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Quase lá

Eu sempre me considerei uma mulher de garotos. Me orgulhava de ser amiga dos meninos da escola e da minha mesa nos almoços de domingo com meus irmãos e meus primos. Mesmo com tantas representantes do sexo feminino por perto era com eles que eu me sentia forte, que me sentia especial. Só depois de muito tempo comecei a me dar conta de que, junto de minha natureza supostamente masculina havia também uma espécie de arrogância, como se minha afinidade com o cromossomo Y me distinguisse favoravelmente, de alguma forma. Eu me considerava eleita! Machismo puro, mas eu não queria estar no time (que na época eu considerava sexo frágil), eu pretendia levar a vida em pé de igualdade com qualquer homem. Os anos foram passando e eu, mais esperta, fui vendo que as pessoas que eu mais admirava, as que me iluminavam o caminho, as que importavam eram todas mulheres. De lá pra cá, um mundo novo se abriu pra mim e desde então nada na vida me deixa mais acompanhada do que saber que eu tenho cada vez mais grandes amigas. Pra falar de cabelo, de roupa, de medo, de amor, de filho, de velhice, de grana, de se conhecer, de perrengues, de êxitos, do dermatologista gênio à angústia mais secreta. Eu aprendo todo dia com cada mulher que eu escuto”.

O depoimento da atriz, escritora e diretora Maria Ribeiro para campanha de uma grife, diz tudo ou quase tudo (como ela mesma se refere à música da cantora Mallu Magalhães: “quase já é muito bom”), sobre essa essência masculina que transita a arrogância e seu olhar amadurecido para se redescobrir feminina. Atualmente também percebo que meus caminhos foram iluminados por mulheres: minha vozinha, minha mãe, minha irmã, minhas amigas e posso até confessar que por um período, minha sogra. Elas são para mim, exemplo de fortaleza, luta e coragem.

O MASP encerra o ciclo das ‘Histórias das Mulheres, Histórias Feministas’, tour de force contra o chauvinismo nas artes visuais que eclipsou artistas geniais do sexo feminino”. (Estadão/Cultura, Antônio Gonçalves Filho)

Na direção do engajado Adriano Pedrosa, o museu destacou grandes nomes da arte nacional e internacional contrariando as estatísticas machistas de nossa sociedade e finaliza o circuito com as estrangeiras Gego e Leonor Antunes. Gertrud Louise Goldschmit (1912 – 1999) de origem alemã, atravessou o oceano para se exilar em terras sul americanas. Fixou residência, nos tempos áureos da Venezuela e projetou sua arte inovadora, comparável à neoconcreta Lygia Clark. Tão talentosa quanto ou mais que os ‘conterrâneos’ Jesús Soto e Cruz-Diez, Gego investigou a linha e seus movimentos, produzindo uma série de objetos, que ela batizou de “bichitos”.  Esta primeira mostra individual da artista no MASP reuniu 150 obras, rememorando sua participação em duas Bienais, a primeira em 1996 e depois em 2012.

A artista Leonor Antunes, de origem portuguesa, radicada em Berlim, aos 48 anos também encerra o ciclo feminista do Museu com mostra individual onde traz uma obra em tributo à arquiteta Lina Bo Bardi, que o projetou. A semelhança do trabalho das duas artistas se funde, mas também se opõe: “A diferença é que Gego trabalha no espaço, enquanto eu trabalho no plano”, observa Antunes, que faz um adendo sobre a representatividade das mulheres na Arte: “A arte não é uma questão de gênero e eu não estou interessada em discutir o tema, mas com certeza o trabalho dos homens é mais divulgado que o das mulheres”.

A arrogância (ou o machismo) ainda prevalece entre nós, não é mesmo, Maria Ribeiro! Mas estamos quase lá, um passo depois do outro!

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Instalação de Gego, onde se entrava descalço, na Bienal Internacional de São Paulo, em 1996.

Cinco Mulheres e um segredo

A Fundação Cartier, em Paris abriu no dia 30 de janeiro a mostra “A Luta Yanomami”, da artista suíça naturalizada brasileira, Cláudia Andujar que tem Galeria com seu nome no Instituto Inhotim. Andujar investigou durante anos, se embrenhado na mata e na tribo desses indígenas, registrando seu habitat, seus rituais e por fim a contaminação que os brancos causaram com seu contato tóxico e abusivo. Suas imagens nos ensinam muito sobre a natureza humana e como a cadeia alimentar se estabelece de maneira implacável. A artista Adriana Varejão à convite da mesma Fundação, em 2004 realizou uma expedição à comunidade Yanomami. “A artista não foi ao encontro de qualquer sociedade. Ela mesma explica que os artistas convidados pela Fundação não eram obrigados a conviver com os indígenas. Foi sua decisão de seguir viagem e conhecer os nativos que seu pai encontrou, quando o grupo andava sendo recém-contatado”. No livro “Pérolas Imperfeitas: a História e as Histórias na obra de Adriana Varejão”, a professora e antropóloga Lilia Mortiz Schwartz disserta e disseca a obra da artista esmiuçando detalhes pictóricos e psicológicos, elucidando um resgate quase primitivo do fazer artístico e o sentir se verdadeiramente humano. Scwartz descreve, a partir de depoimentos da artista, o processo de criação da obra “Em Segredo” (2003), que consiste numa instalação, cujo desenho de uma planta nativa segue os padrões dos naturalistas do século XVIII e logo aos pés do papel, repousa uma reluzente folha de bananeira, que serve um feto tridimensional, baseado nos estudos do caderno de Leonardo Da Vinci. A legenda que segue da obra é a escrita indígena: “ya pihi irakema”, na tradução “estou contaminada”. A beleza do texto é logo compreendida pela figuração da obra. Uma gravidez interrompida une uma dolorosa etapa da vida da artista aos mistérios do universo primitivo dos indígenas. Há muito misticismo na floresta e Varejão descobriu, através deste contato, as toxidades que as pessoas podem provocar em suas relações, principalmente quando são cegamente conduzidas pela paixão. “Assim que cheguei na floresta, sofri uma febre muita alta e caí na rede… estava duas vezes contaminada, pela estranha febre e por aquele estado de paixão febril. Juntei tal sensação à imagem das plantas de fertilidade, relacionados à cultura Yanomami. Em segredo, aquele estado em que me encontrava, como algo dentro de mim mesmo, que cresce sozinho, que você tem que sacrificar para se salvar, tomou força”. É, na minha opinião, a passagem mais humana do livro quando a artista admite e cita o aborto, envolto dos seus já 39 anos de idade. A atmosfera da floresta lhe deu força e compreensão em aceitar que para cada escolha existe uma renúncia.

Não é de hoje que as artistas levantam bandeira para descriminalização e/ou legislação do aborto que acolha mulheres em situação de abandono social e abuso sexual. A Organização das Nações Unidas equiparou a proibição do aborto à prática de tortura contra mulheres. A artista plástica, Aleta Valente, endossada por Adriana Varejão, adotou um personagem, com o pseudônimo Ex Miss Febem, o qual atende pelas redes sociais onde publica memes provocativos sobre a sociedade brasileira e bizarrices tragicômicas. Valente levanta seriamente a bandeira para temas pertinentes como o aborto, o machismo e o racismo. É bem clichê, mas tá na moda e a artista angaria adeptos para seu bloco. Ela acabou de realizar sua primeira mostra na Gentil Carioca, uma galeria de arte vanguardista da Lapa, no Rio de Janeiro. É assim que se mostra uma artista ativista, que tem coragem de manifestar seus sentimentos e experiências, mesmo estando exposta à críticas e repressões. Por isso, são poucas, as verdadeiras artistas, poucas as que se encorajam diante da hipocrisia social e comodidade do universo virtual. Mas, o mais difícil ainda é ser mulher, onde os olhares são muito mais atentos e pontuados.

Para ilustrar este texto feminista, selecionei o trabalho da artista goiana Simone Simões, de nome sibilante como o formato orgânico de suas aquarelas. Um desenho dançante da tinta sobre o papel, que discorre em gotas, umas sobre as outras, como a cor vermelha do sangue, a cor que cobre o feto. Esteja ele vivo, ou morto em segredo. Porque toda mulher teve, tem ou terá uma paixão! E naturalmente, ela irá sangrar!

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Simone Simões, aquarela sobre papel, 2019, ao lado da nossa bancada do café

Abre Alas

O Projeto Giganto realizado em 2019, nos viadutos de São Paulo capital, teve o propósito de intervir na cidade e expor em grande escala retratos fotográficos de personagens da urbis. Uma dessas imagens foi um personagem muito peculiar e que vem ganhando voz entre os youtubers da nova geração. Rita Von Hunty é uma Professora de História, mas ela não é uma professora comum, ela é uma Drag Queen. Entre um assunto polêmico e outro, Guilherme ou Rita, esmiúça a Humanidade em dosagens semanais, com direito à Bibliografia e muito senso de humor. O tema que selecionei para o texto de hoje foi a história das Drags, é claro! Por que? Onde? Como? Quando? “Tempero Drag” é o nome do Canal do Youtube de nossa personagem e lá tem história para gente ter resposta para quase todas essas perguntas. Com formação também em Artes Cênicas, Rita explica sua atração desde cedo pela fantasia de se vestir como Drag. Citando uma de suas escritoras favoritas, que para sua época já era uma feminista, a francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu livro “Segundo Sexo” (1949): “Ninguém nasce mulher, torna-se”.

Desde a Antiguidade, no Hinduísmo, na Mitologia Africana, na Mitologia Greco-Romana, nas tragédias inglesas e mais alguns fatos curiosos da Humanidade são descritos, implícita ou explicitamente, a respeito dos gêneros que representam homens se transformando em mulheres, ou mulheres em homens. Quem ainda não sabe que no séc. V a.C. todos os atores do teatro grego eram homens? As mulheres eram proibidas de frequentarem estes ambientes (e o foi durante muitos séculos depois). Com a Idade Média ou das Trevas (séc. V), certas manifestações culturais foram proibidas ou censuradas com a ascensão do Cristianismo. Mais tarde, no séc. XV, com o Renascimento, o brilho da cultura se reascenderia e o teatro teria seu ápice com obras célebres do inglês, William Shakespeare (1564-1616). O mais curioso nos escritos do dramaturgo foi o acrônimo nos roteiros das peças, cuja sigla que designava o momento que o ator interpretaria uma personagem feminina, era D.R.A.G. (Dress Remeber A Girl – vestida para lembrar uma garota).

Outro fato histórico de nossa peculiar Humanidade foi o livro que deu origem ao fantástico filme “A Garota Dinamarquesa” (2016), sobre fatos reais da trajetória da protagonista que se submeteu à primeira cirurgia de gênero da época, no início do século XXI. Aqui no Brasil, Madame Satã (1900-1976) foi um famoso transformista e também capoeirista ganhando biografia cinematográfica, em 2002. Conhecida como “a grande dama do retrato de nosso país” (apud Pedro Karp Vásquez), a húngara Madalena Schwartz (1923-1993) dedicou seus registros fotográficos em antológicas personagens do cinema brasileiro, como a icônica Elke Maravilha (1945-2016) e o polêmico grupo Dzi Croquette (1972-1976). O grupo teatral e de dança tinha como ideia fundamental abalar as bases do sistema ditatorial e reagir às repressões abordando temas nada convencionais, tradicionais, recatados ou do lar. Quanto maior a repressão, maior será a reação, pois em momentos políticos onde há retrocesso cultural, alianças entre crença religiosa e gênero musical duvidoso devem e precisam ser cautelosamente administrados. Apesar do pouco tempo de existência o grupo ganhou um Documentário que foi contemplado com o maior prêmio do cinema brasileiro, em 2009 e trouxe depoimentos de artistas como Marília Pêra, Gilberto Gil, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Cláudia Raia, Ney Matogrosso e outros.

Mais uma e última curiosidade histórica é o orixá Oxumaré, da mitologia yorubá, cuja cultura milenar data de mais de 5 mil anos, foi sincretizada no Brasil com a religião do Candomblé. Oxumaré é uma entidade que passa 6 meses do ano como homem e os outros 6, como mulher. Bom lembrar que hoje, dia 2 de fevereiro é dia de Iemanjá. Parabéns, Rainha do Mar! A nossa abre alas do mês do Carnaval, a festa do ano onde tudo é permitido, pelo menos nos três dias sagrados do samba, do semba, da celebração profana da diversidade. Vamos todos celebrar a carne, a vida, a alma! Vamos todos juntos, com moderação!

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Ludmila Potrich entre obras do fotógrafo Vinícius de Castro, na mostra “Vendo o Carnaval”, 2010

Você tem sede de quê?


Certamente, escrever tem sido um “desabafo”, como comentou um leitor sobre meu último texto. Expor pensamentos e experiências acerca do meu universo particular da Arte é como me desnudar a vocês ou tentar achar semelhantes num mundo tão cheio de diversidades e divergências. Receber este feed back e descobrir que não estou sozinha é um oásis no meu deserto de insatisfação pessoal. Colegas, descendentes de italianos, amigos, clientes e familiares que também se emocionam perante uma majestosa obra de arte, aprendem que as instituições de arte são grandes escolas e que somos todos companheiros nesta dura e doce jornada cultural! Entre um passeio turístico nas praias de Pernambuco e uma passadinha ao Instituto Francisco Brennand (artista que faleceu há pouco mais de um mês), ou ver pessoalmente famosas obras que estão impressas nos livros pintadas sobre telas, nas paredes do Louvre Museum ou os corpos em grande escala esculpidos em bronze, no Rodin Museum, ou ainda um passeio cultural em Sidney, no Art Gallery of New South Walles para atualizar a alma com arte contemporânea são alguns testemunhos que fiquei devendo compartilhar por aqui. Obrigada, carxs leitorxs!

A escrita é também um processo de autoconhecimento. Depois de escrito, postado e lido passo a fazer parte de vocês e vocês, de certa forma de mim! O imortal, João Ubaldo Ribeiro faria aniversário nesta quinta-feira passada e como o Sol começou a iluminar o signo de Aquário, bom lembrar que este escritor deixou uma verdadeira produção literária, digna de um baiano que conhecia mais da personalidade nordestina do que o colega Paulo Coelho, realmente conhecera de alquimia! Dito o signo rebelde e transgressor, o aquariano é regido por Urano, planeta cujo nome denominou um dos elementos químicos mais radioativos que o homem já descobriu, o urânio! Isso só para justificar a natureza indômita deste signo e de seus ascendentes. Apesar disso, são leais, livres e dados à uma perspectiva mais coerente e humanista do futuro e só para lembrar um dos grandes aquarianos da história, o grande astrônomo e cientista, Galileu Galilei!

Sim, este é outro desabafo! Sou aquariana e mais especificamente do dia e mês do cantor Bob Marley, cuja breve carreira sensibilizou o mundo e contaminou os ouvidos alheios com “one love, one heart, let’s get together and feel all right” … Mas é claro que somos também uma dicotomia: ying e yang, o bom e o ruim, assim como a Arte. Sobre se aperfeiçoar e alimentar o lado bom que existe dentro de cada um de nós a curadora paulista, Aracy Amaral tem um vídeo no youtube que descreve os passos para aprimorar nossa visão estética. Segundo ela, devemos frequentar constantemente mostras de arte, museus, galerias de arte para que nosso olhar ganhe experiência, para que saibamos identificar e comparar uma obra, uma curadoria e uma montagem da outra. Essa distinção se dá com o tempo, com a vivência e a coerência de quem observa, estuda e contrasta. Darei um exemplo metafórico: tomar Coca-Cola é delicioso, ela ativa nosso corpo com sua cafeína super dosada, provoca uma sensação refrescante e uma felicidade instantânea, no entanto ela faz mal à saúde, é uma das empresas que mais poluem o planeta com plástico e provoca osteoporose precoce. Por que beber, então? Como diria Mario Sérgio Cortella: a Arte, assim como a Filosofia são construtores de sentido, a tarefa central da Filosofia é perturbar e, é através desta perturbação, que as pessoas conseguem achar o sentido real da felicidade. Mas quem está preparado para ser perturbado? Daí começa a ficar interessante comparar uma boa bebida de uma outra, uma obra de arte com outra. Por isso mesmo, nem comentarei o que penso sobre o “artista” que fica pintando políticos brasileiros em Miami, não é mesmo?! E você, tem sede de quê?

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Mostra “50 anos de Realismo- do fotorrealismo ao realismo virtual”, 2019, CCBB-DF

Coisas verdadeiras

Uma coisa temos de admitir, depois que os holofotes da sociedade se voltaram para Política Nacional, não há marasmo mais não, viu! Desde o anúncio de que o filme Documentário (ou ficção/fantasia para alguns) “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa foi um dos indicados para o Oscar 2020, até o desastroso (ou infeliz discurso para outros), do então já ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, o rebuliço social está cada vez mais interessante! Digo isso por minha causa pessoal e profissional. Como bem revelou em letras de bronze a artista, Shirley Paes Leme: “arte é para corajosos”! Mas daí você ameniza: “Ah, Tatiana, música sertaneja de raiz é arte, show gospel bem feito e estruturado é arte, o artesanato que minha tia faz em casa é arte”. Gente, é arte e não é! Depende do referencial! Vivemos em “tempos líquidos”, como diria o filósofo, Zigmund Bauman, tudo vai se misturando, só que não! O óleo, nem se bater no liquidificador se mistura à água!

Tenho uma trajetória simples no mundo da Arte, não frequento museus de arte na Europa, não visito mais atelier de artistas famosos, não participo de feiras de arte internacional, mas eu tive uma base inicial. “Meninos, eu vi”! Eu vi e participei ao que cabia no meu pequeno universo da Arte! Fui uma criança que frequentava Bienais (gratidão eterna à mamãe). Constantemente faço com que meus filhos frequentem o CCBB de Brasília, que é a arte internacional mais próxima de nossa realidade atual e financeira. Este ano se completam 12 anos de visitas em fantásticas mostras, experiências incríveis e interativas, descobrimentos científicos através do simples contato com a verdadeira Arte. A Arte que está presente em instituições idôneas, sérias, dirigidas por pessoas qualificadas, que estudam com veemência e compromisso a história e a transformação da sociedade pela construção de sua identidade artística.

É motivo de orgulho para mim, folear um livro/catálogo com a curadoria de mais de 570 artistas de 35 países e poder identificar dentre eles, alguns artistas brasileiros ou algumas obras das quais eu vi e experimentei! O livro Highlike, organizado pelo FILE (Eletronic Languange International Festival), Sesi-SP editora (2014) com informações em QRCode, traz na capa a obra “Shrink” do artista belga, Lawrence Malstaf, onde o espectador é embalado à vácuo. A curadoria incluiu obras dos brasileiros Henrique Oliveira, Ernesto Neto, Estudio Guto Requena e da dupla Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, dupla que participou da mostra itinerante “Disruptiva – A arte eletrônica na época disruptiva”, no CCBB (2017) com a obra “Túnel”. A escultura cinética, imersiva e interativa é composta de 92 pórticos que produz movimento e efeitos ópticos cinéticos de acordo com a posição e a massa do corpo integrador.

Um recente vídeo postado nas redes sociais do Museu TATE Modern (@tate), de Londres, traz a trajetória do artista coreano, Nam June Paik (1932-2006) que previu o avanço da informática nas redes de comunicação virtual antes mesmo de Steve Jobs e Bill Gates. Suas pesquisas se transformavam em obras de arte e instalações prestes a premeditar a tecnologia do futuro. A mostra “Björk Digital Brasília”, que vai até dia 9 de fevereiro é uma demonstração do quanto ainda engatinhamos na informática e como as crianças islandesas já tem sua visão do topo da montanha! Num show de experimentações, a cantora lança seu último álbum e seus sentimentos na Galeria 1 e 2 do CCBB-DF, tudinho em imersão virtual.

Está passando da hora de acreditarmos nas verdades e pararmos de perder tempo com as vaidades! Deixemos o palco, as mídias e os holofotes a quem tem algo a nos dizer, a nos ensinar, a nos preparar para as coisas verdadeiras!

Sejamos fortes e pacientes em aceitá-las, porque dói! Mesmo virtual, que sejamos bem-vindos à realidade disruptiva!

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“Túnel”, Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti, na mostra “Disruptiva” do  festival FILE SOLO,  no CCBB-DF, 2017

Testemunho

Há tempos investigo o “porque” de minha duradoura paixão pela Capoeira e os intermináveis caminhos que me conduziram à algumas investigações sobre a história cultural do Brasil. Um deles, que é a hipótese mais próxima de minha longa relação com a luta de libertação, acredito ter sido por causa do período da imigração italiana ao nosso país, que se deu entre 1870 à 1960. Dentre alguns dos motivos desta transição migratória estariam fugitivos das guerras mundiais e a nova mão-de-obra que substituiria os escravos africanos após a abolição de 1888.

“Nem sempre a substituição do trabalho do negro pelo italiano se fez facilmente, mesmo tratando se de fazendas principalmente de café, pequenas ou médias, em terra de clima doce”. (depoimento de Cássio Barbosa apud FREYRE, Gilberto – Ordem e Progresso, 2003)

“Foi precisamente a presença de um elemento europeu assim crescentemente próspero, sempre dinâmico, plástico e progressivo, que permitiu à São Paulo, até certo ponto e ao Rio Grande do Sul, juntar ao progresso agrário, o industrial” (…) (Sobre os italianos Notas de Referência Capitulo VIII, pág. 709, apud FREYRE).

Freyre ainda lembra que as primeiras óperas apresentadas no Teatro Amazonas, em Manaus foram regidas pelo maestro Nicolino Milano e as tragédias de Shakespeare, interpretadas pelo também italiano, Giovanni Emanuel na virada do século XX. Grandes nomes da arte brasileira foram italianos ou descendentes deles como os modernistas, Cândido Portinari e Anita Malfatti, os italianos Bruno Giorgi e Alfredo Ceschiatti, internacionalmente reconhecidos pelo conjunto de obras em Brasília, a arquiteta Lina Bo Bardi responsável pelo icônico  projeto do MASP e Alfredo Volpi, que representou o regionalismo das festividades brasileiras, no estilo construtivista.

Em 1950, recebemos um importante imigrante, pioneiro das artes plásticas de Goiás. Frei Nazareno Confaloni (1917-1977) traduziu através de sua rasa paleta de cores, os tempos sombrios da ditadura militar. Com suas pinturas mórbidas abordou a via crucis e retratou enfadonhas madonas monocromáticas. Mais coloridos foram alguns de seus Cristos na cruz, ou o santo dos pobres, São Francisco, onde revisita os movimentos impressionista e cubista numa versão mais tupiniquim. Talvez sua maior e melhor obra, em minha opinião, esteja na edificação da antiga Estação Ferroviária de Goiânia, atualmente Estação Cultura. Por divergir do tema religioso e destacar a figura do trabalhador no seu ofício teria sido este o maior motivo de minha comoção. O painel medindo 470 x 810 cm com motivo da construção do trilho de ferro retrata os trabalhadores, em sua maioria negros e pardos, carregando dormentes de madeira e vigas de ferro. Ali, observando aquela majestosa imagem, aquele quase afresco, num quase templo da Arte: “meninos, eu vi”. Tive uma visão e dou este testemunho a vocês.

Ao me sentir iluminada e comovida vivenciando mais uma experiência com a Arte retomo sempre à minha infância e de súbito tenho vontade de dançar, tenho vontade de gingar numa roda, cantar e experimentar a sensação de ser livre e feliz. Como uma boa descendente de italianos e outras misturinhas mais, o gosto pelo lavoro e pela cultura sempre farão parte da minha hereditariedade europeia, assim como um bom batuque e a roda animada regida por músicos experientes misturados ao dendê do swingue brasileiro.

Esse foi o meu testemunho na presença da Arte, porque eu li, compreendi, observei, senti e ginguei! E você? Comente um testemunho sobre sua experiência com a Arte para eu compartilhar aqui no Blog com os outros leitores. Que tal!?

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Painel na Estação Cultura do artista italiano, Frei Nazareno Confaloni, 1953.

Acervo de obras em exposição permanente.

Santo Anjo do Senhor

No primeiro dia de 2020 o ‘meme’ mais comentado das redes foi a comprovação da Terceira Lei de Newton pelo Papa Francisco (para toda ação há uma reação) por causa de um incidente com uma fiel! Após se desculpar publicamente aproveitou a oportunidade para fazer uma crítica sobre a violência contra as mulheres. O Santo Padre, que vem se superando a cada ano, ganhou um filme-documentário do cineasta Fernando Meirelles, “Dois Papas” (2019). A película experimenta o ponto de vista do diretor brasileiro sobre a trajetória do argentino Jorge Bergoglio ao papado e não é nada imparcial no que diz respeito à cultura latino-americana, principalmente quando o protagonista afirma que “na Argentina tango e futebol são obrigatórios”. Um misto de humanismo e sensibilidade acabam por integrar a personalidade do personagem interpretado por Jonathan Pryce, que age, na maioria das vezes, por instinto, intuição ou pressentimento.

“Não havia celibato até o século XII. Os anjos só foram mencionados a partir do século V e de repente havia anjos para todos os lados, como pombos. Nada é estático na Natureza, nem no Universo, nem mesmo Deus”.

No diálogo que cerra com o Papa Bento XVI, o protagonista, ainda um Cardeal, se mostra sempre coerente e conciso de seus pensamentos. O filme discorre sobre suas convicções ideológicas e justificativas sobre a perda de fiéis da Igreja ao longo dos tempos por ímprobos meios para atingir seus devidos fins. Num discurso rígido e conservador de seu antecessor, percebemos a vulnerabilidade de um outro Papa, que apesar de antipático admitiu seus erros e renunciou ao cargo por uma esperança na Reforma do Catolicismo.

Falar de História da Arte sem citar a Igreja Católica seria uma heresia. Ela promoveu e financiou grandes nomes da Arte e principalmente, da Arquitetura. Encomendas faraônicas surgiram a partir do século XII, como a gótica Catedral de Notre Dame (1163-1345) em Paris, que sofreu um desastroso incêndio em abril do ano passado, o que mobilizou milhares de pessoas e doações. Andrea di Cione (1320-1368), Donatello (1386-1466), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Rafael Sanzio (1483-1540), Guido Reni (1575-1642) só para citar alguns italianos inesquecíveis da Renascença! A Catedral Sagrada Família, do espanhol Antoni Gaudí (1852-1926) é ainda um dos maiores e mais lindos cartões postais depois do Vaticano. Nas Américas, o Barroco brasileiro deixou suas marcas com a miscigenação de culturas indígenas, europeias, africanas e árabes com catedrais erguidas em adobe e ouro. As majestosas e incontáveis casas do senhor em Ouro Preto são do auge do ciclo deste metal nas Minas Gerais. E quem nunca ouviu falar do Mestre Aleijadinho (1730-1814) e seus 12 profetas, no município de Congonhas?! Aqui em Goiás, também temos finíssimos exemplares esculpidos e financiados pela Igreja Católica, do exímio artesão Veiga Valle (Pirenópolis 1806 – Cidade de Goiás 1874) e também o italiano, Frei Confaloni (1917-1977) importante expoente das artes plásticas goiana. Igrejas modernas de tirar o fôlego foram construídas em desafiantes projetos de engenharia, como a Igreja de Santa Cruz (1956) integrada às rochas do Arizona, nos EUA, a Catedral da nevada Tromso (1965), na Noruega ou a lisérgica Igreja de San Giovanni Battista (1996), em Mogno, na Suíça e ainda a Igreja sobre a Água (1999), em Osaka, no Japão.

Em artigos passados aqui do Blog citei o nome de artistas contemporâneos de diferentes gerações que fizeram suas considerações sobre a Igreja, para não dizer, ácidas críticas através de obras polêmicas como a do irlandês Francis Bacon (1909-1992), do argentino Léon Ferrari (1920-2013), do italiano Maurizio Cattelan (1960) e do goiano Siron Franco (1947) (link: http://www.potrichgaleria.com/wp-content/uploads/2018/05/casa-mente-real.jpg ). Mas também citei renomados artistas como Alfredo Volpi (1896-1988) e Francisco Galeno (1957) que aceitaram o desafio de pintar o altar da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima (1958), do arquiteto, Oscar Niemeyer (1907-2012), em Brasília. A mostra “Imaginária” (2018), realizada na Capela Ignez, no Rio de Janeiro em prol da fundação carioca foi composta por grandes painéis da série “Repro Saints”, do artista paulista, o fotógrafo Vik Muniz (1961), que reproduziu obras clássicas numa releitura contemporânea e subversiva de imagens sacras.

Por fim, devemos levar em consideração que em tudo (ou quase tudo) há dicotomia. A palavra hebraica para anjo, por exemplo é malakl, que significa mensageiro. Um mensageiro pode levar uma mensagem boa e ruim, afinal quem ainda não sabe que o significado de Lúcifer é luz!? A principal mensagem do filme é a respeito do perdão e como nele se redimir. Num diálogo entre os dois Papas, a fala do ator Anthony Hopkins resume: “Tem um ditado que diz: ‘Deus sempre corrige um papa apresentando um outro ao mundo’. Quero ver minha correção”.

A gente também!

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Catedral Metropolitana de Brasília por Oscar Niemeyer, 1970

O milho

(…)“Cavador de milho, que está fazendo?

A que milênios vem você plantando capanga de grão dourados a tiracolo.

Crente da Terra, Sacerdote da Terra

Pai da terra

Filho da terra

Ascendente da terra

Descendente da terra

Ele, mesmo; terra.

Planta com fé religiosa

Planta sozinho, silencioso

Cava e planta

Gestos pretéritos, imemoriais

Oferta remota patriarcal

Liturgia milenária

Ritual de Paz

Em qualquer parte de terra um homem estará plantando

Recriando a vida

Recomeçando o mundo”(…)

O “Poema do Milho”, da poetisa goiana Cora Coralina é uma ode à fertilidade, ao plantio, à colheita, à culinária, à brincadeira, ou inúmeros predicados que esta planta exerceu e exerce na História da Humanidade. O milho é símbolo na mitologia maia sobre a criação dos homens, na mitologia africana é também oferenda aos orixás e na mitologia indígena é ingrediente fundamental para o grande brinde no Xingu, na festa do Kuarup. A bebida fermentada a partir desta planta é uma espécie de cerveja, o Cauim degustada em celebração ao primeiro homem a habitar a Terra! A sensível homenagem ao alimento é um culto aos ancestrais e uma generosa contribuição cultural à literatura brasileira. Além do “Poema do Milho”, Cora também escreveu a “Oração do Milho” mais uma vez homenageando esta planta sagrada, cheias de predicados e base nutritiva dos nossos ancestrais.

O Coletivo Tremma, pela segunda vez convida a curadoria da Potrich Galeria para participar do evento dedicado à Cora Coralina, que será realizado durante os dias 5, 6 e 7 de dezembro numa Galeria de Arte, em São Paulo. Foi com muito prazer que aceitamos o desafio de ilustrar através do nosso acervo a trajetória desta senhora que aos 76 anos de idade publicou seu primeiro livro. Sua história é um conto de coragem e orgulho para nós goianos, inebriados numa terra colonizada por coronéis e bandeirantes sedentos por explorar nossas riquezas, como é até hoje.

Cora Coralina é a menina feia da casa velha da ponte, que registrou a natureza humana e as tantas armadilhas do destino em retas linhas, por letras certas. Reinventou sonhos e delicadezas em momentos de dificuldades adocicando a vida com sua culinária e seus doces poemas. Para ilustrar seu verso ninguém menos que o renomado artista, Dalton Paula.

“Dalton Paula vem transitando por pintura, objeto, instalação, performance, fotografia e vídeo, sem estabelecer uma ordem hierárquica entre os diferentes meios e sem que haja perda de seu potencial poético expressivo, uma vez que a escolha de cada suporte advém da ideia poética que o artista pretende tornar realidade (…) Essas ações são marcadas pela interpretação crítica de acontecimentos históricos ou cotidianos, pela impregnação de um aspecto religioso, místico, advindo dos cultos afro-brasileiros, pelo uso de seu próprio corpo e de imagens de corpos alheios, pelo confronto de alteridades entre o autobiográfico e o outro apropriado, pelo choque entre o forte e o fraco, entre o senhor e o escravo, pelo desfazimento das demarcações das funções e dos territórios de direitos, que à base da violência foram constituídas no quadro social brasileiro”. (Prêmio Pipa)

Um desafio mágico ilustrar a história de nossa poetisa no mundo maravilhoso das Artes Visuais (que é a nossa praia). Agradecemos ao Coletivo Tremma a confiança e por mais uma oportunidade de participar deste evento, só que agora, na terrinha da garoa! É para lá que vamos nós, como Cora Coralina: “quebrando pedras e plantado flores”.

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Dalton Paula, pintura

Contaminação

O fatídico acontecimento da semana passada sobre o caso de suspeita de meningite, que levou à morte uma criança de nove anos de idade, foi o motivo para um estado de pânico entre os grupos mais calorosos de mães que surtaram com o óbito. O efeito da notícia foi tão alarmante que o próprio colégio onde estudava a criança se encarregou de dar uma palestra educativa sobre o assunto, assim como realizou a missa de sétimo dia do querido aluno.

O caso não tem nada a ver com meu assunto de hoje, mas quero fazer uma relação com a obra de um artista goiano muito peculiar. Juliano Moraes é professor na FAV/UFG, artista plástico premiado e realizou interessantes mostras, uma delas no Itaú Cultural, em São Paulo, a coletiva ”Caos e Efeito” (2013). O artista produziu uma espécie de obra-performance, cujo rastro de graxa marcava o percurso por onde as pessoas passavam e deixavam o registro desse material impregnante. O visitante se desequilibrava, ou escorregava e contaminava todo o espaço expositivo, carimbando outros andares do prédio ocupados pelos demais artistas e curadores. Era uma “obra perigosa”, afirmou o curador Paulo Herkenhoff, porque “ela permeava, atravessava as outras obras e toda a exposição, também contaminava as pessoas que estavam nela, manchando e maculando as coisas”.

Juliano realizou em 2017 a individual “Contrarquitetura”, no MAC-CCON onde produziu um conjunto de obras que se diversificavam entre instalações, objetos, esculturas e técnica mista sobre papel. Fernando Oliva (Doutor em Artes Visuais pela ECA-USP), disserta para texto do catálogo: (…) ”o conjunto destas obras dá origem a um lugar próprio, situado na alternância entre tensão e distensão: na mesma medida em que Moraes reconhece e se aproxima do problema, procura se afastar dele, muitas vezes se valendo do bom humor e da ironia, ferramentas de que se utiliza com naturalidade”.

O bom humor e a ironia do artista são percebidas de imediato em verdadeiros pastiches ou numa releitura divertida da Arte Povera, estilo da década de 60, que incorporava materiais ordinários na produção das obras de arte. O artista argentino, Lucio Fontana (1899-1968) foi um dos maiores expoentes deste estilo e também foi o percursor da Arte Conceitual. Tinha como marca registrada rasgos precisos em suas telas visionando uma ruptura ao modelo tradicional da pintura sobre tela e experimentando a fissura como um novo elemento de investigação sobre a profundidade, o tempo e a dimensão.

O artista goiano integra o rasgo ao papel como novo elemento visual de sua obra, parodiando a Arte Povera e, porque não, ironizando a trajetória da História da Arte e seus ícones artísticos. Silver tape, papel celofane, laminado de madeira e bastão à óleo são alguns dos elementos que o artista se apropria para desenhar. Ele desenha suas reminiscências de infância, talvez, possíveis acessórios de design, como os que seu pai fazia para vender na feira hippie. Ele recria, com um certo sarcasmo, a estética da Arte que está na moda, o abstrato que não agride, não questiona, não incomoda, ou não! Pensar o trabalho de Juliano é levantar questões muito eruditas do universo da Arte, mas também é se divertir em meio ao caos e efeito que ele sugere. Afinal, estamos sempre a nos contaminarmos uns aos outros, seja na saúde, seja na doença. Que a Arte de Juliano Moraes seja para nós uma contaminação saudável, curiosa e bem-humorada.

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Juliano Moraes, 100 x 150 cm, gelatina, papel prateado, grafite e óleo de linhaça sobre canson, 2017

Água Limpa

“Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem”. (Legião Urbana)

Esse verso da canção “Há Tempos” (1989) é um mantra e deveria ser repetido todo santo dia. Renato Russo e Cazuza foram inspiradores para minha geração e quando analiso alguns momentos dessa época começo a compreender certas situações mirabolantes e, em parte, até que bem previsíveis.

Vivi minha infância dos anos 80 escutando as canções de Tons, Gils, Chicos, Marias, Caetano, Milton Nascimento, mas principalmente de Elis Regina, o álbum “Falso Brilhante”, que era o vinil preferido de mamãe. A gente assistia o Chico Anysio Show, Armação Ilimitada e TV Pirata. Visitávamos as Bienais Internacionais de São Paulo, vagava pela Feira do Bexiga, se encantava com o Parque Ibirapuera e decorava o nome das ruas do Jardins. Entre os anos 80 e 90 frequentamos ateliers de grandes artistas como o dos mineiros Marcos Coelho Benjamim e Fernando Lucchesi, a paulista Leda Catunda, o paraibano Francisco Galeno, o mato-grossense Adir Sodré e o goiano Siron Franco. Este foi o período do boom da renovação da pintura após 20 anos de hibernação ditatorial militar. Ainda entre os anos 90 e 2000 minha pós-adolescência foi embalada pelo rock dos Titãs, Blitz, Kid Abelha, Barão Vermelho, O Rappa e o Olodum, na Bahia! Ahhh, a Bahia! Bahia de todos os santos! Terra de Caymmi, Amado, Mario Cravos, Rubem Valentim, Mestre Didi e Carybé, que foi abraçado pela cultura, pelo dendê e pelo axé. Deitada em berço esplendido da minha zona de conforto, o privilégio de ser parda, alta e de classe média sempre me proporcionou uma segurança ainda que conhecendo as mazelas e os conflitos humanos através das Artes Plásticas, permanecer na “bolha” era um culto ao comodismo. Mas conheci o grafite, o hip hop, a capoeira e perfurei minha primeira bolha. Frequentei periferias, conheci a Ilha do Marajó, dancei o carimbó, frêvo, maculêlê, dança-afro, puxada de rede, samba de roda. A maioria das bolhas estouraram nos meus pés, calejados pela ginga da liberdade, pelo batuque africano, pelo ritmo brasileiro.

Acho que a partir de 2002, quando voltei da Inglaterra e aconteceu uma ruptura familiar, a separação drástica de meus pais, comecei a perceber que nunca mais pararia de perfurar as bolhas ou que elas simplesmente estourariam sozinhas. Me tornei adulta, me casei, ganhei o título de mãe e com ele as honras das dores do parto, da amamentação, do recolhimento social, do início das profundas marcas da vida. Não sei se as marcas vêm sendo só em mim, mas também nos oceanos manchados por óleo, nas nascentes contaminadas por mercúrio, nas terras envenenadas por agrotóxicos, ou nas cabeças ambulantes bombardeadas por funk, gospel, tecno-brega, sertanejo ou Pablo Vittar!

Uma lembrança bizarra, depois do nascimento do meu segundo filho, foi a cena de sexo explícito na televisão de uma reportagem sobre a “Parada Gay”, na Avenida Paulista. Também me ressinto com as agressões machistas e misóginas que sofri de pessoas do meu convívio familiar. “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”, disse Cássia à Nando em “Relicário” (2012). Uma anestesia geral tomou conta ou sempre acometeu  boa parte da sociedade.

O sitcom “Sai de Baixo” (nos fins dos anos 90) já nos trazia uma prévia sobre a mirabolante realidade de uma burguesia cega e embebida de sua própria ignorância, um prato cheio para o humor negro, ou neste caso, o sarcasmo dos brancos. Este recorte cultural da minha geração é o reflexo, talvez do conturbado momento artístico que vivemos. Percebo livrarias, bibliotecas, teatros, museus e cinemas sendo sucateados, enquanto clínicas de estéticas e igrejas se erguem como faraônicos centros de lazer. Será que algo se perdeu entre uma “Parada” e outra? Será que militamos demais e nos esquecemos de investigar nossas origens, nossa verdadeira História? Será que a tecnologia está substituindo a poesia ou fui eu quem envelheci rápido demais?

Para finalizar deixo aqui o diálogo com meu filho que disse ser bem antiquado ter vivido no meu século, afinal nem existia computador, celular ou wi-fi. Respondi a ele que tinha razão, mas na minha adolescência ou, no meu século, quando estive na Chapada dos Veadeiros, abrimos com facões suas trilhas e usufruímos de um lugar ainda intocado, o que acredito que não será o mesmo em sua adolescência, pois é possível que tenha de enfrentar “filas indianas” para chegar até onde cheguei. Diz o velho ditado: “bebe água limpa, quem chega primeiro” ou preserva suas nascentes.

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Wés Gama, artista de rua, residente em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros promove a arte democrática do grafite nas ruas da cidade. Obra “A terra me come”, técnica mista sobre papel, 2014.