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O milho

(…)“Cavador de milho, que está fazendo?

A que milênios vem você plantando capanga de grão dourados a tiracolo.

Crente da Terra, Sacerdote da Terra

Pai da terra

Filho da terra

Ascendente da terra

Descendente da terra

Ele, mesmo; terra.

Planta com fé religiosa

Planta sozinho, silencioso

Cava e planta

Gestos pretéritos, imemoriais

Oferta remota patriarcal

Liturgia milenária

Ritual de Paz

Em qualquer parte de terra um homem estará plantando

Recriando a vida

Recomeçando o mundo”(…)

O “Poema do Milho”, da poetisa goiana Cora Coralina é uma ode à fertilidade, ao plantio, à colheita, à culinária, à brincadeira, ou inúmeros predicados que esta planta exerceu e exerce na História da Humanidade. O milho é símbolo na mitologia maia sobre a criação dos homens, na mitologia africana é também oferenda aos orixás e na mitologia indígena é ingrediente fundamental para o grande brinde no Xingu, na festa do Kuarup. A bebida fermentada a partir desta planta é uma espécie de cerveja, o Cauim degustada em celebração ao primeiro homem a habitar a Terra! A sensível homenagem ao alimento é um culto aos ancestrais e uma generosa contribuição cultural à literatura brasileira. Além do “Poema do Milho”, Cora também escreveu a “Oração do Milho” mais uma vez homenageando esta planta sagrada, cheias de predicados e base nutritiva dos nossos ancestrais.

O Coletivo Tremma, pela segunda vez convida a curadoria da Potrich Galeria para participar do evento dedicado à Cora Coralina, que será realizado durante os dias 5, 6 e 7 de dezembro numa Galeria de Arte, em São Paulo. Foi com muito prazer que aceitamos o desafio de ilustrar através do nosso acervo a trajetória desta senhora que aos 76 anos de idade publicou seu primeiro livro. Sua história é um conto de coragem e orgulho para nós goianos, inebriados numa terra colonizada por coronéis e bandeirantes sedentos por explorar nossas riquezas, como é até hoje.

Cora Coralina é a menina feia da casa velha da ponte, que registrou a natureza humana e as tantas armadilhas do destino em retas linhas, por letras certas. Reinventou sonhos e delicadezas em momentos de dificuldades adocicando a vida com sua culinária e seus doces poemas. Para ilustrar seu verso ninguém menos que o renomado artista, Dalton Paula.

“Dalton Paula vem transitando por pintura, objeto, instalação, performance, fotografia e vídeo, sem estabelecer uma ordem hierárquica entre os diferentes meios e sem que haja perda de seu potencial poético expressivo, uma vez que a escolha de cada suporte advém da ideia poética que o artista pretende tornar realidade (…) Essas ações são marcadas pela interpretação crítica de acontecimentos históricos ou cotidianos, pela impregnação de um aspecto religioso, místico, advindo dos cultos afro-brasileiros, pelo uso de seu próprio corpo e de imagens de corpos alheios, pelo confronto de alteridades entre o autobiográfico e o outro apropriado, pelo choque entre o forte e o fraco, entre o senhor e o escravo, pelo desfazimento das demarcações das funções e dos territórios de direitos, que à base da violência foram constituídas no quadro social brasileiro”. (Prêmio Pipa)

Um desafio mágico ilustrar a história de nossa poetisa no mundo maravilhoso das Artes Visuais (que é a nossa praia). Agradecemos ao Coletivo Tremma a confiança e por mais uma oportunidade de participar deste evento, só que agora, na terrinha da garoa! É para lá que vamos nós, como Cora Coralina: “quebrando pedras e plantado flores”.

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Dalton Paula, pintura

Contaminação

O fatídico acontecimento da semana passada sobre o caso de suspeita de meningite, que levou à morte uma criança de nove anos de idade, foi o motivo para um estado de pânico entre os grupos mais calorosos de mães que surtaram com o óbito. O efeito da notícia foi tão alarmante que o próprio colégio onde estudava a criança se encarregou de dar uma palestra educativa sobre o assunto, assim como realizou a missa de sétimo dia do querido aluno.

O caso não tem nada a ver com meu assunto de hoje, mas quero fazer uma relação com a obra de um artista goiano muito peculiar. Juliano Moraes é professor na FAV/UFG, artista plástico premiado e realizou interessantes mostras, uma delas no Itaú Cultural, em São Paulo, a coletiva ”Caos e Efeito” (2013). O artista produziu uma espécie de obra-performance, cujo rastro de graxa marcava o percurso por onde as pessoas passavam e deixavam o registro desse material impregnante. O visitante se desequilibrava, ou escorregava e contaminava todo o espaço expositivo, carimbando outros andares do prédio ocupados pelos demais artistas e curadores. Era uma “obra perigosa”, afirmou o curador Paulo Herkenhoff, porque “ela permeava, atravessava as outras obras e toda a exposição, também contaminava as pessoas que estavam nela, manchando e maculando as coisas”.

Juliano realizou em 2017 a individual “Contrarquitetura”, no MAC-CCON onde produziu um conjunto de obras que se diversificavam entre instalações, objetos, esculturas e técnica mista sobre papel. Fernando Oliva (Doutor em Artes Visuais pela ECA-USP), disserta para texto do catálogo: (…) ”o conjunto destas obras dá origem a um lugar próprio, situado na alternância entre tensão e distensão: na mesma medida em que Moraes reconhece e se aproxima do problema, procura se afastar dele, muitas vezes se valendo do bom humor e da ironia, ferramentas de que se utiliza com naturalidade”.

O bom humor e a ironia do artista são percebidas de imediato em verdadeiros pastiches ou numa releitura divertida da Arte Povera, estilo da década de 60, que incorporava materiais ordinários na produção das obras de arte. O artista argentino, Lucio Fontana (1899-1968) foi um dos maiores expoentes deste estilo e também foi o percursor da Arte Conceitual. Tinha como marca registrada rasgos precisos em suas telas visionando uma ruptura ao modelo tradicional da pintura sobre tela e experimentando a fissura como um novo elemento de investigação sobre a profundidade, o tempo e a dimensão.

O artista goiano integra o rasgo ao papel como novo elemento visual de sua obra, parodiando a Arte Povera e, porque não, ironizando a trajetória da História da Arte e seus ícones artísticos. Silver tape, papel celofane, laminado de madeira e bastão à óleo são alguns dos elementos que o artista se apropria para desenhar. Ele desenha suas reminiscências de infância, talvez, possíveis acessórios de design, como os que seu pai fazia para vender na feira hippie. Ele recria, com um certo sarcasmo, a estética da Arte que está na moda, o abstrato que não agride, não questiona, não incomoda, ou não! Pensar o trabalho de Juliano é levantar questões muito eruditas do universo da Arte, mas também é se divertir em meio ao caos e efeito que ele sugere. Afinal, estamos sempre a nos contaminarmos uns aos outros, seja na saúde, seja na doença. Que a Arte de Juliano Moraes seja para nós uma contaminação saudável, curiosa e bem-humorada.

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Juliano Moraes, 100 x 150 cm, gelatina, papel prateado, grafite e óleo de linhaça sobre canson, 2017

Água Limpa

“Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem”. (Legião Urbana)

Esse verso da canção “Há Tempos” (1989) é um mantra e deveria ser repetido todo santo dia. Renato Russo e Cazuza foram inspiradores para minha geração e quando analiso alguns momentos dessa época começo a compreender certas situações mirabolantes e, em parte, até que bem previsíveis.

Vivi minha infância dos anos 80 escutando as canções de Tons, Gils, Chicos, Marias, Caetano, Milton Nascimento, mas principalmente de Elis Regina, o álbum “Falso Brilhante”, que era o vinil preferido de mamãe. A gente assistia o Chico Anysio Show, Armação Ilimitada e TV Pirata. Visitávamos as Bienais Internacionais de São Paulo, vagava pela Feira do Bexiga, se encantava com o Parque Ibirapuera e decorava o nome das ruas do Jardins. Entre os anos 80 e 90 frequentamos ateliers de grandes artistas como o dos mineiros Marcos Coelho Benjamim e Fernando Lucchesi, a paulista Leda Catunda, o paraibano Francisco Galeno, o mato-grossense Adir Sodré e o goiano Siron Franco. Este foi o período do boom da renovação da pintura após 20 anos de hibernação ditatorial militar. Ainda entre os anos 90 e 2000 minha pós-adolescência foi embalada pelo rock dos Titãs, Blitz, Kid Abelha, Barão Vermelho, O Rappa e o Olodum, na Bahia! Ahhh, a Bahia! Bahia de todos os santos! Terra de Caymmi, Amado, Mario Cravos, Rubem Valentim, Mestre Didi e Carybé, que foi abraçado pela cultura, pelo dendê e pelo axé. Deitada em berço esplendido da minha zona de conforto, o privilégio de ser parda, alta e de classe média sempre me proporcionou uma segurança ainda que conhecendo as mazelas e os conflitos humanos através das Artes Plásticas, permanecer na “bolha” era um culto ao comodismo. Mas conheci o grafite, o hip hop, a capoeira e perfurei minha primeira bolha. Frequentei periferias, conheci a Ilha do Marajó, dancei o carimbó, frêvo, maculêlê, dança-afro, puxada de rede, samba de roda. A maioria das bolhas estouraram nos meus pés, calejados pela ginga da liberdade, pelo batuque africano, pelo ritmo brasileiro.

Acho que a partir de 2002, quando voltei da Inglaterra e aconteceu uma ruptura familiar, a separação drástica de meus pais, comecei a perceber que nunca mais pararia de perfurar as bolhas ou que elas simplesmente estourariam sozinhas. Me tornei adulta, me casei, ganhei o título de mãe e com ele as honras das dores do parto, da amamentação, do recolhimento social, do início das profundas marcas da vida. Não sei se as marcas vêm sendo só em mim, mas também nos oceanos manchados por óleo, nas nascentes contaminadas por mercúrio, nas terras envenenadas por agrotóxicos, ou nas cabeças ambulantes bombardeadas por funk, gospel, tecno-brega, sertanejo ou Pablo Vittar!

Uma lembrança bizarra, depois do nascimento do meu segundo filho, foi a cena de sexo explícito na televisão de uma reportagem sobre a “Parada Gay”, na Avenida Paulista. Também me ressinto com as agressões machistas e misóginas que sofri de pessoas do meu convívio familiar. “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”, disse Cássia à Nando em “Relicário” (2012). Uma anestesia geral tomou conta ou sempre acometeu  boa parte da sociedade.

O sitcom “Sai de Baixo” (nos fins dos anos 90) já nos trazia uma prévia sobre a mirabolante realidade de uma burguesia cega e embebida de sua própria ignorância, um prato cheio para o humor negro, ou neste caso, o sarcasmo dos brancos. Este recorte cultural da minha geração é o reflexo, talvez do conturbado momento artístico que vivemos. Percebo livrarias, bibliotecas, teatros, museus e cinemas sendo sucateados, enquanto clínicas de estéticas e igrejas se erguem como faraônicos centros de lazer. Será que algo se perdeu entre uma “Parada” e outra? Será que militamos demais e nos esquecemos de investigar nossas origens, nossa verdadeira História? Será que a tecnologia está substituindo a poesia ou fui eu quem envelheci rápido demais?

Para finalizar deixo aqui o diálogo com meu filho que disse ser bem antiquado ter vivido no meu século, afinal nem existia computador, celular ou wi-fi. Respondi a ele que tinha razão, mas na minha adolescência ou, no meu século, quando estive na Chapada dos Veadeiros, abrimos com facões suas trilhas e usufruímos de um lugar ainda intocado, o que acredito que não será o mesmo em sua adolescência, pois é possível que tenha de enfrentar “filas indianas” para chegar até onde cheguei. Diz o velho ditado: “bebe água limpa, quem chega primeiro” ou preserva suas nascentes.

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Wés Gama, artista de rua, residente em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros promove a arte democrática do grafite nas ruas da cidade. Obra “A terra me come”, técnica mista sobre papel, 2014.

Caminhar Juntos

“No sábado (26/10) foi divulgado um documento de 33 páginas com propostas como a ordenação de homens casados para atuar na Amazônia, a criação do ‘pecado ecológico’, o respeito à religiosidade não cristã indígena e o estabelecimento de um ‘observatório pastoral socioambiental’. Além disso, o documento mirou no modelo de desenvolvimento da região destacando a presença de extrativismo ilegal e desmatamento e adoção de projetos econômicos que prejudicam o meio ambiente, com respaldo de governos”. (Revista Fórum 28/10)

Lendo a matéria sobre o Sínodo* da Amazônia encerrada no domingo passado (27/10) com a missa do Papa Francisco, no Vaticano, de súbito me veio imagens do filme “Brincando nos Campos do Senhor” (1991) do diretor brasileiro Hector Babenco com roteiro do francês Jean Claude Carrière, que assinou clássicos como “A insustentável leveza do ser”, “A Bela da Tarde” e “O discreto charme da burguesia”. O filme é uma Bíblia para quem não entendeu o histórico conflito entre o Capitalismo Desenfreado X Equilíbrio Ecológico. O longa é uma obra-prima do cinema, embora realmente longo, não o seria se fracionado em episódios como vem acontecendo com as séries televisivas contemporâneas. A postura ética de cada personagem se caracteriza por suas atitudes, ideologias e experiências sensoriais. Embora cada qual se sucumba aos pecados capitais, seja pela carne, seja pela matéria ou pelo poder, o resultado é um conflito que emerge a partir de mentiras, falta de caráter e segundas intenções.

Atualmente declarar que a Amazônia é uma área restrita ao Brasil seria uma blasfêmia. Quem ainda não sabe que toneladas de minérios, madeiras, ervas medicinais escoem em canais guiados por franceses, noruegueses, alemães, norte-americanos e tantos outros do lado ocidental?! Se a moda dos ambientalistas de plantão pegasse, uma Amazônia tombada como Patrimônio Mundial de Todos os Seres Vivos, não seria má ideia, mas sabemos que os indígenas ainda trocam sementes por facões, cocares por espelhos e ouro por cachaça. Mal da síndrome de vira-lata de todo brasileiro que se preza e que também faz trocas ou compras em Miami, deposita seu suado dinheirinho nas Ilhas Caymã e alegam que os filhos terão melhor Educação no exterior, porque a nossa está muito atrasada, no entanto investem tecnologias para cultivar monoculturas em solos nacionais.

Pobre de nós, humanos: índios, negros, brancos, pardos, mulheres (bom lembrar que o Sínodo da Amazônia também previu uma maior participação das mulheres na Igreja Católica), pois carecemos de vozes divinas que nos orientem porque não podemos assumir sozinhos nossos erros, a culpa é sempre do Diabo. Por isso vos digo que só a Arte salva, meus irmãos e minhas irmãs! Creiam nisso! Sensibilizar a alma se faz através da cultura, da Arte, da construção criativa, do amor ao conhecimento! Não se enganem, o ‘resto’ é só distração! Que Nossa Senhora nos proteja de todo nosso próprio mal! Amém!

Ilustra o texto obra da artista alemã Eleonore Koch (1926-2018), única discípula do consagrado artista italiano, Alfredo Volpi (1896-1988).

*Sínodo – do latim Sinodu, do grego Synodo; syn juntos, hódos caminho

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Eleonore Koch, técnica mista sobre papel

Estamos de olho

O artista Francisco Galeno residente há anos no município de Brazlândia, nasceu na Parnaíba, Piauí. A sua infância teve o velho enredo da criança pobre que inventava seus próprios brinquedos e solucionava com criatividade experimentos e saberes populares com muito pouco ou quase nada. Em suas obras estão presentes os elementos que rememoram suas origens e seu berço criativo como a referência quase constante da pipa, ou seu formato geométrico, a lamparina de zinco que além do objeto é multiplicada na pintura, como também o são os carrinhos feitos com lata de sardinha e incrementados pelos carretéis de linha referencia maior ao ofício de costureira de sua mãe e mais símbolos dos costumes e tradições regionalistas do imaginário popular, indígena e mestiço tais como escudos geométricos, lanças, flechas, ganchos, anjos, santos e carrancas. Tudo é desenho, pintura e objeto para este fabuloso artista que desenvolveu seu talento quando se mudou para Brasília em meados da década de 70. Galeno se destacou em mostras nacionais coletivas e individuais e fixou seu atelier nas proximidades da capital do Brasil onde desenvolveu projetos e criou subsídios para a promoção e divulgação de seu trabalho.

Executou a intervenção da Igrejinha de Oscar Niemeyer, em 2009, onde honrosamente foi convidado para substituir a pintura do altar, pelo então artista Alfredo Volpi.  O afresco de Volpi que foi praticamente destruído para poder ser restaurado, foi magistralmente substituído por uma Nossa Senhora de Fátima sem rosto, ela tem uma pipa no lugar das mãos e o rosário é um carretel de flores. A coroa também é decorada com flores e nas laterais, predomina a cor azul bem forte. Pipas e flores foram criadas para representar a alegria das crianças que teriam avistado a Virgem Maria, em Fátima, Portugal.

Nos anos 90 a prefeitura de Brazlândia recorreu aos desenhos de um dos seus moradores mais ilustres, o artista Francisco Galeno, para realizar mosaicos em pedra portuguesa no calçamento do entorno do lago, no centro da cidade (www.moisaicosdobrasil.tripod.com\id93.html). Galeno também foi convidado pelo time de futebol do Município para realizar o desenho da camiseta oficial do clube.

Com um currículo invejável este nordestino acolheu sua cultura como profissão e é reconhecido internacionalmente como “curumim arteiro”. Um dos mais expressivos expoentes da Geração 80, Galeno diversificou a pintura com uma técnica peculiar e temas que abrangem a brasilidade e o nacionalismo. Infelizmente sua obra não está em alguns acervos de instituições goianas, como o Centro Cultural UFG, que abriu recentemente uma pequena mostra da Geração 80. Há de se pontuar as falhas na cultura brasileira assim como também é urgente a atenção às instituições que devem ser guardiãs da memória e do patrimônio nacional. Afinal como um artista tão próximo da capital de Goiás e da importância artística de Francisco Galeno não tem uma obra integrada ao acervo goiano e por quê? Estas e outras lacunas na História da Arte Brasileira são questões a serem levantadas principalmente quanto aos investimentos e administração das Instituições Brasileiras de Cultura. Estamos de olho!

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Francisco Galeno, objeto-escada (em detalhes), dimensão 250 x 23 x 15 cm, acrílica s/ madeira, carretéis, lamparina, objetos de madeira, 2015.

A Morte

No dia 05 de Outubro o artista baiano, Tarcísio Veloso realizou um bate-papo para nos contar sobre sua inspiração da mostra “A vida é sonho”. Entre a declamação do poema do espanhol, Calderón de La Barca e a proposta ou a provocação da questão que aborda o tal conflito da vida, Tarcísio interpelou: “O que você faz para não ir para  inferno”?

Do ponto de vista Religioso me parece ambígua certas respostas, pois que nossas falhas, conscientes ou não, hão de ser penalizadas aqui mesmo, nesta vida, nesta dimensão, nem no Céu, nem no Inferno, mas exatamente aqui e agora, na Terra.

Do ponto de vista Filosófico entraremos em mérito da Ética da conduta sobre Direitos e Deveres Humanos. Praticar a Verdade, independente se ela é boa ou má seria o caminho mais acertado para não irmos ou não transformarmos nossa vida num inferno.

O Canal brasileiro, Curta! reexibiu o Programa Caixa-Preta (2018), que tem como sinopse: “Qual mensagem você deixaria em uma caixa-preta para as futuras gerações”? A pergunta foi feita para pensadores de diversas nacionalidades da Área de Humanas: Amós Oz, Carlo Rovelli, Eduardo Giannetti, Gilles Lipovestky, Jan Gehl, Leonardo Paderno, dentre outros. Suas respostas lúcidas e verdadeiramente convincentes são uma reflexão para a retomada à um Neo-Iluminismo, onde o repensar dos valores na construção do saber, da diversidade e da empatia uns com os outros seriam prioridades.

Meu filho de 11 anos me fez uma pertinente indagação. Ao passarmos em frente à uma dessas igrejas evangélicas, ele reparou nos imponentes pilares que sustentam a fachada em estilo greco-romano e curiosamente replicou: “Mãe, por que eles imitam a arquitetura grega, que era politeísta, para construir igrejas monoteístas”?

O plágio já se tornou uma virtude do ser humano em benefício ao Diabo, mas ninguém percebeu ainda. No entanto, as ambiguidades da Bíblia podem ser bastante interessantes quando bem traduzidas e expressadas, principalmente no Velho Testamento:

“A vida é um absurdo! Sorte penosa foi criada para cada homem e, jugo pesado foi dado aos filhos de Adão desde o dia que saem do ventre materno até o dia em que voltam para Mãe de Todos. O objeto de suas reflexões e o temor de seu coração exprimem a espera pelo dia da morte”.

Em Eclesiástico, 40 (Editora Pastoral, @Paullus , 2013) esta interessante passagem, cuja literatura nordestina de Ariano Suassuna reavive em “O Auto da Compadecida” é interpretada pela magistral atuação da atriz, Fernanda Montenegro, na personagem de Nossa Senhora, Mãe de Deus:

“É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam por fazer o que não presta. Mas é sem querer. É só por medo. Medo de muitas coisas: do sofrimento, da solidão e no fundo de tudo, medo da morte”.

Ao Tarcísio, responderia que o que poderíamos fazer para não ir ou estar no inferno seria enfrentar nosso medo da Morte e para as próximas gerações minha mensagem seria para aprendermos melhor em como enfrentar nosso medo da Morte!

Pois que: “Na (Mãe) Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Antonie Lavoisier)!

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Tarcísio Veloso, “As flores”, 100 x 90 cm, óleo sobre tela, 2019

Tempos Distópicos

No século XVIII o livro célebre do escritor alemão Goethe, “Os sofrimentos do Jovem Werther” (1774) viria influenciar e manifestar o suicídio em série entre jovens que acabariam de vivenciar o surgimento do Iluminismo na sociedade, período onde este surto coletivo levaria o mesmo nome, Síndrome de Werther. O best-seller vingaria a sina de sua história à uma parte dessa geração que morreria por amor ou por qualquer outro motivo de desequilíbrio emocional. A Literatura sempre teve um impacto direto com a sociedade, principalmente quando o único meio de comunicação era a leitura.

Dois séculos depois, o livro do inglês Anthony Burgess cairia nas graças do diretor norte-americano, Stanley Kubrick para a produção do clássico antiutópico, “Laranja Mecânica” (Clockwork Orange). O livro disserta sobre a psicopatia coletiva, a violência, o sexo, as drogas e intervenção de métodos científicos controladores. Embora a comoção do público sobre o filme e, consequentemente sobre o livro tenha sido bastante repulsiva, algumas partes da história foram inspiradas em fatos reais, como o estupro coletivo. O caso sobre quatro soldados americanos, na II Guerra Mundial, que violentaram uma mulher casada, que também teve de submeter  à um aborto, é verídico. O impacto do filme “Laranja Mecânica” foi tão grande que casos semelhantes de violência se refletiram na sociedade ao ponto do escritor repudiar o próprio livro.

Se a aparição do personagem do Coringa não tivesse acontecido na década de 40, eu diria que ele seria o alter-ego na versão nórdica do personagem principal do livro inglês, o Alex (A-lex, a-lux, o sem luz). O poeta inglês, Philip Larkin assim descreveu o escritor conterrâneo:

“[Anthony Burgess] deve ser uma espécie de Batman das letras contemporâneas”.

De fato, o poder que a Literatura e as Artes em geral exercem na sociedade é imediato e cíclico. Como cada cultura vive sua realidade particular é compreensível que o norte-americano tenha sua versão orange, oranga, ou ‘orangotanga’ da história, quem sabe até mais ácida, brutal e bestial que as outras. Repensar estereótipos norte-americanos como “Jason Voorhess”, “Freddy Kruger” e “It – A Coisa” nos remete ao possível terror de atitudes semi-humanas.

A relação “Laranja Mecânica” (1972) X “Coringa” (2019) implica mais sobre o comportamento contemporâneo que suas semelhanças psicóticas. Meio século separam dois cult’s do cinema e nos deparamos ainda com o reflexo de uma realidade descontrolada, distópica ou até pior. Por que, afinal tanto interesse do público em temas de terror e suspense? Por que ainda é tão atraente esta “síndrome de cluster”, o “efeito manada”, essa onda contagiosa de violência? A vida imita a Arte, ou a Arte imita a vida?

Fica a dica de dois clássicos para assistir e refletir sobre a sociedade contemporânea. O desenho em técnica mista do artista goiano Pitágoras ilustra o post.

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Pitágoras, técnica mista sobre papel, 2018

E o que será, que será?

Ninguém mais com a doçura do pernambucano, Gilberto Freyre para descrever a história da formação cultural brasileira. Ele descobriu entre escritas certas por linhas tortas, que a rapadura é doce, mas não é mole não e também que sua matéria-prima produz a cachaça, o combustível e a energia vibrante “de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta” (Milton Nascimento). Em comemoração ao Dia das Crianças e à Padroeira do Brasil, antecipo a data 12 de Outubro para prestar minha homenagem às futuras gerações e à Santa “barroca” (aqui o termo do estilo apenas como um trocadilho), que abençoa esse povo e seus mais de 200 milhões de corações que batem em ritmo tropical.

Freyre descreve com sensatez como as raças ou etnias se encontraram, se confrontaram e se miscigenaram sem dramatizar ou romantizar a História. Relata a verdade, a moralidade e a hipocrisia da natureza humana em busca da sobrevivência, mas principalmente em busca do prazer e do poder. Disserta o paraíso dos colos coloridos das mulatas, de seus batuques, de suas comidas e da prioridade de seus seios fartos de leite para matar a fome dos bebês das Sinhás. “As amas de leite são as mães pretas que criaram o país e forjaram o povo brasileiro às custas de si mesmas e de seus filhos” (Conceição Freitas, via Metrópoles, 12/05/2019). Se por volta do século XVIII, uma segregação religiosa para os negros se constituiria com a insurreição da imagem da Nossa Senhora dos Pretos, a autoestima de um povo sojigado e ferido ousaria estar protegido por uma Santa de sua cor. Uma espécie de orixá ou deusa, que alimentaria as forças ocultas dos negros mandingueiros, das frágeis mucamas, das escravas do sexo, das amas de leite e dos quilombolas. O caso é que esta imagem feminina ofuscaria a agressividade da figura patriarcal de uma sociedade que cresceria e firmaria no imaginário escravocrata a delicadeza da mulher negra que cuida, amamenta, protege e abençoa seus fiéis. Se fosse pelo acaso ou pela coincidência (que em verdade, não existe), eu poderia dizer que a obra do artista, Tarcísio Veloso tem tudo a ver com o tema deste texto.

Na brincadeira de criança, situada num salão aristocrático pode se constatar toda a história brasileira, além-mar, dentro de um “Barquinho”. Em primeiríssimo plano está uma criança negra, bem vestida, bem penteada, bem brava. Em segundo plano mais duas crianças brancas e uma outra negra bem amedrontada, logo atrás da criança brava, bem penteada. Aí, nesta cena, um pequeno retrato escravocrata da sociedade brasileira, uma precoce babá, que cuida dos filhos da patroa e também do irmão mais novo. Eles brincam dentro dum lindo barco, cujo veículo velejado por pescadores, em 1717 pescou a imagem da Santa milagreira, a Padroeira do Brasil, a tal Senhora que apareceu misteriosamente, nas redes do Vale do Paraíba. O óleo sobre tela do artista baiano dimensiona os sentimentos de um povo ainda tão imaturo, mas carregado de feridas, tristezas e esperanças. Navega, navega barquinho, nas margens da imaginação, nos sonhos possíveis da realização, da bravura, da braveza das crianças que ainda se inspiram na aparição de um milagre, de um messias, de uma Nova Era.

Era? Foi? Será?

“E o que Será, que Será?” (Chico Buarque)

Feliz Dia das Crianças! Salve Nossa Senhora Aparecida!

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Tarcísio Veloso, “Barquinho”, óleo sobre tela, 180 x 160 cm, 2019

Homem-Primata

Estudos recentes na área de Biologia tentam comprovar que os animais se emocionam como nós.  O inglês Jonathan Balcombe coleciona flagrantes de prazer entre animais e se baseia em estudos científicos sobre o cérebro dos vertebrados. “O prazer está ligado a uma região conhecida como núcleo acumbente, que nós humanos, temos em comum com outros animais. Isso mostraria que esses bichos sentem prazer de forma parecida com a nossa: Há indícios na expressão facial e nos movimentos corporais. Mesmo que seja difícil humanizar as emoções animais, as pesquisas de Balcome têm interesses que vão além da Ciência.” (Gabriel Chalita, Filosofia e Vida, Editora FTD).

No início deste ano foi decretada, em decisão histórica a proibição do encarceramento de pássaros em gaiolas, na Índia. Em Junho, foi aprovada a lei, que desde 2015 corria no Parlamento do Canadá, sobre a proibição da captura e criação de cetáceos como baleias e golfinhos em cativeiros. Biografias como a da norte-americana, Margaret Howe Lovatt “The girl who talked with Dolphins” (A garota que falava com Golfinhos) ou “Gorillas in the Mist” (Na Montanha dos Gorilas) sobre a vida da zoóloga Diane Fossey, são exemplos concretos da relação dos animais e suas surpreendentes reações emotivas.

Mas o que me motivou mesmo relatar e tentar fazer uma conexão sobre este tema à Arte foi um filme sui generis que assisti semana passada. Com um formidável roteiro e atuações convincentes, o cult belga “The Square: a Arte da Discórdia”(2017) é um filme de cabeceira para amantes da arte contemporânea e assíduos questionadores do comportamento humano. Entre o caos de viver em sociedade às tentativas constantes de altruísmo, a vida do curador de um famoso Museu é constantemente colocada em xeque nas inusitadas situações cotidianas.

A cena-inspiração do filme para este texto foi a de uma performance,  onde um artista encarna a personalidade de um primata e invade um jantar black tie provocando um audacioso desconforto entre os convidados. A princípio o artista-ator chega em movimentos brandos, cuidadosamente articulados, semelhante aos gorilas das montanhas, observando com curiosidade a elite intelectual da festa. A troca de olhares com uma dama, cuja idade poderia ser a sua, romantiza um curto momento de distração. Mas o clima começa a esquentar quando o performer interpreta a disputa pelo território e escolhe um artista do Museu para expulsá-lo da mesa do jantar. O curador intervém para finalizar o ato, mas o performer continua. Ele sobe na mesa, quebra os copos de cristais, os pratos, derruba as cadeiras e por fim, inicia sua busca pela fêmea. Puxando pelo cabelo e a arrastando pelo chão para possuí-la sem o seu consentimento, os convidados são tomados pela fúria e todos os homens da festa atacam o artista-animal!

Moral da história: a vida imita a Arte, a Arte imita a vida. Até onde um homem pode se sentir um primata? Instintiva ou intuitivamente ainda somos controlados pelos sentimentos e pelo comportamento coletivo. Esta cena sensacional me ativou um clique! “Cada pessoa sente prazer de um jeito. Imagine se compararmos espécies diferentes”, disse em entrevista para a Revista Época (2010), Mauro Lantzman, veterinário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O filme traz outras surpresas, como a jornalista que entra na vida do curador e tem como pet uma macaca que gosta desenhar! Penso que ainda somos todos um pouco primatas, ou não?

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Cruzamento de via ecológica, no Município de Goiânia

Que venha a primavera

Tem curiosidades que só a Arte se encarrega de nos ensinar! Fui descobrir que Alexandre Dumas, o escritor francês do clássico “Os Três Mosqueteiros” (1844) era negro, no filme do diretor Quentin Tarantino, “Django” (2012), numa cena memorável, onde o caçador de recompensas alemão (Christoph Waltz) e o desalmado senhor feudal norte-americano (Leonardo DiCaprio) travam um diálogo mortal. Dumas foi filho do general de exército de Napoleão e escreveu entre outros épicos que marcaram a literatura romântica do século XIX, “O Capitão Paulo” e “O Conde de Montecristo”.  O escritor é um dos retratos hiper-realistas das pinturas do artista baiano, Tarcísio Veloso, que esmiúça cada detalhe de seus personagens para lhes dar mais expressividade e força representativa.

Inspirado pelo poema do espanhol Calderón de La Barca, “A vida é sonho” (1635), o artista investe na atmosfera romântica e resgata a beleza e cuidadosa estética do renascimento europeu. Mas a sutileza de suas obras é só fachada para o poderoso discurso crítico sobre a sociedade contemporânea. Ele compreende que assuntos e diálogos como o que foi proposto por Tarantino, em Django, são relevantes em épocas sombrias de equívocos à valores morais e éticos da sociedade. São borboletas, beija-flores, rosas e tulipas que adornam corações hiper-realistas, espiritualizados, sagrados, laicos , também uma coroa de flores que adornaria, como diria Renato Russo tanto “Meninos como Meninas”.

O artista goiano, Avi Neto não só adorna sua personagem com flores como a integra no lugar da cabeça de suas figuras femininas. A Senhora Peony é esguia, sensual e carrega em seus pensamentos, frágeis e suntuosas pétalas. A peônia é uma flor típica do Hemisfério Norte e tem propriedades medicinais, curiosamente, a cultura chinesa e grega a utilizavam para rituais de cura. Para os esotéricos os efeitos mágicos da flor eram direcionados aos tratamentos alternativos. Avi passou anos estudando em Toronto, no Canadá onde concluiu sua graduação e se dedicou profissionalmente nas áreas de arquitetura e urbanismo.  Lá se deparou com a realidade de um país desenvolvido, resgatou elementos do estilo realista e compôs à sua obra figuras fantásticas saindo de sua zona de conforto para recriar uma particular realidade fantástica. Assim como a peônia o trabalho do artista está carregado de magia, seja pelos inusitados cenários de seus personagens, seja pela organicidade de seus temas.

Dois artistas que se baseiam no estilo do Realismo se expressando com diferentes histórias e trajetórias de vida. Abraçamos a ideia de ambos e a compartilharemos com você no próximo dia 19 de Setembro a partir das 20h, a mostra “Realismos Particulares”. Finalizo o texto com pouco mais da poesia cantada de Renato Russo, “Perfeição”:

Venha, meu coração está com pressa. Quando a esperança está dispersa. Só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta. E vem chegando a Primavera. Nosso futuro recomeça. Venha, que o que vem é Perfeição“.

Que venham mais flores. Que venha a Primavera! Esperamos você!

tarcisio e aviTarcísio Veloso, “Maria com Flores”, 2019  –  Avi Neto. “Hora do Chá”, 2019