BLOG

Quase tudo que é imenso lembra o mar, 2015

Por Andréa Franzoni Tostes

“O 34º Panorama de Arte Brasileira, intitulado Da pedra, da terra, daqui, propõe uma reflexão sobre o passado com o objetivo de avaliar o presente. Na exposição, o Brasil é entendido a partir de seu território e dos efeitos de sua ocupação pelo homem.

Os curadores Aracy Amaral e Paulo Miyada lançam aos seis artistas convidados uma pergunta fundamental: o que é o Brasil?

Em resposta à provocação da curadoria, o goiano Pitágoras Lopes apresenta seis pinturas sobre telas de grande formato nas quais reverbera a hecatombe provocada pelo choque entre passado e futuro, apontando para o desastre das civilizações. As pinturas sem título compõem a série Quase tudo que é imenso lembra o mar, executada especialmente para a exposição.

Nessas telas, o artista expõe uma visão do passado marcada por referências diretas aos sambaquis e às esculturas conhecidas como zoólitos exbibidas no Panorama. Isso se dá por meio de figuras viscerais, traçadas com linhas secas que, à primeira vista, podem parecer ingênuas ou pueris, mas este é nesse embaraço imediato que o artista captura a atenção de seu desavisado observador.

O trabalho de Pitágoras se mostra na mediação entre o figurativo e o abstrato, num jogo de sobreposição ou supressão de elementos que remete diretamente à construção de um sambaqui, escondendo e revelando objetos de sociedades ainda misteriosas.

O aspecto rudimentar, tosco e até mesmo grotesco de seu traço produz nas telas de Pitágoras uma agressividade desmedida e impregnada de energia telúrica, à qual todos estão sujeitos, independentemente das tentativas humanas para compreendê-las ou dominá-las.

A intensa força cromática, obtida em uma paleta de tons fechados de cinza que rompem amplos campos de azul cerúleo, dá vibração a seres bizarros, esqueletos, máquinas, animais, constituindo um cenário aterrorizante do futuro.

Em suas pinturas, Pitágoras apresenta um mundo desconectado do presente, mas profundamente imbuído de seus aspectos destrutivos e decadentes. As imagens são um tanto surrealistas, compostas de elementos e seres que enfatizam o caos em que a civilização se precipitou. Nesse diálogo entre passado e futuro, o artista aponta para a fragilidade da condição humana face à potência da natureza, claramente perceptível em mares e oceanos. Daí o título da série: Quase tudo que é imenso lembra o mar.

O enigma proposto pelo título reside menos em sua literalidade do que no convite a um mergulho profundo nas imagens, no qual se ativa a consciência, adormecida pelo presente ou pelo Prozac, de que não se percebe para onde o caminho levará.

Pitágoras credita suas influências à arte e cultura pop, dizendo que sente mais conexão com a literatura, gibis ou mesmo da observação do cotidiano do que com artistas específicos. Em seus trabalhos, a intensa expressividade das figuras se destaca, traçadas com força e simplicidade à semelhança de desenhos rupestres.

Para Pitágoras, não há outro jeito de viver, senão intensamente. Ele mesmo se considera uma pessoa visceral, e é em seu universo de devaneios que o artista flerta com a angústia da morte que se sabe certa, mas que ainda assim pode se acomodar na beleza poética de sua própria redenção”.

Agende a sua visita!

Angels

A Arte tem curiosos caminhos para demonstrar pontos de vistas inusitados nos proporcionando novas alternativas de interpretação e análise. Como uma boa cinéfila não poderia deixar de citar mais um filme cult para ilustrar essa nossa conversa. Com um elenco masculino de peso “Snatch – Porcos e Diamantes” (2002), começa com uma cena hilariante. Assaltantes à uma joalheria, disfarçados de judeus, travam um diálogo interessante, dentro do elevador, até chegarem ao seu destino. Um deles cita a canção da diva do pop Madonna, “Like a Virgin” (1984) e divaga sobre o significado da letra da música, quando um dos seus companheiros acrescenta a informação de que a tradução do termo virgem, do hebraico para a Bíblia é errônea. Em verdade, a interpretação ou tradução correta teria de ser jovem para designar a gravidez de Maria. Isso tudo para ressignificar a experiência da personagem da música, isto é, a história da cantora que sofreu um estupro, ou propor uma nova alternativa da história romantizada da Bíblia sobre a gravidez de Nossa Senhora, que não era virgem, mas jovem.

Esta é só mais uma passagem curiosa das histórias e pontos de vistas machistas que aos poucos vão se desmistificando. Muitos tabus e preconceitos tem sido quebrados, estraçalhados e enxotados nesta Era de Aquário. A surfista brasileira, Maya Gabeira acaba de ganhar o recorde em surfar a maior onda do mundo, sendo a primeira e única mulher, até agora, a conquistar o título. As jogadoras de futebol acabam de ser contempladas pela CBN com os mesmos salários dos desportistas masculinos. E mais, acaba de virar um anjo, a pequena grande figura da justiça, a norte-americana Ruth Baden Guinsburg (1933-2020), uma feminista diplomática que fez valer valores humanos na luta por direitos iguais entre os sexos. Se já era difícil ser mulher naquela época, imagine para uma judia, mãe e grávida. Guinsburg rompeu com padrões da sociedade e driblou situações para prevalecer os princípios femininos preservados pela Constituição.

A Netflix oferece uma série um tanto quanto desconfortável, mas onde é possível enxergar padrões arcaicos da sociedade como os episódios de “Nada Ortodoxa” (2020). Não que, literalmente, a história seja verídica, mas a ficção é só um começo para identificarmos o quanto ainda os dogmas religiosos seguem atrasados e incompatíveis com a Era Contemporânea.

Que possamos ter tantos anjos na Terra como no Céu para nos abençoar e perdoar nossas falhas humanas. Que possamos enxergar através da Arte alternativas e novas interpretações para ressignificarmos as coisas e os princípios da vida. Ilustra o texto desenho em carvão sobre papel de Carol Nolasco, uma das 5 artistas selecionadas do nosso Edital 2020. Agende a sua visita e entre no universo da Arte e suas inúmeras alternativas de interpretação!

Trópicos

O livro “1808”, de Laurentino Gomes foi escrito em 2014.

O Museu Nacional do Rio de Janeiro pegou fogo em 2018.

Com um intervalo de 4 anos, o escritor, que tem formação em jornalismo registra uma interessante passagem no livro, a respeito desta instituição:

Situado na Quinta da Boa Vista, a algumas centenas de metros do Estádio do Maracanã, com vista para o morro da Mangueira, este é um dos museus mais estranhos do Brasil. Seu acervo reúne, além do meteorito, aves e animais empalhados e vestimentas de tribos indígenas abrigadas em caixas de vidro que lembram vitrine de lojas das cidades do interior. As peças estão atribuídas ao acaso, sem critério de organização ou identificação (…) A construção retangular de três andares, que Dom João ganhou de presente de um traficante de escravos ao chegar ao Brasil, em 1808, é hoje um prédio descuidado e sem memória (…) É como se nesse local a história tivesse sido apagada de propósito”.

O escritor, como se diz na gíria, “já tinha cantado a bola” de que tudo estava mesmo perdido. O incêndio que devastou a pouca e desorganizada memória que restara no museu veio fazer ‘um limpa’ da bagunça iniciada desde 1500. Como de praxe do brasileiro ou de qualquer ser humano do mundo, o apagar da memória é o típico ato falho, uma grande pegadinha que nosso inconsciente faz para quê, de certa forma, estejamos protegidos de nós mesmos, ou nos boicotemos.

No livro de Lévis-Strauss, “Tristes Trópicos” o antropólogo traz a ideia da superstição como persistência ancestral e senso de coletividade. O boicote, a superstição podem ser um estilo de vida humano mesmo, tipo um estilo masoquista, de dor e medo. Construímos as coisas, para depois podermos destruí-las, ora pois. Li recentemente um artigo sobre comportamento contemporâneo, numa dessas revistas científicas, que insistia em afirmar que gostamos de viver com sadismo, escravizando uns aos outros, consumindo coisas que não usaremos, comendo e bebendo coisas que não nos farão bem, etc.

E não venham me dizer que essas falhas são para nossa sobrevivência. Quem sobreviviam, de fato, eram os índios. Selvagens, pelados no frio da mata, caçando com arco e flechas feras perigosas, ou plantando e colhendo a mandioca na terra virgem e fértil. Da pouca memória que resta sobre estes nossos ancestrais são as superstições e não, os bons hábitos de ingerir ervas medicinais e uma alimentação mais pura e limpa, que permanece no nosso inconsciente.

Falta pouco para terminarmos de apagar essa memoriazinha que ainda, talvez insista em nos conscientizar de fazermos o bem para nós mesmos. É uma suave fagulha que espera ser alimentada pela força da sapiência ou da ignorância, você decide! Um incêndio, ou uma queimada é um sopro de cinzas num mar de memórias secas e abandonadas. Talvez seja a hora de resgatarmos memórias ancestrais que ascendam chamas de conhecimento, soluções e consciência coletiva, porque não estamos mais sobrevivendo, mas ‘sub-vivendo’ em nossos próprios egos!

Ilustra o texto a obra, “Trópico”, de Fábio Pedrosa, alagoano que reside em Brasília, um dos 5 selecionados do nosso Edital 2020. Agende sua visita!

Lição

Não existe essa coisa de equilíbrio entre vida e trabalho. Tudo que vale a pena lutar desequilibra sua vida“. (Alain de Boton, escritor e poeta suíço).
O ano de 2020 vem sendo, desde o palíndromo (dia de Iemanjá | 02/02/2020), uma surpreendente caixinha de surpresas. Se foi castigo dos Deuses e das Deusas, ou um puxão de orelha bem dado, temos observado que definitivamente não somos donos de si. Para cada ação uma reação, seja boa ou ruim, ela vem vindo para equilibrar, ou desequilibrar. Casos de suicídios, agressões domésticas, separações vem sendo cada vez mais frequentes neste momento de ascensão da pandemia. Não que um vírusinho tenha causado este estrago todo, mas que ele foi a pequena gota d’água num copo que quase já transbordava, ahh se foi!
Casais famosos, vidas aparentemente perfeitas, juventude recatada e do lar, em pleno turbilhão de rupturas e incertezas. Sempre foi assim? Talvez. Talvez a proporção e a velocidade das informações nos façam acreditar que, atualmente, seja mais trágico, ou que os índices estejam sempre aumentando. Mas vou te contar um segredo, tudo anda e desanda… Grandes artistas que tiveram êxito profissional, principalmente mulheres romperam paradigmas e padrões para se estabelecerem em reforçar suas capacidades, enfrentando períodos de Guerras ou de doenças letais, lá estavam elas.
Escandalosamente, separadas, divorciadas, suicidas ou gays, certas mulheres honraram seu trabalho e deixaram um legado para que outras se encorajassem a isso. Frida Kahlo, Coco Chanel, Camile Claudel, Hilma af Klint, Chiquinha Gonzaga, Cora Coralina, Georgia O’Keefe, Tina Turner, Janes Joplin, Amy Winehouse, Madonna, Lady Gaga, Marina Abramovic são exceções a regra conservadora doméstica. Poderia citar tantas páginas que fossem de mulheres históricas que colocaram a carreira como prioridade, antes da família e maternidade. Salvo, Princesa Diana, que não teve tanto tempo para se firmar uma personalidade altruísta, assim como Madre Tereza de Calcutá, mas ousou se divorciar de um dos maiores partidos do mundo.
O casamento é uma instituição moderníssima. Hoje, nada mais obriga duas pessoas a estarem juntas a não ser o amor“. (Wagner Moura)
A cama de casal violentada pelos instrumentos rústicos do trabalho braçal masculino, a pá e a enxada demonstram, subliminarmente a agressão sexual do coito matrimonial. A inesperada delicadeza do traço do artista, Carlos Mota Morais que escancara uma agressividade normatizada, no desenho à lápis, materializa o que ninguém vê entre quatro paredes. Corajoso, o artista, ao desnudar esta realidade cotidiana em tão sutil ilustração revela o quanto o amor e a dor insistem em dividir o mesmo leito. Interpretar os sinais da contemporaneidade e o que os artistas tem a nos dizer é experimentar as rupturas necessárias para uma nova transformação. Nada é em vão, se não for benção é lição. Já dizia o famigerado Chico Buarque: “Tem gente que tem medo de mudança. Eu tenho medo que nada mude“. Que este ano nos sirva de grande lição.

Agende seu horário e venha conhecer as obras dos 5 artistas selecionados em nosso Edital 2020! Esperamos vcs!

Invisível

Aproveitando a pandemia para colocar meu lado cinéfilo para trabalhar, assisti recentemente ao American Factory, em português Indústria Americana, que concorreu ao Oscar 2019. O documentário conta sobre uma indústria automobilística, em Ohoi que faliu e posteriormente foi comprada por um bilionário chinês. O curioso é: quando associamos o “pseudo-comunismo” chinês ao sonho neoliberal do the american way of life, nossos preconceitos vão para o ralo. A gente não sabe de nada, inocentes. O documentário coloca em pauta duas culturas seguramente opostas e inseguras com seus padrões econômicos e sociais. Percebe-se uma distopia da ideia e qualidade de vida, as insatisfações, tanto dos americanos com a rígida disciplina dos chineses e seu auto controle, quanto dos chineses da falta de compromisso dos funcionários com a empresa e seu rendimento. O caso é: a ideia inicial era que 100% dos funcionários fossem cidadãos americanos, mas não deu certo. Dos 2 mil funcionários, duzentos chineses foram contratados para ocupar cargos superiores aos dos cidadãos locais. Percebemos daí, o quanto a disciplina e o lucro falam mais alto numa cultura dita socialista, mas principalmente o quanto a ideia de sociedade consumista falha numa cultura capitalista. E fica então a questão, qual o ideal de qualidade de vida para a sociedade contemporânea?

Ítalo Calvino (1923-1985) foi um dos escritores mais importantes do século XX. Calvino nasceu em Cuba e curiosamente tem uma trajetória controversa com as questões políticas e ideais da qualidade de vida nas sociedades. Fez parte do Partido Comunista, mas rompeu com este compromisso, em 1956 após invasão dos soviéticos na Hungria e pelos crimes cometidos por Stalin. Conheceu Che Guevara, para o qual escreveu um tributo após sua morte. “Embora fosse um liberal de esquerda, Calvino foi liberado para passar seis meses no Estados Unidos, onde se encantou especialmente com a cidade de Nova Iorque”. (Via www.infoescola.com/biografias).

O escritor escreveu textos de grande repercussão, um deles avivado pela obra em técnica de dobragem, por Ricardo Masi, um dos 5 selecionados do nosso Edital, que ilustra o texto, sobre a série “Cidades Invisíveis”.

“Presume-se que Isaura, cidade dos mil poços, esteja situada em cima de um profundo lago subterrâneo. A cidade se estendeu exclusivamente até os lugares em que os habitantes conseguiram extrair água escavando na terra longos buracos verticais: o seu perímetro verdejante reproduz o das margens escuras do lago submerso, uma paisagem invisível condiciona a paisagem visível, tudo o que se move à luz do sol é impelido pelas ondas enclausuradas que quebram sob o céu calcário das rochas.
Em consequência disso, Isaura apresenta duas religiões diferentes. Os deuses da cidade, segundo alguns, vivem nas profundidades, no lago negro que nutre as veias subterrâneas. Segundo outros, os deuses vivem nos baldes que, erguidos pelas cordas, surgem nos parapeitos dos poços, nas roldanas que giram, nos alcatruzes das noras, nas alavancas das bombas, nas pás dos moinhos de vento que puxam a água das escavações, nas torres de andaimes que sustentam a perfuração das sondas, nos reservatórios suspensos por ondas no alto dos edifícios, nos estreitos arcos dos aquedutos, em todas as colunas de água, tubos verticais, tranquetas, registros, até alcançar os cata-ventos acima dos andaimes de Isaura, cidade que se move para o alto”.

No texto há a confirmação de que tudo é movido pela luz e pela sombra, pela força incomparável da natureza associada às invenções dos homens. Somos seres únicos, criadores, pensadores, descobridores. Cavamos o mais profundo buraco no escuro de cavernas e subterrâneos insólitos, mas também projetamos os mais altos e suntuosos prédios para chegar mais perto da luz. Entre dicotomias, ambiguidades e distopias podemos encontrar na Arte o conforto da sensatez, da coerência e da verdade. Indústria Americana e Ítalo Calvino concordam que uma mágica invisível gira a roda da vida, da sobrevivência em turnos diferentes de energia. Uma que nos consome força para o árduo trabalho pela sobrevivência, outra que encontra sinergia ao concluir uma etapa, um objetivo! Seja em luz e sombra, direita e esquerda, oriente e ocidente, a meta é viver em equilíbrio com as forças opostas e invisíveis!

Dívida

Dívida

“A taxa é zero o juro é alto vamos conversar
Ressarcimento pagamento vamos negociar
Aquela dívida de uns anos atrás está bem viva
Você não lembra mais”
O Rappa

Hoje o assunto é sobre dívida! Do latim debita, debere, dever, valor de uma quantia a ser pago. Quem nunca? Ou já deveu, ou deve ou deverás… Mas se já quitou, está quitando ou quitarás, então está tudo certo, mas senão, aí já são outros quinhentos. Quinhentos anos ainda revendo a História do Brasil e suas infindas dívidas internas, externas, raciais, sexuais, sentimentais…

Certa vez perguntaram a fervorosa artista carioca, Adriana Varejão o que ela achava das cotas raciais, numa revista de bordo, há uns 10 anos atrás. Ela respondeu que concordava e que a nossa dívida com os africanos ainda demoraria muito a ser paga, as cotas seriam apenas o início de uma prestação de contas. A artista paraense, Berna Reale, que citei no texto da semana passada, também faz ativismo à esta dívida e outras, deixando explícito nos registros de suas performances, que falam mais que mil palavras.

As dívidas de uma sociedade com as minorias ora caminham, ora desencaminham. Falar de assuntos polêmicos, incomodam e esbarram em conservadorismos que podem, ou não, ser construtivos para soluções mais humanistas, igualitárias e esperançosas à um futuro menos violento, menos populoso e poluído. Mas a verdade dói e ninguém quer se incomodar com assuntos do passado, afinal, essa dívida não é nossa. Quem não teve uma vó índia que foi capturada pelos cabelos e estuprada para gerar uma nação brasileira miscigenada. Quem não teve um tataravô escravo, que foi apadrinhado pelo sinhozinho porque a filha se apaixonou pelo crioulo e por descuido, engravidou. Ou o contrário, o sinhozinho que engravidou dezenas de criadas, tendo povoado uma vila inteira com o mesmo sobrenome. Mas daí não há dívidas, afinal somos todos parentes, o conhecido Cunhadismo, como descreveu Darcy Ribeiro. Será?

Recentemente, um vídeo viralizou nas redes sociais de uma entrevista com a atriz argentina Marina Glezer, que confessou se sentir aliviada por ter abortado aos 18 anos. Ela faz um discurso sobre como a visão do aborto ainda é atrasada e romantizada e como isso não funciona na prática, principalmente nos países subdesenvolvidos. Ela ainda ressalta que o aborto é uma questão de saúde pública, uma dívida da democracia ao excluir as mulheres de baixa renda em não ter assistência para esse tipo de procedimento legal, pois a cada 3 mulheres, uma morre na clandestinidade: “Não se morrem os embriões abortados, se morrem las mujeres”.

As mulheres ainda não poderão competir com igualdade no mercado de trabalho se estarão prestes a gerar um filho que não foi programado. As mulheres ainda não poderão exercer poder de decisão se ainda não detêm da liberdade das finanças domésticas. Há também uma dívida literária quanto a visão machista que foi descrita durante milênios pelos homens. Quem nunca ouviu falar da primeira matemática da história, Hipátia de Alexandria (355 D.C.), que foi assassinada por religiosos, simplesmente por descobrir coisas que os homens não sabiam explicar. Mais um ponto para o Papa Francisco, que acaba de nomear 6 mulheres para o Conselho do Vaticano, cargos que antes eram ocupados exclusivamente por homens. Parece que a prestação de contas está começando a funcionar! Fé…minismo, no bom sentido!

Ilustra o texto aquarela da goiana Lívia Chagas, um dos 5 artistas selecionados pelo nosso Edital 2020. Lívia Chagas pesquisa o corpo feminino e as possibilidades da aquarela em encobri-lo de cor e sombra. A mostra e o passeio virtual começam no dia 1° de setembro.

Azul do mar

Na última quarta-feira (12-08) a curadora Marisa Mokarzel à convite da Revista Virtual Zum, entrevistou a artista paraense Berna Reale. Intitulada “A performance da violência”, a artista relata na live, disponível no YouTube o momento de sua vida em que decidiu definitivamente investir na sua carreira de performer.

Berna Reale é perita criminal do Centro de Perícias Criminal do Pará e foi no dia que compareceu para fazer o concurso do cargo, que ela se deparou com uma forte cena nos arredores do local. Reale chegara uma hora mais cedo para a prova e encontrou um grupo de homens fardados na frente do prédio, se divertindo, enquanto um colega pagava um demérito, sozinho no chão, fazendo dolorosas flexões. Ela contou que aquele episódio a comoveu profundamente e que a partir daquele momento ela iria se debruçar sobre o tema da violência humana, sobre a dor do outro e o prazer de seu algoz, sobre o que fazemos, o que queremos fazer e o que podemos fazer com os outros.

Berna Reale tem se destacado internacionalmente por abordar temas provocativos e pertinentes como abuso sexual, religião, sadismo, machismo, racismo e por aí vai. A artista integrou a mostra “Da Pedra Da Terra Daqui”, em 2015 com curadoria de Aracy Amaral, no MAM-SP sob o tema de quem somos, nossa ambiguidade social, revendo o conceito de “progresso” da sociedade desde nossas origens, com o regaste de artefatos rupestres e a formação dos sambaquis, até a formação das grandes metrópoles, a poluição e a desigualdade social.  A curadoria da mostra selecionou diferentes suportes para a apresentação da coletiva, composta por seis artistas brasileiros, como instalação, vídeo-arte, performance, fotografia e pintura. Esta última foi encarregada pelas mãos do artista goiano, Pitágoras Lopes Gonçalves. Ao lado de grandes nomes da arte nacional, o artista goiano marcou presença numa das maiores, quiçá a melhor mostra de sua carreira. Intitulada “Quase tudo que é azul lembra o mar”, o artista produziu uma série de obras, incluindo 3 gigantescos painéis e outras 6 telas em grandes formatos para representar o tema da mostra, que assim como artista paraense, Pitágoras expressou, ao seu modo de ver, nosso “progresso” à violência. A violência humana contra a natureza que envenena as águas do mar, distribui cadáveres enfermos em terras férteis, embaça o céu azul com fumaças de jatos, naves e sonares de última geração.

Anunciamos que a partir do dia 01 de setembro estas obras de Pitágoras estarão em exposição para a comemoração dos seus 30 anos de pintura e nada mais atual para demonstrar nosso momento de pandemia que esta sua extraordinária série de obras de arte. A ideia é voltar o olhar para nossas origens e as consequências desse “progresso” para questionarmos onde estamos errando e por que esta violência fica cada vez mais evidente e normalizada.

Nossa comemoração dos 40 anos continua e celebraremos também a mostra dos 5 artistas selecionados do nosso Edital 2020. Artistas que se divergem em suas pesquisas e suportes, mas adotam a expressão artística para nos alertar, nos informar e questionar como estamos vivendo, como estamos tratando nosso corpo, nossa alma, nosso azul do mar!

Montagem do nosso salão de exposições para Pitágoras da série “Quase tudo que é imenso lembra o mar”, 2015.

Pais ou País

Querido Diário,

Hoje é Dia dos Pais e eu gostaria de fazer um grande desabafo.

Nosso país tem mais de 10 milhões de crianças matriculadas nas escolas, que não tem o nome dos pais cadastrados.

Nosso país aplaude um Presidente da República que se casou 3 vezes e sua última esposa tem idade para ser sua filha. Idem o ex-presidente e ex-detento que estava sendo aguardado pela noiva, cuja diferença etária é a mesma que a da atual primeira-dama com seu marido.

Conheço pais com mais de 70 anos, que dizem para suas filhas de 40, que esta idade estaria passada se arranjassem uma nova namorada.

Ora, uma sociedade que sofre de carência paterna tende a compensá-la numa relação de um companheiro muito mais velho, porque haverá sempre o vazio da presença masculina no seio familiar. Tudo isso só reforça o machismo e o constante poder do patriarcalismo brasileiro. Aqui, a ignorância é velada pelos mais viris argumentos da masculinidade.

Fato político, que deve ser dito e novamente tocarei nesta ferida é a descriminalização do aborto. Numa bancada com mais de 80% da opinião masculina, a política brasileira é abraçada pelo esteriótipo cristão e falso moralista, onde os homens decidem, até hoje, o que fazer com o corpo das mulheres. Se esses pais não assumirão a gestação dessas futuras mães e das dores do corpo, as consequências ou sequelas e, mas principalmente a conta, qual o problema de terem a lei a favor delas?

Mas Tatiana, as mulheres podem prevenir, elas tem a Lei Maria da Penha, as vantagens da Licença à Maternidade e os salários, atualmente são igualitários para ambos os sexos!

Eu responderia à vocês: ninguém se previne de um estupro ou um coito concebido por consequência da desinformação, imaturidade, apologia ao sexo e bombardeios midiáticos da cultura pornográfica.

Nós, mulheres não conseguimos vantagens, nós lutamos por direitos, não porque merecemos, mas por justiça humana. Porque temos ovários, óvulos, porque sangramos todos os meses, porque parimos, amamentamos e tentamos cicatrizar nossas virilhas no prazo para que nosso útero volte ao seu devido lugar ou não.

Parabéns aos pais de verdade, aos pais que deram prioridade às mães de seus filhos e à sua família. Aos pais que são homens de verdade e não indivíduos enrustidos atrás de paletós e leis que os empoderam de sua falsa masculinidade. Aos pais que aprendem a ser homens constituindo sua família baseada em valores humanos, éticos e filosóficos. Aos pais que ensinam seus filhos a serem futuros pais de verdade e à não idolatrarem falsos mitos, ou heróis virtuais ou figuras religiosas. Parabéns aos pais que vivem a realidade como ela é e como ela deve ser vivida. Na verdade e sempre!

Ilustra o texto obra da artista paulista Amélia Toledo (1926-2017), que fundamentou sua pesquisa na organicidade das formas da natureza e produziu uma série de pinturas coloridas sobre juta. Essas pinturas são sobreposições de tinta da mesma cor que remetem pétalas de flores. A cor vermelha, a cor do sangue, a cor da menstruação, eu dedico aqui neste texto através desta obra, minha mais sincera homenagem aos pais de verdade, aqueles que entendem que para seu filho nascer, uma mãe terá de dedicar muito do seu sangue para lhe conceber a vida! Porque nem tudo são flores.

Uma carta à COVID

A pandemia e mais outros assuntos pessoais me fizeram refletir muito a respeito da nossa vulnerável existência e atitudes imaturas perante o desconhecido. Há uma semana fui diagnosticada com COVID-19, mas não se preocupem, estou bem apesar dos sintomas da perda de paladar e olfato, que já voltam gradativamente. Fui mais acometida por uma interessante tristeza! Vivenciar da entrada da consulta até o exame do laboratório foi quase me projetar nas histórias sobre as experiências científicas dos nazistas em seus prisioneiros. Senti um menosprezo tão grande pelo ser humano vendo aquelas pessoas chegarem, mas não por causa do medo e da minha insegurança, mas pela total falta de bom senso que pairava no ar. Os sistemas de saúde são frios, feios, mórbidos e de uma atmosfera sádica. Os cartazes e avisos são horríveis, as paredes sem cores, sem vida, sem plantas. Tudo é motivo para se entristecer. As pessoas que chegavam eram velhas demais, gordas demais, obesas demais e com hábitos suspeitos como escutar no volume mais alto futilidades da internet. Tive uma epifania, não é a COVID que está adoecendo as pessoas, mas a nossa preguiça mental, nossa aceitação aos costumes arcaicos, aos prazeres pífios da dita evolução tecnológica. Me desculpem a franqueza, mas o mercado da saúde é cínico e sarcástico. Nosso desprezo pela cultura e sabedoria oriental é outro atraso em nossa sociedade, não precisamos de vacina, precisamos da prevenção de bons hábitos, do culto à arte, à cultura, à beleza. Somos aliados dos EUA em quase tudo, inclusive na obesidade. Nunca vi tanta gente gorda, não me admira que o vírus consiga fazer o estrago que está fazendo, ele deve adorar uma gordura. Estou a recuperar meus sentidos novamente e digo, em muito pouco tempo, já que a previsão de casos como o meu são de 15 a dois meses sem olfato e paladar. Sou adepta à auto-hemoterapia e acredito fielmente que ela me preveniu de piores sintomas, não porque sou atleta, (isso é frase feita pra gado dormir), mas porque acredito que estar entre a Arte, escutar músicas boas, cuidar da natureza e da alimentação também são hábitos que ajudam mais que muito medicamento por aí. Se cuidem, caros leitores e leitoras, mas não só em relação à COVID, dos males o menor, cuidem-se das fakenews, dos falsos medicamentos, da ilusão que a contemporaneidade vende e que nos custa muito caro.

Ilustra o texto obra da série “Quase tudo que é imenso lembra o mar”, 2015 de Pitágoras. Uma pesquisa sobre os sambaquis que apresentaremos na íntegra em catálogo virtual no dia 1° de setembro em comemoração aos 30 anos de pintura do artista.

Dois bicudos não se beijam

O último episódio da 1ª Temporada da série “The Crown” discorre sobre a glamurosa reviravolta da irmã Margareth para contornar um problema diplomático entre a Inglaterra e os EUA. Para quem acompanhou a série e sabe um pouco da história da Rainha mais antiga da Humanidade, vai lembrar que as duas irmãs eram sensos opostos. A monarca sempre conservadora, rígida, ríspida e chata, a caçula sempre alegre, extrovertida, brilhante e alternativa. Na cena final do episódio, o marido, o duque Philip têm uma conversa à sós com a sua esposa e usa o mito da águia bicéfala, Reichsadler para ilustrar a primogenitura. Ele diz: “Todos queremos igualdade, mas nós não nascemos iguais” e compara então as gerações passadas de Libeth, explicando detalhadamente que para um irmão chato, haverá um divertido. A origem hereditária é a mesma, ou seja, o corpo da águia é o ventre, mas cada cabeça pensará por si só. A liderança sempre escolherá a cabeça chata, o conservadorismo e a disciplina como foi o caso do reinado de seu tio Eduardo VIII, que abdicou precocemente do trono para o irmão mais novo, seu pai, George VI.

A história do mito da águia é descrita em várias versões, uma delas a heráldica do Império Romano, que sucedeu no Segundo Império Alemão (1871 -1918) até a introdução do símbolo da suástica na águia ao comando do Third Reich. Mas as origens são muito mais antigas. A águia vem desde tempos bizantinos (17 a 12 a.C.), o berço mundial da cultura, a Turquia ditou o mito até encontrar pouso nas bandeiras russas, que a cada mudança de império intercalava os adornos em suas garras. De tempos em tempos imagens como a coroa, o cetro e o globo eram substituídos pela cruz, escritos ou espadas. Em verdade, a origem das duas cabeças simbolizaria na Antiguidade os dois opostos da Terra, a Ásia Oriental e a Europa Ocidental. A bipolaridade que dividia o mundo em hemisférios. Observando as curiosidades da Humanidade, a Rússia, que reinventou a águia, também substituiu seus adornos pela foice e o martelo que apareceram em 1923 e até hoje está no imaginário estrangeiro, no entanto: “O fortalecimento do poder do Estado sob o Presidente Wladímir Putín se refletiu no símbolo da Rússia, que recebeu três coroas e símbolos de poder”. Via Russia Beyond

A diversidade dos símbolos em suas garras não muda a representatividade do mito, que aparece também como brasão maçon. Além de ser um predador do topo da cadeia alimentar ela possui uma visão aguçada que facilita seu trabalho de caçadora. Se suas cabeças adornam coroas ou não, se suas garras seguram suásticas, cruzes, espadas, cetros ou globos, se tem o desenho arredondado, ou é mais altiva nas formas geométricas, de fato isso nunca interferiu na sua mitologia porque ela sempre transitou entre os opostos conservando a tradição de ser um símbolo ambíguo. Há de se esperar que duas cabeças realmente funcionem melhor que uma, pois a Psicologia explica que sem o conflito não há o aprimoramento dos argumentos sobre as discordâncias, ou na Filosofia onde a tese tem a antítese para enfim se chegar uma síntese. O episódio de “The Crown” deixa esta ambiguidade no ar quando promove a importância do feito da irmã mais nova nos EUA, embora não formaliza sua atuação integral no reinado, protagonizando o perfil da cabeça chata que deve se impor aos exageros da diversão. A conduta de sucesso é um protocolo que deve ser seguido à risca com muita disciplina e chatice, mas a vida sem diversão é um fracasso à parte. Fica a mensagem subliminar que um pouco de ousadia e transgressão faz bem à saúde e aos negócios, mas manter a disciplina e o foco conservam o respeito e a credibilidade da liderança. Que cada cabeça saiba se colocar no seu devido lugar a tempo de se tornar uma só e se permitir a Paz, de vez enquanto.  

Tarcísio Veloso, óleo sobre tela, 60 x 60 cm, “Paz”, 2020.