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Brasilian

Ainda sobre o post do domingo anterior, um filme do cinema nacional que também relata a realidade brasileira e tem uma versão poética e criminosa dos filmes de ação, um misto de Al Capone carioca com uma carnificina tarantiniana. “Alemão” (2014), tem como antagonista o personagem do ex marido da Grazi Massafera, Cauã Reymond, o Playboy investigado por um grupo de policiais à paisana. Gostei muito! A brutalidade, a precariedade das moradias, o medo, os castigos e a sexualidade das cenas na favela são quase que resgates das senzalas comandadas por Al, ou el capitán do mato e o tal senhor feudal. O frenesi em ritmo de funk, o molejo do corpo, da massa exclusa da sociedade e um misto de fetiche dessa simplicidade visceral que incita a pergunta que não quer calar: como conseguimos chegar nisso? Bom lembrar que o filme é uma metáfora sobre a vida real de Nem.

Gilberto Freyre cita em capítulos alternados, notas das diversas revoltas civis que emergiram de disputas raciais, sociais e culturais, entre os períodos da escravidão até depois da Proclamação da República: Guerra dos Palmares (1695), Cabanagem (1835), Farrapos (1835), Sabinada (1837), Balaiada (1841), Mascates (1879), Canudos (1895). Revoltas, motins, genocídios são características de disputas pelo poder por meio da força bruta. Quando não burgos, então ainda feudos, fortes e em frente a monopólios, lavouras de cafés, de canas, de louros, de ouros, que foram recursos e fontes inesgotáveis de exploração. Freye reforça que no século XIX a migração mundial para cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais fortaleceu a miscigenação de hábitos, principalmente da gastronomia. Vindos árabes, europeus, africanos alforriados e asiáticos, o culto ao garimpo e as promessas de fortuna afortunaram a formação cultural do país também pelo estômago, que aliás é o nome de outro filme nacional, “Estômago” (2008) digno de se assitir, segundo mamãe!

Movida pela casualidade do encontro, inspirei nas imagens da minha ‘irmã’ mineira, que me encaminhou registros de sua recente viagem à Chapada Diamantina (BA), outro canto de exploração mineral que fulminou a abertura de trilhas e lugares inspiradores do território nacional. Um museu à céu aberto que acolhe instrumentos, balança, ferramentas, munição e armas do período da mineração. Uma maravilha escondida entre as ruínas das antigas minas de diamantes, sob o Sol escaldante da Bahia e a modesta simplicidade brasileira. Sempre a caminho do descobrimento!

As fotos são da querida Juliana Pace. O lugar abriga ruínas de um antigo garimpo, esculturas ao longo do paisagismo dos jardins em pleno sertão, uma galeria de arte e um restaurante.

Imperfeição

Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos e das pessoas que amamos“. (devo incluir também: os filmes que assistimos)

Numa conversa amigável com mamãe, mas sempre regada por sutis conflitos ideológicos, ela insiste em criticar o cinema nacional de excessivas cenas violentas, carnificina e agressões exacerbadas sobre contextos sociais. “Acho tudo muito triste, visceral e apelativo”, quanto ao uso do tema da criminalidade e desigualdade social e cita clássicos para exemplificar: Terra Estrangeira (1995), Central do Brasil (1998), Brava Gente Brasileira (2000), Cidade de Deus (2002), Amarelo Manga (2002), Carandiru (2003), Cidade Baixa (2005), Tropa de Elite (2007), O Palhaço (2011), Faroeste Caboclo (2013), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e A Vida Invisível de Eurídice (2019). Errada ela não está, mas necessário é assistir para que pelo menos nos demos conta da realidade nacional e isso é imprescindível.

Foi no livro “Pérola Imperfeita” (2014), da Companhia das Letras, escrito pela antropóloga Lilia Mortiz Schwarcz sobre a obra de Adriana Varejão, que ela faz a reflexão mais preciosa de nossa nação. Descreve a pesquisa artístico-histórica de Varejão como fonte de estudo sobre a formação da cultura brasileira. Diante de tantas atrocidades: canibalismo, escravidão, colonização, torturas, estupros, abortos, sua obra não poderia ser diferente. É quase uma denúncia, um relato visual de um povo que se construiu nas bases da catequização, do monopólio e do patriarcalismo. Mas sua obra também tem beleza e esperança, assim como o cinema nacional, ou as lágrimas nos olhos da atriz Fernanda Montenegro.

O azul intenso que ela se apropria da azulejaria portuguesa ou da técnica de cerâmica chinesa é uma joia, um brilho no infinito horizonte de possibilidades. Ali ela mistura o barroco com a tropicalidade, com as rachaduras de nossa imperfeita formação, as fissuras e feridas abertas num mapa de um mundo de riquezas e perdições. Rachadas por dentro e por fora ainda somos capazes de criar e amar o que ainda há de mais sagrado em nosso território, a Natureza.

Em seu pavilhão no Instituto Inhotim, a Galeria Adriana Varejão é a prova de que esse amor a tudo vence. O espelho d’água na entrada, o balanço impecável da solidez do concreto e sua inserção no desnivelado terreno, que abriga o imponente verde do jardim traz a sensação de paz, de calma, de esperança. A cuidadosa pesquisa pictórica em azulejos de pássaros nativos do país estampando os bancos externos são de uma delicadeza e sensibilidade, porque a artista entende que temos a maior biodiversidade de aves de todo mundo.

Se regar de sutis conflitos ideológicos é o primeiro passo ao enfrentamento de duas faces opostas da mesma moeda. Somos sim uma sociedade violenta, desigual e marcada pelo agressivo contato entre raças. Mas podemos também ser livres, cuidar de nossas rachaduras, nossas feridas que se abrem ao deixarmos de enxergar o belo, a Natureza, a verdadeira vida que pulsa no ar, nos seres vivos, nos nossos jardins de incertezas. Em tempos tão sofridos mundialmente, resta nos cuidarmos de nossas feridas e a aceitação de nossas imperfeições.

Liquidez

As coisas não são vistas tais como são, mas tal como somos

Anais Nin (1903-1977, escritora francesa)

Se deslumbrar e criar expectativas sobre aquilo que a gente mesmo projetou é certamente frustrante. Bom mesmo é deixar fluir, aceitar a resposta de bom grado e ser grato. Mas isso aí é tão difícil quanto não se deslumbrar ou criar expectativas.

Estar bem informados, eu diria que é um começo eficaz. Segundo o filósofo polonês Zigmund Bauman, vivemos na tal sociedade líquida: “tudo escorre por entre os nossos dedos” e essa poderia ser a mais pura verdade, no atual momento. Nossos sentimentos funcionam única e exclusivamente para o nosso próprio bem estar, principalmente depois das descobertas científicas como: os antibióticos, analgésicos, a informática e os cybers prazeres. Usamos e abusamos das coisas até que elas acabem indo parar no lixo ou no mar (já se perguntou para onde vai seu iphone, seu androide, ou ipad depois de obsoleto?) Por isso, nem podemos pronunciar a ideia de sustentabilidade entre nós.

Acabo de assistir ao documentário Seaspiracy (Netflix, 2021) que não foi nada amigável sobre essa terminologia. As questões ambientais só nos comovem quando doem em nossos calcanhares. Um dos fatos relatados no filme é a epidemia do Ebola, na África Central. Pesquisadores descobriram que o advento da indústria pesqueira em locais como a Tanzânia, que faz fronteira com a República Democrática do Congo, foco central da epidemia, provocaram a escassez de recursos dos povos nativos, habitantes das margens do mar. Sem peixes para comer eles começaram a caçar pequenos animais como macacos, de onde contraíram o vírus letal. A Covid 19 também é consequência do desequilíbrio ecológico, no entanto estamos muito mais preocupados sobre não consumir prazeres sociais como medidas de segurança, em longos períodos de quarentena, do que pensar sobre as consequências dos pássaros tropicais que vão parar em gaiolas nórdicas, por exemplo.

Pois bem, especialistas relatam que este período de quarentena é o momento de resguardo que permite à Natureza de se auto recompor. Incrível, não?! Não, é científico mesmo. Nós contaminamos a terra como o venenoso mercúrio contamina as nascentes de água em garimpos clandestinos. O historiador israelense, Yuval Harari defende a teoria de que os sapiens são os maiores responsáveis pela extinção de espécies primitivas e atuais. São responsáveis também pelo aquecimento global e pelo ciclo vicioso das epidemias.

Dito no início do texto que estar bem informada é um ato de bem estar consigo mesmo, subentende-se que somos fadados em assumir responsabilidades e atuar de forma sensata, para que (pelo menos) possamos diminuir os danos e as consequências ao futuro. Uma frase bem legal e de efeito do cientista norte-americano, Carl Sagan (1934-1996) sintetiza o bem estar coletivo: “As nossas preferências não determinam a verdade“, por isso, pensemos num todo e para todos! Entre líquidos venenosos e férteis, somos nós quem decidimos o que iremos deixar escorrer sobre a terra. São nossas escolhas pelas tais informações verdadeiras e não pela tal preferida!

Ilustra o texto obra da artista, Roberta Tassinari. Tassinari é de Florianópolis, mas vive e trabalha em São Paulo. Adota em sua pesquisa a ideia: “entre o mínimo de interferência e o máximo de sensatez“.

Agir menos e melhor, pensar mais, muito mais e interferir o mínimo possível na Natureza!

Eternidade

Essa ideia: ‘a arte me faz importante, me confere a possibilidade de eternidade’, está implícita no pensamento de Mario de Andrade, quando escreve seu antropofágico artigo sobre a Família Artistíca Paulista e menciona a arte como forma de ascensão social por parte dos operários e artesãos” (Relíqueas de um desconsertante artesão, Tribuna de Minas/BH, 1989).

Eu queria tanto compartilhar o que eu vejo. Agora só consigo pensar na minha relação com a eternidade“. (Filme sobre Van Gogh, No Portal da Eternidade, 2018)

O que é construir uma relação com a eternidade?

É produzir algo que tenha relação com uma linguagem estética e que tenha escolhas adequadas ao contexto visual, algo que proporcione uma experiência artística virtuosa!

Mas como saber se esta experiência é virtuosa ou não?

O cineasta e crítico de cinema, Arthur Tuoto postou em suas redes sociais a seguinte pergunta:

Todo filme pode ser considerado arte?”

Ele responde com a premissa de que “todo filme, independente do seu gênero tem a possibilidade de propor uma experiência artística. Seja um blockbuster ou um filme cult, uma obra deve ser julgada unicamente pela sua relação com a linguagem”.

Essa resposta se encaixa perfeitamente para as Artes Plásticas, eu trocaria só o termo ‘gênero’ por ‘estilo’. No mais Tuoto se desdobra em justificar porque às vezes, um filme cult, ou alternativo, nem sempre é um filme que tem boa relação com a linguagem e que às vezes filmes blockbusters, ou comerciais são filmes mais autorais e proporcionam uma boa experiência artística porque fizeram escolhas mais adequadas, ou seja mais acertivas ao contexto do enredo. O mesmo se pode dizer sobre artistas com estilos conceituais, ou undergrounds aos mais empreendedores, ou comerciais. Ora, produzir obras provocativas ou que causam estranhamento só pela vontade de causar é fácil, difícil é estabelcer um discurso que justifique a provocação dentro da linguagem da estética artística.

Muito tem sido feito por aí, digo até por artistas renomados, que produzem obras que querem “inovar tanto que acabam indo para um lado meio sádico, do choque pelo choque. Obras que me parecem pseudo artísticas, que impõe uma ideia de estranheza, que soam muito forçadas”. Outra fala de Tuoto que se encaixaria em certas obras de artistas do circuito.

I asked my self why should I invent new imagens when there are so many in the world? I don’t have to create more. My strategy is to select existing images and recreate them. And I prefer this as a way of engaging history“. (Adriana Varejão via @gagosian)

Aqui a artista expõe seus valores estéticos e dá a dica sobre uma interessante estratégia, mas sempre com escolhas de elementos precisos para sua pesquisa visual. Aos artistas perdidos em suas escolhas narcisístas eu sugeriria uma rota às sábias palavras da eterna Adriana Varejão e às sensatas críticas de Arthur Tuoto.

Ilustra o texto obra do artista Tarcísio Veloso que consciente ou insconsciente segue a cartilha da artista carioca, selecionando minuciosamente imagens onde as compõem com equilíbrio e delicadeza, nos proporcionando uma virtuosa experiência e eternizando sua linguagem artística!

Ir à Lua com os pé na Terra

Aproveitei o lockdown para reassistir o inesquecível “Contato”, uma pérola dos anos 90 dirigido pelo norte-americano, Robert Zemeckis, que também foi responsável pelas ficções teenagers da trilogia “De volta para o Futuro” e o hilariante “A morte lhe cai bem”.

“Contato” (1997) é a adaptação do romance do cientista Carl Sagan (1934-1996) e conta a trajetória da protagonista interpretada pela atriz Jodie Foster, que sonha em ser uma astronauta e conversar com extraterrestres. O filme (para a década) tem primorosos efeitos especiais e transita entra a metafísica cosmológica até o âmago da pergunta que não que calar: “afinal, para onde estamos indo?”. Li noutros artigos psicanalíticos que a Ciência também pode ser um caminho para o fanatismo, um tipo de cientificismo sem fronteiras. Brincadeiras à parte, a crença cega na Ciência é tão nociva quanto a crença inabalável num mito cristão. Diante de tantas incertezas que estamos vivendo, o filme é um alento, uma gota de mel no amargo limão que guarda a bendita vitamina C.

Se Deus existe ou não, se é mulher ou homem, negro ou negra, baixo ou alto, a questão é que mesmo indo para Marte ou mergulhando no fundo do mar não descobrimos quem realmente somos, o que viemos aqui fazer e para onde vamos. Desvendar nossa verdadeira essência é o mais desafiador dos propósitos. A Ciência explica, a Religião conforta, o prazer diverte, o medo protege, mas só o amor salva. É piegas e clichê, mas é fato.

O filme me remeteu à um dos episódios da 3ª temporada de “The Crown: Poeira Lunar”, no qual o Duque Phillip faz um pedido irrecusável à Rainha para ter uma audiência particular com os astronautas que acabaram de chegar da Lua, em 1969. Sua entrevista é um fracasso e ele fica sem as respostas que tanto procurava nos céus e no seu ceticismo. Dada sua crise existencial, o Duque finalmente cede às propostas para reuniões sobre Teologia, ao diácono Robin Woods (1914-1997) , com quem estabeleceu uma relação de amizade durante anos.

Ambas as histórias nos levam a crer que tudo tem um ponto de equilíbrio, a Ciência como conhecimento empírico e indispensável e a Teologia como um conforto para a alma e os males invisíveis que nos afligem dia a dia. Saber estabelecer este elo de confiança entre áreas tão distintas pode realmente ser a resposta para as tais insistentes perguntas. Viajar para a Lua sem tirar os pés da Terra é para os que tem fé! Fiquem todos bem, continuem com suas máscaras e/ou capacetes e façam uma boa viagem a este estágio chamado vida!

Ilustra o texto a pintura óleo sobre tela, “O astronauta”, 2020, do hiper realista Tarcísio Veloso, que brinca com os detalhes que contextualizam contrastes da contemporaneidade como as abelhas num estúdio fotográfico, insetos responsáveis pela polinização e indiretamente, pela nossa saudável subsistência no planeta e um brinquedo nas mãos da criança, que é uma pistola, geralmente presenteada aos meninos, porém na cor rosa, que geralmente é a cor pré-estabelecida para as meninas.

Desmistificando mitos

Amós Oz (1939-2018) é (ou era até semana passada) um escritor sagrado em Israel. Pacifista e colecionador de prêmios literários internacionais, Oz teve sua vida privada exposta recentemente pela própria filha, que acaba de lançar uma autobiografia sobre as violências domésticas e abusos psicológicos que sofrera com o pai. Ora, num país tão religioso e machista como Israel, seria até corriqueiro uma filha passar por tudo isso e ninguém dar ouvidos, não fosse a contribuição histórica e cultural de um homem público como seu pai, a imprensa deu ouvidos, voz e mais algumas páginas nas mídias virtuais.

É sabido e até comum na História da Arte as disparidades comportamentais dos artistas em geral. René Rodin (1840-1917), por exemplo, foi a última gota para enlouquecer por completo sua talentosa discípula e amante, Camille Claudel (1864-1943). Quantas biografias de Jackson Pollock (1912-1956) precisaríamos ler para entender que ele era um fanfarrão e um ninfomaníaco incurável. Pablo Picasso (1881-1973) teve mais amantes que telas para pintar. Quem não sabe que o gênio do cinema mudo, Charlie Chaplin (1889-1977), o icônico Carlitos era um cineasta indomável, assim como seu colega Alfred Hitchcock (1899-1980). No romântico e tendencioso documentário sobre moda “Casablancas (1942-2013): o homem que amava as mulheres” é explícito a prepotência e petulância da top model Naomi Campbell (1970), dentre outras celebridades do ramo.

Há uma lógica nisso tudo, a resposta é que para a grandeza de toda essas genialidades há uma outra inversamente proporcional. Quanto mais talento e brilho se expande, maior a escuridão e a obscuridade que se escondem dentro dos holofotes. Biografias não autorizadas estão aí para nos dizer o que nem sempre pode ser dito. Mas é claro que eu não estou aqui para julgar ninguém. O que seria do mundo sem estes gênios geniosos? Nossas vidas são preenchidas com cultura e lazer, música, moda, design e sabor por causa deles e delas.

O escritor Ítalo Calvino (1923-1985) também entra no bolo dos geniosos. Nascido na Itália e criado em Cuba, Calvino transitou entre ideologias opostas, ora defendendo o comunismo, ora o neoliberalismo. Inspirado em sua obra “Cidades Invisíveis”, o arquiteto, artista e designer, Ricardo Masi reproduziu na técnica de corte e dobragem em papel o conto “Armila”, cujo tema aborda uma situação controversa, mas que enfim, consegue ser equalizada pelo destino!

Ignoro se Armila é dessa maneira por ser inacabada ou demolida, se por trás dela existe um feitiço ou um mero capricho. O fato é que não há paredes, nem pavimentos: não há nada que faça com que se pareça com uma cidade, exceto os encanamentos de água, que sobem verticalmente nos lugares em que deveria haver casas e ramificam-se onde deveria haver andares: uma floresta de tubos que terminam em torneiras, chuveiros, sifões, registros. A céu aberto, alvejam lavabos ou banheiras ou outras peças de mármore, como frutas tardias que permanecem penduradas nos galhos. Dirse-ia que os encanadores concluíram o seu trabalho e foram embora antes da chegada dos pedreiros; ou então as suas instalações, indestrutíveis, haviam resistido a uma catástrofe, terremoto ou corrosão de cupins. Abandonada antes ou depois de ser habitada, não se pode dizer que Armila seja deserta. A qualquer hora do dia, levantado os olhos através dos através dos encanamentos, não é raro entrever uma ou mais jovens mulheres, esbeltas, de estatura não elevada, estendidas ao sol dentro das banheiras, arqueadas debaixo dos chuveiros suspensos no vazio, fazendo abluções, ou que se enxugam, ou que se perfumam, ou que penteiam os longos cabelos diante do espelho. Ao sol, brilham os filetes de água despejados pelos chuveiros, os jatos das torneiras, os jorros, os borrifos, a espuma nas esponjas. A explicação a que cheguei é a seguinte: os cursos de água canalizados nos encanamentos de Armila ainda permanecem sob o domínio de ninfas e náiades. Habituadas a percorrer as veias subterrâneas, encontram facilidade em avançar pelo reino aquático, irromper nas fontes, descobrir novos espelhos, novos jogos, novas maneiras de desfrutar a água. Pode ser que a invasão delas tenha afastado os homens, ou pode ser que Armila tenha sido construída pelos homens como oferta para cativar a benevolência das ninfas ofendidas pela violação das águas. Seja como for, agora parecem contentes, essas moças: cantam de manhã.” 

“Armila”, participa da mostra “Sensações” realizada pelo Coletivo Tremma e Opus Incorporadora no decorado do Deck 23, na Praça 53, Setor Bueno. E a gente agradece as disparidades comportamentais dos artistas. Que continuem sempre geniosos!!!

O que é arte?

No início deste ano, a obra “Diva”: chamada de “ferida vulva” ou “vulva gigante”, da artista pernambucana Juliana Notari causou uma polêmica envolvendo várias esferas da sociedade: princípios, lutas de gêneros, “ismos”, violência, estética e dicotomias. Sua obra comprova a verdadeira bomba de realidade que pode ser divagar sobre uma obra de arte, principalmente por sua gigantesca proporção.

Sobre os leigos: “melhor nem perder tempo pensando sobre isso”! Só que não! Leia também a reportagem que elucida o tema por Beta Germano .

A Arte, para ser boa, não tem necessariamente que ser bela. Esta semana navegando compulsivamente pelo Instagram eis que assisto um vídeo de uma representação em escala real de uma vulva rasgada feita de borracha tal como é comum acontecer em partos normais por causa do pique para a saída do bebê, mas e também na violência sexual doméstica. Neste caso o protótipo em borracha serviria como aula prática para a sutura da vulva. Pois bem! As simulações de vídeo-aulas demonstram a cirurgia em 3D de forma limpa, clara e didática. Mas quando o aprendiz tem que segurar a agulha com o fio de nylon para fazer os pontos na vagina da paciente, daí é uma outra história. Ali, de verdade, jorra sangue, exala um cheiro de álcool, iodo, formol, sons e gemidos, tensão e cuidado. A Arte, o ato do fazer com as mãos, a artesania é mais ou menos assim! Penetra em nossas entranhas demonstrando a que veio, doa a quem doer.

Sabe aquele velho ditado: “se não aprende no amor, aprende pela dor”?

Pois é: “Mentira”!

A gente só aprende mesmo com a dor ( porém, nas devidas proporções que cada um consegue aguentar). Se não aguentou, não evoluiu, não se transformou, permaneceu o mesmo… É na dor, amigos! Feliz ou infelizmente: “tarda, mas não falha”! E nem venham me dizer que são felizes, não sofrem, bla bla bla. Se não sofreu, não se transformou, continuou um leigo… A dor tinha que ser quase um prazer, um masoquismo, um aprendizado às forças, como estar amarrada e chicoteada, ou mordida pelo pescoço! Mas isso até que é bom. Para ser sincera é muito bom! Senão incomodou, senão doeu, você não entendeu ou isso não é Arte, não cumpriu a missão!

Olha só o exemplo da Yoga: “se tá fácil tá errado”.

O lema dos atletas em geral : “No pain, no gain“!

Discutir o tamanho da vagina, o efeito ambiental que ela causou para ser produzida e quantos funcionários negros trabalharam para cavar 33 metros das profundezas de vida feminina é só um detalhe para a grandeza de informações e resultados que ela vai explorar no inconsciente coletivo. Esta extraordinária obra está localizada na Usina de Arte, em Zona da Mata do Sul, Pernambuco.

Então, meus querides, saibamos que a vida é feita de realidade. Um médico não costura apenas uma boneca de borracha, ele sutura músculos, entranhas, orifícios, buracos, pus, fedor, odor, tumor… Da mesma forma que temos de aceitar a dura realidade da vida, temos de aceitar que a arte simula, através do fazer artesanal, as sensações que nos instigam a pensar na dor, nas consequências de nossos atos, em como podemos nos transformar e qual será o efeito final disso tudo para nossas vidas!

Ilustra o texto aquarela da ilustradora e artista, Emília Simon, que está participando do evento “Sensações” realizado pelo Coletivo Tremma e Opus Incorporadora. Nascer mulher não é missão fácil, a vantagem é que aprendemos mais rápido a lidar com a dor, com a vulva, com o sangue, com a ferida. “O que não te mata, te fortalece”!

Sensações

O mês de fevereiro vai começar com sensações que todo bom brasileiro gosta: Carnaval, Café e Arte, tudo junto e misturado. Em parceria com o Coletivo Tremma, Incorporadora Opus e iL Caffè a mostra interativa “Sensações” une o gosto do café e design para uma experiência cultural, cheia de festa e sabor. Com trilha sonora à rigor e uma pitadinha de cores suave, pensamos um evento criativo, interativo e divertido. A curadoria de arte para a mostra coletiva “Sensações” foi pensada para dar conceito à um dos maiores prazeres e rituais praticados na nossa cultura: degustar um bom café! Selecionamos 3 artistas: Pitágoras Lopes, Emília Simon e Ricardo Masi para trabalharem em conjunto e ocuparem o espaço da Cafeteria e do apartamento decorado. A instalação artística inicia na entrada da cafeteria com um tapete especialmente produzido para o espaço (com imagens de cada artista) que dialogará com as obras dentro do apartamento e adesivos também feitos para o evento, que serão distribuídos para a interação dos espectadores.

O artista Pitágoras Lopes tem como marca registrada seus insetos multicoloridos, que representam a fase da metamorfose, o ciclo mágico do ser vivo que nasce como larva e se desenvolve como um bichinho voador. Um sabor de mudança e transformação para o novo ano que se inicia.

A artista e ilustradora Emília Simon criou a figura mitológica da sereia, o mito regionalista do folclore brasileiro, a Iara, metade mulher, metade peixe, que seduz, ama e cuida dos seres aquáticos, mas tem seus mistérios e perigos. Um sabor enigmático para um gosto de um novo café.

Ricardo Masi é arquiteto, designer e artista visual, ele trabalhou sua geometria para integrar a figuração entre os outros dois artistas contraponto as ideias do abstrato com o figurativo, uma analogia entre nossas emoções e nossa razão. Um sabor de equilíbrio que é fundamental para nossa vida!

O conceito para o Projeto “Sensações” é a interação do visitante para caminhar sobre o tapete com a estampa produzida pelos artistas e também participar através dos adesivos feitos com imagens do tema de cada artista a exprimir seu momento: transformação / enigmático/ equilíbrio para adesivar nos vidros da cafeteria, da recepção, ou mesmo levar para adesivar o carro ou em casa. A experiência tem como objetivo refletir sobre o nosso momento atual, degustar um bom café para energizar as ideias e conhecer as obras dos artistas que integrarão durante 30 dias a mostra de design do apartamento assinado pelo renomado arquiteto Leo Romano, curtindo um ambiente descontraído que terá uma cenografia divertida em homenagem ao Carnaval! Pensamos com carinho e segurança nas interações para que as pessoas se sintam à vontade e saboreiem com esperança um novo ano, uma nova forma de brincar o Carnaval em coletividade, com moderação, coerência e muita Arte.

EXPEDIENTE

Organização: Coletivo Tremma – Opus Incorporadora

Curadoria: Tatiana Potrich – Potrich Galeria

Apoio: iL Caffè _encontro e sabores

Local: Deck 23 – Praça T-53 Setor Bueno

Data: 12 de fevereiro a 12 de Março de 2021

Horário: das 9h00 as 20h00

Obra do artista Pitágoras Lopes, gentilmente cedida para participar da mostra no decorado pela querida Mariana, do iL Caffè – encontro e sabores!

São Paulo é muito chato

São Paulo é muito chato!

A Pinacoteca expõe a mega mostra da dupla dos super irmãos Gêmeos.

O Itaú Cultural expõe mostra panorâmica da carioca Beatriz Milhazes.

O Masp também expõe Milhazes e ainda coleção em bronze das bailarinas de Edgar Degas.

O CCBB expõe mostra retrospectiva do vanguardista Ivan Serpa.

O MAM expõe mostra emblemática do visionário Antônio Dias.

O Farol Santander expõe a mostra divertida da jovem contemporânea, Flávia Junqueira.

E eu aqui, vendo tudo online, tudo virtual, tudo e nada. Que chato!

São Paulo não é tão perto para ir ali e voltar!

E se São Paulo viesse até aqui?

E se todo mundo pudesse ver o que tem em São Paulo?

Oh, São Paulo, você é um santo, faz um milagre pá nois!

Como não amar a chatice intelectual de São Paulo?

O sotaque irritantemente cantado!

A eficiência de seus prestadores de serviço.

O profissionalismo expresso em café e lavoro.

São uns chatos e engomados, paulistanos ou corintianos.

Chatos! De galocha ou de salto alto!

Lá é garoa, é feiura, é a beleza da cultura.

Dos mano e das mina.

Mortadela ou pastel.

Mercado, feira.

Lá é a Torre de Babel!

Que saco, que chato!

Que saudades das chatices de São Paulo!

Ilustra o texto imagem (#tbt eu empurrando o carrinho de bebê do meu primeiro filho) na Paralela 08 “De longe e de Perto”, no Liceu de Artes e Ofícios, mostra que ofuscou a Bienal do Vazio (2008), trazendo a coletiva de 61 artistas representados por 11 galerias de arte que se empenharam numa curadoria excepcional baseada na entrevista do antropólogo francês, que viveu em São Paulo em 1930, Claude Lévi-Strauss. Destaque para obra de Rodrigo Matheus (artista que apresentou sedutores quadros feitos a partir daqueles antigos cardápios que eram pendurados nas paredes de bares. Quem lembra disso?) e carrinhos de supermercado interligados, do baiano Marepe.

Padrão de Beleza

O filme a “Invenção do Natal”, lançado pela Netflix em novembro 2020, não tem nada demais. É um filme natalino como outro qualquer, não fosse pelo pequeno detalhe de que todos os atores e atrizes são negros, com exceção do vilão, que é branco, claro! Muita produção cenográfica, efeitos especiais e figurinos estruturados, transitando entre as cores fortes, típicas de estamparia africana tendendo à um estilo kischt, quase cool! Indico apenas para quem ainda tem crianças em casa, porque filme de Natal assim é bom se for com elas! Para os adultos eu indico somente àqueles que ainda tem alguma objeção à protagonistas negros ou mestiços. Se este for o caso, indicarei também a série “Lupin”, com o inebriante ator francês, Omar Sy, um clássico da literatura britânica sobre um Ladrão de Casaca que é um verdadeiro gentleman!

A série “Bridgerton” indico para os teenagers, ou para quem pensa ser, ou ainda gostaria de ser! A atmosfera romântica é típica da “Saga Crepúsculo” ou “50 Tons de Cinza”, só que não, mas é o metódico conto da donzela apaixonada pelo galã indomável e seu título de duque. Um primoroso protagonismo mestiço, que deixou a historinha e o figurino da trama a ver navios. Digamos que René-Jean é o novo Leonardo DiCaprio, versão morena, só que não. Muito melhor! Cotado para ser o próximo 007, o britânico é pura simpatia e volúpia! Ao invés da esgrima, nosso protagonista é filmado sem camisa lutando boxe.  A série tem suas ‘interessâncias’: diálogos educados, personagens caricatos aos seus atores, discrepância entre as classes culturais expressa principalmente nos figurinos e comportamento padrão britânico, que só eles são capazes de ter! Que diplomacia! Entre dizer que você pode, ao dizer que você quer, há uma grande diferença e, na série, isso é dito como traição. Quem assistiu vai entender, mas não darei mais spoilers. O fato curioso é que a Rainha Charlotte, interpretada pela atriz britânica Golda Rosheuvel tinha realmente uma descendência negra. Segundo pesquisadores, houve um apagamento da história sobre a contribuição dos negros na casta nobre da sociedade do século XIX. A própria cor da pele da rainha pode ter sido alterada nas pinturas da época para esconder sua verdadeira origem.

Isso me fez lembrar que em alguns anos atrás uma polêmica atiçada por um certo (ou errado) deputado federal, ou pastor, ou amante (como dizem as más línguas) de um ex ator pornô, atual deputado federal também, declarou publicamente: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. Um vídeo no Youtube, com a fala de um historiador, corrigiu o racismo e alienação religiosa do aspirante a pastor com a seguinte declaração:

“O senhor não acha que a maldição da África foram os brancos que invadiram e levaram a sua população como escravos? Que exploraram as suas riquezas naturais? A maldição da África não se deve aos europeus e aos americanos (…)? Sem a nossa invasão a África não seria um continente diferente, visto que lá surgiu o grande império mundial, que foi o Egito? A Etiópia não era a miséria que é hoje. A Etiópia era um país muito rico. A Rainha de Sabá, que levou tantas riquezas para o Reino de Salomão, também era proveniente da África. E por que é que nós insistimos em demonizar a cultura africana? Tudo que vem da África, seja comida, seja música, seja folclore. Por exemplo, a gente é capaz de ir ao cinema assistir um filme do Thor, porque o Thor é um Deus da mitologia nórdica, é loiro, tem olhos azuis, mas o Thor pedia sacrifícios humanos. Quem é que levaria seus filhos para assistir um filme de um Deus africano, tipo Xangô? Que pedia sacrifícios, não de humanos, mas de animais”!?

Que venha uma vice-presidente norte-americana, descendente de africanos. Que venha um ator para interpretar o agente secreto mais querido da coroa britânica, descendente de africanos. Que venham a simpatia e volúpia! E sejam muito bem vindos ao padrão de beleza mestiço! Ilustra o texto obra do artista Tarcísio Veloso, “Primeira Aluna” (2020) inspirado em Ruby Bridges ativista estadunidense do movimento negro, conhecida por ser a primeira criança negra a estudar em uma escola primária só para brancos em Louisiana ainda no século XX.