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Exorcismo artístico

“Os políticos passam, a Arte fica”.

A frase é do polêmico artista chinês, Ai WeiWei. O artista que vivenciou a Revolução Cultural, viu seu pai sofrer as consequências do ativismo político contra o absolutismo chinês e, mais tarde, também sentiu na própria pele a dor de ser exilado e torturado pelo governo de seu país. Engajado nas causas sociais, ambientais e políticas, o artista chinês desembarcou sua primeira mostra individual “RAÍZ” na OCA, Parque Ibirapuera, no início do ano passado. Weiwei levanta questões pertinentes e usa sua Arte para fazer o espectador refletir sobre os conflitos sociais, o consumismo, as tradições e sinaliza como discernir o que pode ser bom do que pode ser ruim.

O poder estético de suas instalações, a agressividade e ousadia dos recursos e materiais que ele utiliza para manter este diálogo são imediatos e visualmente impactantes. Por causa da facilidade da leitura de suas obras, Ai Weiwei é reconhecido com o “Andy Wharol da China”. Suas polêmicas obras e seu comportamento ativista contra o autoritarismo chinês lhe renderam uma eterna briga e perseguição fiscal.

Ossos do ofício. Se não te incomodou, então a Arte não cumpriu seu papel principal. Bela ou não, a obra precisa passar uma mensagem, um desconforto, uma pontinha de insatisfação. Já diria o ditado “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Tem que chacoalhar, dar umas afogadas, tirar o ar mesmo. Em artigo para Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios, Sandra Minae Sato disserta sobre o artista e sua relação com a cerâmica como narradora da história. No trecho que que transcreve uma entrevista de 2010, ela cita: “Eu odeio a cerâmica… Mas eu faço. Eu acho que se você odeia demais algo, você deve fazer. Você tem de usar isso”. A que o entrevistador pergunta: “Para exorcizar?”, ele responde: “Sim.”

Exorcizar é o ato de fazer jurar e olha só que lindo, ele relatou o verdadeiro poder da Arte. Ela tem a autoridade de expulsar os maus espíritos do corpo da pessoa. Weiwei ficou famoso por se fotografar quebrando uma urna milenar, rompendo com os padrões da tradição chinesa. Num ato transgressivo, o artista aplica o que a Revolução Cultural lhe ensinou, destruir o antigo para criar o novo.

Dando continuidade às observações do artigo de Sato:

“A escolha de Ai Weiwei de “odiar a cerâmica” enquanto “a constrói” constitui uma estratégia para transcender completamente a natureza conflitante de uma categoria para criar outra, são plataformas imprevistas para o fazer e o discurso.” Gregg Moore e Richard Torchia, Doing ceramics

Fica aí a dica e a antiga ladainha, “os opostos se atraem”. Cuidado com o que você não gosta, pode ser que isso seja o que você mais precisa para se autoconhecer. Ilustra o texto cerâmicas esmaltadas por Márcia Magda carinhosamente confeccionadas para nossa empresa!

Quem planta, colhe!

O masterchef, Alex Atala certa vez contou uma experiência vivida quando fazia intercâmbio gastronômico no vilarejo de uma região ribeirinha da Amazônia. A troca entre ingredientes e as receitas administradas pelo gourmet eram fornecidas em embalagens de isopor e distribuídas aos grupos cadastrados do projeto. O fato é que após um tempo, Atala voltou à região e se surpreendeu com as embalagens de isopor espalhadas pelas ruas do vilarejo, sem qualquer reação dos habitantes para recolhe-las e/ou descarta-las corretamente. Conversando com as pessoas ele percebeu que elas não tinham nenhuma noção do que fazer, pois o isopor era um elemento inexistente na região, não se soube se era ou não para descartar, devolver, ou se a própria Natureza cuidaria de dar cabo ao produto industrializado, ninguém tomou qualquer providência à respeito. Moral da História: Alex Atala entendeu que todo processo de aprendizado e troca deve haver um começo, meio e fim com uma metodologia muito bem explicadinha. Não adianta ir lá, atender a comunidade e não explicar à ela como proceder depois.

Um antigo ditado judaico, que ainda parece vir pra puxar a orelha de muito “famosinho” por aí, diz assim: “A caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Em tempos de eleição então, não vou nem comentar. Um artigo de alguns anos atrás da Revista Veja trazia uma reportagem sobre as contradições da filantropia. Quando ela é benéfica e quando é nociva? Bem, das cinco ou seis páginas o resumo é o seguinte: se você faz por vontade e acompanha o desenvolvimento do órgão ao qual está contribuindo e acredita estar progredindo de forma construtiva, ok! Mas há um grande grupo que faz por desencargo de consciência: “Olha, como estou doando uma fortuna aqui, posso ostentar mais um bocadinho ali”. Mas isso não é nenhuma novidade, então por que ainda vivemos este ciclo vicioso? Alex Atala que o diga! Porque dá trabalho, muito trabalho. Demanda tempo, conhecimento, desprendimento, mas principalmente amor pelo que se está fazendo.

Por isso a Arte, o artesanato e toda e qualquer atividade manufaturada sempre será uma certeira solução! São os criadores e produtores: os artesãos, os carpinteiros, os ferreiros, os sapateiros, os ourives, os costureiros, os cozinheiros, os agricultores, os artistas. Estes são os verdadeiros filantropos da sociedade. Eles contribuem para o aprendizado, a cooperação, a construção de um mundo mais autônomo, mais justo, mais humano. Mas as máquinas vão tomar o lugar deles. Será? Qual o valor de uma reprodução e de uma peça original? Ou qual a qualidade de um produto orgânico à um transgênico? Quanto vale o seu tempo, o seu desprendimento, o seu altruísmo? Vivemos em tempos distópicos e me parece que quanto mais o queridinho das redes sociais se mostra fazendo filantropia, mais o lobo mal se transveste de ovelha (sobre o post passado). Enfim, momentos para refletir e desacelerar não faltarão, resta então fazer o bem importando a quem para colhermos os resultados e, como diria um outro antigo ditado: “Ensinar a fazer a vara, para aprender a pescar o peixe, depois aprender a cozinhar e se virar sozinho”.

“A educação é cara? Experimente a ignorância”!

Ilustra o post obra da série “Emblemas” do artista paulista, Rubens Ianelli, em fios de ferro com motivos geométricos que remetem sua pesquisa entre tribos indígenas e seu engajamento na cultura africana. A obra integra a mostra “Primavera Brasiliana”. Agende sua visita!

Feras & flores

A fábula de Esopo, onde “O Lobo e a ovelha” travam diálogo às margem de um rio tendo como moral da história: “Gentileza de hipócrita não passa de estratégia para tirar vantagem dos incautos” e/ou “O êxito dos enganadores depende da falta de atenção dos tolos”, foi inspirada num conto mais antigo. Histórias gregas que antecedem a do Evangelho de “O lobo em pele de cordeiro”, onde a moral da história é: “As pessoas não devem ser julgadas pelo seu comportamento exterior, mas pelas suas ações”, tem a continuação do desfecho depois das ovelhas serem devoradas no celeiro. Nos escritos de outros autores o castigo do lobo é ser enforcado em público pelo pastor que percebe o número de ovelhas diminuírem: “Toda maldade carrega uma pena” e em outros contos o lobo subordina os cães guardadores com um pedaço da presa, mas é denunciado pelos próprios subordinados ao pastor e tem o mesmo fim. Outra versão grega é o lamento de uma cabra ao ter de amamentar um filhote de lobo: “Não por minha vontade, mas do pastor, a generosidade. A fera que dei alimentação, vai me fazer sua presa, pois, nem por gratidão pode mudar a natureza”. (Via Wikipedia)

O símbolo do Partido Democratas dos EUA é um burro e admite se que a causa do escolhido foi uma charge criada pelo cartunista Thomas Nast (1840-1902). O fato é que a ilustração trazia a paródia das fábulas bíblicas e de Esopo, os Democratas foram representados, em 1874 por um leão que vestia pele de burro. A ideia pegou, tanto que o mascote, até hoje está em bottons para os mais fanáticos usarem. A oposição também teve a sua ilustração e seu mascote. Nast (sobrenome e palavra da língua inglesa têm como tradução nast, “desagradável”) caricaturou os Republicanos como um elefante desengonçado na corda bamba, no mesmo ano (Via CNN). Comportamentos animalescos entre os seres humanos sempre foram comuns, principalmente em tempos de redes sociais.

Casos de lobos, que sugestivamente ‘comem’ cabritas, viralizaram tal qual o de um jogador de futebol que disse “estar nem aí”, sobre um estupro coletivo com uns coleguinhas, ou de um outro estuprador playboy que foi inocentado pelo advogado, promotor e juiz, ou um jornalista mediano que normatizou o estupro em rede nacional e até um candidato a vereador que violentou uma cadela e foi filmado e denunciado pela filha. Este é o novo antigo normal. A verdade é que nossas ações, digo, de uns elementos da sociedade, embora tentando viver civilizadamente, ainda são um tanto quanto selvagens.

Observamos isso diariamente na Política, na Polícia, no trato com a Natureza, na gana pelo ganho do pão de cada dia e mais a manteiga, o mel, a geleia, o patê de fígado de ganso, o caviar… Não há limites para o ser racional, ou o irracional com ressalvas. Abre um parêntese para mais uma versão da irracionalidade: (Todo mundo tem um lado colorido e criativo de ser também. Ufa, ainda bem!). Somos seres sobreviventes em estações cíclicas que ora esquentam, ora esfriam, ora secam para então florescerem. A Primavera prova que tudo é transformação! “Primavera Brasiliana” é o nome da próxima mostra coletiva que abraça a flora, a fauna, as fábulas e a abstração, que só a Arte nos permite divagar. Salve a data 11 de novembro, solte suas feras com moderação e venha visitar a mostra! Esperamos você!

ARTISTAS: AntônioPoteiro __ PitágorasLopes __ RubensIanelli __ EleonoreKoch __ SandroGomide __ FranciscoGaleno __ MarildaPassos __ EvandroSoares __ MarceloSolá __ MateusDutra __ MaximMalhado __ EmíliaSimon __ WésGama

Queen

“Homens aparecerão em sua vida e tentarão te ensinar algumas coisas. Isso não os tornará mais inteligentes. Você os deixarão passar, seguirá em frente e fará somente o que quiser.

Um dia você ficará completamente sozinha e terá de encarar como cuidar de si mesma”

O recado da mãe para a protagonista na série Queen’s Gambit é um presságio sobre a fabulosa trajetória de sua filha como enxadrista. Inspirado na vida de Walter Tevis, jogador de xadrez e escritor norte-americano, a série traduzida no Brasil como “Gambito da Rainha” é uma jogada de xadrez que acontece no lance inicial. Um dos jogadores, conscientemente, arrisca um peão para em seguida conseguir vantagem em relação ao adversário. A palavra “gambito” sozinha, significa “ação destinada a enganar”. A série tem muitos predicados, trilha sonora das décadas de 50 e 60, fotografia impecável, figurino de bom gosto e a atuação memorável da atriz Anya Taylor-Joy. O mais lindo é a correlação do ofício da personagem com os acontecimentos de sua vida. Inevitável não perceber que todos seus lances de xadrez, a cada partida, com jogadores diferentes, têm a ver com suas emoções, sua indomável personalidade. O cuidado do roteiro ao enfatizar a fragilidade da poderosa enxadrista que conflita entre a sina de vencer, evidencia também sua vantagem em ser mulher num esporte dominado por homens. Mas não é só isso, além de bela ela percebe desde cedo o quanto estar bem vestida lhe impõe respeito e status social.

Cada jogo da série foi inspirado numa famosa partida de xadrez. Neste período, quando a Guerra Fria tensionava os ânimos entre norte-americanos e russos a popularidade do jogo era unanime com publicações de revistas especializadas, fotos dos campeões mundiais na capa e incentivo a campeonatos com premiações de quantias consideráveis. É notório que o xadrez fosse apenas um pano de fundo para explicitar a verdadeira guerra ideológica que se instaurava. O maior desafio para a jovem americana era enfrentar o veterano russo, campeão mundial convicto, no torneio internacional de Moscou. Em analogia, a figura do experiente jogador se torna uma fixação da garota prodígio em vencer a perda da presença do pai e enfim, acreditar em si mesma para enfrentar seus medos, seus fantasmas, suas perdas. A ideia do jogo entre estes dois personagens também pontua a personalidade de cada nação. Ele, um homem de meia idade russo disciplinado, ranzinza, educado e frio ela uma moça rebelde norte-americana, faminta pelos prazeres da vida e enfraquecida pelos vícios da infância. Uma série para aprender muito mais do que significa o jogo de xadrez, mas sobre questões atuais como a ascensão feminina ao poder, as relações afetivas, a importância da cooperação e o verdadeiro sentido de liberdade. A série nos ensina que o Gambito da Rainha ou Gambito da Dama é a estratégia mais antiga e simples que até hoje é praticada. A vida é um jogo de xadrez: ataca, recua, calcula, enfrenta, captura, põe em xeque, recalcula. Um jogo democrático, onde um simples peão, se for passo a passo, consegue se transformar numa Dama! Eu recomendo a série e agradeço ao @luizclaudiofaleiro a indicação! Ilustra o texto desenho da artista Carol Nolasco, selecionada ao nosso Edital 2020!

O Papa não é Pop!

Uma reportagem de 2018 revelou o arquivo de fotos do artista alemão Martim Dammann que colecionava registros de soldados nazistas do Terceiro Reich com vestidos, saias, lingerie e bijuterias, muitos deles abraçados com colegas de farda.

“É verdade que na coleção de Dammann há também fotografias de soldados americanos e britânicos nas Guerras Mundiais, com roupas femininas. Tem até evidências de crossdressers desde as guerras napoleônicas. Mas até onde ele pode averiguar, eram mais frequentes nas tropas de Hitler”.

Entre o vai e vem de teorias e hipóteses à respeito da liberdade de expressão e licença poética dos soldados sob a justificativa de que era necessário manter um exército na sua melhor forma física e mental possível, “o controle das autoridades era de qualquer jeito limitado, pois mais fácil era um recruta fazer o que bem entendesse, sem correr o risco de represália”. (Jornal Folha de São Paulo 30/11/2018).

O ser humano é uma espécie a ser estudada sem limites. Guerras, Batalhas, Revoltas, Cruzadas, Conflitos em nome de Deus, da ordem e do progresso foram travados para o domínio de territórios, riquezas minerais e naturais, supremacia e higienização de raças, mas ao que tudo indica no final das contas, é que a fragilidade e vulnerabilidade se estabelece em qualquer clã ou vitória que seja. Na última quinta-feira, o Papa Francisco se manifestou em defesa da união cívil entre homossexuais, confirmando seu discurso humanista, desprovido de preconceitos e tabus. Não que a Igreja Católica apoie tanto assim essa ‘heresia matrimonial’, afinal a família de bem ainda é papai e mamãe (mesmo que dentro do armário), mas, porém, contudo, todavia, mantendo as aparências, tipo aquela famosa propaganda de margarina, lembram!? A própria Igreja Católica financiou, durante a escravidão traficantes de navios negreiros para manter a mão-de-obra escrava das construções de templos faraônicos em Salvador, Belém, Manaus, Ouro Preto, Rio de Janeiro, São Paulo… Isso sem citar a sede do Vaticano, só que daí é um outro assunto!

Admitir os erros e se redimir já é um grande passo para a Humanidade. Perdoar o aborto, aceitar a união entre homossexuais, criticar a soberba da Igreja, defender as reservas ecológicas entre outras pautas polêmicas, vão um tanto contra a demagogia popular. O Papa definitivamente não é pop. E assim cantava a banda gaúcha, Engenheiros do Havaí:

“Toda catedral é populista.

É macumba pra turista.

O Papa é pop.

O pop não poupa ninguém”

Lembrem-se que na época, o Führer Adolph Hitler era bem pop! Bem popular e bem mal!

Cuidemo-nos de todo o mal pop! Amém!

Ilustra o texto obra do artista carioca Fabio Carvalho. A produção do artista é o resultado de uma reflexão sobre elementos que constituem as expectativas e representações de gênero e sexualidade, “Macho Toys”, mista sobre tela, 25 x 30 cm, 2011.

Yellow World

Quem já foi mãe de primeira viagem se recordará dos constantes alertas dos pediatras para dar banho de sol no bebê recém-nascido. A falta dele pode causar a icterícia que é uma pigmentação amarelada por níveis elevados de bilirrubina no sangue.

Quem conhece São Paulo, a cidade da garoa, a cidade cinza, a selva de pedra brasileira, já notou a irrelevância do Sol na vida dos cidadãos paulistanos. A urgência do trabalho, os arranhas céus, o mergulho em escritórios fechados, a cólera pelo dinheiro e o empreendedorismo como referência mundial.

Não à toa que a maior dupla de artistas brasileiros, OsGêmeos tem como principal característica de seus grafites os homenzinhos amarelos. Personagens inventados para representar um núcleo de habitantes (ou quem sabe, todos nós), que de uma forma ou de outra somos obrigados a nos afastar da luz do Sol por motivos corriqueiros, por falta de tempo, por indução, por colonização. A dupla acaba de abrir a mostra “Segredos”, na Pinacoteca de São Paulo, uma panorâmica criativa da trajetória dos dois irmãos, com obras inéditas sobre uma carreira colorida e cheia mistérios.

A banda O Rappa também fez uma canção ao homem amarelo, no estilo carioca:

O Homem Amarelo do Samba do Morro
O Hip Hop do Santa Marta
Agarraram o louro na descida da ladeira
Malandro da baixada em terra estrangeira

A salsa cubana do negro oriental
Já é ouvida na central

Que pega o buzum
Que fala outra língua
Reencontra subúrbios e esquinas”

Quem nunca ouviu o termo “oh, seu amarelo”, numa forma pejorativa para designar aquele que não é nem branco, nem negro, nem índio, ou seja, um vira-lata! A burocracia inventou um termo mais sutil para cadastrar este novo tipo de “raça”, os pardos!

Definir em termos e conceitos o que cada artista pretende com sua arte é desvendar seus segredos e mistérios. É tentar enxergar a origem de suas sombras e sua luz. Cada artista guarda para si e consigo uma solidão criativa, aquela que, “sem querer querendo” faz parte do inconsciente coletivo. Ali, na intuição, na produção e na execução o artista materializa o que está incubado nas profundezas do ser, na dor, na realidade, na verdade! A trajetória do artista goiano, Siron Franco não é diferente.

Quem nunca ouviu sobre as traumatizantes histórias vividas pelo artista em sua infância, quando presenciou uma família inteira ser degolada por assassinos na mesma rua onde foi encontrado o Césio 137. Uma atmosfera amarela, quase sofrendo de icterícia, sedenta pela luz do Sol. São monstros, seres híbridos, couros e sangue de animais, números de calibres de armas, mulheres madonas, ou quase trans. Um mundo envolto de criatividade underground, mas extremamente bem executada, com técnica e referências de grandes mestres da subjetividade, como Francis Bacon, Picasso e Ana Maria Pacheco. Um mestre da pintura!

Quem nunca vivenciou o mundo amarelo?

Excuse

Uma polêmica crítica publicada em Agosto, pela Doutora em Antropologia, Lilia Moritz Schwarcz sobre o musical “Black is King” da pop star Beyoncé, causou mal-estar entre celebridades negras brasileiras, o que impulsionou um pedido de desculpas da Professora, pelo tweeter. No musical, a cantora americana enfatiza uma sofisticada superioridade negra, esbanjando brilho, cores, estampas, coreografias e hit o que sempre foi de costume da diva pop em seus videoclipes. No entanto, o artigo do jornal aspirou um certo tipo de recalque da classe branca erudita e por pouco não vira um conflito diplomático. Mas o episódio deu margem para uma breve reflexão do quanto a luta racial e o recalque recíproco ainda são tão recentes quanto na época da escravidão!

Quem nunca leu ou assistiu filmes sobre sinhazinhas enciumadas pelos fartos seios e largas ancas de suas escravas, os quais enlouqueciam seus cônjuges. Castigos, torturas e até mesmo assassinato eram comuns e velados. Ou então sobre bravos e corajosos escravos que se apaixonavam por suas sinhazinhas ruivas, ou loiras e chegavam a planejar fugas para levá-las aos mais longínquos quilombos da região. Enfurecidos, os noivos brancos saíam a uma caçada mortal em busca do atleta de ébano que enfeitiçara a donzela. Mas o ciúme também se dava de forma inversa, as negras escravas peritas nas ciências ocultas, rogavam pragas às suas patroas, invejando-as, não apenas pelo status social que as desprivilegiava, mas pela cor dourada de seus lisos cabelos de ouro, ou a textura branca de sua pele e o rosado de suas bochechas. A própria Xica da Silva castigou dezenas de suas escravas por serem mais formosas que ela. Gilberto Freyre, relata em “Ordem e Progresso”, depoimentos de vários membros da sociedade brasileira entre o século XIX e XX, perguntas capciosas como “Você aceitaria que sua filha ou seu filho se casasse com pessoa de cor”? Respostas de todo tipo surgiram e uma delas, a que mais me chamou a atenção, foi negativa, justificando que “se nem as próprias negras se aceitam negras, alisando e pintando seus cabelos de loiro, passando enorme porção de pó de arroz no rosto para embranquecerem, por que eu as aceitaria?”

Olhe, esse assunto aqui dá pano pra manga. De fato, sempre existiu uma moda onipresente para influenciar a opinião pública. Se o glamour, o status, o dinheiro está nas mãos dos brancos, porque não ser como eles? Entendemos que, nem tanto a intenção da Antropóloga, quanto a da cantora Beyoncé foi causar qualquer mal-entendido, mas fica a pulga atrás da orelha, por que não conseguimos ou não queremos resolver as questões raciais? Antes de serem raptados e escravizados pelos europeus, as tribos africanas conservavam costumes e tradições. A cultura das tranças identificava as tribos, origem, idade, a posição social, o estado civil, ou problema pessoal. Há um penteado específico para cada cerimônia, como casamentos ou eventos religiosos. “Aqui no Brasil e em outros países da América Latina como Colômbia, no período da escravidão elas foram usadas de maneira muito inteligente, como forma de comunicação entre os negros. As mulheres negras tinham o costume de trançar seus cabelos e faziam os mapas na cabeça uma das outras, desenhando com as tranças para encontrar o caminho nas fugas para os quilombos. A simbologia da resistência é muito forte nas tranças nagô”. (Via www.laspretas.com.br)  

Trançando conhecimentos daqui e dali começamos a refletir sobre questões tão contemporâneas quanto milenares. A representação das tranças vem desde o Egito Antigo, 3.500 a.C. O cabelo tem um significado místico em diversas culturas, há o culto da força através do comprimento dos fios, como é descrito na própria Bíblia na história de Sansão e Dalila. Ao chegarem no Brasil os escravos tinham seus cabelos cortados, como uma primeira forma de dominação e enfraquecimento de sua autoestima, mas nem por isso deixaram de lutar, desenvolveram a capoeira como artifício de treino e fuga, aplicaram seus conhecimentos nas tranças mapas, aprimoraram feitiços e se miscigenaram. Tomara que essa troca cultural histórica, embora desumana e sangrenta, traga sabedoria e muitos pedidos de desculpas, mas que o outro também saiba aceitá-las com sabedoria e educação!

Ilustra o texto escultura em resina com pó de ferro, do artista goiano Gilvan Cabral, pioneiro no Centro-Oeste em esculpir negras na madeira do pau-brasil.

Rivais

Pela etimologia, do latim clássico, rival vem de “ribeiro, arroio, rio” ou “aqueles que compartilham o mesmo rio”. Rivalidades à parte temos de admitir que todo rio corre para o mar. Na virada do século XIX para o século XX, duas grandes rivais e ícones imortais da moda, a italiana Elsa Schiaparelli e a francesa Coco Chanel travaram uma corrida ao podium do mundo fashion. A primeira experimentou ousadias das Artes Plásticas, se afirmando com um estilo surreal e exótico. Aclamada pela classe artística, se tornou uma fugaz divulgadora da obra de Salvador Dalí. Já Chanel criava roupas funcionais para a mulher moderna, num estilo clássico, recatado e quase monocromático. Cada uma seguiu seu caminho, mas no mesmo rio e com o mesmo objetivo, inovar.

E por falar em moda, duas revistas referências acabam de lançar, simultaneamente, capas arrebatadoras. A Vogue Brasil ousou um ensaio com a polêmica Pablo Vittar, um espetáculo de androgenia, drag style, queer, sadô e outras ‘cocitas más’! A Elle Brasil lançou, após anos sem a versão impressa, capas imperdíveis com celebridades negras como a cantora IZA, o músico Gilberto Gil, a escritora Djalma Ribeiro e a cafuza Katú Mirim. Referências unânimes em moda, as duas revistas rivais podem ora atrair, ora repelir seus espectadores.

Na História da Arte rivalidades eram comuns entre os artistas, desde os expressionistas aos impressionistas, dos surrealistas aos cubistas, ou dos dadaístas aos modernistas. No Brasil, sempre existiu um apartheid entre a frente artística paulista e a carioca. O circuito cultural que nas primeiras décadas do século XX até o início do século XXI se restringiu à estas duas metrópoles, atualmente vem se expandindo (em suas devidas proporções) para outras regiões do país, onde também procede a rivalidade regionalista. Essas diferenças entre o processo produtivo e comercial de cada artista está intimamente ligado à postura ideológica e fidelidade à sua pesquisa.

Agradando ou não à gregos, goianos ou romanos, os artistas são imbatíveis em se rivalizarem, mesmo porque seu trabalho é árduo e solitário. “Toda criação é resultado de uma profunda solidão”. Não há como materializar uma ideia enquanto ela ainda está no plano ideológico onde só o artista enxerga o tom das cores, as proporções das formas, a textura da tinta, a gesticulação corporal. E talvez, este seja o maior desafio dos artistas, descobrirem quem estará a sua altura ideológica para assim, se rivalizarem no plano material, como num fluxo que segue o rio!

Tatiana Potrich entre obras dos artistas goianos Marcelo Solá e Pitágoras Lopes. Ensaio fotográfico realizado pela Guta Guerra em comemoração aos 40 anos da Potrich Galeria.

Quase tudo que é imenso lembra o mar, 2015

Por Andréa Franzoni Tostes

“O 34º Panorama de Arte Brasileira, intitulado Da pedra, da terra, daqui, propõe uma reflexão sobre o passado com o objetivo de avaliar o presente. Na exposição, o Brasil é entendido a partir de seu território e dos efeitos de sua ocupação pelo homem.

Os curadores Aracy Amaral e Paulo Miyada lançam aos seis artistas convidados uma pergunta fundamental: o que é o Brasil?

Em resposta à provocação da curadoria, o goiano Pitágoras Lopes apresenta seis pinturas sobre telas de grande formato nas quais reverbera a hecatombe provocada pelo choque entre passado e futuro, apontando para o desastre das civilizações. As pinturas sem título compõem a série Quase tudo que é imenso lembra o mar, executada especialmente para a exposição.

Nessas telas, o artista expõe uma visão do passado marcada por referências diretas aos sambaquis e às esculturas conhecidas como zoólitos exbibidas no Panorama. Isso se dá por meio de figuras viscerais, traçadas com linhas secas que, à primeira vista, podem parecer ingênuas ou pueris, mas este é nesse embaraço imediato que o artista captura a atenção de seu desavisado observador.

O trabalho de Pitágoras se mostra na mediação entre o figurativo e o abstrato, num jogo de sobreposição ou supressão de elementos que remete diretamente à construção de um sambaqui, escondendo e revelando objetos de sociedades ainda misteriosas.

O aspecto rudimentar, tosco e até mesmo grotesco de seu traço produz nas telas de Pitágoras uma agressividade desmedida e impregnada de energia telúrica, à qual todos estão sujeitos, independentemente das tentativas humanas para compreendê-las ou dominá-las.

A intensa força cromática, obtida em uma paleta de tons fechados de cinza que rompem amplos campos de azul cerúleo, dá vibração a seres bizarros, esqueletos, máquinas, animais, constituindo um cenário aterrorizante do futuro.

Em suas pinturas, Pitágoras apresenta um mundo desconectado do presente, mas profundamente imbuído de seus aspectos destrutivos e decadentes. As imagens são um tanto surrealistas, compostas de elementos e seres que enfatizam o caos em que a civilização se precipitou. Nesse diálogo entre passado e futuro, o artista aponta para a fragilidade da condição humana face à potência da natureza, claramente perceptível em mares e oceanos. Daí o título da série: Quase tudo que é imenso lembra o mar.

O enigma proposto pelo título reside menos em sua literalidade do que no convite a um mergulho profundo nas imagens, no qual se ativa a consciência, adormecida pelo presente ou pelo Prozac, de que não se percebe para onde o caminho levará.

Pitágoras credita suas influências à arte e cultura pop, dizendo que sente mais conexão com a literatura, gibis ou mesmo da observação do cotidiano do que com artistas específicos. Em seus trabalhos, a intensa expressividade das figuras se destaca, traçadas com força e simplicidade à semelhança de desenhos rupestres.

Para Pitágoras, não há outro jeito de viver, senão intensamente. Ele mesmo se considera uma pessoa visceral, e é em seu universo de devaneios que o artista flerta com a angústia da morte que se sabe certa, mas que ainda assim pode se acomodar na beleza poética de sua própria redenção”.

Agende a sua visita!

Angels

A Arte tem curiosos caminhos para demonstrar pontos de vistas inusitados nos proporcionando novas alternativas de interpretação e análise. Como uma boa cinéfila não poderia deixar de citar mais um filme cult para ilustrar essa nossa conversa. Com um elenco masculino de peso “Snatch – Porcos e Diamantes” (2002), começa com uma cena hilariante. Assaltantes à uma joalheria, disfarçados de judeus, travam um diálogo interessante, dentro do elevador, até chegarem ao seu destino. Um deles cita a canção da diva do pop Madonna, “Like a Virgin” (1984) e divaga sobre o significado da letra da música, quando um dos seus companheiros acrescenta a informação de que a tradução do termo virgem, do hebraico para a Bíblia é errônea. Em verdade, a interpretação ou tradução correta teria de ser jovem para designar a gravidez de Maria. Isso tudo para ressignificar a experiência da personagem da música, isto é, a história da cantora que sofreu um estupro, ou propor uma nova alternativa da história romantizada da Bíblia sobre a gravidez de Nossa Senhora, que não era virgem, mas jovem.

Esta é só mais uma passagem curiosa das histórias e pontos de vistas machistas que aos poucos vão se desmistificando. Muitos tabus e preconceitos tem sido quebrados, estraçalhados e enxotados nesta Era de Aquário. A surfista brasileira, Maya Gabeira acaba de ganhar o recorde em surfar a maior onda do mundo, sendo a primeira e única mulher, até agora, a conquistar o título. As jogadoras de futebol acabam de ser contempladas pela CBN com os mesmos salários dos desportistas masculinos. E mais, acaba de virar um anjo, a pequena grande figura da justiça, a norte-americana Ruth Baden Guinsburg (1933-2020), uma feminista diplomática que fez valer valores humanos na luta por direitos iguais entre os sexos. Se já era difícil ser mulher naquela época, imagine para uma judia, mãe e grávida. Guinsburg rompeu com padrões da sociedade e driblou situações para prevalecer os princípios femininos preservados pela Constituição.

A Netflix oferece uma série um tanto quanto desconfortável, mas onde é possível enxergar padrões arcaicos da sociedade como os episódios de “Nada Ortodoxa” (2020). Não que, literalmente, a história seja verídica, mas a ficção é só um começo para identificarmos o quanto ainda os dogmas religiosos seguem atrasados e incompatíveis com a Era Contemporânea.

Que possamos ter tantos anjos na Terra como no Céu para nos abençoar e perdoar nossas falhas humanas. Que possamos enxergar através da Arte alternativas e novas interpretações para ressignificarmos as coisas e os princípios da vida. Ilustra o texto desenho em carvão sobre papel de Carol Nolasco, uma das 5 artistas selecionadas do nosso Edital 2020. Agende a sua visita e entre no universo da Arte e suas inúmeras alternativas de interpretação!