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O Papa não é Pop!

Uma reportagem de 2018 revelou o arquivo de fotos do artista alemão Martim Dammann que colecionava registros de soldados nazistas do Terceiro Reich com vestidos, saias, lingerie e bijuterias, muitos deles abraçados com colegas de farda.

“É verdade que na coleção de Dammann há também fotografias de soldados americanos e britânicos nas Guerras Mundiais, com roupas femininas. Tem até evidências de crossdressers desde as guerras napoleônicas. Mas até onde ele pode averiguar, eram mais frequentes nas tropas de Hitler”.

Entre o vai e vem de teorias e hipóteses à respeito da liberdade de expressão e licença poética dos soldados sob a justificativa de que era necessário manter um exército na sua melhor forma física e mental possível, “o controle das autoridades era de qualquer jeito limitado, pois mais fácil era um recruta fazer o que bem entendesse, sem correr o risco de represália”. (Jornal Folha de São Paulo 30/11/2018).

O ser humano é uma espécie a ser estudada sem limites. Guerras, Batalhas, Revoltas, Cruzadas, Conflitos em nome de Deus, da ordem e do progresso foram travados para o domínio de territórios, riquezas minerais e naturais, supremacia e higienização de raças, mas ao que tudo indica no final das contas, é que a fragilidade e vulnerabilidade se estabelece em qualquer clã ou vitória que seja. Na última quinta-feira, o Papa Francisco se manifestou em defesa da união cívil entre homossexuais, confirmando seu discurso humanista, desprovido de preconceitos e tabus. Não que a Igreja Católica apoie tanto assim essa ‘heresia matrimonial’, afinal a família de bem ainda é papai e mamãe (mesmo que dentro do armário), mas, porém, contudo, todavia, mantendo as aparências, tipo aquela famosa propaganda de margarina, lembram!? A própria Igreja Católica financiou, durante a escravidão traficantes de navios negreiros para manter a mão-de-obra escrava das construções de templos faraônicos em Salvador, Belém, Manaus, Ouro Preto, Rio de Janeiro, São Paulo… Isso sem citar a sede do Vaticano, só que daí é um outro assunto!

Admitir os erros e se redimir já é um grande passo para a Humanidade. Perdoar o aborto, aceitar a união entre homossexuais, criticar a soberba da Igreja, defender as reservas ecológicas entre outras pautas polêmicas, vão um tanto contra a demagogia popular. O Papa definitivamente não é pop. E assim cantava a banda gaúcha, Engenheiros do Havaí:

“Toda catedral é populista.

É macumba pra turista.

O Papa é pop.

O pop não poupa ninguém”

Lembrem-se que na época, o Führer Adolph Hitler era bem pop! Bem popular e bem mal!

Cuidemo-nos de todo o mal pop! Amém!

Ilustra o texto obra do artista carioca Fabio Carvalho. A produção do artista é o resultado de uma reflexão sobre elementos que constituem as expectativas e representações de gênero e sexualidade, “Macho Toys”, mista sobre tela, 25 x 30 cm, 2011.

Yellow World

Quem já foi mãe de primeira viagem se recordará dos constantes alertas dos pediatras para dar banho de sol no bebê recém-nascido. A falta dele pode causar a icterícia que é uma pigmentação amarelada por níveis elevados de bilirrubina no sangue.

Quem conhece São Paulo, a cidade da garoa, a cidade cinza, a selva de pedra brasileira, já notou a irrelevância do Sol na vida dos cidadãos paulistanos. A urgência do trabalho, os arranhas céus, o mergulho em escritórios fechados, a cólera pelo dinheiro e o empreendedorismo como referência mundial.

Não à toa que a maior dupla de artistas brasileiros, OsGêmeos tem como principal característica de seus grafites os homenzinhos amarelos. Personagens inventados para representar um núcleo de habitantes (ou quem sabe, todos nós), que de uma forma ou de outra somos obrigados a nos afastar da luz do Sol por motivos corriqueiros, por falta de tempo, por indução, por colonização. A dupla acaba de abrir a mostra “Segredos”, na Pinacoteca de São Paulo, uma panorâmica criativa da trajetória dos dois irmãos, com obras inéditas sobre uma carreira colorida e cheia mistérios.

A banda O Rappa também fez uma canção ao homem amarelo, no estilo carioca:

O Homem Amarelo do Samba do Morro
O Hip Hop do Santa Marta
Agarraram o louro na descida da ladeira
Malandro da baixada em terra estrangeira

A salsa cubana do negro oriental
Já é ouvida na central

Que pega o buzum
Que fala outra língua
Reencontra subúrbios e esquinas”

Quem nunca ouviu o termo “oh, seu amarelo”, numa forma pejorativa para designar aquele que não é nem branco, nem negro, nem índio, ou seja, um vira-lata! A burocracia inventou um termo mais sutil para cadastrar este novo tipo de “raça”, os pardos!

Definir em termos e conceitos o que cada artista pretende com sua arte é desvendar seus segredos e mistérios. É tentar enxergar a origem de suas sombras e sua luz. Cada artista guarda para si e consigo uma solidão criativa, aquela que, “sem querer querendo” faz parte do inconsciente coletivo. Ali, na intuição, na produção e na execução o artista materializa o que está incubado nas profundezas do ser, na dor, na realidade, na verdade! A trajetória do artista goiano, Siron Franco não é diferente.

Quem nunca ouviu sobre as traumatizantes histórias vividas pelo artista em sua infância, quando presenciou uma família inteira ser degolada por assassinos na mesma rua onde foi encontrado o Césio 137. Uma atmosfera amarela, quase sofrendo de icterícia, sedenta pela luz do Sol. São monstros, seres híbridos, couros e sangue de animais, números de calibres de armas, mulheres madonas, ou quase trans. Um mundo envolto de criatividade underground, mas extremamente bem executada, com técnica e referências de grandes mestres da subjetividade, como Francis Bacon, Picasso e Ana Maria Pacheco. Um mestre da pintura!

Quem nunca vivenciou o mundo amarelo?

Excuse

Uma polêmica crítica publicada em Agosto, pela Doutora em Antropologia, Lilia Moritz Schwarcz sobre o musical “Black is King” da pop star Beyoncé, causou mal-estar entre celebridades negras brasileiras, o que impulsionou um pedido de desculpas da Professora, pelo tweeter. No musical, a cantora americana enfatiza uma sofisticada superioridade negra, esbanjando brilho, cores, estampas, coreografias e hit o que sempre foi de costume da diva pop em seus videoclipes. No entanto, o artigo do jornal aspirou um certo tipo de recalque da classe branca erudita e por pouco não vira um conflito diplomático. Mas o episódio deu margem para uma breve reflexão do quanto a luta racial e o recalque recíproco ainda são tão recentes quanto na época da escravidão!

Quem nunca leu ou assistiu filmes sobre sinhazinhas enciumadas pelos fartos seios e largas ancas de suas escravas, os quais enlouqueciam seus cônjuges. Castigos, torturas e até mesmo assassinato eram comuns e velados. Ou então sobre bravos e corajosos escravos que se apaixonavam por suas sinhazinhas ruivas, ou loiras e chegavam a planejar fugas para levá-las aos mais longínquos quilombos da região. Enfurecidos, os noivos brancos saíam a uma caçada mortal em busca do atleta de ébano que enfeitiçara a donzela. Mas o ciúme também se dava de forma inversa, as negras escravas peritas nas ciências ocultas, rogavam pragas às suas patroas, invejando-as, não apenas pelo status social que as desprivilegiava, mas pela cor dourada de seus lisos cabelos de ouro, ou a textura branca de sua pele e o rosado de suas bochechas. A própria Xica da Silva castigou dezenas de suas escravas por serem mais formosas que ela. Gilberto Freyre, relata em “Ordem e Progresso”, depoimentos de vários membros da sociedade brasileira entre o século XIX e XX, perguntas capciosas como “Você aceitaria que sua filha ou seu filho se casasse com pessoa de cor”? Respostas de todo tipo surgiram e uma delas, a que mais me chamou a atenção, foi negativa, justificando que “se nem as próprias negras se aceitam negras, alisando e pintando seus cabelos de loiro, passando enorme porção de pó de arroz no rosto para embranquecerem, por que eu as aceitaria?”

Olhe, esse assunto aqui dá pano pra manga. De fato, sempre existiu uma moda onipresente para influenciar a opinião pública. Se o glamour, o status, o dinheiro está nas mãos dos brancos, porque não ser como eles? Entendemos que, nem tanto a intenção da Antropóloga, quanto a da cantora Beyoncé foi causar qualquer mal-entendido, mas fica a pulga atrás da orelha, por que não conseguimos ou não queremos resolver as questões raciais? Antes de serem raptados e escravizados pelos europeus, as tribos africanas conservavam costumes e tradições. A cultura das tranças identificava as tribos, origem, idade, a posição social, o estado civil, ou problema pessoal. Há um penteado específico para cada cerimônia, como casamentos ou eventos religiosos. “Aqui no Brasil e em outros países da América Latina como Colômbia, no período da escravidão elas foram usadas de maneira muito inteligente, como forma de comunicação entre os negros. As mulheres negras tinham o costume de trançar seus cabelos e faziam os mapas na cabeça uma das outras, desenhando com as tranças para encontrar o caminho nas fugas para os quilombos. A simbologia da resistência é muito forte nas tranças nagô”. (Via www.laspretas.com.br)  

Trançando conhecimentos daqui e dali começamos a refletir sobre questões tão contemporâneas quanto milenares. A representação das tranças vem desde o Egito Antigo, 3.500 a.C. O cabelo tem um significado místico em diversas culturas, há o culto da força através do comprimento dos fios, como é descrito na própria Bíblia na história de Sansão e Dalila. Ao chegarem no Brasil os escravos tinham seus cabelos cortados, como uma primeira forma de dominação e enfraquecimento de sua autoestima, mas nem por isso deixaram de lutar, desenvolveram a capoeira como artifício de treino e fuga, aplicaram seus conhecimentos nas tranças mapas, aprimoraram feitiços e se miscigenaram. Tomara que essa troca cultural histórica, embora desumana e sangrenta, traga sabedoria e muitos pedidos de desculpas, mas que o outro também saiba aceitá-las com sabedoria e educação!

Ilustra o texto escultura em resina com pó de ferro, do artista goiano Gilvan Cabral, pioneiro no Centro-Oeste em esculpir negras na madeira do pau-brasil.

Rivais

Pela etimologia, do latim clássico, rival vem de “ribeiro, arroio, rio” ou “aqueles que compartilham o mesmo rio”. Rivalidades à parte temos de admitir que todo rio corre para o mar. Na virada do século XIX para o século XX, duas grandes rivais e ícones imortais da moda, a italiana Elsa Schiaparelli e a francesa Coco Chanel travaram uma corrida ao podium do mundo fashion. A primeira experimentou ousadias das Artes Plásticas, se afirmando com um estilo surreal e exótico. Aclamada pela classe artística, se tornou uma fugaz divulgadora da obra de Salvador Dalí. Já Chanel criava roupas funcionais para a mulher moderna, num estilo clássico, recatado e quase monocromático. Cada uma seguiu seu caminho, mas no mesmo rio e com o mesmo objetivo, inovar.

E por falar em moda, duas revistas referências acabam de lançar, simultaneamente, capas arrebatadoras. A Vogue Brasil ousou um ensaio com a polêmica Pablo Vittar, um espetáculo de androgenia, drag style, queer, sadô e outras ‘cocitas más’! A Elle Brasil lançou, após anos sem a versão impressa, capas imperdíveis com celebridades negras como a cantora IZA, o músico Gilberto Gil, a escritora Djalma Ribeiro e a cafuza Katú Mirim. Referências unânimes em moda, as duas revistas rivais podem ora atrair, ora repelir seus espectadores.

Na História da Arte rivalidades eram comuns entre os artistas, desde os expressionistas aos impressionistas, dos surrealistas aos cubistas, ou dos dadaístas aos modernistas. No Brasil, sempre existiu um apartheid entre a frente artística paulista e a carioca. O circuito cultural que nas primeiras décadas do século XX até o início do século XXI se restringiu à estas duas metrópoles, atualmente vem se expandindo (em suas devidas proporções) para outras regiões do país, onde também procede a rivalidade regionalista. Essas diferenças entre o processo produtivo e comercial de cada artista está intimamente ligado à postura ideológica e fidelidade à sua pesquisa.

Agradando ou não à gregos, goianos ou romanos, os artistas são imbatíveis em se rivalizarem, mesmo porque seu trabalho é árduo e solitário. “Toda criação é resultado de uma profunda solidão”. Não há como materializar uma ideia enquanto ela ainda está no plano ideológico onde só o artista enxerga o tom das cores, as proporções das formas, a textura da tinta, a gesticulação corporal. E talvez, este seja o maior desafio dos artistas, descobrirem quem estará a sua altura ideológica para assim, se rivalizarem no plano material, como num fluxo que segue o rio!

Tatiana Potrich entre obras dos artistas goianos Marcelo Solá e Pitágoras Lopes. Ensaio fotográfico realizado pela Guta Guerra em comemoração aos 40 anos da Potrich Galeria.

Quase tudo que é imenso lembra o mar, 2015

Por Andréa Franzoni Tostes

“O 34º Panorama de Arte Brasileira, intitulado Da pedra, da terra, daqui, propõe uma reflexão sobre o passado com o objetivo de avaliar o presente. Na exposição, o Brasil é entendido a partir de seu território e dos efeitos de sua ocupação pelo homem.

Os curadores Aracy Amaral e Paulo Miyada lançam aos seis artistas convidados uma pergunta fundamental: o que é o Brasil?

Em resposta à provocação da curadoria, o goiano Pitágoras Lopes apresenta seis pinturas sobre telas de grande formato nas quais reverbera a hecatombe provocada pelo choque entre passado e futuro, apontando para o desastre das civilizações. As pinturas sem título compõem a série Quase tudo que é imenso lembra o mar, executada especialmente para a exposição.

Nessas telas, o artista expõe uma visão do passado marcada por referências diretas aos sambaquis e às esculturas conhecidas como zoólitos exbibidas no Panorama. Isso se dá por meio de figuras viscerais, traçadas com linhas secas que, à primeira vista, podem parecer ingênuas ou pueris, mas este é nesse embaraço imediato que o artista captura a atenção de seu desavisado observador.

O trabalho de Pitágoras se mostra na mediação entre o figurativo e o abstrato, num jogo de sobreposição ou supressão de elementos que remete diretamente à construção de um sambaqui, escondendo e revelando objetos de sociedades ainda misteriosas.

O aspecto rudimentar, tosco e até mesmo grotesco de seu traço produz nas telas de Pitágoras uma agressividade desmedida e impregnada de energia telúrica, à qual todos estão sujeitos, independentemente das tentativas humanas para compreendê-las ou dominá-las.

A intensa força cromática, obtida em uma paleta de tons fechados de cinza que rompem amplos campos de azul cerúleo, dá vibração a seres bizarros, esqueletos, máquinas, animais, constituindo um cenário aterrorizante do futuro.

Em suas pinturas, Pitágoras apresenta um mundo desconectado do presente, mas profundamente imbuído de seus aspectos destrutivos e decadentes. As imagens são um tanto surrealistas, compostas de elementos e seres que enfatizam o caos em que a civilização se precipitou. Nesse diálogo entre passado e futuro, o artista aponta para a fragilidade da condição humana face à potência da natureza, claramente perceptível em mares e oceanos. Daí o título da série: Quase tudo que é imenso lembra o mar.

O enigma proposto pelo título reside menos em sua literalidade do que no convite a um mergulho profundo nas imagens, no qual se ativa a consciência, adormecida pelo presente ou pelo Prozac, de que não se percebe para onde o caminho levará.

Pitágoras credita suas influências à arte e cultura pop, dizendo que sente mais conexão com a literatura, gibis ou mesmo da observação do cotidiano do que com artistas específicos. Em seus trabalhos, a intensa expressividade das figuras se destaca, traçadas com força e simplicidade à semelhança de desenhos rupestres.

Para Pitágoras, não há outro jeito de viver, senão intensamente. Ele mesmo se considera uma pessoa visceral, e é em seu universo de devaneios que o artista flerta com a angústia da morte que se sabe certa, mas que ainda assim pode se acomodar na beleza poética de sua própria redenção”.

Agende a sua visita!

Angels

A Arte tem curiosos caminhos para demonstrar pontos de vistas inusitados nos proporcionando novas alternativas de interpretação e análise. Como uma boa cinéfila não poderia deixar de citar mais um filme cult para ilustrar essa nossa conversa. Com um elenco masculino de peso “Snatch – Porcos e Diamantes” (2002), começa com uma cena hilariante. Assaltantes à uma joalheria, disfarçados de judeus, travam um diálogo interessante, dentro do elevador, até chegarem ao seu destino. Um deles cita a canção da diva do pop Madonna, “Like a Virgin” (1984) e divaga sobre o significado da letra da música, quando um dos seus companheiros acrescenta a informação de que a tradução do termo virgem, do hebraico para a Bíblia é errônea. Em verdade, a interpretação ou tradução correta teria de ser jovem para designar a gravidez de Maria. Isso tudo para ressignificar a experiência da personagem da música, isto é, a história da cantora que sofreu um estupro, ou propor uma nova alternativa da história romantizada da Bíblia sobre a gravidez de Nossa Senhora, que não era virgem, mas jovem.

Esta é só mais uma passagem curiosa das histórias e pontos de vistas machistas que aos poucos vão se desmistificando. Muitos tabus e preconceitos tem sido quebrados, estraçalhados e enxotados nesta Era de Aquário. A surfista brasileira, Maya Gabeira acaba de ganhar o recorde em surfar a maior onda do mundo, sendo a primeira e única mulher, até agora, a conquistar o título. As jogadoras de futebol acabam de ser contempladas pela CBN com os mesmos salários dos desportistas masculinos. E mais, acaba de virar um anjo, a pequena grande figura da justiça, a norte-americana Ruth Baden Guinsburg (1933-2020), uma feminista diplomática que fez valer valores humanos na luta por direitos iguais entre os sexos. Se já era difícil ser mulher naquela época, imagine para uma judia, mãe e grávida. Guinsburg rompeu com padrões da sociedade e driblou situações para prevalecer os princípios femininos preservados pela Constituição.

A Netflix oferece uma série um tanto quanto desconfortável, mas onde é possível enxergar padrões arcaicos da sociedade como os episódios de “Nada Ortodoxa” (2020). Não que, literalmente, a história seja verídica, mas a ficção é só um começo para identificarmos o quanto ainda os dogmas religiosos seguem atrasados e incompatíveis com a Era Contemporânea.

Que possamos ter tantos anjos na Terra como no Céu para nos abençoar e perdoar nossas falhas humanas. Que possamos enxergar através da Arte alternativas e novas interpretações para ressignificarmos as coisas e os princípios da vida. Ilustra o texto desenho em carvão sobre papel de Carol Nolasco, uma das 5 artistas selecionadas do nosso Edital 2020. Agende a sua visita e entre no universo da Arte e suas inúmeras alternativas de interpretação!

Trópicos

O livro “1808”, de Laurentino Gomes foi escrito em 2014.

O Museu Nacional do Rio de Janeiro pegou fogo em 2018.

Com um intervalo de 4 anos, o escritor, que tem formação em jornalismo registra uma interessante passagem no livro, a respeito desta instituição:

Situado na Quinta da Boa Vista, a algumas centenas de metros do Estádio do Maracanã, com vista para o morro da Mangueira, este é um dos museus mais estranhos do Brasil. Seu acervo reúne, além do meteorito, aves e animais empalhados e vestimentas de tribos indígenas abrigadas em caixas de vidro que lembram vitrine de lojas das cidades do interior. As peças estão atribuídas ao acaso, sem critério de organização ou identificação (…) A construção retangular de três andares, que Dom João ganhou de presente de um traficante de escravos ao chegar ao Brasil, em 1808, é hoje um prédio descuidado e sem memória (…) É como se nesse local a história tivesse sido apagada de propósito”.

O escritor, como se diz na gíria, “já tinha cantado a bola” de que tudo estava mesmo perdido. O incêndio que devastou a pouca e desorganizada memória que restara no museu veio fazer ‘um limpa’ da bagunça iniciada desde 1500. Como de praxe do brasileiro ou de qualquer ser humano do mundo, o apagar da memória é o típico ato falho, uma grande pegadinha que nosso inconsciente faz para quê, de certa forma, estejamos protegidos de nós mesmos, ou nos boicotemos.

No livro de Lévis-Strauss, “Tristes Trópicos” o antropólogo traz a ideia da superstição como persistência ancestral e senso de coletividade. O boicote, a superstição podem ser um estilo de vida humano mesmo, tipo um estilo masoquista, de dor e medo. Construímos as coisas, para depois podermos destruí-las, ora pois. Li recentemente um artigo sobre comportamento contemporâneo, numa dessas revistas científicas, que insistia em afirmar que gostamos de viver com sadismo, escravizando uns aos outros, consumindo coisas que não usaremos, comendo e bebendo coisas que não nos farão bem, etc.

E não venham me dizer que essas falhas são para nossa sobrevivência. Quem sobreviviam, de fato, eram os índios. Selvagens, pelados no frio da mata, caçando com arco e flechas feras perigosas, ou plantando e colhendo a mandioca na terra virgem e fértil. Da pouca memória que resta sobre estes nossos ancestrais são as superstições e não, os bons hábitos de ingerir ervas medicinais e uma alimentação mais pura e limpa, que permanece no nosso inconsciente.

Falta pouco para terminarmos de apagar essa memoriazinha que ainda, talvez insista em nos conscientizar de fazermos o bem para nós mesmos. É uma suave fagulha que espera ser alimentada pela força da sapiência ou da ignorância, você decide! Um incêndio, ou uma queimada é um sopro de cinzas num mar de memórias secas e abandonadas. Talvez seja a hora de resgatarmos memórias ancestrais que ascendam chamas de conhecimento, soluções e consciência coletiva, porque não estamos mais sobrevivendo, mas ‘sub-vivendo’ em nossos próprios egos!

Ilustra o texto a obra, “Trópico”, de Fábio Pedrosa, alagoano que reside em Brasília, um dos 5 selecionados do nosso Edital 2020. Agende sua visita!

Lição

Não existe essa coisa de equilíbrio entre vida e trabalho. Tudo que vale a pena lutar desequilibra sua vida“. (Alain de Boton, escritor e poeta suíço).
O ano de 2020 vem sendo, desde o palíndromo (dia de Iemanjá | 02/02/2020), uma surpreendente caixinha de surpresas. Se foi castigo dos Deuses e das Deusas, ou um puxão de orelha bem dado, temos observado que definitivamente não somos donos de si. Para cada ação uma reação, seja boa ou ruim, ela vem vindo para equilibrar, ou desequilibrar. Casos de suicídios, agressões domésticas, separações vem sendo cada vez mais frequentes neste momento de ascensão da pandemia. Não que um vírusinho tenha causado este estrago todo, mas que ele foi a pequena gota d’água num copo que quase já transbordava, ahh se foi!
Casais famosos, vidas aparentemente perfeitas, juventude recatada e do lar, em pleno turbilhão de rupturas e incertezas. Sempre foi assim? Talvez. Talvez a proporção e a velocidade das informações nos façam acreditar que, atualmente, seja mais trágico, ou que os índices estejam sempre aumentando. Mas vou te contar um segredo, tudo anda e desanda… Grandes artistas que tiveram êxito profissional, principalmente mulheres romperam paradigmas e padrões para se estabelecerem em reforçar suas capacidades, enfrentando períodos de Guerras ou de doenças letais, lá estavam elas.
Escandalosamente, separadas, divorciadas, suicidas ou gays, certas mulheres honraram seu trabalho e deixaram um legado para que outras se encorajassem a isso. Frida Kahlo, Coco Chanel, Camile Claudel, Hilma af Klint, Chiquinha Gonzaga, Cora Coralina, Georgia O’Keefe, Tina Turner, Janes Joplin, Amy Winehouse, Madonna, Lady Gaga, Marina Abramovic são exceções a regra conservadora doméstica. Poderia citar tantas páginas que fossem de mulheres históricas que colocaram a carreira como prioridade, antes da família e maternidade. Salvo, Princesa Diana, que não teve tanto tempo para se firmar uma personalidade altruísta, assim como Madre Tereza de Calcutá, mas ousou se divorciar de um dos maiores partidos do mundo.
O casamento é uma instituição moderníssima. Hoje, nada mais obriga duas pessoas a estarem juntas a não ser o amor“. (Wagner Moura)
A cama de casal violentada pelos instrumentos rústicos do trabalho braçal masculino, a pá e a enxada demonstram, subliminarmente a agressão sexual do coito matrimonial. A inesperada delicadeza do traço do artista, Carlos Mota Morais que escancara uma agressividade normatizada, no desenho à lápis, materializa o que ninguém vê entre quatro paredes. Corajoso, o artista, ao desnudar esta realidade cotidiana em tão sutil ilustração revela o quanto o amor e a dor insistem em dividir o mesmo leito. Interpretar os sinais da contemporaneidade e o que os artistas tem a nos dizer é experimentar as rupturas necessárias para uma nova transformação. Nada é em vão, se não for benção é lição. Já dizia o famigerado Chico Buarque: “Tem gente que tem medo de mudança. Eu tenho medo que nada mude“. Que este ano nos sirva de grande lição.

Agende seu horário e venha conhecer as obras dos 5 artistas selecionados em nosso Edital 2020! Esperamos vcs!

Invisível

Aproveitando a pandemia para colocar meu lado cinéfilo para trabalhar, assisti recentemente ao American Factory, em português Indústria Americana, que concorreu ao Oscar 2019. O documentário conta sobre uma indústria automobilística, em Ohoi que faliu e posteriormente foi comprada por um bilionário chinês. O curioso é: quando associamos o “pseudo-comunismo” chinês ao sonho neoliberal do the american way of life, nossos preconceitos vão para o ralo. A gente não sabe de nada, inocentes. O documentário coloca em pauta duas culturas seguramente opostas e inseguras com seus padrões econômicos e sociais. Percebe-se uma distopia da ideia e qualidade de vida, as insatisfações, tanto dos americanos com a rígida disciplina dos chineses e seu auto controle, quanto dos chineses da falta de compromisso dos funcionários com a empresa e seu rendimento. O caso é: a ideia inicial era que 100% dos funcionários fossem cidadãos americanos, mas não deu certo. Dos 2 mil funcionários, duzentos chineses foram contratados para ocupar cargos superiores aos dos cidadãos locais. Percebemos daí, o quanto a disciplina e o lucro falam mais alto numa cultura dita socialista, mas principalmente o quanto a ideia de sociedade consumista falha numa cultura capitalista. E fica então a questão, qual o ideal de qualidade de vida para a sociedade contemporânea?

Ítalo Calvino (1923-1985) foi um dos escritores mais importantes do século XX. Calvino nasceu em Cuba e curiosamente tem uma trajetória controversa com as questões políticas e ideais da qualidade de vida nas sociedades. Fez parte do Partido Comunista, mas rompeu com este compromisso, em 1956 após invasão dos soviéticos na Hungria e pelos crimes cometidos por Stalin. Conheceu Che Guevara, para o qual escreveu um tributo após sua morte. “Embora fosse um liberal de esquerda, Calvino foi liberado para passar seis meses no Estados Unidos, onde se encantou especialmente com a cidade de Nova Iorque”. (Via www.infoescola.com/biografias).

O escritor escreveu textos de grande repercussão, um deles avivado pela obra em técnica de dobragem, por Ricardo Masi, um dos 5 selecionados do nosso Edital, que ilustra o texto, sobre a série “Cidades Invisíveis”.

“Presume-se que Isaura, cidade dos mil poços, esteja situada em cima de um profundo lago subterrâneo. A cidade se estendeu exclusivamente até os lugares em que os habitantes conseguiram extrair água escavando na terra longos buracos verticais: o seu perímetro verdejante reproduz o das margens escuras do lago submerso, uma paisagem invisível condiciona a paisagem visível, tudo o que se move à luz do sol é impelido pelas ondas enclausuradas que quebram sob o céu calcário das rochas.
Em consequência disso, Isaura apresenta duas religiões diferentes. Os deuses da cidade, segundo alguns, vivem nas profundidades, no lago negro que nutre as veias subterrâneas. Segundo outros, os deuses vivem nos baldes que, erguidos pelas cordas, surgem nos parapeitos dos poços, nas roldanas que giram, nos alcatruzes das noras, nas alavancas das bombas, nas pás dos moinhos de vento que puxam a água das escavações, nas torres de andaimes que sustentam a perfuração das sondas, nos reservatórios suspensos por ondas no alto dos edifícios, nos estreitos arcos dos aquedutos, em todas as colunas de água, tubos verticais, tranquetas, registros, até alcançar os cata-ventos acima dos andaimes de Isaura, cidade que se move para o alto”.

No texto há a confirmação de que tudo é movido pela luz e pela sombra, pela força incomparável da natureza associada às invenções dos homens. Somos seres únicos, criadores, pensadores, descobridores. Cavamos o mais profundo buraco no escuro de cavernas e subterrâneos insólitos, mas também projetamos os mais altos e suntuosos prédios para chegar mais perto da luz. Entre dicotomias, ambiguidades e distopias podemos encontrar na Arte o conforto da sensatez, da coerência e da verdade. Indústria Americana e Ítalo Calvino concordam que uma mágica invisível gira a roda da vida, da sobrevivência em turnos diferentes de energia. Uma que nos consome força para o árduo trabalho pela sobrevivência, outra que encontra sinergia ao concluir uma etapa, um objetivo! Seja em luz e sombra, direita e esquerda, oriente e ocidente, a meta é viver em equilíbrio com as forças opostas e invisíveis!

Dívida

Dívida

“A taxa é zero o juro é alto vamos conversar
Ressarcimento pagamento vamos negociar
Aquela dívida de uns anos atrás está bem viva
Você não lembra mais”
O Rappa

Hoje o assunto é sobre dívida! Do latim debita, debere, dever, valor de uma quantia a ser pago. Quem nunca? Ou já deveu, ou deve ou deverás… Mas se já quitou, está quitando ou quitarás, então está tudo certo, mas senão, aí já são outros quinhentos. Quinhentos anos ainda revendo a História do Brasil e suas infindas dívidas internas, externas, raciais, sexuais, sentimentais…

Certa vez perguntaram a fervorosa artista carioca, Adriana Varejão o que ela achava das cotas raciais, numa revista de bordo, há uns 10 anos atrás. Ela respondeu que concordava e que a nossa dívida com os africanos ainda demoraria muito a ser paga, as cotas seriam apenas o início de uma prestação de contas. A artista paraense, Berna Reale, que citei no texto da semana passada, também faz ativismo à esta dívida e outras, deixando explícito nos registros de suas performances, que falam mais que mil palavras.

As dívidas de uma sociedade com as minorias ora caminham, ora desencaminham. Falar de assuntos polêmicos, incomodam e esbarram em conservadorismos que podem, ou não, ser construtivos para soluções mais humanistas, igualitárias e esperançosas à um futuro menos violento, menos populoso e poluído. Mas a verdade dói e ninguém quer se incomodar com assuntos do passado, afinal, essa dívida não é nossa. Quem não teve uma vó índia que foi capturada pelos cabelos e estuprada para gerar uma nação brasileira miscigenada. Quem não teve um tataravô escravo, que foi apadrinhado pelo sinhozinho porque a filha se apaixonou pelo crioulo e por descuido, engravidou. Ou o contrário, o sinhozinho que engravidou dezenas de criadas, tendo povoado uma vila inteira com o mesmo sobrenome. Mas daí não há dívidas, afinal somos todos parentes, o conhecido Cunhadismo, como descreveu Darcy Ribeiro. Será?

Recentemente, um vídeo viralizou nas redes sociais de uma entrevista com a atriz argentina Marina Glezer, que confessou se sentir aliviada por ter abortado aos 18 anos. Ela faz um discurso sobre como a visão do aborto ainda é atrasada e romantizada e como isso não funciona na prática, principalmente nos países subdesenvolvidos. Ela ainda ressalta que o aborto é uma questão de saúde pública, uma dívida da democracia ao excluir as mulheres de baixa renda em não ter assistência para esse tipo de procedimento legal, pois a cada 3 mulheres, uma morre na clandestinidade: “Não se morrem os embriões abortados, se morrem las mujeres”.

As mulheres ainda não poderão competir com igualdade no mercado de trabalho se estarão prestes a gerar um filho que não foi programado. As mulheres ainda não poderão exercer poder de decisão se ainda não detêm da liberdade das finanças domésticas. Há também uma dívida literária quanto a visão machista que foi descrita durante milênios pelos homens. Quem nunca ouviu falar da primeira matemática da história, Hipátia de Alexandria (355 D.C.), que foi assassinada por religiosos, simplesmente por descobrir coisas que os homens não sabiam explicar. Mais um ponto para o Papa Francisco, que acaba de nomear 6 mulheres para o Conselho do Vaticano, cargos que antes eram ocupados exclusivamente por homens. Parece que a prestação de contas está começando a funcionar! Fé…minismo, no bom sentido!

Ilustra o texto aquarela da goiana Lívia Chagas, um dos 5 artistas selecionados pelo nosso Edital 2020. Lívia Chagas pesquisa o corpo feminino e as possibilidades da aquarela em encobri-lo de cor e sombra. A mostra e o passeio virtual começam no dia 1° de setembro.