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Animus*

Num desabafo sincero, o rapazola replica à namorada: “Vocês, mulheres colocam uma minissaia e saem por aí, como umas Diabas!” A afirmativa me tocou seriamente e uma questão me veio à tona: “E vocês, homens?” Não é preciso colocar uma minissaia para que fiquem tão endiabrados quanto nós, não é mesmo?

Veja bem, meu bem, um arquétipo masculino que simboliza a sedução é o personagem viril de Don Juan DeMarco (1630), um conto do folclore espanhol, que se transformou no estereótipo do macho fatale, afinal quem resistiria a um Diabo desses? Nem precisaríamos ir tão longe, pois encontramos em nossa própria literatura alguns animus que representem toda essa ‘caliência’ tropical, como o bravo e selvagem: “O Guarani” (1857), de José de Alencar, o cínico e sedutor: “Primo Basílio” (1879), de Eça de Queiroz, o bem dotado de inteligência e atributos físicos: “O Mulato” (1881), de Aluízio Azevedo, o doce e safado: Vadinho (1966), de Jorge Amado, na figura negra: “Orfeu”, em duas versões para o cinema nacional (a primeira com Breno Mello, em 1959 e a segunda com Tony Garrido, em 1999), o corajoso e destemido: Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite” (2008), os lendários capoeiristas, mandigueiros e heroicos: “Madame Satã” (2002) e “Besouro” (2009), o caminhoneiro: “Arlindo Orlando”, citado na locução do impagável cantor, ator e humorista: Evandro Mesquita, da banda “Blitz”, a versão John Bon Jovi no carismático brasileiro: Paulo Ricardo, do RPM, nossos belos campeões internacionais: Ayrton Senna, Zico, Guga e o Xuxa, os eternos garotos de Ipanema: Tom Jobim e Chico Buarque, ou os mais contemporâneos: Marcelo Falcão, Charlie Brown, Dinho Ouro Preto e Frejat, ou ainda para abranger todos os gostos, os cafonas, porém simpáticos: Luan Santana e Gustavo Limma, assim como os das cores do pecado, o pequeno: Alexandre Pires e seu xará, o monumental: Xanddy. Meus caros e minhas caras não é a minissaia é o “olhar 43”, é o cochicho ao pé do ouvido, é o toque carinhoso, o cheirinho no cangote, o beijo áspero da barba por fazer, o tico-tico no fubá, o ruído da cuíca!

Na História da Arte observamos casos isolados de representações de animus em relação à proporção de animas, as invencíveis musas inspiradoras. No entanto, muito bem expressados através de milenares esculturas greco-romanas (VIII a.C e V), masculinos corpos nus ou delineados pela fricção de seus músculos simbolizaram a plenitude de divindades e mitos como Odisseu ou Ulisses, de Homero ou o semi-deus, Hércules, num período politeísta que priorizava profundamente a estética do belo. A luz sob essa estética viria iluminar séculos depois as investigações do magistral, Leonardo Da Vinci, que se encarregou de demonstrar cientificamente o animus que vive dentro de cada mulher, o “Homem Vitruviano” (1490), com suas medidas devidamente proporcionais. Ao longo da História da Humanidade há casos raríssimos ou pouco divulgados de manifestações artísticas de mulheres que expressassem seus animus. Corajosas como Anäis Nin (1903-1977) e Simone de Beauvoir (1908-1986) tomaram as rédeas de seus sentimentos e os manifestaram literalmente dando voz e vez às mulheres de seu tempo.

Os registros de índios e negros, por Albert Eckhout, no século XVII e por Debret e Rugendas, no século XIX, a sensualidade quase infantil ou demasiadamente carnal dos corpos masculinos de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), os lábios carnudos do “Mestiço”, de Candido Portinari (1903-1962), os corpos retorcidos e cheios de sadismo, de João Câmara (PE -1944), a repulsa ou atração pelos corpos afro-brasileiros fotografados por Mario Cravo Neto (1947-2009) ou até os mais recentes registros pelas lentes de André Cypriano (SP-1964) são provas de que o animus se manifesta discretamente nas Artes Plásticas Brasileira, seja através de um caboclo-civilizado arcando uma flecha, seja no “moreno, alto, bonito e sensual” jogando capoeira, ou quem sabe até um pálido retrato, andrógeno ou ‘trans’, com as mãos na cintura nos encarando olho no olho sob um fundo azul.

Sim, são corpos masculinos, corpos nus ou quase nus, expressados por artistas e idealizados por nós, mulheres! Não é só a minissaia que consegue infernizar, meus caros. Vocês também conseguem nos infernizar, sejam vestidos ou nus! Haja ânimo para tanta tentação!

Animus* (e Animas): na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961) são aspectos à persona ou aspecto inconsciente de Personalidade.

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Pitágoras, acrílico s/ tela, 130 x 160 cm, 2018.

Tempo

O mês de Abril este ano faz jus ao nome. Abril abriu com mostras do circuito “Histórias das mulheres, Histórias feministas” das gigantes da arte e da arquitetura brasileira: Tarsila do Amaral e Lina Bo Bardi, no MASP, a Feira de Arte Internacional: a SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera, o itinerante Festival Lollapalooza, também em Sampa e o Salão de Móvel de Milão, na Itália, só pra citar o que abriu o mês e termina nesta semana. Mas nunca termina! Tem sempre um outro evento, atividade e muita, muita informação, o tempo todo! Todo tempo!

Somos bombardeados com imagens, fake news, fakebooks, fetiches e fantasias 24 horas por dia, não tem como relaxar. Só desligando o celular, ou o computador, ou a televisão. Foi sob esta angústia temporal que indaguei minha amada vovozinha, no seu aniversário de 93 anos, em Junho do ano passado, data de nosso último encontro, em Campo Grande, MS, quando seu falecimento se daria dois meses depois. Sou eternamente grata pela oportunidade de ter me despedido da querida nonna Potrich e ter sentido pela última vez o calor de seu abraço! Por sorte ou destino ela me tirou ou terminou de colocar um peso em minha consciência, afinal por que viemos ao mundo, qual o sentido de tudo isso? Vovó nunca foi de muitos estudos, seu aprendizado foi com a vida, com o trabalho doméstico, as delícias de dançar, as tristezas do coração, as dores e as belezas em ser mulher.  Uma pequena grande sábia, pois sua maior virtude sempre foi a Mãe de todas: a Paciência. Ela me olhou docemente, apertou minha mão e disse: “Sabe, Tatiana, no meu tempo não tinha tanto que querer ou fazer, a mulher tinha de cuidar da casa, dos filhos, do marido e já era muita ‘coisa’. A gente era feliz assim, com a alegria em família, a saúde dos filhos, a vida com simplicidade. Tudo é muito diferente hoje. As mulheres trabalham como empresárias, tomam anticoncepcional, se responsabilizam por muitas ‘coisas’ além da família. Eu acho que deva ser mais difícil. Eu não gostaria de viver nesse tempo. Compreendo a sua ansiedade e seu medo, é bem complicado mesmo. Mas sabe, eu aprendi que devemos esperar o que o dia tem a nos oferecer e ser grata por isso. Não adianta correr atrás do tempo perdido, é ele quem deve vir à nós e, à nós, nos resta apenas agradecer este precioso tempo para desfrutar a vida!”

O tempo, o dono de todas as ‘coisas’. Sua fala me remeteu ao filme vencedor do Oscar Estrangeiro, o mexicano “Roma” (2019). A crítica bate na tecla que é um filme bem chato, mas pensando bem, a vida de duas personagens completamente diferentes, embora mulheres, morando num bairro de classe média no México, na década de 1970, deva ser bem chata mesmo, porém irritantemente realista. O incômodo do espectador é na falta de ação, o desencanto constante dos desfechos, a vida insignificante dessas duas mulheres. Mas há beleza! Há muita Arte no filme, há amor e há uma realidade quase mortífera dos trágicos acontecimentos cotidianos. O recado do filme é importante no que diz respeito à vida com simplicidade e desapego. Ela é finda e nada é para sempre e somos obrigados a conviver com essa verdade diariamente. Daí mais um recado de outro filme, um cult francês que rompe com os padrões de ficção documental, “Lucy” (2014), onde a personagem principal confessa : “A única unidade de medida que existe no mundo é o Tempo”. Cuidemos dele, com cautela, zelo e amor!

Ilustra o post obra do artista goiano e exímio tatuador no Brooklin, em Nova Iorque, Gustavo Rizério, “1° Ato” (2010). O óleo sobre tela remete à uma mulher e cantora de ópera, porque “sem a música a vida seria um erro” (Nietzsche). Predominam na tela as cores: vermelho, como o sangue da vida e o dourado, como ouro da sabedoria.

O tempo é o Senhor da verdade e ele é o dono da eternidade!!!

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O que dizer!

O que dizer sobre o artista português, naturalizado goiano, que amava as maravilhas da natureza humana, a flora, a fauna, o folclore, a argila, a criação!

O que dizer do artista que criava figuras tão puras, ou primárias ou “primitivas”, tanto quanto uma criança, mas mandava o recado sobre a essência do homem e o lado “amargurecido” (amargo + amadurecido) da vida!

O que dizer deste senhor, com barba de “Papai Noel”, que moldava o barro e inventava bichos de um universo com seres híbridos para contar a História da Humanidade!

O que dizer dele, quando o conjunto de toda sua obra já demonstra tudo isso!

Eu diria somente que convivi desde criancinha com a beleza e o colorido de suas obras e o quanto a simplicidade de suas figuras me deram inclusão ao sofisticado mundo da Arte. O quanto foi fácil entender ou ter medo de alguma mensagem subliminar de seus temas bíblicos. Lembro a primeira vez que estive em seu atelier, uma criança curiosa, observando o mundo encantado deste mago das cores, onde há pesquisa, produção e muita brasilidade envolvida. Para mim foi como idealizar um cientista, um alquimista, um feiticeiro. A barba, os fornos, a fumaça, o cheiro de tinta, a argila por todos os lados, o caos ordenado, uma vida dedicada à Arte.

É compreensível que o naif continue tendo tanta força no complexo circuito da arte. Ele é uma expressão artística inclusiva, porque é simples e expressa o que há de mais naturalista no modo de viver, nos costumes, nos rituais, na natureza. Ainda que se assemelhe com os traçados infantis ou primários, há sempre um contexto muito engajado no tema abordado das obras.

Antônio Poteiro se embrenhou nas matas brasileiras, aprimorou seu conhecimento, principalmente nas margens selvagens do Pantanal e nunca abandonou a cultura que adotou como sua, ou vice-versa, a cultura abraçou este luso-brasileiro legítimo que expressou melhor ainda nossas origens, talvez até mais que muitos naturalmente aqui nascidos. O artista descobriu literalmente a “terra” brasileira através do barro que ele tanto moldou seus potes. O velho Poteiro, o Antônio português, que percebeu a beleza na simplicidade e nos presenteou com a complexidade de sua obra. O que dizer sobre alguém que já disse tudo!? A folclorista, Regina Lacerda disse para ele ser Poteiro, o curador Enock Sacramento diz sobre ele ser o Colorista do Brasil, eu digo que ele pode ser um Mago das Cores!

A obra “Mundo III”, 1985, é um painel que diz sobre a origem da natureza, a leveza e a dureza da sobrevivência, da labuta do trabalho e da morte. Seus estereótipos são o resultado de uma pesquisa particular, que caracteriza sua produção reconhecida mundialmente como uma das mais importantes para o estilo naif.

Pensando bem, ainda há muito que dizer por aí sobre ele!!!

poteiroAntônio Poteiro, “Mundo III”, 180 x 190 cm, 1985

Diário de uma hóspede

Raramente, com tom tão irônico, Gilberto Freyre alfinetou, em “Ordem e Progresso” (1987), as medidas populares que mais vieram atuar como meras datas comemorativas que propostas postas em prática: “O 15 de Novembro no Brasil não foi senão o periquito da sociologia com relação ao papagaio: o 13 de Maio”.

A abolição da Escravatura e a Proclamação da República, mesmo um tanto “simbólicas”, ainda hoje, por bem foram oficializadas para flexibilizar pensamentos e a mobilidade das classes na crescente pirâmide social. Inspirada em nossa épica história nacional, sob o olhar sereno e pincelado de romantismo por Freyre, a jornada brasileira é de dor e prazer, sangue e suor, misticismo e fanatismo.

Existe uma antiga cantiga da Capoeira que diz assim: “olha eu vou falar, quem quiser diga que sim oh, iá, iá, quem quiser diga que não. Agradeço à escrevidão. Quem quiser que ache asneira, se não fosse o escravo oh, iá, iá, não existia a Capoeira”. O Brasil nos presenteia entre uma ferida e outra, a singeleza bruta cultural de um país lapidado a ferro e fogo, pedra e ouro, que vem se transformando cada vez mais em patrimônio mundial. Pensar no Brasil é pensar na árvore genealógica que nos criou, na árvore do pau-brasil, na Bahia, na calunga, na capoeira, no caruru, no caiçara, no camará! É pensar no índio, africano, português, as belezas naturais, o calor e a geada, o mar e as montanhas.

Um cantinho no sul da Bahia, em particular, conta nossa trajetória através de artefatos, obras de arte e uma suntuosa e rústica decoração explorando as primordiais etnias, que deram origem à formação da “raça brasileira”. O Arraial d’Ajuda Eco Resort nos recepciona com arranjos naturais de flores e folhas de bananeira, de arecas, de coqueiros, antúrios, orquídeas e outras espécies não nativas que se adaptaram bem às terras Brasilis. As esculturas em cerâmica do Vale do Jequitinhonha, os vastos aparadores em madeira que tinham como função a produção de queijo nas fazendas do século XIX, as máscaras africanas, a coleção de plumária indígena cuidadosamente exposta nas vitrines de parede vermelha, as reproduções de Jean Baptist Debret, os tecidos com estampas de costumes indígenas, as referências da baiana e do capoeirista nas portas dos toaletes, a parte de um barco de pescador na parede da sala de informática para “navegar”, os ladrilhos azuis no salão principal, como referência maior à cultura portuguesa. As gigantescas esculturas do artista baiano, Tatti Moreno espalhadas pelos jardins do resort, fortalecendo a espiritualidade dos orixás, como Oxalá, que pela etimologia árabe, significa “in shá allh” (se Deus quiser), de frente ao rio que separa Arraial de Porto Seguro. Tudo que há, por todos os lados é impossível não estabelecer a relação da Casa Grande e Senzala, em mais uma jornada épica de Freyre.

Se o “periquito” da República funcionou ou continua funcionando é porque a Humanidade caminha a passos lentos, pois pela percentagem, ainda se constata que o “papagaio” da abolição é uma preservação aos hábitos da nossa pirâmide social.

Um lugar simplesmente mágico e inspirador, que coloca em pauta nossa origem e nossas diferenças sociais, econômicas, mas nunca culturais. A cultura ali é demarcada por todos os lados e dialoga com todas as tribos, porque a arte é uma linguagem universal.

1foto: Flávia Domingues, “Oxalá”, Tatti Moreno, no Jardim do Arraial d’Ajuda Eco Resort

R.B.Marx

O MUBE – Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo prorrogou a mostra “Burle Marx: Arte, Paisagem e Botânica”, que teve início em dezembro do ano passado e iria até hoje, mas para nossa oportunidade se estende até dia 26 de Maio. A curadoria selecionou 70 obras dos mais variados suportes identificando a pluralidade deste artista paulista (quase carioca) que estudou afinco as plantas brasileiras e fez a descoberta de mais de 30 espécies diferentes.

“Trazemos ao público singularidades pouco exploradas de um artista de múltiplas capacidades. Sem dúvida nenhuma o paisagismo foi sua grande contribuição para o mundo, mas ele foi mais que um paisagista”, declara o curador da mostra, Cauê Alves.

“Paisagista, arquiteto, pintor, gravador, litógrafo, escultor, tapeceiro, ceramista, designer de joias e decorador” (ufa!) a Enciclopédia Itaú Cultural enumera as virtuosas funções que Roberto Burle Marx (1909-1994) exerceu durante toda sua produtiva vida. Manteve contato com grandes nomes da classe intelectual brasileira enriquecendo seu trabalho e o do outro numa simbiose artística . Só para citar alguns: os arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemeyer, os artistas, Di Cavalcanti e Candido Portinari e o poeta, Mario de Andrade. Com formação em Arte e Arquitetura, se engajou através de cursos, palestras, mostras de arte, parques públicos, florestas, museus e um apanhado de informações ao redor do mundo aderindo sempre à preservação do meio ambiente e um discurso ecológico coerente e global. A vasta produção do artista é consequência de uma intensa capacidade de criação, afinal R.B.Marx começou cedo, iniciou sua coleção de plantas aos 7 anos de idade.

O colecionador de arte e competente médico goiano encontrou no circuito de Arte um universo de deleite e investimento, adquirindo uma obra muito peculiar do artista. O Panneux (painel em tecido) de 385 x 137 cm, assinado no verso é um trabalho diferenciado por fazer parte do projeto dos jardins de sua casa e, tais dimensões em coleções particulares são raras, pois grande parte deste acervo estão em poder de museus ou órgãos governamentais, como a Câmara dos Deputados e o Itamarati, em Brasília.

No Rio de Janeiro, o Sítio Roberto Burle Marx (S.R.B.M), doado em 1985 para o Governo, foi tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade, pelo IPHAN. São 400 mil m² de área que aspiram arte, paisagismo e botânica num encantador recanto de 3.500 espécies. Vale conhecer a multiplicidade da obra deste artista, aos paulistas a oportunidade prorrogada, no MUBE, aos cariocas, no patrimônio S.R.B.M e aos goianos, o Panneux, em nossa Galeria! Agente uma visita!

54222378_266839977566154_8145813666260844544_nRoberto Burle Marx (1909-1994), Panneux, 385 x 137 cm

A arte é completamente inútil

A afirmativa do satírico poeta irlandês, Oscar Wilde reascende os conceitos filosóficos de Aristóteles sobre a “inutilidade” e comunga com os pensadores contemporâneos, de Christian Dunker à Ségio Cortella (Casa do Saber)  sobre a importância de ser inútil. Pelos termos filosóficos tudo que é útil encontra utilidade fora de si, isto é uma coisa, um objeto ou uma pessoa só tem função se for utilizado para algo, alguma coisa ou para alguém. O que é inútil é, por si só, realizado/resolvido, como a Arte e a Felicidade! Não há como utilizar a Arte para algo, ela é por si só auto suficiente, ou seja útil para ela mesma. Na frase de Clóvis de Barros Filho: “feliz é aquele que descobre a sua inutilidade no mundo”!

A arte por milênios vem sendo estudada, pesquisada e analisada com a finalidade de não ter qualquer fim. Minha professora, mestra e artista, Selma Parreira, certa vez, no curso de pós-graduação em Arte Contemporânea (FAV/UFG) que ministrava, afirmou que: “a Arte não tem que ter função, como ela não é um objeto de design para decorar, ou sentar, ou apoiar objetos, ela é Arte, por isso sua magnitude”! Ela é inútil! Não fossem tantos estudos e pesquisa à respeito disso, a verdadeira Arte não teria sobrevivido tanto tempo. Há uma investigação sobre um primitivo instrumento musical, ícone da manifestação cultural da Capoeira, o berimbau. Não se sabe ao certo se o homem inventou primeiro o arco e flecha para caçar ou o instrumento para tocar. A necessidade da Arte para a vida do ser humano é tanto quanto ou maior que o alimento para sua sobrevivência!

Galeristas, marchands, comissionados e curadores driblam esta “inutilidade” da Arte a comercializando como parte da decoração, ou por colecionismo e investimento. Mas afinal, qual o sentido da Arte para nossa vida? Ela é essencial? Recentemente o artista-diretor, Wagner Moura, em entrevista para o Canal Brasil desabafou: “vivemos agora no Brasil, uma ode à mediocridade, o triunfo do homem medíocre… num momento de tanta dicotomia,  as pessoas questionam qual realmente é a função dos artistas na a sociedade”.

Ora, há algumas poucas semanas atrás um dos maiores museus do mundo, o MOMA, de Nova Iorque adquiriu a obra da artista brasileira, Tarsilia do Amaral pela bagatela de 20 milhões de dólares. “A Lua” (1928) representa a fase Antropofágica, que inspirou o Manifesto de Oswald de Andrade no mesmo ano, onde enfim a Arte Brasileira se alimentaria da cultura alheia e se expressaria com originalidade e autenticidade. Inútil ou não, isso prova o quanto a Arte pode se materializar em utilidade cultural monetária, não é mesmo?!

O artista russo, Wallissy Kandinsky, em seu célebre livro “Do Espiritual da Arte”, do início do século XX, considera que a elevação do espírito se dá principalmente através da sensibilidade, onde a vida é um triângulo (ou uma pirâmide) e sua base representa toda matéria existente no mundo. Só atingirá seu ápice quem estiver conectado espiritualmente com a Arte e as sensações que ela proporciona. Assim como um monge, ou um yogue ou um pajé trabalham para se conectarem com o mundo espiritual, o artista trabalha para se conectar com sua Arte. Ela é quem o conecta à inutilidade do dom de ser, por si só, o que se precisa ser, no momento preciso!

Os artistas, em verdade, são os felizardos que descobriram a sua inutilidade no mundo!

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Obras de Pitágoras e Selma Parreira. Via @adrianamundimfernandogalvao

Carnaval

Hoje é domingo de Carnaval, porque a Páscoa deste ano cai no dia 21 de Abril. Você sabia que no ano de 1818 a Páscoa caiu dia 22 de Março, um mês antes? Isso acontece porque: “A data da Páscoa mistura 2 calendários, o lunar (influência do judaísmo) e o solar (usado pelos egípcios). O calendário solar leva em conta a volta da Terra ao redor do Sol em um ano (ou 365 dias). Enquanto isso a Lua completa suas quatro fases em 29,5 dias. Doze ciclos completam 354 dias. O ponto de partida para se chegar ao dia da Páscoa é a data do calendário solar, o equinócio, que marca o começo do outono no hemisfério sul. Neste momento entra o calendário lunar, é preciso esperar a próxima lua cheia. A partir daí, o domingo seguinte é o da Páscoa. Como os calendários solar e lunar não são sincronizados, esta data muda todos os anos. O Carnaval é contado retroativamente 46 dias antes da Páscoa. São 40 dias de quaresma somados a 6 domingos “. (Via Jornal NEXO)

O significado da palavra Carnaval  vem do latim, carnis levale “retirar a carne”, nada mais é que o jejum que deveria ser praticado durante a quaresma, num ritual da Igreja Católica para controlar os prazeres mundanos e os excessos cometidos nas festas profanas. Embora com matrizes na Antiguidade: Mesopotâmia, Grécia, Roma e mais tarde nos famosos bailes de máscaras de Veneza ou a popular festa do Holi, na Índia, o Carnaval Brasileiro adquiriu características próprias com bases na cultura africana. A origem da palavra semba, que segundo Batista Caetano e Teodoro Sampaio, se pronuncia “samba”, vem do tupi, cama ou camba, no entanto há controvérsias. Sua origem, do conguês, semba significa oração (Vetralla, Idioma do Congo, Seidel-Struff) ou do quimbundo, kusemba, orar, alega-se que durante as orações os negros precediam de danças. No dialeto sanjoanense e umbundo, a palavra semba tem o mesmo significado, orar e/ou dançar (“O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, Aires da Mata Machado Filho, 1985). Portanto, há de se admitir que até no nome da música, que é a alma da festa, fomos agraciados pelos africanos através de um “blues brasileiro”, um samba canção de raiz, que canta as mazelas, as feridas, as amarguras dos negros e seu banzo.

O nosso Carnaval é autêntico, um patrimônio cultural e simplesmente a mais pura prova que podemos sim dar uma trégua, “bandeira branca, amor”, às nossas divergências. Ali, homem se veste de mulher, vice-versa e não há mal algum! As crianças de vestem de super-heróis ou de algum tipo de profissional diplomado e os pais se fantasiam de personagens infantis ou bichos de pelúcia. O pobre se veste de Rei e a burguesia se fantasia de doméstica sexy com avental. Os papeis se invertem e tá tudo certo! Num curto momento somos liberados a nos despir de tabus e pudores, depois tudo é perdoado! Não há preconceito no negro se pintar de branco e vice-versa. Não há problema em beijar a amiga “sem querer querendo”, ou trair o namorado ou se sentir sozinho esperando a “banda passar cantando coisas de amor”.

É carne na carne, com carne que nos sentimos mais humanos. E é na abstinência dela, que nos sentimos mais espirituais. Buda, Pitágoras e Jesus Cristo praticavam o jejum como método (ou ritual) de desintoxicação, introspecção e meditação. Cuidar dos prazeres da vida diz respeito ao corpo, mente e alma! A moderação é bem-vinda em todos os momentos, sejam sagrados, ou profanos. Apreciem esta maravilhosa festa como na canção de Vinícius de Moraes, “Samba da Bênção” (1967):

“Fazer samba não é contar piada

E quem faz samba assim não é de nada.

O bom samba é sempre uma forma de oração.

Porque o samba nasceu lá na Bahia e se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais, no coração!”

Ilustra o post, o trabalho bordado da nossa senhora, querida vovó, Suzana de Abreu, “Carnaval”, 2010.

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Afinal, quem é artista?

A pergunta foi feita, certa vez, ao curador e crítico de arte paulista, Marcus Lontra, em 2008, no “I° Circuito de Palestras: Olhar Crítico sobre a Arte”, aqui na Galeria. Lontra esclareceu que dentre as virtudes de um verdadeiro artista, além de sua incansável pesquisa estética, seria seu “entorno”. O que faz o artista ser um artista, além de sua boa produção, seria sua relação com a classe artística, seu convívio social no meio cultural, sua pertinente postura ideológica e sua linguagem plástica atual. Antes de tudo, o artista é um ser humano, com defeitos e qualidades, mas que necessita priorizar seus objetivos à longo prazo, estruturar seu argumento artístico numa base sólida e coerente, participando do circuito profissional, principalmente na leitura de portfólio, Concursos, Salões, Feiras e Exposições. Um verdadeiro artista participa de vernissages, conhece o trabalho de colegas da área, se relaciona com curadores, críticos de arte, galeristas, colecionadores, compartilha seu conhecimento não só sobre o seu trabalho, mas de todo o ambiente que está envolvido e a consistência da origem de sua pesquisa artística.

Curiosamente esta temática cultural vem sendo discutida, avaliada e reavaliada. Afinal, o artista é aquele que tem que expressar o belo? O que é “belo” na contemporaneidade? Estas questões estão na pauta do filósofo conservador, o inglês Roger Scruton que refuta a qualidade da produção da arte pós-moderna e retoma o conceito do belo clássico, questionando o porquê  de se ensinar cultura e como a ensiná-la. Ele acredita que de alguma forma as produções artísticas, a partir de Duchamp, se “perderam” e insiste que: “a beleza é uma necessidade universal, pois através da sua percepção moldamos o mundo como nosso lar”.

O artista contemporâneo e conterrâneo do filósofo, Michael Gray Martim rebate sobre o conceito do belo na arte contemporânea e elucida: “A arte produzida atualmente permite as pessoas enxergarem o mundo em que vivem de uma maneira que dê mais significado à elas. Não um mundo ideal, um outro mundo ou algum lugar melhor. Mas o aqui e agora, a produção atual permite tornar a visão de mundo mais fácil do que real”.

Esse embate é território fértil para discussões infindas, mas certamente com valiosos acréscimos às nossas vãs filosofias. Visualizar este paradoxo através das composições fotográficas do artista turco Ugur Gallen, que causou alvoroço nas redes sociais é contrastar o conceito de belo pelo feio, do clássico pelo contemporâneo, do romântico pelo violento.

O filósofo vanguardista e também inglês, Terry Eagleton defende a máxima que a “Arte veio para matar a Religião”, no entanto ele próprio admite que isso não aconteceu por diversos e variados motivos. As transformações e rupturas da Arte e a conceptualização do “belo” na contemporaneidade reafirmam a responsabilidade das Instituições Culturais, Museus, Institutos, Fundações, Galerias e Faculdades de Arte em estabelecer um diálogo lúcido com a sociedade reafirmando os verdadeiros objetivos da Arte Contemporânea. Afinal, quem produz o belo na atualidade? Como ensinar a enxergar este “belo”? Caberia aqui a imortal passagem do livro de Antoine de Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.  O verdadeiro artista é aquele que enxerga o belo na feiura e faz com que o feio tenha beleza, para assim, enxergarmos o mundo com mais facilidade.

Ilustra o assunto deste domingo, o consagrado artista mineiro, José Vasconcellos, residente há mais de 40 anos na Europa e mesmo com mais de 80 anos se prepara para uma agenda de mostras até 2022, por enquanto.

vasconcellosJosé Vasconcellos, resina vegetal sobre tela, “Memória e Arquétipos”, 100 x 70 cm, 2018.

A Linha

Numa reflexão de José Arthur Giannnotti para a Ilustrada (Jornal Folha de SP), em 2002 sobre a obra do artista Giorgio Morandi (1890 -1964), o filósofo paulista disserta sua experiência como observador crítico e analisa a arte do italiano sob a óptica da fenomenologia. O processo criativo das formas e planos sem o uso da linha que limita um objeto do outro é uma constante subjetiva e ele define esta marcante característica do trabalho do pós-impressionista descrevendo: “A linha não é pois o limite da coisa, mas o limite e a mediação entre valores tonais comunicantes. O volume não é o relevo obtido pelo claro-escuro, mas a distância calibrada entre planos coloridos. Segue se que tudo é relação, determinando se no curso da experiência da pintura”.

Ao contrário de Morandi, o artista contemporâneo Evandro Soares usa e abusa da linha sendo esta o principal objeto de estudo do seu processo criativo. É o uso da linha que definirá seu estudo, o limite entre o claro-escuro, o volume e o relevo, o desenho e a sombra como terceiro elemento. A constância do cubo, da escada, da geometria caracterizam seu trabalho no que ele denominou de “arquitetura inventada”. A projeção do tridimensional quanto desenho é o desafio deste baiano quase naturalizado goiano. Evandro faz o caminho inverso dos artistas pós-modernos superando o ofício de serralheiro ao patamar de artista consagrado por unanimidade. Abriu mostra nesta última sexta-feira (15/02), numa das galerias mais vanguardistas de Portugal e prepara obras para integrar ao acervo do MAAT – Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia, de Lisboa. A Revista DASartes, autoridade no que diz respeito às Artes Visuais, fez  um balanço sobre a Feira SP-Arte, em 2016 sinalizando Evandro Soares como a última grande revelação da arte contemporânea. De lá pra cá, Evandro participou de importantes feiras do país como ARTRio, BH-PARTE, SP-ArteFoto, PARTE, mostras internacionais e nacionais individuais se preparando para executar um desafio, transformar sua arte em escala arquitetônica.

O artista projetou nossa fachada no final do ano passado e quem passa pela Avenida Jamel Cecílio entre 9h30 às 11h consegue observar um desenho que muda de lugar. A geometria tridimensional em fios de aço projetada na parede é surpreendida pela luz do dia, que nos presenteia com a sombra de um novo desenho que se forma, a cada minuto que passa.

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O pequeno serralheiro que soldava grades e portões descobriu uma nova perspectiva para o ferro. E ele não pára! Sua pesquisa abrange a intervenção das linhas de aço em fotografias impressas sobre chapas de alumínio. Mario Gioia, o curador de sua última mostra individual, “Traço expandido”, em Brasília (nov/2018) observa: “A linha que desloca-se na superfície envidraçada – sua representação, no caso – e que tanto se estende por volumes e ângulos novos (mas também esvaziados), pode ser lida como formadora de um desenho de expansão, mais no campo da ideia e do conceito, tem atributos do tridimensional, ao relacionar se com o entorno, e não deixa de abandonar a matriz fotográfica”.

Ao eleger a linha como protagonista de sua obra, Evandro inverte os conceitos do desenho tradicional e abre uma inédita perspectiva sobre as Artes Plásticas, promovendo uma nova ruptura com a pintura e a destemida interlocução da Arte com a Arquitetura. Porque na Arte Contemporânea, a linha é muito mais que a distância entre dois pontos. Ela ganha a profundidade da sombra e o relevo do aço produzido pelas mãos de um pequeno grande serralheiro!

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Ponto de Vista

Nas chapas fotográficas do séc. XIX, o corpo do negro foi objetificado para estudos científicos ao zoólogo suíço Louis Agassiz (1807-1873) e sua mulher, a americana Elizabeth Carry. O artista paulista, Fernando Ekman se apropriou de um desses estudos e produziu o tríptico, “Mestiços” (2010) com carvão, betume e tela de algodão propondo um resgate das almas que retomam seu estado poético expressado pictoricamente. A obra fez parte da mostra coletiva na Potrich Galeria, “NOSOTROS – a arte e o corpo humano” (2017). As mesmas chapas foram fonte de inspiração para a renomada artista, Rosana Paulino em sua instalação, “Assentamento” (2013), que estará exposta até 4 de março, na Pinacoteca de São Paulo. O tema da imagem é assunto vasto para o campo das Artes, Sociologia, mas principalmente para a História do Brasil, que aponta o lugar do negro e sua condição, num determinado momento, como objeto, produto e mercadoria. Rosana Paulino tem um discurso bruto e ácido, mas ao mesmo tempo feminino e sutil quanto à falsa noção de democracia racial. Sua retrospectiva vem de encontro com as atuais discussões sobre feminismo, racismo, minorias, cotas e se pagamos ou não por essa “dívida interna”. Ora, ironicamente fatos contraditórios assombram e dividem nossa nação.

Um curioso acontecimento fortaleceu o discurso dessa “costura da memória”, cometendo um anacronismo desnecessário. O precioso filme “Vazante” (2017), da diretora Daniela Thomaz tomou de assalto a “fragilidade branca” quando confrontado com a voz das minorias. O filme é um recorte do Brasil do séc. XIX, que narra a história de uma fazenda decadente isolada em Minas Gerais. A trama é inspirada na história de família da diretora, onde um parente de 50 anos se casa com uma jovem de 12 anos. O patriarcalismo branco foi o protagonista do filme colocando os negros como meros figurantes num período em que eram menos que isso.

A polêmica em vésperas de seu lançamento se deu a partir de questionamentos atuais sobre a tal “dívida” e como o tema deveria ser abordado em filmes da contemporaneidade. A diretora foi até acusada de racista fortalecendo o conceito da fragilidade branca confrontada com a “minoria” negra. Esqueceram-se de que o cult do diretor norte-americano, Quentin Tarantino, já havia protagonizado o personagem de “Django Livre” (2012), enquanto o ponto de vista da brasileira foi outro em relação à escravidão. Infelizmente o filme caiu no ostracismo por pura bobagem anacrônica.

Mas o curioso dos acontecimentos não acaba por aí. O ator que dirige o filme “Marighella” (2019), nosso eterno “Capitão Nascimento”, Wagner Moura, também caiu nas graças dos “memes” das mídias. Acusado erroneamente de usar a Lei Rouanet para financiar o filme sobre o ativista afrodescendente baiano, Moura foi duramente criticado e rotulado como “comunista”. Ora, a ironia está exatamente aí. Expor um ponto de vista de um “líder rebelde, um santo ateu” num período da História do Brasil não é fazer apologia ao terrorismo, é identificar as causas e consequências das políticas totalitaristas deste período. Moura apresenta apenas sua versão brasileira de “Django”.

Atribuir rótulos às expressões artísticas é condená-las como certas e erradas, quando em verdade são pontos de vista de pessoas sensíveis, compromissadas com sua pesquisa, com seu objeto de estudo, sua Arte! Sem anacronismos, rótulos ou críticas pausemos um instante para refletir sobre os fatos e façamos um esforço de nos colocar no lugar do outro para tentar identificar a problemática de cada período, cada realidade, cada cidadão brasileiro.

Querer o “branqueamento racial” (Hamilton Mourão) ou a “revolução morena colorida” (Carlos Marighella) são diferentes pontos de vista. Se você é branco e se coloca no lugar do negro e vice-versa, o que você faria? Quem seria o seu protagonista?

Tudo é uma questão de ponto de vista!

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Fernando Ekman, “Mestiços” (2010), 100 x 180 cm.