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ton sur ton


Histórias acerca do artista paulista, Eduardo Srur contam que uma de suas extravagantes ideias era a de reunir um montante de milhares de ratos e soltá-los no horário de rush no metrô de São Paulo. O Ministério da Saúde teria barrado o projeto, pois isso poderia causar um surto de pânico nos passageiros.  O artista alegaria a favor de seu projeto a justificativa de que só porque não vemos os ratos, não significa que eles não existam naquele local. A obra foi concretizada no objeto interventivo “Farol”, em 2013, que foi instalado no centro histórico da Capital e é composta de material metálico, madeira, acrílico, 20 mil ratos de plástico e graxa.  Srur tem sua pesquisa calcada nos problemas ambientais de sua cidade, cuja poluição é o principal foco de seu trabalho. Num levantamento estatístico da época, o número de ratos ultrapassaria a marca de 170 milhões, uma média de 15 ratos por habitante. A escolha pelo local da instalação da obra também foi proposital, o Vale do Anhangabaú, significa em tupi-guarani “rio dos malefícios do diabo”, onde os índios acreditavam que suas águas provocavam doenças físicas e mentais. O nome da obra nos direciona a reflexão sob a luz da filosofia e as leis herméticas: “tudo que está em cima é como o que está embaixo”. A super população de ratos é consequência do descuido do sistema e dos cidadãos com o meio ambiente. Comemos, procriamos e sujamos tal qual ou mais ainda que os ratos. Tornamos agradável, aparentemente os lugares que frequentamos, mas pisamos sob o chão de uma infinita galeria de esgotos existente no subterrâneo das metrópoles.

O poético vídeo da atriz Vera Holtz, “Camundongos”, postado recentemente no seu Instagram, sublima a coexistência vital entre os seres, mas nos incomoda com a presença de inúmeros camundongos em movimento tocando seus braços. Num abraço terno da atriz que os observa com delicadeza, pena e zelo, a proposta ganha harmonia, estética e leveza, quando observada racionalmente. Vera Holtz tem uma poética visual única, autentica e interligada com sua profissão. Ela atua em seus vídeos como uma performance encarnando o personagem do tema de sua obra. Ela está atenta ao momento e demonstra a cada publicação seu compromisso com a Arte, com a sociedade e seus princípios. A ideia dos camundongos foi proposital ao momento atual que, embora parece repulsivo à primeira vista por impulso emocional, é suave num ton sur ton do cenário, com o tampo de mármore da mesa, a cor branca dos ratos e dos longos cabelos da atriz.

Estamos todos conectados mesmo que nos repulsando, discordando, odiando. Somos uma unidade, uma sociedade organizada que produz, reproduz, cria e procria. O excesso ou escassez desse processo vital é o que desequilibra o sistema. Quem nos diz isso primeiro são os artistas e depois as estatísticas. O protesto-arte de Holtz e Srur são provas disso, assim como também já cantou nosso poeta Cazuza em “O tempo não pára”. E que a Arte siga cantando, pintando e mostrando o quanto a vida pode ser grande em cima ou em baixo, ton sur ton na medida certa!

Eles sãos

A impecável série da Netflix “The Crown” traz um ousado ponto de vista sobre a monarquia britânica e abala nossas opiniões acerca da moral, ética e conservadorismo, colocando em prática a máxima social “isso também acontece nas melhores famílias”. O “isso” é tudo isso mesmo: traições, homossexualismo, crimes políticos, escândalos morais e toda sorte de acontecimentos que nos prende do início ao fim da série. Numa dentre tantas outras primorosas cenas de audiência particular com a Rainha, se estabelece um diálogo a respeito do então Primeiro-Ministro, Wintson Churchill (1874-1965), quanto suas práticas de guerra contra o monstruoso Nazismo (ou o sistema de controle de natalidade a favor da raça ariana). O diálogo se resumiria na qualidade de homens como Churchill e Adolph Hitler (1889-1945), que ao se digladiarem na IIª Guerra Mundial tomariam ao certo as mesmas decisões genocidas que fossem necessárias para ganhar. O nobre e grande estrategista inglês, preparado desde cedo para assumir importantes missões como esta, Churchill, sai vitorioso da guerra independente de qual teria sido sua decisão final.

Seu respaldo histórico na política monárquica o condecoraria mais tarde, com um retrato encomendado pelo Parlamento, do sombrio artista Graham Suterland. Aos 80 anos enfim, aposentaria da vida política homenageado com o pronunciamento e a entrega da obra encomendada para a ocasião. A contratação do artista foi providencial ou proposital, pois ele captaria a penúria e penumbra do líder conservador que se ofenderia de tal forma a declarar publicamente sua recusa pela obra. Após dois anos de sua morte, a esposa Clementine Spencer-Churchill, queimaria o retrato num ato, dito pelo autor da obra, de vandalismo.

Os fatos da História da Humanidade recebem várias versões e consequentemente desfechos previstos ou não, mas podemos crer que a verdade encontra só um resultado, o bem vence acima de tudo. Wintson Churchill pode lá não ter sido um santo, o salvador da pátria que todos gostariam de pintar, poderia ao menos ter se ausentado da vida política aos 76 anos (ou até antes), idade que decidiu retomar suas atividades parlamentares, poderia ter sido um pouco menos gordo carrancudo e beberrão de whisky, entretanto, no fim das contas, por incrível que pareça, ele conseguiu por em prática o modelo comunista (ou humanista), cuja atitude de seu adversário foi exatamente a oposta.

Em “The Crown” há o sério argumento que o Ministro seria o único a conseguir combater as forças do Frührer, porque tal qual o ditador alemão, o nobre britânico teria a tão monstruosa capacidade estrategista para derrota-lo. Dois grandes líderes totalitaristas. Eles foram sãos em seus ideais, um: na tentativa de exterminar toda uma “raça inferior”, o outro: na tentativa de conter um tanque de guerra desgovernado.

Quem hoje conta os fatos é a História e as Artes e só aprende quem estuda, pesquisa e adquire sensibilidade daquilo que interpretou (se é que interpretou). Embora Hitler tivesse comovido toda uma nação tilintando os dentes e batendo forte os pés no chão, Churchill sensibilizou o mundo ganhando o Prêmio Nobel da Literatura, em 1953 e sendo eleito, em 2002, pela BBC como o maior britânico de todos os tempos.

Saibamos interpretar a História e seus sinais. A vida é um ciclo vicioso e estamos prestes a retroceder tanto de um lado quanto de outro. Evitemos expectativas, façamos por nós mesmos, para o nosso bem. Ou melhor, para o bem de todos que querem o bem, pois a luz e a sombra podem coabitar juntas na mesma intensidade.

churchillCena da série “The Crown”, o ator Stephen Dillane, interpretando o artista Graham Suterland e o ator John Lighgow, no papel de Wintson Churchill.

Loucura e Ódio

“Há formas de loucura que a razão não pode conter. E há formas de ódio que a razão não pode conter”. Contardo Calligaris

Em tempos de loucura e ódio melhor andar bem informado sobre Cultura. Fiquem ligados ao próximo 12 de Outubro, dia das crianças, o cineasta-artista russo Ilka Khyzhanosky nos presenteará com uma ideia divertida como aquela experiência de ir ao circo e conhecer o sinistro palhaço engraçado. O Projeto DAU, do cineasta premiado é bem propício para a atual conjuntura mundial e sua ousada atitude gerou grande polêmica sobre o adormecido nazismo na Alemanha. A proposta de Kyzhanosky é resgatar o tempo de totalitarismo construindo novamente uma parte do Muro de Berlim para demostrar aos espectadores o que foi o clima de tensão da IIª Guerra. Mas não se assuste, o artista preparou uma programação cultural para quem quiser se arriscar passar pela fronteira alemã. Espetáculos, apresentações e filmes serão exibidos durante o evento que finalizará com a queda do Muro como está registrado na História. A ideia é tão pertinente que uma manchete deste mês sobre um vídeo postado pela Embaixada Alemã conscientizando a população sobre o Holocausto foi contestada por brasileiros que alegavam certos pontos de vista bem errôneos. Num dos comentários um compatriota (professor) tenta redimir o erro dos demais: “A quantidade de negacionistas do Holocausto só nessa postagem é nosso atestado de falência educacional”. A Embaixada Alemã ainda se dá ao trabalho de explicar aos indivíduos mal informados que “quem é contra o nazismo não é de esquerda, é normal”. (via O Globo 25/09/2018).

Artistas que se entregam à uma pesquisa sócio emocional colhem os frutos da sabedoria, pois uma obra de arte é sempre um prenúncio, um alerta, um diagnóstico da sociedade. Se por lá na Alemanha eles sentem uma nova tentativa de retomada dos “neoloucos”, nos EUA os movimentos de retrocesso ideológico de superioridade de raça vigoram em grupos como Kun Klux Klan. Na China, senão por raça, mas por um conservadorismo radical, o artista Ai WeiWei foi exilado de sua terra natal por insistir em denunciar a política totalitária vigente de ávidos ditadores chineses.

Realmente beiramos a volta da Idade das Trevas, talvez por uma maior consequência do Capitalismo ou a falta de autoconhecimento e das nossas reais necessidades emocionais. Vivemos numa constante busca material que nunca preenche a espiritual. Um olhar para a verdadeira Arte nos aproxima, nos educa, nos questiona, nos alerta o quão fundo podemos chegar por ganância, pela falta de humanidade e o excesso de luxuria. Finalizarei o texto com essa imagem assustadora das hélices do navio mais famoso da História, que por obra da Natureza sofreu uma grande tragédia comprovando o quanto a vaidade, o orgulho e a falta de equilíbrio emocional podem afundar um grande empreendimento coletivo. Cuidemos para nos lembrar que não estamos sozinhos, vivemos em sociedade, somos tripulantes no mesmo planeta e a jornada da vida deve ser vivida em coletividade, harmonia e paz, senão acabamos por morrer afogados em nossa própria loucura e ódio.

bildergalerie titanicHélices do Titanic 1912, via Bildergalerie Titanic

Mulata

“Di Cavalcanti pintou muitas mulheres negras, frequentemente erotizadas através de blusas decotadas, seios delineados, olhares sedutores e nomeadas genericamente ‘mulatas’ – termo de origem racista que reitegra a objetificação e o apagamento das personagens retratadas. Num contexto em que a ‘mestiçagem’ foi eleita como símbolo nacional o pintor participou da criação de um imaginário para a mulher negra que, embora ganhasse representatividade era reduzida à sua sensualidade. ‘Mulata/Mujer’, de 1952 destoa desta imagem estereotipada. Aqui a mulher tem um semblante seguro, sua postura firme, de um olhar altivo. Vemos seus braços, mãos, pescoço e rosto negros, mas não seu colo. De saia branca ela porta uma camisa com delicados motivos de folhagem sobre um fundo colorido compondo uma espécie de pintura dentro da própria pintura, no estilo tipicamente tardio de Di Cavalcanti nos anos de 1950.”

O texto descrito, publicado no Instagram do @masp_oficial é de Guilherme Guifrida e deixa bem claro seu ponto de vista histórico sobre a trajetória do artista e as mudanças socioculturais do país. Há uma passagem no livro de Gilberto Freire, em Sobrados e Mocambos onde o sociólogo ressalta que com a urbanização das cidades o distanciamento entre brancos das Casas-Grandes e os negros, das Senzalas relativamente diminui com a aproximação dos brancos dos Sobrados e os negros, caboclos e pardos livres dos Mocambos. A relação entre os opostos se daria por “aptidões artísticas”, ou “intelectual extraordinário” ou ainda “qualidades de atração sexual”, que seriam as causas da miscigenação e ascensão social das classes menos privilegiadas.

A “mulata” dos tempos da escravidão e do início do século XIX não seria mais que um objeto sexual para os seus Senhores ou a reprodutora oficial de mais escravos para as monoculturas deste período. As mudanças políticas, econômicas e culturais transformariam a sociedade e delineariam um novo trajeto da miscigenação brasileira. Também no livro há curiosas descrições de ricas donzelas prometidas que fugiram de seus casamentos para se apaziguar com “mulatos” fortes e inteligentes.

Tal qual como descrito em artigo anterior, é chegado o momento de privilegiar os olhares dos verdadeiros artistas, dos altruístas e principalmente, das mulheres sensatas. Mulheres que se posicionam com um “olhar altivo”, uma “postura firme”, uma roupa apropriada, uma atitude coerente e sensível. Deveríamos estar em busca de mais sensibilidade ao invés de sexualidade, de mais humanidade ao invés de brutalidade. O fanatismo religioso, o falso zen-budismo e outras formas de dominação psíquica limitam os sentidos, as nossas verdadeiras emoções. A verdadeira Arte associada à Sociologia e à História proporciona um olhar mais humano, mais coerente da nossa sociedade. Que todas as mulatas do Brasil se inspirem na qualidade distinta e altiva da “Mulata/Mujer”, de Di Cavalcanti, que sejam sensatas com seus pais, com seu marido (namorado ou namorada), filhos e netos, pois elas são o berço materno do carinho e da sororidade do futuro do país.

mulataDi Cavalcanti, “Mulata/Mujer”, 1952, via Pinterest

Medo

“É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam por fazer o que não presta. Mas é sem querer. É só por medo. Medo de muitas coisas: do sofrimento, da solidão e no fundo de tudo, medo da morte.” (Auto da Compadecida – Ariano Suassuna)

Dito isso enumeremos questões relevantes que amedrontam a sociedade recentemente tais como: quem matou Mariele, o que incendiou o Museu Nacional, quem esfaqueou o candidato à Presidência da República? O medo. Sim, esse Bicho Papão que nos ronda desde pequenininhos. O monstro que destila a dúvida, o conflito e a escuridão. E que ironia da vida, a Filosofia nos ensina que o medo tem seu lugar ao Sol.  Ele nos guarda das extravagâncias da carne e das injurias da alma. Limita-nos daquelas atitudes insanas, nos puxa para traz diante de um abismo, nos lembra de trancarmos a porta de casa. É o medo que controla e descontrola nossos sentidos e quanto maior a nossa falta de sensibilidade, maior os nossos medos.

Não por acaso, quase que simultaneamente, importantes instituições de arte do país abrem mostras pertinentes sobre assuntos relevantes que estão em evidência. A Pinacoteca de São Paulo está com a mostra “Mulheres Radicais”, o MASP – Museu de Arte de São Paulo, elucida a brasilidade com “Histórias Afro-Atlânticas”, o Instituto Tomie Ohtake abre a “AI – 5 : 50 anos, ainda não terminou de acabar”, o MAR – Museu de Arte do Rio expõe a coletiva “Arte Democracia – UTOPIA, quem não luta tá morto”, no Parque Lage (RJ) a comentadíssima “QueerMuseum” e bem aqui pertinho, no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil DF, “Ex-África”. Assuntos em voga como diversidade, etnias, feminismos e ecologia, tudo ao mesmo tempo agora. A 33ª Bienal Internacional de São Paulo, a maior e mais importante mostra de arte contemporânea do país apresenta “Afinidades Afetivas”, que busca um modelo alternativo ao uso de temáticas privilegiando o olhar do artista sobre seus próprios contextos criativos. Vivenciamos um momento de tensão onde realmente deveríamos privilegiar o olhar dos verdadeiros artistas, das mulheres sensatas e dos altruístas.

Num desconfortável episódio no mês de Junho, a primeira-dama Melanie Trump, em visita a um abrigo de imigrantes, cujas crianças estavam separadas dos pais, decidiu usar um modelito inconveniente com os dizeres: “I really don’t care” (Eu realmente não me importo). Felizmente o mal feito teve uma resposta acima da desastrosa atitude da Mrs Trump. Jill, a Mrs Vedder, esposa do vocalista da conceituada banda Pearl Jam, apareceu logo em seguida no show do marido, em Londres trajando uma jaqueta com os escritos: “Yes, we all care about. Y – Don’t u?” (Sim, todos nós nos importamos. Vocês não?.)

Isso talvez comprove que a incoerência não está relacionada a quantidade de riqueza ou pobreza, em ser homem ou mulher, em ser branco ou negro, mas na falta de sensibilidade. A verdadeira arte alimenta os bons sentimentos, nos une e nos torna mais humanos. O excesso de medo alimenta preconceitos e ganâncias que inibem a nossa sensibilidade. Mas o medo também vira a chave da fechadura da porta de nossa casa, nos protege. Saibamos sentir o medo com moderação e o manifestar com sapiência em momentos críticos e de tensão. Afinal, quem não tem um pouco de medo do lobo mal?

“Let’s take it easy, let’s take it slow!” (Bob Marley)

pearl jamJill McCormick em Londres, no show da banda Pearl Jam. Via Twitter @PearlJam

Legitimidade

Pensando sobre a legitimidade do trabalho uma obra de arte me vem à cabeça e através dela todo discurso multidisciplinar do comportamento ético em sociedade e o atual momento cultural. A arte do carioca Ernesto Neto aponta para diretrizes humanistas, ecológicas e espirituais confirmando nossa incansável busca pelo autoconhecimento e a preservação de nossos bens culturais.

A obra-instalação “Gaia Mother Tree” foi projetada para o átrio de um metrô, em  Zurique e teve como mote o deleite à saúde mental, física e espiritual. A obra ganha estética de uma gigantesca árvore, que é suspendida no ar e “gerada” através de inúmeros nós produzidos artesanalmente por etnias da região amazônica. Erguidas no generoso vão, ela se transforma num espaço de paz e repouso promovendo ao espectador um momento de reflexão e meditação. Gaia é uma deusa grega, que na mitologia romana é denominada Terra, Deusa da Fertilidade. Ernesto Neto se aprofunda principalmente na mitologia indígena desenvolvendo argumentos que legitimam sua pesquisa.  Absorve da cultura nacional elementos descritos em lendas, saberes e fazeres manuais e os rituais litúrgicos, que mantinham os primeiros habitantes do nosso continente ligados intimamente à Natureza.  O artista investiga a cultura brasileira e nos presenteia com uma obra contemporânea interativa, bela e contemplativa. “A obra de arte é um poema”, recita Ernesto Neto sobre esse projeto patrocinado pela Fundação Beyeler, em Julho deste ano.  Cada nó é uma etapa adiante para uma grande árvore se erguer.  Em analogia, tal qual a árvore genealógica, a família tende a se erguer em comunhão, num mesmo ritmo, numa mesma realidade, respeitando sempre sua genética, seus nós, suas raízes, sua fonte original.

A legitimidade do trabalho do artista é sua pesquisa antropológica, sociológica e histórica. Sua obra é condizente à verdade e fiel à proposta humanista de sensibilizar mais o espectador que a contempla e entende a proposta. Numa época de tantas cópias baratas, superficialidades, mentiras, difamações e fake artists, nos depararmos com a “Mãe Terra” é uma grande responsabilidade. Afinal, quem somos? Onde nos encaixamos na árvore genealógica da vida? Somos índios, descendentes deles? Ou pardos, loiros, morenos, mulatos, mamelucos, caboclos, crioulos, cafuzos, caipiras? Somos insignificantes seres em busca de aprimoramento, de amadurecimento espiritual, físico e mental. Somos apenas pequenos nós em busca de legitimidade!

ernestoErnesto Neto, “Gaia Mother Tree”, 2018, Zurique, Suíça. Via Trover

Relatividade

Os grandes gênios, pensadores, cientistas e filósofos deixaram e deixarão um legado para as próximas gerações refutarem, repensarem e refletirem constantemente e ainda sim, terem dúvidas sobre suas conclusões. Não por menos sermos agradecidos ao “or concur” Albert Einstein por ter nos presenteado com a Lei da Relatividade. “Tudo é relativo dependendo do referencial”.

Por exemplo, se você é a favor da monogamia, mas mora na Arábia Saudita e se casa com um sheik, pode ir fazendo o favor de mudar de ideia. Algumas tribos africanas também praticam a poligamia com naturalidade. Em certas aldeias indígenas, quando um dos membros era identificado homossexual, o cacique o convocava para ser o Pajé, por sua sensibilidade nata. Noutras aldeias mais selvagens, os homossexuais eram exterminados.  Em entrevista à BBC Brasil, o médico Dráuzio Varela dá seu depoimento à respeito do aborto:

“Se você diz: eu sou contra o aborto. Tudo bem! Por questões religiosas, por quê? Porque a vida começa quando acontece a fecundação. Tudo bem, você como católico ou evangélico pode pensar assim. Mas alguns não pensam. Por exemplo: os judeus acreditam que a vida começa quando a criança nasce”.

Tudo é muito relativo!

O iconoclasta britânico, Samuel Butler (1835 – 1902) ficou famoso por uma sarcástica citação: “Qualquer idiota é capaz de pintar uma tela, mas só um gênio é capaz de vendê-la”.

A filosofia abrange aspectos da natureza humana dos quais aponta uma forte tendência ao aprimoramento através do autoconhecimento. Todos somos artistas, todos somos capazes de criar. No entanto é relativa a qualidade, a ideia, o momento de cada um e de nossa criação.  Muito se questiona a respeito da verdadeira arte, aquela que valorizará com o passar do tempo, aquela que é banida da sociedade na contemporaneidade e creditada bem mais tarde, aquele artista ou poeta que só será valorizado depois de morto. Acompanho polêmicas acerca das personalidades que são indicadas às cadeiras da imortalidade na Academia de Letras. Uma delas, o compositor norte-americano Bob Dylan, que causou um furor internacional, mas não antes, claro, do mago brasileiro, Paulo Coelho e agora o cineasta, Cacá Diegues. Há quem replique contra os ilegíveis escritos de Fernando Henrique Cardoso ou critique o título de imortal a ser dedicado à primeira mulher negra. São episódios da história que marcam um tempo e a relação da sociedade com sua cultura.

O artista chinês Ai Wei Wei, numa performance que o consagrou, quebra uma urna da Dinastia Hans, de 2000 anos, alegando o mesmo ditado do ditador: “Para se construir uma nova cultura deve-se destruir a antiga”. É mais um dado para o artigo do domingo passado sobre o assunto da inclusão da destruição na produção artística como processo de criação.

Por isso, quem sabe, seja tão difícil e relativo apontar verdadeiros artistas, celebridades e gênios no tempo vivente, no momento atual que estejam fazendo a diferença, que estejam saindo da zona de conforto e não entrando nela. Somos arrastados pelas marcas do tempo para cair em si sobre quem somos, onde estamos e para onde vamos.

Butler tem outra pérola, a qual finalizarei o texto para uma breve reflexão dominical:

“O talento não respeita tempo, dificuldade, dinheiro ou pessoas – as quatros coisas para as quais os humanos se voltam persistentemente”.

isto-nao-e-um-cachimboRené Magritte, 1929

Metamorfose

O interessante artigo “Arte e Destruição”, publicado pela Revista DasArtes, do mês de Julho, escrito por Guy Amado, disserta sobre a arte de destruir a produção artística em prol do próprio exercício de criação. O que pareceria um desperdício ou uma loucura do artista atos como rasgar desenhos, queimar telas, jogá-las fora ou obras ao mar, num contexto histórico representaria mais uma forma de manifestação do artista à sua criação. Guy Amado dá exemplos e conta casos “homéricos” de artistas como Paul Cézanne, Willen de Kooning, Jackson Pollock, Juan Miró e outros que sofreram de “surtos” de destruição para, enfim, recomeçarem do zero.

Em entrevista à uma revista de bordo, há alguns anos atrás, a artista carioca Adriana Varejão confessa ter jogado fora uma trabalhosa obra de arte em poliuretano, cujo tempo, material e desgaste físico a absorveram durante meses. Numa boa, a artista analisa sem remorso e concorda que esse desapego também faz parte da criação.

Uma constatação empírica deste ritual foi uma visita, em 1998 ao atelier do artista mineiro Amílcar de Castro, no Centro de Belo Horizonte, onde ele iniciara uma compulsiva produção de desenhos. Numa extensa bancada ele colocou e tirou folhas de papeis A3, após interferir uma a uma. Dos 10 a 15 desenhos que analisara, depois do surto criativo, o artista descartou metade do que fora aprovado. Recordo-me ainda que chegamos a desamassar um deles e lhe pedir a permissão de leva-lo conosco. Amílcar não só autorizou como também assinou o desenho. Um ano depois, em visita ao Instituto Francisco Brennand, a convite da família pernambucana, me encontrei com o mestre das cerâmicas e arrisquei especular o valor de uma de suas peças para adquirir (imagina! eu, uma mera adolescente desprevenida). Talvez por causa da minha ingenuidade, Brennand recolheu do fundo de um de seus intermináveis depósitos uma peça já em desuso, descartada por ele e esquecida empoeirada. Com nenhuma cerimônia, ele bateu por cima para tirar o grosso da poeira e me entregou sem delongas.

A produção artística exige esse exercício do erro, a magia do treinar, o desapego ao descartar e a busca pelo aprimoramento através do recomeço. Um dos maiores encontros de música eletrônica do mundo, o Burnning Man, que seleciona artistas anualmente para executarem gigantescas instalações, principalmente em madeira, tem como objetivo queimá-las em liturgia ao tema do evento, mas também envolvidos dentro do sentimento de desapego e de motivação para recomeçar no próximo evento.

O que promove essa motivação do artista é a busca pela veracidade de sua pesquisa, a liturgia do exercício de criar e recriar para tentar alcançar a perfeição. Como naquela velha opinião de Raul, os artistas vivem mesmo nessa eterna “metamorfose ambulante”! Porque tudo que vive, morre e o morto que está, se transforma.

amilcarAmílcar de Castro via Pinterest

Reflexões e Refutações

Certa vez, ministrando uma palestra para o circuito Rumos Itaú Cultural, em Goiânia, a pesquisadora, curadora e professora Aracy Amaral confessou não existirem mais autores, mas sim, editores. Tudo que imaginamos criar está pronto, atualmente apenas editamos as ideias já concebidas. Num dos poemas do filho de sertanejo com uma baiana, o poeta Wally Salomão, nos deparamos com o verso: “a memória é uma ilha de edição”. Dentro desta concepção um embate com a criatividade e uma nova forma de expressar ideias nasce com propostas editadas a partir das antigas.

Uma inusitada e corajosa expressão artística vem acontecendo e a “editora” é a afro-cubana americana (como ela se auto-nacionaliza) a talentosa, Harmonia Rosales. Rosales se apropria de imagens ícones da História da Arte: The Virtuous Woman (de Leonardo da Vinci, “O Homem Vitruviano”), The Creation of God (de Michelangelo, “A Criação de Adão”), Birth of Oshum (de Sandro Botticelli, “O Nascimento de Vênus”) e as reedita substituindo as figuras masculinas por corpos femininos negros. A proposta é tão óbvia e contundente que quase passa despercebida não fosse pelos fartos seios que preenchem os corpos das formosas deusas yorubás.

A mitologia africana cita sobre a criação dos orixás através dos fenômenos da Natureza como a tempestade, seus trovões, raios e relâmpagos, os vulcões em erupção, as altas marés, os eclipses, as chuvas de meteoros e uma série de intrigas entres eles, envolvendo traições, guerras, assim como o constante conflito das relações de entidades imortais com os mortais. Tão antiga, tanto quanto a mitologia grega, a história dos orixás conta um pouco de tudo sobre a nada romântica, mas selvagem natureza humana.

Pensando nesse assunto e avaliando recentes descobertas científicas nos confrontamos com algumas refutações a respeito das características fisiológicas do nosso Salvador, Jesus Cristo. Há hipóteses de que o filho de Maria carregasse alguns traços semelhantes às figuras de Rosales. Mas eu não sou cientista, só estou reverberando o que dizem por aí e o que a Arte vem tentando demostrar, quem sabe, há muito mais tempo.

Há também refutações quanto à autenticidade da obra, Salvator Mundi, onde cito em artigo anterior, como de autoria do “mago magnífico”, Leonardo da Vinci. As hipóteses rondam acerca de que um de seus discípulos teria executado a obra, visto que algum detalhe de percepção d’ótica do reflexo de uma esfera na mão da figura teria sido omitido pelo mestre da perspectiva. Além do suposto alarde, ainda há a suspeita se o personagem seria uma mulher ou um homem, como se já não bastasse, a polêmica sobre Monalisa. Isso não abalou a compra bilionária pelo colecionador, mas esquentou os buchichos no circuito da Arte.

Em meio há tantas reflexões e refutações, ultimamente anda bem arriscado ter certeza de qualquer coisa. Tal como o símbolo do pop, Micheal Jackson, que nasceu negro e morreu branco, ou Roberta Close que nasceu homem e vai morrer como uma “mulher”. A flexibilidade de pensamento e edições de ideias fica cada vez maior e mais diversificada com tantas informações e alternativas. Como diz um provérbio passado recente, o mais preparado para sobreviver não é o mais rico, ou o mais forte ou o mais bonito, mas o que melhor se adapta ao ambiente. O que vale mesmo é a qualidade de vida que podemos dar à nossa mente, aos nossos valores sociais e uma postura flexível ao sistema. Vale a máxima, “mente sã, corpo são”.

Somos sempre gratos à Arte por isso!

vietuous womanThe Virtuous Woman, Harmonia Rosales, 2017. Via Pinterest

Is this Art?

O hilariante Will Smith postou um vídeo na terça-feira passada, em seu Instagram, fazendo um trocadilho bem humorado sobre o que é arte e como é profundo, “bem profundo” o ato de criação do artista. Não fosse for sua localização estratégica diante da traseira da escultura em tamanho real, de um enorme touro, a pergunta faria mais sentido. Ao contrário do ator, o editor de artes da BBC, Will Gompertz publicou em 2013 o livro “Isso é arte?”, pela Editora Zahar. Gompertz de cara já nos desafia com o enunciado: “Você vai aprender: Que arte conceitual não é uma bobagem. Que Picasso é um gênio (mas Cézanne talvez seja melhor). Que Pollock não era um picareta. Que não há cubos no Cubismo. Que um mictório mudou os rumos da arte. E porque seu filho de cinco anos na verdade não sabe fazer melhor que os artistas”.

Como uma bússola o livro nos guia aos quatro cantos do mundo com explicações elucidativas acerca dos acontecimentos históricos de cada país e seus respectivos representantes da Arte naquele momento. Para quem tem ou não intimidade com História da Arte, após a leitura do livro, não fica difícil entender porque Salvatore Mundi, de Leonardo Da Vinci atingiu a maior cifra de todos os tempos, num leilão internacional.

A Arte é como um imã que atrai todos os opostos e sinaliza uma resposta para cada problema. Ela não está sendo produzida para dizer o que é certo ou errado, ela apenas registra o momento e nos induz a procurar uma resposta verdadeira sobre este problema. Quanto mais verdadeira, mais eterna e universal ela se torna e transforma a História da Humanidade. São inúmeros os exemplos, assim como inúmeros os artistas. Cada qual dentro de seu propósito, de sua realidade e nas devidas proporções de tempo, espaço e lugar.

Um marco da História da Arte bem recente foi a demolição do atelier do artista chinês Ai Weiwei, em Pequim, na semana passada. Ai Weiwei foi exilado de seu país por fazer ácidas críticas à política chinesa e atualmente vive em Berlim, na Alemanha. Este é o segundo atelier do artista destruído na China.

Um marco para História da Arte Brasileira aconteceu ano passado com a censura da mostra QueerMuseum, que se confrontou com os padrões conservadores e falsos moralistas do país do Carnaval. Não bastasse a difamação mal intencionada e fake nas redes sociais, a agressão gratuita e falta de respeito com os artistas renomados foi ultrajante. Felizmente o tempo se encarregou de esclarecer e punir estes irresponsáveis por danos morais, no entanto o episódio veio apenas registrar uma época obscura, a qual estamos vivendo. Se for desagradável visitar uma exposição que tenha como tema a discussão dos valores sexuais, de gêneros e trans, tão pior será a reação das famílias de bem, recatadas e do lar ao descobrirem que o parente mais próximo é adepto ao time gay.

Ora, meus amigos, a Arte não tem o propósito de ofender ou agradar, ela só tem o efeito esclarecedor. Por que a Guernica (1937), do artista espanhol Pablo Picasso é uma das obras mais impactante de sua carreira? Porque ela nos mostra a verdade nua, crua e sangrenta de uma guerra civil genocida e, sem querer ofender, ultimamente estamos muito pouco preparados para enfrentar a verdade, não acham? E sim! Uma performance de um homem nu representando os “Bichos”, de Lygia Clark no Museu é arte sim. E não! O artista não é um pedófilo. O é, quem pensa em pedofilia ao olhar para o artista nu. Você quer entender o que é Arte, dispa-se de falsos moralismos e olhe sem preconceito, mas com um ponto de vista ético, social e histórico. Sempre mantendo um pacto com a verdade! Isso é Arte!

guernica-pablo-picassoPablo Picasso, Guernica, 1937. Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía. Via Google