto, o masculino, o Sol. O amuleto significa a união do olho humano com a vista do falcão, animal associado ao Deus Hórus, que era usado em vida para afugentar o mau-olhado e após a morte contra o infortúnio do Além.

Outra curiosidade acerca das artes e dos olhos foi o último filme de Tim Burton (2016), o Lar das Crianças Peculiares onde os grandes vilões da história, os peculiares do mal, roubavam os olhos das crianças para se alimentarem e assim transmutarem sua forma de monstro para a forma humana. Essa característica dos antagonistas, inspirada na história e nas fotografias do livro de Ransom Riggs, um tanto bizarra e sombria, nos leva a crer que os olhos têm um quê bem ‘nutritivo’ e, sendo assim podemos os considerar um órgão ainda mais peculiar do corpo.

A animação de Travis Knight com produção da Laika, Kubo e as cordas mágicas também permeiam este tema. Kubo é um garoto prodígio que foi fruto de um amor proibido e tragicamente amaldiçoado pelo avô e sua tias gêmeas. Eles lhe roubaram o olho esquerdo, no entanto continuam a perseguição para conseguir o outro e condená-lo à escuridão numa tentativa de levá-lo à Lua para viver com eles lá pela eternidade.

Escuridão mesmo está na obra-prima do escritor português José Saramargo, Ensaio sobre a cegueira (1992), adaptado para o cinema pelo cineasta Fernando Meireles. Num misto de agonia, sofrimento, tortura e delirantes acontecimentos que protagonizam a nefasta história, um surto de cegueira numa grande metrópole afeta parte da população que é levada em quarentena para o hospício da cidade. Lá, a única pessoa que enxerga é uma mulher, esposa do médico.  Ela vê tudo, todas as atrocidades cometidas por um grupo que se instala e abusa sexualmente, além de dominar a comida, o espaço e tudo mais que lhes confortem. Ela confessa ao marido que preferiria não enxergar a ter de ser obrigada a ver tudo àquilo que um ser humano (ou desumano) é capaz de fazer.

Há rumores atualmente, não de cegueira, mas da falta de visão por grande parte da população. Talvez o excesso de contato dos olhos com eletrônicos: televisão, computador, celulares, smartphones, iphones, ipads, ibooks, caixas e cardápios eletrônicos. Essa falta de visão do mundo real, do olhar para natureza e para o próximo acaba por atrofiar o olhar verdadeiro, o olhar da alma.

Estamos passando por tempos sombrios, tempos de observações incoerentes, tempos de Hamurabi: “olho por olho, dente por dente”. Cabe a cada um de nós a autocrítica, a autoanálise e o bom senso, pois o vermelho é sempre verde ao daltônico, mas isso não significa que ele possa avançar. Que a luz do fim do túnel venha para nos iluminar e não nos cegar.

“Aprender a ler o que um olhar nos diz é alfabetizar sentimentos” Gandhi

O desenho em nankim que ilustra o texto é “Transmutação”, de Wés Gama, 2011.

Ser ou não ser sexual

Sempre tive uma admiração ‘suprema’ pela atriz Fernanda Torres, mas o que mais me conquistou em sua carreira profissional foi o dom com as letras. Comecei a ler seus escritos em artigos para o caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo e mais tarde, na Revista Piauí. Tomei de empréstimo o livro “O Fim”, que narra a trajetória de cinco senhores cariocas no final da vida. Sempre tive a sensação que Fernanda Torres tinha o dom erótico de sacar a alma humana, talvez por causa do seu monólogo em “A Casa do Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, ou mesmo por causa de suas hilárias atuações na série “Os Normais”. O fato é que de certa forma ela expõe com clareza o ridículo do ser sexual que somos.

No livro “O Fim” há uma passagem em que um dos personagens narra a infundada lógica de achar que a classe pobre é mais pervertida sexualmente por ser menos favorecida ou ter instintos primitivos. Nunca! Pervertida mesmo é a classe abastada, que com todas as suas possibilidades exercem requintes e métodos de engenharia sexual inimagináveis. Peraí, gente é só um livro, uma historinha. Ou não!
Inimagináveis foram algumas cenas dos filmes de “Olhos Bem Fechados” e “Cinquenta Tons de Cinza”, que me passaram pela cabeça.

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Também me recordei de um antigo filme dos anos 90, “Orquídea Selvagem”, sobre a história de uma atraente moça do interior dos EUA, que embarca para o Rio de Janeiro em pleno Carnaval e acidentalmente é espectadora de uma deliciosa cena de sexo entre um casal de negros numa construção abandonada. O ato é quase primitivo, realmente. O negro atlético rasga de súbito e agressivamente o singelo vestido da parceira, a encaixando no colo com força e prazer. Eles se debatem pelas paredes ainda rebocadas da construção e arrebentam um cano d’água, que torna a cena ainda mais atraente e sensual.

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Não é tanto o que acontece noutras cenas dos filmes antes citados, mas existe de fato um primitivismo semelhante e inerente a todos. Só que numa coisa eu tenho de concordar com o personagem do livro de Fernanda Torres, requintes e métodos engenhosos não estão lá para os bolsos da maioria, não é mesmo?

Quem ilustra o meu texto é a arte de Alejandro Zenha, que vem criando e recriando um estudo sobre as possibilidades estéticas do corpo. Entendo que sua pesquisa possa andar de mãos dadas com as idéias “eróticas” de Fernanda, afinal ainda temos um olhar sobre o nu um tanto primitivo e sexual, um tanto malicioso e pervertido. São os artistas que nos possibilitam analisar estes nossos entremeios do ser ou não ser sexual.

Asas para voar

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Tem “coisas” no Brasil que dá vontade de nem acreditar, mas tem coisas que nos fazem até acreditar e ter esperanças novamente. Foi o caso do Concurso Paranauê, da Red Bull, realizado em janeiro deste ano, na capital da Bahia. A comissão de jurados selecionou na primeira triagem 16 atletas. Entre os candidatos a se tornar o mais completo capoeirista do mundo, estavam brasileiros e radicados no exterior, um estrangeiro e a baiana Perolla, que foi a única a representar as mulheres entre quinze homens.

O principal critério do concurso foi avaliar a habilidade de adaptação dos atletas para jogar cada um dos três estilos de capoeira: Angola, Regional e Contemporânea. Para minha surpresa ou não, o vencedor foi o baiano Lucas Dias, o “Ratto”, de onde li no site da Red Bull sobre sua vitória: “quem disse que santo de casa não faz milagres?”

A Red Bull é uma empresa de energético que promove o esporte há mais de 28 anos e dá asas à pessoas e ideias. Ela possibilitou um poderoso voo à capoeira patrocinando um evento que reuniu grandes nomes e lendas desta manifestação cultural, como sendo jurados e curador do evento.

A capoeira é uma manifestação cultural nascida nas senzalas que engloba uma série de rituais e simbologias. Isso é verificado até no significado do termo capoeira, que pode ser mato, cesto, pessoa ou uma ave, o uru (odontophorus capuera spix).

Acredito que se uma instituição multinacional como essa topou dar asas à um acontecimento tão grandioso da cultura brasileira, uma empresa brasileira é capaz de fazer isso também, afim de divulgar a sua diversidade, história e importância na sociedade com demonstrações de respeito às tradições, memória patrimonial e adaptação à contemporaneidade.

Acredito que ainda há nacionalidade envolvida principalmente quando há o reconhecimento de onde foi o berço da capoeira e do nascimento da nação brasileira, que é a Bahia, desse mesmo berço onde saiu vitorioso o capoeirista, filho da terra.

Acredito que a mulher já estabeleceu alguns laços de igualdade perante a supremacia masculina brasileira e que ela é capaz de demarcar seu território na história.

São por essas e outras “coisas” que ainda topo acreditar no país da piada pronta. Porque é melhor sorrir, do que chorar. É melhor dançar, cantar, jogar e ser brasileiro, viver na terra do carnaval, do futebol, da capoeira, do clima tropical, da maior biodiversidade de aves do mundo. O Brasil precisa de asas e não de super heróis!

 

Espelho, espelho meu…

 

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Tem um trecho da música da banda O Rappa, um tanto forte, mas que fará sentido ao texto, que diz assim: “se os velhos não podem criar suas rugas, o novo já nasce velho”. Lembrei-me de uma imagem impressionante da joalheria Amsterdan Sauer, que saiu na Vogue de dezembro/2016.

A ousada propaganda de duas páginas traz na primeira delas a imagem do crânio de um boi sobre a mesa. Na segunda, uma senhora trajando figurino preto inclusive o chapéu, segura entre as mãos uma espiga com as palhas e os milhos bem tostadas ou ressecados posando distintamente com brinco e anel de ouro e pedras preciosas em formatos geométricos. A campanha da coleção TRIBES foi inspirada nos povos do mundo, desde as civilizações astecas, às tribos africanas. As obras com o tema das paisagens semiáridas do New México, da artista norte-americana, Georgia O’Keefe foram referência para um cenário simples e rústico. A personagem e o figurino foram inspirados na artista que é reconhecida como a Mãe do Modernismo Americano e morreu aos 98 anos, em 1986. Quem a interpreta nas fotos é a top model brasileira, Vera Valdez, hoje aos 80 anos. Aquela visão foi mágica! Seu semblante refletindo um olhar sóbrio e concentrado reflete uma postura vívida, serena, lúcida. A estranheza das imagens fica a nos confundir sobre os paradoxos entre o belo e o velho, a vida e a espera da morte, a simplicidade e a experiência, o exótico e o comum, as cores e a ausência delas.

Reassisti recentemente o filme Branca de Neve e o Caçador (2012), com a bela Kristen Stewart. O enredo é uma bobagem, mas a fotografia e a trilha sonora o disfarçam bem, principalmente na canção para a antagonista, “Breath of Life” da banda inglesa, Florence and The Machine.  A atuação da linda e não menos bela, Charlize Theron rouba a cena, mas infelizmente é no personagem dela que enxergamos a dispersão da juventude pela ocupação da velhice. Nela, na Rainha Ravenna, é que sentimos as incertezas da beleza, da força, do poder. Para manter se jovem e poderosa, a Rainha faz um pacto com o espelho mágico e constantemente absorve a juventude de virgens, sugando seus anos de vida e as transformando em velhas. Dessa maneira ela ganhara mais um sopro de vida, mais um ano de reinado, de poder, de juventude! Mas a que preço?

Saber envelhecer bem é uma arte. Talvez a maior e mais sábia de todas. A beleza não está só no físico, mas na alma. Saber cuidar da alma é muito mais difícil e complexo que ir ao salão de beleza, à clínica de estética ou à academia. Cuidar da alma é um encontro com bons livros, com crianças, com a arte de toda cor. É o querer dançar, cantar, desenhar, criar, rir, amar. Saber olhar as rugas no espelho a cada dia e mesmo assim não pestanejar. Saber que a memória é um bem precioso e que as inesquecíveis lembranças não envelhecem jamais. Faça suas rugas valerem à pena. A juventude passa, mas os bons momentos continuam.

“A cultura é o melhor conforto para a velhice!” Aristóteles

 

Trago imagem de minha avó comemorando sobriamente seus 90 anos de idade! Parabéns, vovó!

Legião Brasileira

creditos www.art-sheep.com

A banda Legião Urbana esteve na capital goiana  ano passado para comemorar 30 anos de carreira. Se não me engano foi no dia 6 de maio, antes do impeachment, antes da cassação de Cunha, antes das eleições para Prefeito e outras delações premiadas. O curioso é que três dias antes do show estive no lançamento do livro, Crônicas de Varanasi.  As crônicas são o diário de viagem de Lian Tai sobre suas experiências numa das cidades mais antigas do mundo durante três meses. Lian descreve, em meio a uma paciente espera para se consultar com um guru em Nepal, que cantou a música Faroeste Caboclo e, que na minha interpretação, é como se o fizesse para que o tempo passasse mais rápido. Pelo menos era o que eu sempre fazia quando me sentia só e precisava esperar a hora passar, pois que uma vez cantada, foram se dez minutos.  A música me distraia, embora seu contexto seja tenso e a maior parte dela num ritmo hard core e rock’n roll.  Mas foi nesse tom que recordei das picantes cenas do filme Faroeste Caboclo (2013), com direção de René Sampaio que teve excelentes críticas, mesmo desobedecendo ao roteiro original da letra. A beleza selvagem do filme é semelhante a da música. A crueldade chega ser insuportável, mas ainda sabendo o que nos reserva no final, não desistimos de olhar.

Por ironia do destino ou mera coincidência, navegando no instagram da grandiosa Adriana Varejão, no mesmo período me deparo com uma postagem inédita. A imagem é a obra do artista Cildo Meireles, óleo sobre tela, de 2011, que já nos diz tudo no título Project hole to throw dishonest politicians in. Então a primeira letra da banda que me vem à cabeça é Que país é esse? (1987). Será que a canção ainda é tão atual? A pergunta que não quer calar foi bem vinda meses que antecedeu o descontentamento político que as redes sociais conseguiram atingir e assim assumir o risco para uma mudança democrática. O que ocorreu foi um grito popular, a procura de uma esperança em meio a essa selva de pedra, esse faroeste caboclo, essa cruel realidade.

Inevitavelmente já sabemos o fim da história, “Maria Lúcia se arrepende e morre junto com João seu protetor”. No filme, ela é filha de um Senador e, ao que tudo indicava sobre essa relação familiar é a de não haver relação, tampouco exemplo a ser seguido. Mas claro, é só um filme!

A música, a literatura, o cinema, as artes plásticas, a arquitetura e as tantas manifestações culturais brasileiras são o retrato de um povo que ainda tenta se encaixar, se superar e se aceitar aos padrões internacionais. Somos uma legião brasileira vivendo esse amor violento pela pátria, pela moral e pelos bons costumes.

“Que Deus nos abençoe!”

A arte de ser marginal

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Certa vez um amigo me presenteou com um desenho das letras do meu apelido, um Bboy com casaco nas insígnias 2Pac (famoso rapper norte americano) e logo abaixo a frase: “Deus cria os loucos para confundir os sábios” e … “O pecador aqui também tem alma”.  Meu amigo, se dizia um vida lôka, um divergente do sistema, à margem da sociedade, um marginal.

Na história da arte é comum nos depararmos com artistas que se desviam da realidade para poder produzir, ou vice-versa. Temos alguns famosos casos como o do neerlandês pós-impressionista Vicent van Gogh (1853-1890), ou a atual japonesa Yayoi Kusama, de 87 anos e ainda o brasileiro morto em 1989, Arthur Bispo do Rosário. Casos surpreendentes que nos levam a crer que a frase sobre os “lôkos” faz realmente sentido.  Relações inconstantes e inconformistas transformam estas mentes criativas em máquinas de produzir arte, ora deslumbrando ora assustando, como num grito de socorro. Estes divergentes, que para se comunicarem com o sistema, com a sociedade, com a cadeia de padrões pré-estabelecidos expressam através da arte um diálogo estético muito mais consistente que qualquer cidadão normal.

Tal como a obra do artista carioca Hélio Oiticica, “Homenagem a Cara de Cavalo”, onde a imagem retirada de jornal do traficante de drogas morto por policiais é agregada pela insígnia: SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI, confirma a metáfora de se estar fora da sociedade, à sua margem e mesmo sendo bandido, você acaba virando herói. O caso tomou proporções épicas, em 1965, aludindo à ideologia do anti-herói em busca do confronto com a ditadura.

Hoje, recuso-me a qualquer prejuízo de ordem condicionante: faço o que quero e minha tolerância vai a todos os limites, a não ser o da ameaça física direta: manter-se integral é difícil, ainda mais sendo-se marginal: hoje sou marginal ao marginal, não marginal aspirando à pequena burguesia ou ao conformismo, o que acontece com a maioria, mas marginal mesmo: à margem de tudo, o que me dá surpreendente liberdade de ação – e para isso preciso ser apenas eu mesmo segundo meu princípio de prazer: mesmo para ganhar a vida faço o que me agrada no momento.” (Hélio Oiticica – 1968)

 Meu amigo tampouco ouviu falar destes consagrados artistas, no entanto percebe-se que a sociedade impõe padrões impossíveis de se alcançar, daí o que mais importa para um marginal é confundir quem estabeleceu estes padrões.  Talvez por isso me sinta tão atraída pelo grafite, pelo movimento hip hop, o rap, o break, o skate, a capoeira.

Eu também sou marginal!

Baleias

Curiosamente algumas histórias que há tempos já conhecia foram se entrelaçando como num quebra-cabeça. Tudo começou quando li, recentemente, uma analogia entre a história do escritor estadunidense Herman Melville, “Moby Dyck” e a relação do homem com a vida, a incerteza do futuro, a coragem, a ira e o misterioso caminho rumo à morte. A tão sabida máxima da natureza, que para toda ação se tem uma reação.

Moby Dyck é um clássico, embora não tenha sido nada bem recebido em sua época. Foi escrito em 1851 e relata o episódio, ora realista ora fictício do invencível navio baleeiro Essex, seu capitão e a tripulação que sai em busca de óleo de baleia, grande fonte econômica deste período. A promessa da volta com mais de mil barris cheios é quase a “ladainha glamorosa” de Titanic… Pois é, a natureza é mesmo implacável!

O conto infantil, mundialmente conhecido e escrito pelo italiano Carlo Collodi, em 1883, “Pinóquio”, teve várias adaptações, principalmente pelo Walt Disney, onde na versão original, Gepeto é engolido por um tubarão e não por uma baleia.  Mas a moral da história é a mesma, o boneco de madeira vive as desventuras e tramas do enredo até se transformar num garoto de verdade.

Pelo visto, a vida tende a ser uma grandessíssima engolida de baleia. Ufa!!! Deveriam mudar o ditado de “vou matar um leão por dia”, para “vou ser engolido por uma baleia todo dia”.

O lado bom é que algumas baleias tem coração. E olha que é grande pra caramba. Para se ter uma ideia, o coração da Baleia Azul , que é a maior dos mares, é equivalente ao tamanho de um ônibus. Assisti à um documentário sobre a Patagônia, onde as baleias Jubartes passam o verão. Uma das cenas mais impactantes foi quando, após horas e tentativas de se aproximar, uma delas carinhosamente permitiu que o jornalista tocasse sua cria, um filhote tão dócil quanto um cachorrinho doméstico. Podem acreditar, ele chorou, e eu também. As Jubartes são realmente lindas, generosas e extremamente altruístas. Noutro documentário, sobre elas, mostra seu esforço  em afastar os filhotes de foca do ataque de baleias Orcas. Elas não recebem nada em troca, simplesmente ajudam por prazer.

A imagem que ilustra meu texto é do inglês Christopher Swann, que passou 25 anos fotografando baleias. O Tubarão-Baleia é um peixe que já teve tamanho registrado em 20 metros de comprimento. Ele não ataca seres humanos e se alimenta de plâncton.

Entre as histórias de pescadores e os contos infantis é difícil imaginar uma realidade perene, no entanto é possível atentar às morais subliminares em todos os contextos. O ego em primeiro lugar é o passo certeiro para a catástrofe e isso fica bem óbvio em qualquer  história. Ai de nós um dia sermos como as Jubartes. Menos racionais, mais altruístas!

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Primeira Impressão

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Venho refletindo acerca da simbologia da palavra imprinting (do inglês: impressão), não somente pela sua repercussão na Saga Crepúsculo, mas também por tê-la escutado num documentário do canal da National Geographic sobre a vida e os costumes dos jacarés. Lembrei-me daqueles desenhos que a gente assistia em canal aberto, nos anos 80 (que certamente eram da Disney) onde o bebê jacaré ou qualquer outro bicho que quebrasse o ovo ao nascer e de imediato avistasse um ser que não fosse da sua espécie, já ia logo chamando de “mamãe”. Quem não se lembraria dessa cena animada!?

Bem, psicologicamente é confirmado que este “fenômeno” é relacionado ao afeto e à segurança do recém-nascido, mesmo em espécies primitivas ou selvagens, mas principalmente em seres racionais. Seria o famoso amor à primeira vista. Quanto às áreas científicas da genética, ele corresponderia à um sofisticado aparato da etologia que eu nem saberia sintetizar aqui, mas que por fim, se resumiria numa interação entre os seres humanos além do DNA.

Essas características ora afetivas, ora de sobrevivência são da essência do ser, dos seres, desde o Gênesis, do gen, da origem, do homem e da mulher. A capacidade de gerar e propagar a espécie, na espectativa de que estará sempre seguro, amado, protegido. O instinto coletivo e sua formação social vão se organizando através de constantes imprintings, primeiras impressões, seleções naturais, culturais, comportamentais ou atrações sexuais.

Trago aqui imagens de dois grandes nomes da fotografia brasileira. A primeira, extraída do livro “Gênesis”, de Sebastião Salgado, jacarés concentram-se em pequenos lagos, no Mato Grosso, na região de Porto Jofre, onde estão entre 5000 e 8000 deles. A segunda imagem é de Luciano Candisani, extraída do livro “Pantanal na linha d’água”. Os jacarés tiram proveito da alimentação fácil, quando no período das chuvas os peixes deixam os campos inundados em direção aos rios principais, passando por canais estreitos. Esses exemplos de sobrevivência selvagem são apenas o amadurecimento da convivência em grupo e afetividade entre os seres da mesma espécie.  Foi no imprinting o primeiro instinto de sobrevivência que estes bichos e os outros encontram para se manterem vivos e seguros.

A primeira impressão é a que fica!

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É doce, mas não é mole

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Para não dizer que o ano de 2016 foi todo ruim, teve um acontecimento maravilhoso, em minha opinião, que reuniu duas grandes celebridades, cujas distintas áreas admiro por demais.

Uma delas é a banda ‘metropolitana’ O RAPPA e a outra, o artista plástico pernambucano, Francisco Brennand. Francisco Brennand é um exímio ceramista e guardião do Engenho Santos Cosme e Damião, onde fundou, na antiga fábrica de cerâmicas, um extraordinário museu a céu aberto com esculturas esmaltadas em tamanhos e formatos diversos num encontro de arte e natureza.  O pernambucano abriu as portas de seu recanto para receber os músicos Falcão, Lobato, Xandão, Lauro e toda equipe de montagem e filmagem para a realização do show acústico. Brennand, hoje aos  89 anos, dá o seu depoimento na última faixa do álbum: “Vocês tomaram de assalto a oficina com seus instrumentos letais. A mim, só me coube fugir, porque eu já estou rendido!”

A coletânea de músicas e sobreidade da plateia foi uma simbiose à parte, pois quem roubou a cena foi um dos convidados da noite, o cearense e xará do anfitrião, Francisco Igor Almeida dos Santos, o RAPadura Xique Chico. Chico versou numa batida hip hop a canção de sua autoria, o “Nordeste me veste” num pout pourri com a música “Reza Vela”, do RAPPA. RAPadura defende seu estilo e declara não ser rapper, porque “rapper é quem canta rap, eu canto rapente”, conclue. RAP – Revolução Através das Palavras é um estilo que lenta e modestamente ganha espaço no mercado musical brasileiro, dada sua capacidade ácida de criticar a sociedade e a política. Desde os Racionais MC’s, MV Bill, GOG e Sabotage não tenho ouvido tanto engajamento e erudição em versos quanto RAPadura.

Num caleidoscópio de possibilidades o som nordestino interage aos instrumentos da banda O RAPPA que toca guitarra de 12 cordas, clavinete, piano elétrico, escaleta e os steel drums. Numa sincronia entre o rap, reggae, repente, xaxado, oxente o show anuncia uma nova geração para preencher o vazio que ficou com a ausência de Chico Science, Mestre Ambrósio e Cordel do Fogo Encantado. A música integrada ao fabuloso cenário das cerâmicas de Brennand catalisam no imaginário a presença de seres mitológicos e seus objetivos em terras brasileiras. E os músicos, ali no meio do palco, verdadeiros Mestres de Cerimônia, vão contando algo mais sobre o doce e o duro da vida!

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