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Arte e Amor

Encerramos mais uma semana com nossa garimpada Programação Cultural e a troca foi com figuras da moda, que ditam tendências e se inspiram na Arte em suas produções. A “itgirl”, Thay Sanqueta e o maquiador, Evando Filho, ambos autodidatas em seus respectivos ofícios, compartilharam conosco suas experiências e suas aventuras na arte de viver e sobreviver em meio a percalços e obstáculos do mundo da moda. Mas esses guerreiros sabem bem o que querem e projetaram suas carreiras para vencer todos os desafios. E não é que nesse bate-papo descobrimos que a Arte e o Amor pertencem um ao outro?

A trajetória de Thay foi narrada sobre uma infância de dificuldades financeira e a perda precoce do pai, que tudo provia. Não por acaso se tornou autossuficiente muito cedo e ao seu lado está um parceiro que valoriza seu trabalho e acompanha sua trajetória sempre a incentivando em tudo. Essa cumplicidade se transformou em Arte na tentativa de se autoconhecerem e manterem uma extensão de suas vidas para dentro de sua casa, de seu lar. Essa tomada de consciência foi tão natural, quanto o Amor entre eles. Por causa do cuidado financeiro, Thay teve a sensibilidade de valorizar pequenas expressões artísticas da família, como moldurar as cartas de poemas da mãe de seu marido e também pendurar nas paredes seus primeiros convites VIP’s, para fila classe A, dos desfiles de moda. Sua inédita identificação com a Arte Contemporânea foi quando se deparou com uma “Mulher Maravilha”, de Pitágoras, a série que o artista goiano desconstrói imagens de ploters, flyers, folders, capas de revistas de top models e interfere em suas imagens desenhando ou pintando os adornos da mulher emponderada (a coroa, as madeixas, os braceletes, o corpete ou espartilho), mas também as desfigurando, numa crítica à indústria desumana da moda, da beleza perfeita. Pitágoras seria a voz para esta “itgirl” ter certeza que trilharia seu caminho conforme seus passos e seu coração e não pelo contorno slim de seu corpo: “A Arte me transformou”, confessa a nossa blogueira.

O maquiador Evando Filho traz na bagagem um árduo trabalho da beleza, onde coleciona makes em desfiles de grandes nomes da moda, dentre eles, o estilista mineiro, Ronaldo Fraga. Aqui temos um elo precioso desta dupla de palestrantes que insistem em fazer da moda, sua Arte. Thay nos conta que em seu último desfile para SPFW, Ronaldo Fraga se inspirou na obra “Guerra e Paz”, do artista brasileiro, Cândido Portinari, onde retratava uma sátira aos “políticos-hienas”, o qual criticou ferozmente, através de suas vestimentas, acessórios e maquiagens, as políticas vigentes no país e como a moda poderia também influenciar o ponto de vista de seus espectadores com uma percepção mais sensível, mais humana, mais amorosa, mais artística. Evando vai de encontro com a ideia da transformação através do make: “A maquiagem como expressão de Arte”, afinal nos comunicamos através do corpo, do olhar, das expressões faciais, das cores, do brilho, da alegoria. O maquiador que transita entre o sonho, a temática do personagem e a coerência da maquiagem acredita que para cada ocasião e cada pessoa e personalidade há um tom especial, uma cor específica, um grau de intensidade.

De todas as trocas e sensibilidades coletivas que pudemos vivenciar durante um curto período de uma manhã de sábado, expandimos nossos conhecimentos e constatamos que a conexão é sempre melhor que a solidão. A Arte e o Amor estão interligados de um jeito ou de outro, um não vive sem o outro. Expressar a Arte com Amor é um hábito que temos de exercitar cotidianamente. Só se expressa com Arte quem se expressa com Amor!

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Série “Mulher Maravilha”, intervenção sobre capa de revista, Pitágoras.

A inteligência do Futuro

Há um ano encerrávamos a mostra individual do artista goiano, Pitágoras “Human and Machine – Retrospectiva”, com curadoria inspirada no filme cult inglês “Ex-Machina: Instinto Artificial” (2015), do diretor Alex Garland. O filme abordava o princípio do Teste de Turing, proposto pelo inglês Alan Turing (1912-1954) para identificar, através de um questionário, se este era respondido por um humano ou um robô. O filme vai mais além, confirma a superioridade da inteligência artificial, personificada na forma feminina, que superava a estratégia manipulada por dois homens. A palestra da última quinta-feira “O Futuro do Trabalho”, por Nathália Kelday, me remeteu às pinturas de Pitágoras e às marcantes cenas deste filme inglês. Segundo nossa palestrante, a 4ª Revolução está a caminho, depois da Agrícola, da Industrial e da Informacional estamos prestes a encarar a revolução em áreas como: robótica, nanotecnologia e biotecnologia, que farão parte de nossas vidas diariamente. O conceito VUCA (volality, uncertality, complexity, ambiguity) é um dos sintomas da contemporaneidade que corre contra o tempo e abre parênteses sobre as perspectivas e qualidades de vida para o futuro. A mente humana terá de acompanhar a tecnologia a passos largos, visto que os robôs já começam a ocupar diversos cargos de humanos, além de suprir e substituir os produtos de primeira necessidade, como os alimentos produzidos por células troncos em laboratórios e estufas.

Assustador, né! Ou não! Num artigo para Revista Cultura, do ano passado, a personagem que ilustrava a página era a robô Sophia, primeira androide do mundo a receber cidadania. O autor indaga a respeito de um detalhe muito importante: se é possível que os robôs executem todas as funções dos homens, será que conseguiriam também escrever poemas, produzir obras de arte, compor músicas, desenvolver coreografias de dança, ou amar?

Em filmes de ficção científica ou até desenhos animados, os robôs já são providos de sentimentos ou acabam por desenvolvê-los ao longo do enredo. Então, será que o corpo, ou a máquina não seriam apenas um veículo de armazenar energia, espírito, alma, ou o “Pó”, como é citado na Bíblia? O CCBB-DF recebeu a mostra do excepcional e gótico para sempre, o diretor americano, Tim Burton. Dono de uma criatividade ímpar Tim Burton dirigiu um filme, em 2009, que responderia a esta última questão, a animação “Salvação 9”. Um tesouro para a compreensão mística e científica da essência humana, que no imaginário de Burton seria possível ser transferida para corpos de bonecos de juta, que ganhariam vida e inteligência.

Uma coisa é certa e bem previsível, a essência dos seres mais sensíveis e equilibrados emocionalmente estará muito mais preparada em aceitar o futuro e se adaptar a ele, que qualquer conta bancária, beleza ou currículo acadêmico. Teremos de desenvolver mais nossa sensibilidade para abraçarmos o desconhecido e a diversidade cultural e assim, nos preparamos para um futuro mais próspero, ameno e inteligente! Cuidemos mais de nossa alma, de nosso espírito, de nosso pó, porque ao pó voltaremos!

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Obra de Pitágoras em ambiente por @idmaisd

Garimpando o Caos

Iniciamos o mês com intenso aprendizado e trocas culturais realmente significativas. O GARiMPO-COLECiONiSMO superou nossas expectativas e estamos ansiosas para as próximas palestras. Farei aqui apenas um breve relato das informações garimpadas dentre tantas preciosidades ditas e experimentadas durante a primeira semana do evento.

Parece repetitivo dizer que o “autoconhecimento requer pesquisa”, mas ainda faz muito sentido quando nos questionamos sobre quem somos e o que viemos fazer nesta dimensão (em qualquer idade). A palestra “Poesia e Autoconhecimento”, por Luciano Alves Meira elucidou o quanto podemos nos aprofundar em nosso caos interior para encontramos, enfim a ordem para iluminar a nossa caminhada pela vida. Baseado no “iKiGAi”, conceito japonês que busca a “razão do ser”, muitas perguntas poderão ser respondidas se houver sinceridade e se formos justos com nossos princípios. Ao longo da palestra foram recitados poemas de grandes nomes da literatura como Manuel de Barros, Manuel Bandeira, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Olavo Bilac. Que gratificante foi nos autoconhecermos um pouquinho através da Arte e da coletividade!

Em seguida, a palestra da professora-artista, Fabíola Morais “A Arte está entre nós?” tratou do alcance e da multiplicidade de manifestações artísticas que acabam por dissolver suas linguagens. Fabíola demonstrou através do atelier do artista anglo-irlandês, Francis Bacon (1909-1992) os contrastes artísticos: “há uma relação entre o caos do atelier em oposição à assepsia da pintura. É utilizando a superfície da tela que o artista fixa suas ideias em algum lugar, enquanto navega no caos”. Observar os registros da balbúrdia do atelier nos é muito marcante e curiosamente a escolha por este artista não foi à toa. Uma Galeria de Arte em Londres abriu recente mostra com obras selecionadas de Bacon que exploram um tema que o preocupou ao longo de sua carreira: “a relação entre duas pessoas, tanto física, quanto psicológica. As imagens perturbadoras do artista, suas interpretações, de amigos e colegas e as deformações e distorções estilizadas de temas clássicos, alteraram radicalmente o gênero de pintura figurativa do século 20. Nas pinturas de Bacon, a presença humana é evocada às vezes visceralmente, em outras vezes mais fugazmente, na forma de uma sombra ou de uma figura turva e vigilante. Em certos casos o retrato toma forma de um composto no qual traços corporais masculinos e femininos são transpostos ou fundidos” (Via @gagosian).

Assim como o anglo-irlandês, outra grande artista rompeu padrões de sua época, mas preferiu o ostracismo durante um longo período até suas obras elucidarem ao mundo a corajosa jornada de uma mulher do século XIX. A palestra sobre Psicologia e Astrologia, por Larissa Siqueira relacionou “O símbolo do círculo na Psicologia Junguiana e a Arte de Hilma af Klint”. Nossa astróloga trouxe à tona informações privilegiadíssimas sobre a origem do mundo, as relações espirituais e como o psíquico reage a tudo isso mergulhando nas circunferências da Psicologia e da Arte. Na esfera do psiquiatra Carl Jung (1875-1961) o círculo simboliza a psique onde está contido o ego, o ser, a persona, o anima/us, a sombra, o consciente e o inconsciente, quando que na pintura da sueca Hilma af Klint (1862-1944) nos deparamos com uma série de estudos magnificamente trabalhados em formas orgânicas e cores, uma das quais ela denominou de “Caos Primordial” (1906-1909). Assim como Mondrian, Hilma se utilizou das cores para definir a formação do mundo, sendo representado pela cor amarela: o masculino, pela cor azul: o feminino e pela cor verde: a união deles. A série investiga o caos e a formação dos seres através de símbolos, como a cadeia de DNA, a fecundação do óvulo pelo espermatozoide e a divisão das células. O caos seria então, uma ordem infinita que se disciplinaria a partir de escolhas, atitudes e relações.

Como diria outro grande artista, o músico pernambucano Chico Science “porque eu me organizando posso desorganizar, porque eu desorganizando, posso me organizar”. Estejamos atentos aos sinais da Natureza, da Arte e dos Espíritos. As forças ou energias da intuição tem muito que nos ensinar além da razão! Venha se sensibilizar com a Arte! Esperamos vcs para as próximas programações culturais. Acompanhem nossas postagens, concorram aos sorteios e participem desta garimpagem ao caos cultural!

Ilustra o texto ensaio fotográfico por Alejandro Zenha, destaque para obra de Siron Franco da década de 80. O artista goiano teve fortes referências de Francis Bacon deixando transparecer, nesta obra, a unidade de duas formas ou corpos, físico e psíquico, que pairam sob um fundo oval cor de terra.

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GARIMPO

O jargão permanece: “Uma imagem fala mais que mil palavras”!

Foi uma semana corrida, cheia de previstos e imprevistos, mas valeu! Agradecemos à todos que estão juntos conosco nesta caminhada árdua do conhecimento cultural, do autoconhecimento e da responsabilidade de que realmente podemos fazer algo significativo para nossas vidas e para o nosso futuro. Muitos seriam os nomes para citar dos nossos agradecimentos, mas as imagens dirão por todos! Lembrando que a programação continua todo mês de Junho e o encerramento com a mostra “BAÚ”, no dia 4 de Julho! Créditos das fotos por Alejandro Zenha.

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Coletivos Culturais

Dentre tantas diversidades e adversidades vivemos num momento precioso para avaliarmos atitudes e comportamentos que afetem a sociedade e sua projeção cultural para o futuro. Quando a Arte se manifesta com suspeita cautela e subliminar sobriedade é chegada a hora de uma reflexão coletiva. Se num dado período da história brasileira, artistas declararam guerra contra a ditadura militar e suas censuras, como o famoso Ai-5, atualmente nos deparamos com manifestações mais brandas, no entanto generalizando o comportamento nacional, seja para o bem, quanto para o mal. O filme, “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, por exemplo, concorreu à Palma de Ouro ontem e levou o Prêmio do Júri, numa das categorias mais importantes do cinema mundial, no Festival de Cannes, na França. Bacurau é um termo tupi, que significa “maldizente” e dá nome a um pássaro de hábitos noturnos, período que sai a caça de suas presas, de pio triste, ave agoureira,  tal como a analogia dos personagens que exploram à duras penas uma comunidade que passa despercebida no mapa do país. O suspense, terror e ficção são o mote para um roteiro tão politizado e “ao sonho febril sobre um tempo perturbado no Brasil” (Warp – plataforma sobre cultura).

Outro sintoma, mas na literatura é a entrega do maior prêmio da Língua Portuguesa, ao escritor e compositor Chico Buarque. O Prêmio Camões é atribuído a autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa que de tanto ler, estudar e escrever, esse carioca cativo recebeu a singela quantia de 100 mil euros. Com devido merecimento e sem mais delongas.

Mais um sintoma, desta vez na Arte Contemporânea, foi a obra selecionada para 58° Bienal de Veneza, “Swinguerra”, da dupla de brasileiros Barbara Wagner e Benjamim Burca. A videoinstalação dividiu críticas e se fez ouvir e ver para o mundo, como uma das expressões culturais mais popularizadas no país. O misto de pagode, brega funk e swing é trilha sonora para um culto ao corpo, à transexualidade, à resistência afrodescendente e à cultura de gueto. Ali não tem fake news, mesmo que ainda faltem verdades sobre outras expressivas manifestações culturais, o destaque é a ginga (nome da música da cantora IZA que está remixada num dos videoclipes da obra). “Swinguerra” é um apelo ao conservadorismo retraído e enrustido de uma sociedade que vem emergindo à base de extremismos e polarizações coletivas radicais. A Arte vem e dá seu tom! Bonito, bonito não é senão não se chamaria “guerra”, né! O que se pode observar são grupos de dança, selecionados desde 2015 pela dupla de artistas, tentando se firmar com alguma autenticidade em competições que os estimulam a treinar ao menos três vezes por semana. O objetivo principal desses grupos é demarcar sua identidade social em prol da sua manifestação cultural. Daí a divisão de opiniões, se é bom ou ruim, bonito ou feio, isso não vem ao caso, mas sim a beleza “tribalista”, a resistência e adaptação desses guetos que, de uma forma ou de outra se organizam para expressar o que talvez tenham de melhor a oferecer, neste caso, a dança, a swinguera. A obra da dupla de artistas nos conta muito sobre uma nação partida, partidária. Num momento onde tantos gritos virtuais ecoam pelas redes, partimos do pressuposto que a união faz a força. Se foram selecionados para uma Bienal Internacional é porque eles realmente tem algo a nos mostrar.

Uma nação só é reconhecida internacionalmente quando valoriza suas manifestações culturais. Essas manifestações acontecem através dos guetos, grupos, comunidades, companhias, coletivos que se organizam para dizer a que vieram. Ora, se eles estão em guerra ou não, pelo menos já escolherem sua arma, a Arte. Com a Arte, meus amigos só se ganha em longo prazo, mas vale a espera! A gente valoriza os coletivos e incentivamos esta comunhão em nossa própria casa. Todos são convidados para o GARiMPO-COLECiONiSMO, que acontece com o café da manhã, no próximo final de semana. Uma mostra coletiva de arte, design e moda com programação cultural de bate-papos, oficina de arte e obras à preços acessíveis. Aqui não tem guerra, não, tem Arte para dar e vender! Aguardamos sua visita!

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Making off do GARiMPO-COLECiONiSMO. Créditos Alejandro Zenha

Deus

Meu Deus, tanto assunto acumulado para dissertar! Um domingo de folga que deu muito pano pra manga sobre babados, plissados, plumas e paetês. O tema “Camp” do MetGala, por exemplo, roubou a cena de muito evento do circuito da Arte Contemporânea. Quem quer lá saber quem é a swingueira pernambucana, de peito siliconizado, com cara da Beyoncé, em videoclipe selecionado para Bienal de Veneza, quando se tem uma mega performance de Lady Gaga acontecendo no red carpet? Quem vai querer saber da majestosa mostra baiana, no Museu Afro, de São Paulo, ou da retrospectiva de Adriana Varejão no MAM, de Salvador, quando está programado o Festival de Cannes, a última temporada de Games of Thrones ou a passeata em prol do Ensino Público nas ruas? Quem iria se perguntar, que há exatamente um ano atrás, se iniciara uma turnê internacional, após 75 anos escondidas, os gigantescos painéis da sueca Hilma af Klint, que primeiro pousaram em terras brasileiras, na Pinacoteca de São Paulo, para depois desembarcarem no Museu Guggenheim, de Nova Iorque? Quem se importaria em questionar por que insistem em filmar biografias tupiniquins de mitos, ou fake mitos, como políticos, religiosos ou duplas sertanejas, quando se poderia financiar séries de verdadeiros heróis ou heroínas nacionais como Machado de Assis (escritor), Carmem Miranda (dançarina e cantora), Lygia Clark (artista plástica), Ayrton Sena (esportista) e a lista vai… Alguém saberia me dizer por que estamos tão interessados na beleza externa e nos esquecemos da interna?

Olha, esse texto tá ficando um pouco chato, mas sinceramente o mundo anda mesmo muito chato! Tudo tem de virar uma lista de afazeres para alcançar imediatamente a felicidade:

“Vamos ler um livro de auto-ajuda”, “Vamos colocar um botox aqui, mas é só para correção”, “Vamos para Disney, mas é pelas crianças, claro”, “Vamos comprar um Romero Brito, ele é incrível”, “Vamos nos alienar e ficar cada vez mais vazios, assim alcançaremos mais rápido a felicidade”.

Feliz daquele que se satisfaz com pouco e com o melhor. Feliz daquele que cita o nome do autor que leu sem querer levar os créditos daquilo que escreveu. Feliz daquele que posta a imagem e declara sua fonte, o fotógrafo ou o modelo. A história de Narciso nunca foi tão atual! Estamos nos afogando em nosso próprio reflexo. Estamos adoecendo e os remédios não fazem mais efeito. Os médicos indicam a yoga, meditação, gnose, oração… Deus!

Parece piegas, mas é uma questão milenar. Só o dia em que alguém decifrar os vedas, ou as escrituras de Leonardo Da Vinci, ou o surrealismo enigmático de Miró, ou geometria orgânica de Hilma, ou as mensagens dos bordados de Bispo do Rosário, ou até as constelações de Antônio Dias, poderíamos saber ao certo como foi criado o Universo, mas enquanto isso fica sendo o Todo Poderoso mesmo.

No livro “Paintings for the Future” (Pintura para Futuro) há uma interessante passagem (dentre várias), da escritora, Anna Maria Svensson, que observa a importância dos experimentos pictóricos de Hilma af Klint e a relevância em disseminar seu trabalho para o mundo, no intuito de esclarecer a humanidade sobre suas ideologias: “(…) Though they travel through much dirt they were yet retain their purity“: (Apesar de se deslocarem bastante na sujeira, ainda sim preservam sua pureza).

Isto é, em verdade, o ser humano só conseguirá alcançar a felicidade (ou a espiritualidade), quando se aprofundar em sua própria sujeira, em sua mais profunda escória. É triste, mas cest la vie. Esse é o único caminho para a felicidade, a busca do auto-conhecimento. “Conheça-te, a ti mesmo”, repetia Sócrates aos seus discípulos e o quão atual ainda ecoa a voz de suas sábias palavras. Quais são nossas sombras, nossos odores(fedores), nossa escuridão? Só descendo até lá poderemos ascender a luz e aceitarmos nosso breu, desse jeito que somos, sem máscaras, rímel, silicone, hormônio ou remédios. Deixemos que os artistas registrem nossos tempos, nossos medos, nossas falhas, nossas taras e que possamos consumi-los com sabedoria e dignidade, porque é através da Arte que conseguimos chegar o mais próximo de Deus, ou de nós mesmos!

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Fotografia do goiano, Rogério Mesquita

Tudo sobre minha mãe

Pensei um tantão antes de escrever sobre minha mãe, creio ser uma grande responsabilidade para alguém com um olhar tão parcial como o meu, mas vamos lá:

A primeira imagem dela que me vem à cabeça é sua beleza física. Sempre constatei em nossos registros fotográficos ela se escondendo de alguma forma, ou com as mãos no rosto, ou num balancear do cabelo e do corpo o que causaria um embaço na foto, ou ainda com seus inseparáveis óculos escuros. Ela leva à sério mesmo a crença de que “a fotografia captura a alma das pessoas”. Seu sorriso, seu olhar expressivo avivado por suas delineadas sobrancelhas, seu nariz afinado, sua vasta cabeleira, sua altura, sua cintura, seus gestos simples e femininos. A bela que insiste em se esconder por trás de bem feitas mãos e compridas unhas. Não fosse só por esta suposta modéstia, ela teve a virtude de ser uma pré-adolescente com um pseudo défit de atenção, o que a fez se destacar na criatividade e empreendedorismo entre suas colegas de Lyceu. Também foi uma filha “tinhosa” no seio familiar, dado seu tempestuoso inconformismo construtivo, o que culminaria mais tarde, em particular, o gosto pela construção civil. Teve uma infância enriquecida de conhecimentos culturais e relações férteis, desde ser vizinha do então Governador Otávio Lage até ser apresentada formalmente e ainda jovem à Frei Confaloni.

Mamãe se casou com o gaúcho Amilto Potrich, na Catedral goiana, onde fora oficializado simultaneamente e comemorado com grande estilo, no Hotel Umuarama, as bodas de prata de seus pais. Concebeu duas filhas Ludmila e Tatiana, nomes de personagens do livro do escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881) um russo idealista que transformou culturalmente toda uma geração. Após a maternidade, mamãe decide enfim sua carreira profissional. Por instinto, destino ou talento ela investe nas Artes Plásticas da década de 80, onde a renovação da pintura ganhara força com o pós-ditadura e as Diretas Já. A partir daí se inicia uma jornada inédita. Ela provê e promove a arte nos quatro cantos do país. Representa artistas goianos num patamar nacional inaugurando sua Galeria com a mostra individual de Roosevelt, o Roos e incluindo no acervo obras de um artista já com destaque significativo no circuito, Siron Franco.

Mamãe nos deu o privilégio de conhecer ainda muito cedo a Bienal Internacional de São Paulo, em 1985. Uma das mais marcantes experiências que pudemos presenciar foi a obra do artista Alex Vallauri, “A Rainha do Frango Assado”, um misto de grafite, instalação e interatividade. Ainda em terna idade fomos desvendar a história do país, em Brasília visitando os restos mortais de Juscelino Kubitschek, as engenhosas esculturas de Bruno Giorgi, os painéis de João Câmara, “A Justiça” de Alfredo Ceschiatti e o conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer. Mamãe nos apresentou o significado de patrimônio e nos ensinou a respeitá-lo, mas principalmente a valorizá-lo. Foi através de seu ofício como galerista que o Estado de Minas Gerais entrou para sempre em nossas vidas. Ganhei uma segunda mãe, sua amiga, confidente e colega de profissão, a renomada galerista de Belo Horizonte, Leila Pace. Uma guia pelas serras mineiras e suas preciosidades culturais. Através dos tortuosos caminhos de Minas atravessamos serras e encontramos recanto caloroso em Ouro Preto, no casarão de artistas da Família Bracher; nos deparamos com a modernidade do atelier de Amílcar de Castro, em Nova Lima; nos aprofundamos na profundeza das minas de ouro, em Mariana; no charme de Tiradentes; na luz de Diamantina; nas esculturas sacras de Aleijadinho, em Congonhas e no instituto de arte contemporânea de Inhotim, em Brumadinho.

Ao sul, em Campo Grande fortalecemos os laços entre família-trabalho com sua cunhada e minha tia, a galerista Mara Dolzan. Retornamos à Sampa inúmeras vezes para desbravar suas garoas e as artimanhas do mercado de arte com outra galerista, a paulistana Regina Boni. No litoral brasileiro, nos afeiçoamos pela audaciosa produção pernambucana esculpida pelas mãos e administração da tradicional Família Brennand.

Mais um privilégio que pudemos vivenciar através de suas nobres relações, do trabalho e não do axé, afoxé e carnaval, foi conhecer a primeira capital do Brasil, Salvador, a ‘mainha’ dos Filhos de Gandhi. Lá ela realizou negócios com grandes galeristas baianos, Roberto Alban e Paulo Darzé em meio à beira mar, com todo aquele cheiro de peixe, que ela nunca degustou, mas tolerou seu odor por causa da graça, “do jeito e do defeito” (Gilberto Gil), que só a baianidade pode ter.

Hoje mamãe tem um refúgio certo, para divagar, no sul da Bahia. Pode até parecer contrastante a Marina não gostar de comer frutos do mar, mas é lá, no mar, onde ela quer estar. Num lugar que se sinta brasileira, humana, mãe e avó. Ali, ela aprendeu e me mostrou como ser livre, ter amor próprio e amar a Natureza! Obrigada, mainha! Obrigada, Marina! Te amo! Saravá!

P.S.: O título é referência do filme, que se tornou um cult, do diretor espanhol, Pedro Almodóvar. Um filme sobre mães, seus prazeres e suas dores!

Um texto de domingo antecipado ao Dia das Mães para homenagear as mães presentes, aquelas que já se foram, aquelas que ficaram, mas se foram os seus filhos e aquelas que ainda se tornarão Mães! Excepcionalmente, não escreverei no próximo domingo, afinal sou mãe mereço uma folga (também sou filha de Deus, né)! Feliz Dia das Mães!!!

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Retrato de Marina Potrich pelo artista goiano, Roos, em 1980

Supérfluo

Um expressivo filósofo francês do século XVIII, Voltaire se destacou com pensamentos iluministas, um deles que diz assim: “O supérfluo é uma coisa extremamente necessária”. Um século depois o poeta inglês, Oscar Wilde o confirmaria: “Deem-me o supérfluo, pois o necessário qualquer um pode ter”. O psicanalista pernambucano, Jurandir Freire Costa estuda sobre o supérfluo antes e depois do Iluminismo levando em conta as mudanças comportamentais dadas transformações de sistemas econômicos, desdobramentos éticos e religiosos. A partir de estudos baseados em teorias do sociólogo americano, Colin Campbell, o psicanalista analisa uma mudança crucial na sociedade, a postura do ‘comprador’ para a do ‘consumidor’. O ‘comprador’ ou ‘compradora’ teriam como princípios reforçar o apreço pelas crianças, a intimidade do casal, o aconchego do lar, o vínculo entre gerações e prolongar a memória da família. Jurandir ressalta: “O supérfluo tinha uma função cultural completamente diversa do supérfluo de hoje”. Hoje, nem tantos são ‘compradores’, mas ‘consumidores’. O pernambucano prossegue: “A própria indústria torna os objetos obsoletos. O consumo de bens e sexo tornou-se um imperativo para que possamos ser felizes e reconhecidos pelo outro. O fetiche pelo dinheiro, no sentido de Marx e o fetiche pelo sexo, no sentido de Freud”.

Mas por que não conseguimos consumir o supérfluo como alguns sensatos compradores? A mídia, a religião, a política, o capitalismo, a moda, o imediatismo… Daria para citar páginas inteiras de motivos que nos distanciam do verdadeiro sentido do supérfluo necessário. Ora, se nas redes sociais nos deparamos com milhões de perfis que nos oferecem o mesmo produto, o mesmo prazer e a mesma viagem. Como nos sentirmos diferenciado diante de tantas opções iguais? Se o necessário é para todos, nos tornamos diferentes quando achamos o supérfluo que se encaixa em nossa personalidade. A Arte é um supérfluo necessário por causa disso. Você pode ter uma cadeira para sentar, uma cama para dormir, uma mesa para trabalhar, comer e estudar. São objetos necessários. Eles são úteis. A Arte não é! Recordem se do artigo passado: “A Arte é inútil”. É ela quem almeja os princípios ‘daquele comprador’ (reforçar o pareço pelas crianças, a intimidade do casal, o aconchego do lar, o vínculo entre gerações e prolongar a memória da família).

A escolha da Arte para si é o supérfluo necessário para nos sentirmos únicos, diferentes e especiais. A História da Arte comprova isso em números. A maior cifra já cadastrada de uma obra de arte foi de 450 milhões de libras (“Salvator Mundi“, Leonardo da Vinci). Você já encontrou algum artefato que chegou a este valor? Ano passado, um milhão de dólares foram pagos por uma obra de arte contemporânea, que ao ser arrematada foi triturada imediatamente num happening transgressor realizado pelo artista (“Girl with Balloon“, Bansky). Quem encrustaria mais de 8 mil brilhantes numa caveira que não fosse para ser usada como joia e conseguiria vende-la por 75 milhões de euros (“For the Love of God“, Damien Hirst)? Ou ainda, comprado pelo MoMa, NY a obra da brasileira, Tarsila do Amaral, “A Lua” por 74 milhões de reais. A Arte consegue ser tão surpreendente quanto supérflua para perdurar ao longo da História da Humanidade, não acham!?

Se você for levado a consumir por impulso pelos links de venda online (Polishop, Mecado Livre, iBooking, iFood, Rappi, etc) seja um consumidor consciente. Observe, reflita e perceba que o supérfluo é tão importante quanto o necessário quando atinge princípios que aprimorem o nosso ser, os nossos sentidos, nossos sentimentos! Se deixar levar pelo capricho, fetiche ou prazer pode custar caro. Investir na saúde mental avaliando os estudos e pesquisas de sensatos pensadores e artistas ainda é o melhor gasto de tempo e dinheiro. Pensemos, reflitamos e compremos com consciência! Acreditemos na Arte!

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Poltrona Beto, por Sérgio Rodrigues, acrílico s/ tela, por Pitágoras e escultura em ferro, por Franz Weissmann.

Fotografia: Alejandro Zenha

PAZcoa

Às esperas da Páscoa fomos presenteados com o incêndio na Catedral Notre Dame, mas não digo isso com sarcasmo, o presente em si (com primeiras, segundas e terceiras intenções) foi o de sermos surpreendidos com as doações milionárias de bilionários da high society.  Que bonitinho! Jesus Cristo ficaria orgulho com a atitude desses seres tão desapegados, não é mesmo? Mas a verdade verdadeira é que toda atitude está carregada de boas e más intenções. Observamos essa ambiguidade na própria natureza, como nas árvores, pois através de seus galhos crescem rumo à luz do Sol e suas raízes descem rumo à escuridão do subsolo.

O próprio coelhinho tem um ambíguo simbolismo na sociedade. Na Páscoa, ele simboliza a chegada da Primavera, no Hemisfério Norte onde teve sua origem romântica, quando as primeiras flores desabrocham e eles saem de suas tocas para procriarem. Ícone da sexagenária Revista Playboy, que tinha como conteúdo o registro erótico de celebridades femininas, o coelhinho foi promovido à coelhinha sexy! Que contrastante o simbolismo desse bichinho, né!

Se observarmos cuidadosamente e nos atentarmos aos detalhes constataremos, que tudo tem um vínculo de ambiguidade e, por incrível que pareça, observar bem estes detalhes podem fazer a diferença em nossas opiniões, decisões e julgamentos.

A Arte tem o poder de subliminar perspectivas importantes que exercitam e desafiam nossa sensibilidade e senso crítico. O cinema, em minha opinião é a expressão máxima e mais completa da Arte. Ele é uma expressão viva, em movimento que inclui todas as Artes: literatura, arquitetura, música, dança, pintura, performance, moda, design… Tudinho!!! Num mesmo filme podem estar contido todas as manifestações artísticas. “Star Wars”, por exemplo, consegue essa proeza, mesmo não sendo mais aquele Rei da Bilheteria, a saga nunca perderá sua majestade. Principalmente pela atualidade do roteiro elegendo como protagonista uma mulher no papel de jedi, a Rey. Foram 40 anos de vida para que eu pudesse “viver para ver” este feito no cinema. O antagonista é o jedi Ben, filho da Princesa Léia com o contrabandista, Hans Solo. Observe as ambiguidades presentes nos detalhes do enredo. A princesa e o ladrão, a República e o Império, Rey e Ben. O desfecho dessa história é bem diferente dos contos de fada. Ele é dramático e realista, mas nada que a tragédia grega e Freud já não tenham dissertado por aí, o filho mata o pai contrabandista. De fato, nossa heroína, Rey terá um inimigo à sua altura, porque eles têm uma coisa em comum, ela também carrega ressentimentos familiares. Ambos sofrem por dores íntimas e inconscientes, mas há de se fazer uma escolha no modo como lidar com estes sentimentos. O que nos resta é esperar para assistir o final desta trama!

A Páscoa é uma data para repensarmos atitudes e ressentimentos. A Semana Santa vem para celebrar a esperança, o renascimento e a ressurreição de ideias e relações. Se o ser humano é capaz de arrecadar milhões para reconstrução de um Patrimônio Mundial da Humanidade pense no que ele seria capaz para querer a Paz!

“May the force be with you”! Que a paz esteja com você! Que a Páscoa esteja conosco!

Ilustra o post a imagem primaveril da Mata Atlântica, na fotografia impressa em papel Canson, pela Carioca Cristina Oldenburg (2014).

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Cristina Oldenburg, fotografia sobre Canson, 2015.

Animus*

Num desabafo sincero, o rapazola replica à namorada: “Vocês, mulheres colocam uma minissaia e saem por aí, como umas Diabas!” A afirmativa me tocou seriamente e uma questão me veio à tona: “E vocês, homens?” Não é preciso colocar uma minissaia para que fiquem tão endiabrados quanto nós, não é mesmo?

Veja bem, meu bem, um arquétipo masculino que simboliza a sedução é o personagem viril de Don Juan DeMarco (1630), um conto do folclore espanhol, que se transformou no estereótipo do macho fatale, afinal quem resistiria a um Diabo desses? Nem precisaríamos ir tão longe, pois encontramos em nossa própria literatura alguns animus que representem toda essa ‘caliência’ tropical, como o bravo e selvagem: “O Guarani” (1857), de José de Alencar, o cínico e sedutor: “Primo Basílio” (1879), de Eça de Queiroz, o bem dotado de inteligência e atributos físicos: “O Mulato” (1881), de Aluízio Azevedo, o doce e safado: Vadinho (1966), de Jorge Amado, na figura negra: “Orfeu”, em duas versões para o cinema nacional (a primeira com Breno Mello, em 1959 e a segunda com Tony Garrido, em 1999), o corajoso e destemido: Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite” (2008), os lendários capoeiristas, mandigueiros e heroicos: “Madame Satã” (2002) e “Besouro” (2009), o caminhoneiro: “Arlindo Orlando”, citado na locução do impagável cantor, ator e humorista: Evandro Mesquita, da banda “Blitz”, a versão John Bon Jovi no carismático brasileiro: Paulo Ricardo, do RPM, nossos belos campeões internacionais: Ayrton Senna, Zico, Guga e o Xuxa, os eternos garotos de Ipanema: Tom Jobim e Chico Buarque, ou os mais contemporâneos: Marcelo Falcão, Charlie Brown, Dinho Ouro Preto e Frejat, ou ainda para abranger todos os gostos, os cafonas, porém simpáticos: Luan Santana e Gustavo Limma, assim como os das cores do pecado, o pequeno: Alexandre Pires e seu xará, o monumental: Xanddy. Meus caros e minhas caras não é a minissaia é o “olhar 43”, é o cochicho ao pé do ouvido, é o toque carinhoso, o cheirinho no cangote, o beijo áspero da barba por fazer, o tico-tico no fubá, o ruído da cuíca!

Na História da Arte observamos casos isolados de representações de animus em relação à proporção de animas, as invencíveis musas inspiradoras. No entanto, muito bem expressados através de milenares esculturas greco-romanas (VIII a.C e V), masculinos corpos nus ou delineados pela fricção de seus músculos simbolizaram a plenitude de divindades e mitos como Odisseu ou Ulisses, de Homero ou o semi-deus, Hércules, num período politeísta que priorizava profundamente a estética do belo. A luz sob essa estética viria iluminar séculos depois as investigações do magistral, Leonardo Da Vinci, que se encarregou de demonstrar cientificamente o animus que vive dentro de cada mulher, o “Homem Vitruviano” (1490), com suas medidas devidamente proporcionais. Ao longo da História da Humanidade há casos raríssimos ou pouco divulgados de manifestações artísticas de mulheres que expressassem seus animus. Corajosas como Anäis Nin (1903-1977) e Simone de Beauvoir (1908-1986) tomaram as rédeas de seus sentimentos e os manifestaram literalmente dando voz e vez às mulheres de seu tempo.

Os registros de índios e negros, por Albert Eckhout, no século XVII e por Debret e Rugendas, no século XIX, a sensualidade quase infantil ou demasiadamente carnal dos corpos masculinos de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), os lábios carnudos do “Mestiço”, de Candido Portinari (1903-1962), os corpos retorcidos e cheios de sadismo, de João Câmara (PE -1944), a repulsa ou atração pelos corpos afro-brasileiros fotografados por Mario Cravo Neto (1947-2009) ou até os mais recentes registros pelas lentes de André Cypriano (SP-1964) são provas de que o animus se manifesta discretamente nas Artes Plásticas Brasileira, seja através de um caboclo-civilizado arcando uma flecha, seja no “moreno, alto, bonito e sensual” jogando capoeira, ou quem sabe até um pálido retrato, andrógeno ou ‘trans’, com as mãos na cintura nos encarando olho no olho sob um fundo azul.

Sim, são corpos masculinos, corpos nus ou quase nus, expressados por artistas e idealizados por nós, mulheres! Não é só a minissaia que consegue infernizar, meus caros. Vocês também conseguem nos infernizar, sejam vestidos ou nus! Haja ânimo para tanta tentação!

Animus* (e Animas): na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961) são aspectos à persona ou aspecto inconsciente de Personalidade.

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Pitágoras, acrílico s/ tela, 130 x 160 cm, 2018.