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A Linha

Numa reflexão de José Arthur Giannnotti para a Ilustrada (Jornal Folha de SP), em 2002 sobre a obra do artista Giorgio Morandi (1890 -1964), o filósofo paulista disserta sua experiência como observador crítico e analisa a arte do italiano sob a óptica da fenomenologia. O processo criativo das formas e planos sem o uso da linha que limita um objeto do outro é uma constante subjetiva e ele define esta marcante característica do trabalho do pós-impressionista descrevendo: “A linha não é pois o limite da coisa, mas o limite e a mediação entre valores tonais comunicantes. O volume não é o relevo obtido pelo claro-escuro, mas a distância calibrada entre planos coloridos. Segue se que tudo é relação, determinando se no curso da experiência da pintura”.

Ao contrário de Morandi, o artista contemporâneo Evandro Soares usa e abusa da linha sendo esta o principal objeto de estudo do seu processo criativo. É o uso da linha que definirá seu estudo, o limite entre o claro-escuro, o volume e o relevo, o desenho e a sombra como terceiro elemento. A constância do cubo, da escada, da geometria caracterizam seu trabalho no que ele denominou de “arquitetura inventada”. A projeção do tridimensional quanto desenho é o desafio deste baiano quase naturalizado goiano. Evandro faz o caminho inverso dos artistas pós-modernos superando o ofício de serralheiro ao patamar de artista consagrado por unanimidade. Abriu mostra nesta última sexta-feira (15/02), numa das galerias mais vanguardistas de Portugal e prepara obras para integrar ao acervo do MAAT – Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia, de Lisboa. A Revista DASartes, autoridade no que diz respeito às Artes Visuais, fez  um balanço sobre a Feira SP-Arte, em 2016 sinalizando Evandro Soares como a última grande revelação da arte contemporânea. De lá pra cá, Evandro participou de importantes feiras do país como ARTRio, BH-PARTE, SP-ArteFoto, PARTE, mostras internacionais e nacionais individuais se preparando para executar um desafio, transformar sua arte em escala arquitetônica.

O artista projetou nossa fachada no final do ano passado e quem passa pela Avenida Jamel Cecílio entre 9h30 às 11h consegue observar um desenho que muda de lugar. A geometria tridimensional em fios de aço projetada na parede é surpreendida pela luz do dia, que nos presenteia com a sombra de um novo desenho que se forma, a cada minuto que passa.

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O pequeno serralheiro que soldava grades e portões descobriu uma nova perspectiva para o ferro. E ele não pára! Sua pesquisa abrange a intervenção das linhas de aço em fotografias impressas sobre chapas de alumínio. Mario Gioia, o curador de sua última mostra individual, “Traço expandido”, em Brasília (nov/2018) observa: “A linha que desloca-se na superfície envidraçada – sua representação, no caso – e que tanto se estende por volumes e ângulos novos (mas também esvaziados), pode ser lida como formadora de um desenho de expansão, mais no campo da ideia e do conceito, tem atributos do tridimensional, ao relacionar se com o entorno, e não deixa de abandonar a matriz fotográfica”.

Ao eleger a linha como protagonista de sua obra, Evandro inverte os conceitos do desenho tradicional e abre uma inédita perspectiva sobre as Artes Plásticas, promovendo uma nova ruptura com a pintura e a destemida interlocução da Arte com a Arquitetura. Porque na Arte Contemporânea, a linha é muito mais que a distância entre dois pontos. Ela ganha a profundidade da sombra e o relevo do aço produzido pelas mãos de um pequeno grande serralheiro!

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Ponto de Vista

Nas chapas fotográficas do séc. XIX, o corpo do negro foi objetificado para estudos científicos ao zoólogo suíço Louis Agassiz (1807-1873) e sua mulher, a americana Elizabeth Carry. O artista paulista, Fernando Ekman se apropriou de um desses estudos e produziu o tríptico, “Mestiços” (2010) com carvão, betume e tela de algodão propondo um resgate das almas que retomam seu estado poético expressado pictoricamente. A obra fez parte da mostra coletiva na Potrich Galeria, “NOSOTROS – a arte e o corpo humano” (2017). As mesmas chapas foram fonte de inspiração para a renomada artista, Rosana Paulino em sua instalação, “Assentamento” (2013), que estará exposta até 4 de março, na Pinacoteca de São Paulo. O tema da imagem é assunto vasto para o campo das Artes, Sociologia, mas principalmente para a História do Brasil, que aponta o lugar do negro e sua condição, num determinado momento, como objeto, produto e mercadoria. Rosana Paulino tem um discurso bruto e ácido, mas ao mesmo tempo feminino e sutil quanto à falsa noção de democracia racial. Sua retrospectiva vem de encontro com as atuais discussões sobre feminismo, racismo, minorias, cotas e se pagamos ou não por essa “dívida interna”. Ora, ironicamente fatos contraditórios assombram e dividem nossa nação.

Um curioso acontecimento fortaleceu o discurso dessa “costura da memória”, cometendo um anacronismo desnecessário. O precioso filme “Vazante” (2017), da diretora Daniela Thomaz tomou de assalto a “fragilidade branca” quando confrontado com a voz das minorias. O filme é um recorte do Brasil do séc. XIX, que narra a história de uma fazenda decadente isolada em Minas Gerais. A trama é inspirada na história de família da diretora, onde um parente de 50 anos se casa com uma jovem de 12 anos. O patriarcalismo branco foi o protagonista do filme colocando os negros como meros figurantes num período em que eram menos que isso.

A polêmica em vésperas de seu lançamento se deu a partir de questionamentos atuais sobre a tal “dívida” e como o tema deveria ser abordado em filmes da contemporaneidade. A diretora foi até acusada de racista fortalecendo o conceito da fragilidade branca confrontada com a “minoria” negra. Esqueceram-se de que o cult do diretor norte-americano, Quentin Tarantino, já havia protagonizado o personagem de “Django Livre” (2012), enquanto o ponto de vista da brasileira foi outro em relação à escravidão. Infelizmente o filme caiu no ostracismo por pura bobagem anacrônica.

Mas o curioso dos acontecimentos não acaba por aí. O ator que dirige o filme “Marighella” (2019), nosso eterno “Capitão Nascimento”, Wagner Moura, também caiu nas graças dos “memes” das mídias. Acusado erroneamente de usar a Lei Rouanet para financiar o filme sobre o ativista afrodescendente baiano, Moura foi duramente criticado e rotulado como “comunista”. Ora, a ironia está exatamente aí. Expor um ponto de vista de um “líder rebelde, um santo ateu” num período da História do Brasil não é fazer apologia ao terrorismo, é identificar as causas e consequências das políticas totalitaristas deste período. Moura apresenta apenas sua versão brasileira de “Django”.

Atribuir rótulos às expressões artísticas é condená-las como certas e erradas, quando em verdade são pontos de vista de pessoas sensíveis, compromissadas com sua pesquisa, com seu objeto de estudo, sua Arte! Sem anacronismos, rótulos ou críticas pausemos um instante para refletir sobre os fatos e façamos um esforço de nos colocar no lugar do outro para tentar identificar a problemática de cada período, cada realidade, cada cidadão brasileiro.

Querer o “branqueamento racial” (Hamilton Mourão) ou a “revolução morena colorida” (Carlos Marighella) são diferentes pontos de vista. Se você é branco e se coloca no lugar do negro e vice-versa, o que você faria? Quem seria o seu protagonista?

Tudo é uma questão de ponto de vista!

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Fernando Ekman, “Mestiços” (2010), 100 x 180 cm.

O saber da loucura


“A Humanidade nunca soube muito bem quem são seus loucos. Na sociedade primitiva os loucos eram tratados como Deuses. Na Idade Média eram queimados vivos. Só a partir do séc. XIX surgiram hospícios e os malucos passaram a ser considerados aquilo que realmente são, ‘doidos varridos’.  É neste contexto que surge a figura de Simão Bacamarte, a quem Machado de Assis (1839-1908) chamou de ‘O Alienista’.” (Narração de Marcelo Taz para minissérie na TV, em 1993)

Um pouco extenso para conto, um tanto curto para novela o livro foge dos padrões comuns, o que é literalmente a sua finalidade. Escrito em 1882, a história se passa no interior do Rio de Janeiro interagindo com figuras públicas da época como D.Pedro II, que convida o médico à ocupar a Presidência dos Ministérios, cujo convite é recusado para sua obsessiva dedicação à Ciência. A atmosfera colonialista ganha fervor com a caricatura de cada personagem e suas loucuras pessoais diagnosticadas pelo protagonista, Doutor Bacamarte, que concebe a Casa Verde, um hospício para os habitantes da pequena Itaguaí.

“Muita gente daquela época começou a nutrir uma fé que não havia limites para a Ciência. Mais do que isso, começaram a crer que qualquer ‘coisa’ feita em nome da Ciência deveria ser necessariamente boa. Uma ‘coisa’ que iria levar ao progresso. A história do século XX provou que não foi exatamente assim.”

A conclusão da jovem youtuber Isabella Lubrano, do Canal “Ler antes de Morrer”, é sobre o livro de Machado de Assis, mas poderia ser de um ponto de vista do francês Michel Focault (1926-1984). Célebre filósofo do século XX, Focault criticou a burguesia do estado moderno capitalista incluindo a polícia, o sistema prisional e a psiquiatria. O filósofo angariou a simpatia da elite intelectual francesa, ganhou o reconhecimento de Jean-Paul Sartre e do engajado público universitário ao redor do mundo. Educado em instituições elitizadas, Focault era contra tudo ou quase tudo que vinha de seu pai, um médico bem sucedido da alta classe francesa. Na Universidade, decorou seu quarto com obras de Goya negando, todavia e sempre as intenções de se formar em Medicina como o pai. Aos 22 anos, tenta suicídio e é internado numa clínica psiquiátrica, o que culminou ainda mais em suas pesquisas e rupturas de padrões da sociedade, resultando num desdobramento de idéias e novas perspectivas sobre a Filosofia Contemporânea. Focault escreveu muito, alguns de seus importantes escritos destaco: “A História da Loucura” (1961), “Arqueologia do Saber” (1969) e “Histórias da Sexualidade” (1976).

Contrapondo a sociedade ao sistema capitalista, ele aponta as causas e problematiza cada período, suas peculiaridades, progressos e retrocessos. No século XVIII, por exemplo, a repreensão ao sexo e sua censura negligenciariam mais tarde uma excessiva projeção midiática, transformando o prazer em mercadoria, ciência e tecnologia. Seus profundos estudos confrontaram a Scientia Sexualis (Ciência Sexual), observando com certa nostalgia em culturas como Roma (pinturas e artefatos de Pompéia), Índia (Kama Sutra), China e Japão (Shungas) de onde detectaria uma regra, a Arte Erótica, que vinha mais para entender o sexo do que rotulá-lo, conforme as tradições Orientais. A inconsequente modernidade que pretendia ter progresso científico acabou, em verdade, perdendo a espontaneidade e a imaginação sobre o sexo e seus mistérios. Ainda bem que os escritores, os filósofos e os artistas antecipam estas causas e (d)efeitos em nossa sociedade, assim nos atentamos a dar olhos e ouvidos a quem realmente tem o saber da loucura para um futuro mais saudável!

Ilustra o post obra do artista goiano Pitágoras premiado nacionalmente e selecionado em importantes mostras de arte no País e no estrangeiro, dentre elas “Erótica – Os Sentidos da Arte”, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 2005.

50969891_938667926521940_7678514262314057728_nPitágoras, intervenção sobre Calendário da Imprensa Oficial, 80 x 60 cm, Governo de São Paulo, 2008.

Desastre ou Des-Arte

O post de hoje se resumirá em registros do meu arquivo pessoal deste maravilhoso Patrimônio Cultural da Humanidade, que é o Instituto Inhotim. Em decorrência do grande “des-arte” ocorrido na barragem da Mina Feijão, em Brumadinho dedicamos nossas esperanças às vítimas deste município, que abriga um espaço mágico de importante coleção de arte contemporânea e arrojado paisagismo, dedicado à pesquisa em botânica e atividades culturais, assim como uma corrente de positividade aos moradores da extensa área atingida pelo derramamento de lama e as pessoas desaparecidas.

Os registros foram realizados entre os anos de 2009, 2012 e 2014 por Gustavo J. de Oliveira Filho. Esperamos ter a oportunidade de ainda fazer muitos outros registros como estes! As últimas informações é de que a área do Instituto não foi atingida e todas as atividades estão paralisadas.

“Somos todos Brumadinho!”

O Tamburil é a arvore nativa do local e símbolo maior do Instituto.

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Miopia

O último “meme” da semana foi a campanha narcisista nas redes sociais em postar o antes e depois de 2009 e 2019. Em minha opinião a postagem mais autêntica, criativa e realista foi a imagem da placa do teste de visão mais ou menos embaçado em 2009 e totalmente míope em 2019. Creio que a Arte Contemporânea, de certa forma, está sendo produzida para demonstrar exatamente isso, o quando estamos ficando míopes. Estabeleceu-se uma miopia coletiva, que até o prêmio Nobel da Literatura Portuguesa, José Saramago (em “Ensaio sobre a cegueira”) já profetizara.  Não há sentido em ter sentido. A moda é não sentir, ou como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “tempos líquidos”.

A Arte Contemporânea explora significativamente este fator crucial da sociedade, o sentimento, mas é pouco compreendida pela maioria, ou pela massa. Há quem visite a mostra “Raíz”, do artista chinês Ai Weiwei, na Oca, no Parque Ibirapuera, em São Paulo e se admire, se inspire ou até se sensibilize com toda a montagem e curadoria da mostra, mas não consiga realmente enxergar a verdadeira mensagem por trás de toda beleza estética da obra. Ai Weiwei nos direciona a olhar com clareza e nitidez a profundidade da natureza humana, expondo seu ponto de vista crítico sobre o modus operandi de sistemas neoliberais, totalitários, o obstinado egocentrismo e a incansável busca do homem pelo poder.

A mostra História Afro-Atlânticas, embora com um recorte temporal de mais de 200 anos de produção artística, teve uma curadoria contemporânea apesentada no MASP e no Instituto Tomie Ohtake e tomou proporções épicas à respeito da investigação da nossa nacionalidade e miscigenação. Integrando inúmeros artistas mundiais, obras e suportes que permeiam o universo primitivo da nossa constituição étnica sendo, por assim dizer, um marco na História da Arte Contemporânea Brasileira foi considerada a melhor exposição do ano de 2018, pelo New York Times.

Não é preciso fazer a escala GYN-SP para termos um embate artístico contemporâneo, quando se tem a mostra apresentada pelo Centro Cultural Oscar Niemeyer “Um corpo no ar pronto pra fazer barulho”. A curadoria com jovens artistas nacionais explora assuntos da contemporaneidade com pouca miopia, muita nitidez, certo sarcasmo e um modesto engajamento sobre temas polêmicos como o racismo, feminilidade, homossexualidade e as causas e efeitos da transgressão urbana como discurso político. Não fosse a “feiura” de algumas obras, a histeria das videoinstalações e um tímido revival da Arte Povera eu diria que a beleza está em enxergar a realidade como ela é, o tal bordão do momento:  “aceita que dói menos”.  A mostra não é colorida, nem tem a leveza estética como a da exposição na Galeria acima, apresentada pelo veterano professor-arquiteto-artista, Taí Hsuan-An. Escadas abaixo se apresenta um choque cultural, um contraste às cores e à singeleza da arte do experiente chinês-goiano, onde a juventude brasileira espalha por toda atmosfera do subsolo do Museu um transe social, associado ao caos urbano da vida contemporânea. Só enxergará esta verdade quem tem sentimentos à flor da pele. Os míopes nada verão! À miopia, só restará o inverno! A mostra fica até 17 de Março, vale conferir!

corpoUma das obras da mostra “Um corpo pronto pra fazer barulho”, no CCON, do Projeto “Trampolim – mergulho para jovens artistas”.

Como os nossos pais

O título, um bordão em nossa sociedade, foi ícone da geração lírica de Belchior, interpretada pela voz apimentadinha da imortal, Elis Regina. Quem não a cantava como hino dos anos 70, pelo menos tinha a dignidade de escutá-la dos amigos! “Como os nossos pais” dos anos 2017, é o filme da diretora Laís Bodansky, que não tem nada ou quase tudo a ver com a canção de Belchior.

O cotidiano de uma mulher de meia idade da classe média paulistana, filha de artistas e em crise com a avalanche de conflitos que o roteiro lhe apresenta é protagonizado pela atriz Maria Ribeiro, a Rosa. Maria Ribeiro é forte, antipática e talentosa, o perfil perfeito para interpretar e se esquivar das adversidades com que a personagem se depara. Ora previsível, com diálogos que remetem aos filmes do sueco Ingmar Bergman, ora surpreendente pela leveza como se conduz a conturbada trama, o filme é feminino e doloroso como um parto normal: dói, mas passa!

Por ter características tão femininas são perceptíveis nas cenas, no figurino e na fotografia, detalhes que denunciam a profissão humanista dos personagens e todo seu entorno. A mãe, intelectual, abriga uma volumosa biblioteca em sua casa, com um jardim muito bem assistido, visto que a variedade de vasos e diversidade de plantas compete com os livros. Nas paredes de sua casa, obras de arte modernistas, discrição e singeleza do bom gosto nos complementos da decoração. Sem se esquecer, é claro, do piano de cauda. No apartamento da amante do pai, uma refinada decoração, com escultura e obras de arte demonstradas em rápidas cenas. (como na foto abaixo: uma xilogravura com fortes referências do trabalho do artista renomado, Antônio Henrique do Amaral)

A fotografia da paisagem de São Paulo é primorosa, apesar das rápidas tomadas, o visual da metrópole é um colírio para os olhos. Para ir de encontro com seus temores, Rosa, a protagonista, viaja à Brasília, onde somos presenteados com toda majestosa arquitetura, a atmosfera de design e glamour político e as curvas faraônicas de Oscar Niemeyer, no Palácio do Planalto.  Rosa é convidada para uma conferência na paradisíaca Ilha Bela, onde enfim, nos sentimos verdadeiramente abençoados pela natureza. O filme valoriza nossa brasilidade sem se render ao americanismo hollywoodiano dos filmes comerciais. O crítico de cinema Bruno Carmelo faz uma reflexão coerente e realista da obra acentuando suas falhas, mas principalmente seus pontos positivos.

Pode-se reclamar, portanto, que parte deste discurso não soa natural, e nem todas as importantes ideias feministas se encaixam tão bem na boca dos personagens. Apesar destas ressalvas, Como Nossos Pais tem consciência de seus objetivos e sua estética, conduzida com precisão notável: nenhum elemento técnico chama mais atenção que o outro, tampouco desperta atenção para si próprio. Este seria um bom exemplo do “cinema do meio” (nem hermético, previsto para um nicho, nem escrachado, previsto para a massa) de que o cinema brasileiro tanto precisa. Se ele puder incitar a uma discussão progressista e despojada sobre o papel da mulher na sociedade, melhor ainda. Enquanto tantos cineastas buscam a maneira mais adequada de fazer cinema contemporâneo, Laís Bodanzsky continua fazendo cinema moderno, e muito bem por sinal”.

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 Rosa, Maria Ribeiro. Cena do filme “Como nossos pais”, 2017

As árvores


No dia 1° de Janeiro fui surpreendida com a postagem da editora e curadora de arte, Beta Germano, com textão sobre o panorama da Arte Contemporânea Brasileira e o saldo positivo das mostras de arte no país no ano de 2018. A imagem do post de seu Instagram é da artista ativista Rosana Paulino, que tem um discurso afiado com o feminino africano. Na obra, as costas da mulher se transforma num elo entre os ramos que sobem por sua cabeça e as raízes que descem pelos seus pés. Em pensar sobre as árvores e sua biofisiologia, cabe uma das leis herméticas: “tudo que está acima é como o que está abaixo”. Sua etimologia também está relacionada aos misticismos da natureza e aos fenômenos vibracionais. Do latim, ÁRBOR derivou palavras em línguas românticas como no francês e catalão: ARBRE, no castelhano: ARBOL, no italiano: ALBERO e no galego: ÁRBORE. Na palavra da língua portuguesa, onde a letra “b” do étimo latino está ausente, ÁRVORE tem um tom ainda mais poético e romântico!

As árvores são as maiores responsáveis pela produção de água ou chuva do planeta, além de cuidar para que o clima permaneça agradável, sombreado e com galhos cheios de frutas gostosas para comer. Conta uma antiga história que os Yules, festividades pagãs para o culto ao deus-sol, o solsístico de inverno e Saturno (o deus da colheita) era celebrado através do simbolismo das árvores, de onde vem sua representatividade no Natal. Os pinheiros, árvores muito resistentes ao inverno, saíram vitoriosos na preferência natalina, pois a história desses povos pagãos conta que eram realizados rituais e oferendas aos deuses sob os pés das árvores para trazer prosperidade e fertilidade à Terra.  As árvores eram consideradas o elo entre o Céu e a Terra e guardiãs dos espíritos. Pagãos da Europa cultuavam os Carvalhos, árvores predominantes na região, uma espécie extremamente forte e que chega atingir 40m de altura. A estrela no topo estava associada ao Sol e ao pentagrama. Mais tarde, passou a representar a estrela de Belém com a ascensão os povos ao Cristianismo. De acordo com a tradição cristã a árvore deve ser montada no primeiro domingo do advento, ou seja quatro domingos antes do Natal e ser desmontada no dia de Reis, dia 6 de Janeiro, ou seja, hoje! (Via @sabedoria.transcendental)

Desde 2008 a imagem da árvore é fonte de inspiração para nós. As intervenções da Famiglia Baglione, de São Paulo permaneceram por algum tempo em nossas paredes no salão de exposição e para sempre em nossa memória. Nosso cartão postal de Feliz Festas de Fim de Ano do ano citado foi a imagem do trabalho do artista paulista Felipe Yung. No ano de 2011, o desenho em nanquim da árvore do artista Wés Gama foi o selecionado. Elegemos, para o cartão virtual de 2018, as árvores do artista mineiro, Carlos Cordeiro.

A árvore não é só uma matéria viva estática, pelo contrário, ela se move e se desloca tanto para cima, quanto para baixo, tanto para os lados, quanto sob o vendo, através da polinização dos insetos, no vai e vem das estações do ano, na grandeza e fortaleza com que envelhecem certas espécies permanecendo em pé até mais de 2000 anos. Realmente é um ser vivo impressionante, porque se multiplica através de pequeninas sementes e absorve da terra o que ela tem de melhor a oferecer. Se ela abriga espíritos ou não, isso eu não sei, mas sei que uma sensação muito boa acontece quando a abraçamos! A árvore é verdadeiramente uma obra-prima da Natureza! Abrace, ame, plante!

baglioneFelipe Yung “Flip” e Thaís Beltrame produzindo suas árvores em 2008.

treesDesenhos do artista goiano Wés Gama, 2010 e do artista mineiro Carlos Cordeiro, 2014.

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Obra de Rosana Paulino, 2018, via @betabergamo

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Parábolas

Há uma parábola sobre o cacique, como bem me contou minha irmã, que diz assim: “Todo índio sabe que quanto mais ele puxar a flecha para trás mais força, velocidade e distância ela ganhará quando arremessada através do arco”. Assim é também com nosso conhecimento, quanto mais resgatamos nossas raízes, nossos antepassados, nossa história familiar mais rápido descobrimos e alcançamos nossos objetivos.

Acabo de ser presenteada com o livro “A Plumária Indígena Brasileira” (2000), da EDUSP, uma relíquia impressa de cocares e adornos de penas das mais variadas tribos brasileira. Verdadeiras joias tecidas com habilidade, estética e espiritualidade, visto que cada ornamento tem sua especificidade, seja ele para celebração, seja para indicar a casta social ou hierarquia dentro da tribo. Essas joias plumárias são um resgate cultural, onde percebemos algumas diferenças entre adornos produzidos antes da chegada dos europeus e pós-chegada, como a introdução de miçangas e fios de algodão industrializados. Uma das peças mais valorizadas e talvez até hoje a mais instigante da história da plumária indígena, seja a grinalda cobre-nuca da tribo Rikbaktsa, do Mato Grosso, ou a Myhara, um ser perigoso, que empresta o nome à peça. O adorno é usado em importantes celebrações, mas principalmente pelos guerreiros mais corajosos em combate. A mística se inicia na confecção da peça “que deve ser feita por homens maduros (casados, com filhos), os detentores da sabedoria da tradição. A feitura dessa grinalda é cercada de cuidados implicando a manifestação de poderes maléficos associados a ela. Precisa ser confeccionada em tempo curto e as sobras de suas penas terão de ser logo aproveitadas para outro enfeite, caso contrário produtor e familiares tornar-se-ão vítimas de suas forças malignas” (apud livro).

Tão curioso e assustador quanto parece, o uso dessa magnífica joia de penas, para o seu merecedor, é tanto de ônus, quanto de bônus. Uma matéria feita no início do ano 2006, antes do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se reeleger, na ocasião em que foi homenageado e elogiado por suas políticas indigenistas, lhe foi oferecida a vestimenta da grinalda como ato de coragem. Rumores do texto jornalístico tendenciaram o ato do candidato com mau-agouro já que Lula estava concorrendo novamente às eleições, no entanto o que aconteceu posteriormente foi sua avassaladora vitória.

A verdade é que para cada mau-agouro há um bom. Uma antiga parábola chinesa sobre o azar conta a história de um pai e um filho que moravam no alto de uma colina. Um dia apareceu um cavalo e os outros diziam que era sinal de azar. Mas o menino acreditava que era sorte e cresceu a cavalgar com o cavalo. Daí um dia, o menino já rapaz, caiu do cavalo e quebrou a perna. Os outros diziam que era culpa do cavalo e o azar que ele trazia. Mas naquele tempo a China estava em guerra e o exército estava recrutando adolescentes para lutarem contra os inimigos. Como o rapaz estava em convalescênça ele não pôde ir, ao contrário dos filhos dos outros, que foram e não retornaram.

A moral da história é que a sorte ou o azar depende do referencial. O que pode ser bom para ele, pode ser mau para os outros ou vice-versa. Não há muito sentido associar sorte ou azar aos artefatos indígenas, mesmo sendo eles detentores de uma mística que pode ser interpretada positiva ou negativamente. Tudo dependerá do quanto formos capazes de puxar a flecha para trás, afinal a vida é feita de altos e baixos, dias e noites, amor e ódio. Ninguém está imune às intempéries do destino. E assim segue a Humanidade, para frente e sempre!

49242685_316609352397864_3495838473951117312_nGrinalda cobre-nuca, Myhara, da Tribo Rikbaktsa, Mato Grosso, 1986.

Arte e Realidade

Navegar pelo Instagram da editora-curadora Clarissa Schneider é um deleite aos olhos e ao bom gosto. A cuidadosa seleção de imagens e seletivo trabalho de curadoria demonstra seu compromisso com o que há de mais contemporâneo e curioso na cultura e na arte. O registro de imagens realizado na recém-passada ART BASEL MiAMi, a maior feira de arte contemporânea dos EUA, que abriu na sexta (dia 07/12) e terminou no domingo (dia 09/12) é um discurso de Sociologia Humana, uma identificação dos novos clãs que se firmam perante toda a “evolução” (ou não) de nossa espécie. A fotografia dos visitantes, turistas, espectadores, admiradores ou amantes da arte é um misto de exotismo, repulsa e atração.  Não só pelo registro da obra contemporânea em si, mas pelo cenário onde se observa dentre os personagens que o compõe, como esses estereótipos se organizam e se convergem. O  evento e o público são o reflexo da contemporaneidade, de hábitos, conflitos e desafios para as questões do modo de vida atual. A bruta ou bizarra realidade de quem somos, lado a lado das obras da feira concluindo, contudo a filosofia de Nietzche: “a Arte existe para que a realidade não nos destrua”.

Tudo ali é cenário, figurino, personagem. Mas bem da verdade, é tudo isso mesmo que buscamos: uma ilusão, uma atuação, uma ação artística para que a realidade não seja tão chata e antiquada!

Imagens via @clarissaschneiderclarissa hat

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